Sha naqba īmuru: tlahtoāni

As folhas continuam caindo,
Como se no Iraque o zigurate ainda estivesse de pé,
Como se Montezuma oferecesse sacríficos cruentos,
Como se as árvores ainda fossem as mesmas.
As folhas caem porquê caem,
Assim como a chuva, mais alta, também se lança sobre a terra,
E lava e corrói os tijolos milenares de Babel,
E lava e enxagua a pedra americana ensanguentada.
Caem porquê caem, porquê há aí o acaso?
Caem, porquê caindo sob o ocaso do Sentido
Ainda cintilam seu significado mais profundo
De soberania e divindade.

Esponjas de sol — XXXV

  1. Todas as gotas de chuva que se puderam retirar, com esponjas, de sobre o túmulo de Napoleão, os russos conseguiram destilar, beber e com elas se embriagar. Imagem que me ocorre ouvindo a parte final da 5ª Sinfonia de Shostakovich.
  2. O último luar que tu verás, aprende bem, será entremeado dalgum dourado. O argênteo noturno abandona a natureza quando uma alma da terra se vai despedir.
  3. O silêncio voluptuoso das noites quentes que nos pede senão carne para o vinho, a nossa carne tenra para ser refrescada pelo calor do mosto, da fria vide etérea?
  4. Nada além de contornos, de vagas formas, de luminescências cerebrais paisageando minha mente. Nada, senão poeira semelhante à fumaça. Nada, como uma mina secando feito aguardente em cálice de ouro sob o sol do deserto. Assim se me vai a última imagem com a última memória, assim se esvai qualquer líquida pintura da alma amante na tela translúcida do córtex. Adeus, moça!
  5. O símbolo sempre te atrairá ao objeto [a]signado. Mesmo quando, por suposto e superficial erro primário teu, tu te puseres no encalço do símbolo e este se mostrar imediatamente condutor a outro objeto, mediatamente neste mesmo caminho darás de cara (ele ficará demonstrado, então) com o teu objeto. O símbolo atua, não raramente, com pseudo coincidência retro-significante, ou seja, como condutor da imagem-meramente-igual para o especial-fato-teu. 
  6. A Verdade é a fiadora do Bem e a Mentira é a credora do Mal.
  7. Quem te engana, não te ama: te algema a alma na lama. Quem te seduz, te induz como morcego branco à luz que é chama… Quem te manipula, te estrangula até a gula! Quem te ilude, adultera toda a mente e a leva à sepultura. Quem te burla, falsifica a sementeira do dia-a-dia no coração. Quem te ludibria, se esguia insaliente à danação. Anota. Faz-te de tonto, de bobo, de tolo. Sê o Príncipe Idiota (como aquele santo de Dostoiévski), para que não suspeitem que sequer tu suspeitas; porquê tudo sabes, tudo vês e tudo discernes sob sorrisos mornos e palavras insonsas.
  8. Via de regra, em se tratando de relações amorosas, a mulher praticamente só não “manipula” (ou seja, filtra as reações dele através de suas ações mais ou menos planejadas) o homem que ela real e verdadeiramente ama. Isto é bom. Dissertação para depois.
  9. A ilusão é a aluvião da esperança. Coisa de criança construindo seu castelo de areia entre a penúltima e a última vaga do mar: uma expectação de restolhos metafísicos que vão se desvanecendo pelas bordas do cérebro até que sobre, soçobrado, o principal — até que sobre o material do faticamente esperado, até que sobre mesmo a pura e nua esperança: a Realidade, feita garrafa mensageira lançada (em séculos ascendentes) no mar — a Realidade, querida por Deus mas nem sempre por ti.
  10. Caim/chipanzé. Abel/bonobo. Sete/homo. Está aqui um paralelismo simbólico para o pessoal criacio-evolucionista.
  11. Na mulher até a loucura é mistério. Por loucura entenda-se o indiscernível, o irrastreável e o imponderável que faz de qualquer atitude feminina aparentemente irracional e ilógica uma centelha mesma da “absconditude” divina. Logo, não se trata de loucura verdadeira, clinicamente discernível e tratável: trata-se, antes, duma realidade mais profunda e algo inacessível ao nosso masculino olhar de superfície. Não à toa, toda comunicação feminina é tão mais simbólica conosco — os homens — quando ela é mais sincera, e tão menos oral e mais gestual quando ela é mais verdadeira (e pura). A suma disto tudo, meus caros e bestas confrades da Irmandade Adâmica, é que nós não passamos sequer de neandertais diante nem do fogo: nós não passamos de hominídeos sem metafísica diante das estrelas. E para o limitado, viagens no espaço em direção a astros cativantes é coisa de louco (e, oh, loucas estrelas). Na mulher, todo mistério é para o homem uma forma de loucura.
  12. Pedra antiga, lavrada na casca,

Como estela de vitória ancestral.

