Propter officium – I

O mundo enluarado do meu pensamento
Constela de quietude qualquer teu lamento.
Olha que as estrelas reverenciam o silêncio
De quem se atribula e faz de si sacrifício.
5.5.2017

O mundo é uma pira de ação:
Consome o ato com emoção,
Consome o átomo sem ação.
O mundo é uma piração à toa.
2.6.2017

Eu me canso de estar cansado
Quando cansado só me canso
De cansar-me e cansando-me
Cansado, enfim, eu me canso.
14.6.2017

Senhor, tu sabes quanto sou paupérrimo em constância.
Tu sabes, porém, que minh’ânsia é dormir no teu arrimo.
22.6.2017

Sê fiel à dama da tua vontade, à senhora do teu ideal,
Porque a mulher da tua vaidade nada é senão teu mal.
7.7.2017

Céu e terra no horizonte se encontram.
Apenas lá, onde a linha solitária tudo une e toca.
O azul, fresco e suave, o vermelho tanto acaricia
Que no calor gerado, o telúrico fogo,
A amplidão celeste num beijo abrasa.
12.7.2017

O repente do sertanejo é sua graça d’alma,
É uma toada na viola que todo mal acalma.
14.7.2017

Leio tantos gênios, tanta gente versada em bem prosear,
Que caio de cabeça nesta minha oca de feios palavreados:
Eu não sei escrever, não domino minha língua! Ai de mim.
Capitão de versejadores ruins, um puro trovador chinfrim.
E estes sonetos de sons imortais, estes elegantes períodos
Que me alegram o coração, eles também me fazem chorar.
17.7.2017

A silhueta que eu via em carne-e-osso,
Valsando diante destes meus olhos sedentos,
De repente fez-se miragem de sombra
Entre as fagulhas dum amor besta e doido.
18.7.2017

Anelo à uma Gabriela, uma sem muita canela,
Uma que não goste muito de cravo na panela.
Uma Gabriela para por belo anel na mão dela,
Uma de quem eu retire a tristeza com aquela
Cantiga do “dorme, dorme minha filha.” É ela!
25.7.2017

Não temerás que te temam ao entrar.
Temerás, antes, que te temam ao sair.
26.7.2017

Decidi decorar o que agora recordei:
A imagem e o som unidos antigamente
Sob o cheiro de cânfora e de café
Sobre o piso de ardósia e a mesa de mogno.
Decidi contemplar na memória
Este resto de vida na história,
Este lampejo de paz imortal.
11.8.2017

A vida que escorre
Na existência que corre.
A Eternidade goteja
Líquido sólido no
Tempo.
31.8.2017

Se a noite é escura,
Persevera.
Arranca o pó da sepultura,
Faz do breu iluminura.
A vida é eterna fartura,
É terna formosura,
É pura altura.
5.9.2017

Não te direi
Novamente
Coisas passadas.
Sequer novidades
Das quais te lamentes.
Antigo amor
É todo dia nova paixão.
Oh, Deus,
Dai-me disto libertação!
11.9.2017

Quanto tu amas, respiração dormente é grito,
Sussurro é longo discurso, ação é terremoto.
Tudo que é silente, e mesmo a inação, é fato.
Nada é à toa, rotina perdida no mero gesto.
14.9.2017

Quem ao céu deseja ir,
Que se encontre consigo mesmo.
Quem ao céu deseja ir,
Que esteja pronto para o cerco.
Desejo ir ao céu,
Mesmo que sem idílio, no ermo.
Desejo ir ao céu,
Fazendo frente ao fátuo esterco.
15.9.2017

Argumento comigo mesmo,
Contra mim mesmo. Argúcia de pensar
E de repensar o istmo que une o lagar
Desta alma arquejante
Ao espírito altivo e forte.
15.9.2017

Resigna-te ao silêncio,
Ao silêncio sem linha coerente,
Ao silêncio em si mesmo disperso,
Ao silêncio do vácuo insignificante
Como o mudo silencio
De quem por qualquer uma fez verso.
29.9.2017

Criança ainda eu sou.
Um sopro infantil na tempestade velhaca,
Um ouvinte de soul,
E da mais antiga e atual música clássica.
Atiro farelos aos peixes no lago,
Refaço os desenhos que estrago,
Comungo dos ideais do náufrago.
O mundo é um laço,
É um laço e um tiro.
Satã, passarinheiro e atirador,
Que fique sabendo:
Tua moeda é falha pataca,
É pena de gralha esganada
Em insano ritual alquímico.
10.10.17

Doce e firme,
Anjo verdadeiro.
Tua fala mimosa e altiva
Ao mundo teu caráter
Celeste assevera.
Alva alma
De palavra relampejante,
Tua postura é gótico entalhe
Na catedral deste mundo.
19.10.17

O cume da mais alta montanha da cordilheira,
Branco mas não de geleira,
Brilhando altivo sobre a penumbra bem cinza,
Tocando o céu: brincadeira
De Deus fazendo ponta de lápis
Sempre apontado pela brisa.
20.10.17

Tu me rejeitas porquê rejeitas o que em ti eu sou: contradição.
Contrais teus lábios e passos.
Passas por mim mordiscando o cantinho da boca
E acelerando teus pés indecisos.
O caminho é por aqui, é aqui, é comigo.
O beijo é por aqui, é aqui, é em mim.
Foi pra isso que eu vim:
Pra encher de paz tua alma oca.
23.10.17

Do que te posso dizer, isto só te digo: quando?
Não há o que fazer, senão ir arrumando
Pretextos para nos crermos lógicos,
Contextos para interpretarmos
O que nós mesmos escrevemos.
Dizendo e repetindo que não pode dar certo,
Mais a razão nos diz que dará
E mais nos contorcemos solitários,
Espasmados de paixão,
Diante dos olhos um do outro.
24.10.17

Num momento, sei que te amo e que tu me amas,
Noutro tu me amas e eu me sinto assim indiferente,
Depois nós dois nos amamos e nunca nos amamos.
E sempre não sabemos o que dizer um ao outro…
Somos Adão e Eva saindo do Éden
Numa madrugada cega e fria.
Eu sou aquele pedaço de céu
Onde dorme a Estrela do Norte,
Tu, solitária, do espaço guardada.
24.10.17

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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