Eis da esquecida canção o memorial.

Entre os campos altos da Escócia anciã,

Na direção do cardo celeste caminhando,

Li no romano granito a lápide talhada,

O poema que limou iletrado escultor

Para o pobre rei que fora rico pastor:

“A gaita do cordeiro foi feita,

A música da ressurreição é a eleita.

Sabei todos vós que o grito desta terra

É a saudação ao Reino chegado.

Alba gu bràth!”

  1. A potência com a qual se comete pecados na juventude corresponderá, proporcionalmente, quando da velhice, à fraqueza em padecer seus efeitos. Para cada pá de terra fértil arrancada do jardim (do éden do eu verdadeiro), uma pá de terra infértil sobre o caixão no cemitério.
  2. Podem me chamar de quadrado e reacionário (coisa que sempre ouvi nesta minha vida), mas a felicidade, a felicidade que é boa e permanente, está depositada naqueles velhos ideais pelos quais viveram nossos avós: trabalhar, amar e casar, ter filhos; e neste “tripé” sossegar, serenar, sublimar. Nestas coisas simples, cheias de coração, reside a felicidade que Deus quer nos dar cá na terra. Nestas coisas, aliás, está a verdadeira santidade. Que me perdoem meus confrades e confreiras de geração, mas vocês todos estão muito errados (e por isto, muito tristes e muito entediados e muito sem rumo) se pensam que sombra e água fresca, pegação sem compromisso na balada e individualismo à moda “pai/mãe de pet” serão capazes de fartar de alegria os anos que lhes restam pela frente. É esta a equação.
  3. Como é raro poder conversar (dialogar puramente) desarmado — sem suspeitar de primeiras, segundas e terceiras intenções, sem recear papos colaterais e falatórios subsidiários, sem maquiar expressões tornando-se uma caricatura, sem temer parecer obtuso ou tolo ou fraco ou débil ou nu em si mesmo. Como é raro isto! Como é bom não “sorrir amarelo”, não ser meramente gentil para não ferir os protocolos do bom tom, não dissimular nem teatralizar as palavras querendo agradar por agradar. Como é raro… Como é raro um bate-papo entre pessoas que, mesmo adultas pela cronologia dos tempos, nada são senão inocentes crianças entre si (quer dizer: profunda e visceralmente verdadeiras) fazendo da existência, tão complexa, um ba-be-bi-bo-bu de almas simples. Como é raro. Como é raro!
  4. Sê o que és ao relacionar-se com os outros, puramente. Não sejas teatral, nem quanto às grandes nem quanto às pequenas coisas e acontecimentos. Que cada movimento teu, corporal e espiritual, seja integralmente nascido da tua consciência alinhada à Verdade. Atende ao teu âmago, este cálice de nano-logos que derrama libações (que tu chamas metafisicamente de “intuições”) sobre o teu pensamento opaco. Sê cauteloso e não dize muitas palavras, grandes períodos sobretudo, entre uma respiração e outra. Não tentes a qualquer influenciar valendo-se de simulação: até mesmo simular bondade, praticando-a oficialmente, é dissuadir do ato aparente o fato gerador. Se não tens palavra ou gesto genuíno, fica silencioso e inerme diante do mundo. Fica ali, ao canto, como um ente cósmico que se nega a ressoar o silvo dos corpos imanentes. Sê estátua de carne e osso para estas outras estátuas de sal (teus semelhantes) que passeiam pelo mundo; e ora o teu particular “noli me tangere!” Sê, apenas sê. Que de ti e por ti não passe nem transpasse laivo algum de imitação, brasa alguma de atuação. Sê, com simplicidade, o teu eu — sendo. Sê Quixote de la Mancha, sê Myschkin, sê Kerkhoven, sê Paulo Apóstolo, sê imagem e semelhança do Cristo! Anota.
  5. O gênio de Wagner foi o ocaso irrecuperável — última chama azul no fogareiro de Euterpe — da Música Clássica Alemã. Ele é elevado na medida em que é patológico e é mítico na medida em que é fenecente. Das war’s Leute!
  6. Verdi, agnóstico-quase-ateu, deitou no seu Réquiem toda a densidade (ou etericidade?) das suas idéias. Há um “je ne sais quoi” de dúvida e melancolia perpassando toda a obra — católica, ma non troppo. O Dies Irae é, por exemplo, um misto de desespero de penitente póstumo com horror de condenado permanente. É um artista que ourivesa filigranamente aquilo (a Vida Eterna) que para ele nada é senão um mito passível de ser humanamente trabalhado para o deleite psico-cultural dos homens cultos.
  7. Um dos sentimentos mais plenos (mais totalizantes de amor, quero dizer) que nosso coração pode sentir é a cumplicidade. A cumplicidade completa. É ouvir a voz de Deus num poço destapado. Pelo vácuo da queda — distância entre o eu sedento e o fundo do poço onde repousa o líquido precioso –, transita o balde indo-e-vindo. A cumplicidade é este balde, é o balde cheio de água. “Apresso una fontana / Vidi sentar la bella”, canta a velha canção italiana. A cumplicidade carinhosa é, para o dia-a-dia na sequidão mundana, a fonte perene do amor que é capaz de hidratar o “para sempre” prometido no altar. Depois, a reciprocidade entre a língua seca e a fonte limpa: minha língua é para ti fonte e fonte para mim é tua língua, oh mulher. A água brota do coração.
  8. Se encontrares um campo verde, deita-te sobre ele. E se o céu for azul como o azul dos afrescos de Giotto, deitado então no campo verde contempla a vastidão de nuvens incrustada. A paz, aquela que do céu traz o ramo de oliveira, sussurrará as cantigas esquecidas no teu ouvido jovem, as canções que os sábios murmuram apenas no leito de morte, os hinos que cedo embalam os meninos destinados ao ofício de Salomão.
  9. Cada passo em falso leva ao cadafalso.
  10. Alto es Alto (Alba de Tormes es Álvarez de Toledo). Título alternativo para o conto “O Bastardo de Alba”, que nunca escreverei.
  11. Candelabros de prata

Abrindo as trevas da cadeia,

Desaferrolhando celas,

Atraindo luz às ervas

Crescendo no chão de pedra.

  1. O amor é um sortilégio que elegemos na dor.

Propter officium – I

O mundo enluarado do meu pensamento
Constela de quietude qualquer teu lamento.
Olha que as estrelas reverenciam o silêncio
De quem se atribula e faz de si sacrifício.
5.5.2017

O mundo é uma pira de ação:
Consome o ato com emoção,
Consome o átomo sem ação.
O mundo é uma piração à toa.
2.6.2017

Eu me canso de estar cansado
Quando cansado só me canso
De cansar-me e cansando-me
Cansado, enfim, eu me canso.
14.6.2017

Senhor, tu sabes quanto sou paupérrimo em constância.
Tu sabes, porém, que minh’ânsia é dormir no teu arrimo.
22.6.2017

Sê fiel à dama da tua vontade, à senhora do teu ideal,
Porque a mulher da tua vaidade nada é senão teu mal.
7.7.2017

Céu e terra no horizonte se encontram.
Apenas lá, onde a linha solitária tudo une e toca.
O azul, fresco e suave, o vermelho tanto acaricia
Que no calor gerado, o telúrico fogo,
A amplidão celeste num beijo abrasa.
12.7.2017

O repente do sertanejo é sua graça d’alma,
É uma toada na viola que todo mal acalma.
14.7.2017

Leio tantos gênios, tanta gente versada em bem prosear,
Que caio de cabeça nesta minha oca de feios palavreados:
Eu não sei escrever, não domino minha língua! Ai de mim.
Capitão de versejadores ruins, um puro trovador chinfrim.
E estes sonetos de sons imortais, estes elegantes períodos
Que me alegram o coração, eles também me fazem chorar.
17.7.2017

A silhueta que eu via em carne-e-osso,
Valsando diante destes meus olhos sedentos,
De repente fez-se miragem de sombra
Entre as fagulhas dum amor besta e doido.
18.7.2017

Anelo à uma Gabriela, uma sem muita canela,
Uma que não goste muito de cravo na panela.
Uma Gabriela para por belo anel na mão dela,
Uma de quem eu retire a tristeza com aquela
Cantiga do “dorme, dorme minha filha.” É ela!
25.7.2017

Não temerás que te temam ao entrar.
Temerás, antes, que te temam ao sair.
26.7.2017

Decidi decorar o que agora recordei:
A imagem e o som unidos antigamente
Sob o cheiro de cânfora e de café
Sobre o piso de ardósia e a mesa de mogno.
Decidi contemplar na memória
Este resto de vida na história,
Este lampejo de paz imortal.
11.8.2017

A vida que escorre
Na existência que corre.
A Eternidade goteja
Líquido sólido no
Tempo.
31.8.2017

Se a noite é escura,
Persevera.
Arranca o pó da sepultura,
Faz do breu iluminura.
A vida é eterna fartura,
É terna formosura,
É pura altura.
5.9.2017

Não te direi
Novamente
Coisas passadas.
Sequer novidades
Das quais te lamentes.
Antigo amor
É todo dia nova paixão.
Oh, Deus,
Dai-me disto libertação!
11.9.2017

Quanto tu amas, respiração dormente é grito,
Sussurro é longo discurso, ação é terremoto.
Tudo que é silente, e mesmo a inação, é fato.
Nada é à toa, rotina perdida no mero gesto.
14.9.2017

Quem ao céu deseja ir,
Que se encontre consigo mesmo.
Quem ao céu deseja ir,
Que esteja pronto para o cerco.
Desejo ir ao céu,
Mesmo que sem idílio, no ermo.
Desejo ir ao céu,
Fazendo frente ao fátuo esterco.
15.9.2017

Argumento comigo mesmo,
Contra mim mesmo. Argúcia de pensar
E de repensar o istmo que une o lagar
Desta alma arquejante
Ao espírito altivo e forte.
15.9.2017

Resigna-te ao silêncio,
Ao silêncio sem linha coerente,
Ao silêncio em si mesmo disperso,
Ao silêncio do vácuo insignificante
Como o mudo silencio
De quem por qualquer uma fez verso.
29.9.2017

Criança ainda eu sou.
Um sopro infantil na tempestade velhaca,
Um ouvinte de soul,
E da mais antiga e atual música clássica.
Atiro farelos aos peixes no lago,
Refaço os desenhos que estrago,
Comungo dos ideais do náufrago.
O mundo é um laço,
É um laço e um tiro.
Satã, passarinheiro e atirador,
Que fique sabendo:
Tua moeda é falha pataca,
É pena de gralha esganada
Em insano ritual alquímico.
10.10.17

Doce e firme,
Anjo verdadeiro.
Tua fala mimosa e altiva
Ao mundo teu caráter
Celeste assevera.
Alva alma
De palavra relampejante,
Tua postura é gótico entalhe
Na catedral deste mundo.
19.10.17

O cume da mais alta montanha da cordilheira,
Branco mas não de geleira,
Brilhando altivo sobre a penumbra bem cinza,
Tocando o céu: brincadeira
De Deus fazendo ponta de lápis
Sempre apontado pela brisa.
20.10.17

Tu me rejeitas porquê rejeitas o que em ti eu sou: contradição.
Contrais teus lábios e passos.
Passas por mim mordiscando o cantinho da boca
E acelerando teus pés indecisos.
O caminho é por aqui, é aqui, é comigo.
O beijo é por aqui, é aqui, é em mim.
Foi pra isso que eu vim:
Pra encher de paz tua alma oca.
23.10.17

Do que te posso dizer, isto só te digo: quando?
Não há o que fazer, senão ir arrumando
Pretextos para nos crermos lógicos,
Contextos para interpretarmos
O que nós mesmos escrevemos.
Dizendo e repetindo que não pode dar certo,
Mais a razão nos diz que dará
E mais nos contorcemos solitários,
Espasmados de paixão,
Diante dos olhos um do outro.
24.10.17

Num momento, sei que te amo e que tu me amas,
Noutro tu me amas e eu me sinto assim indiferente,
Depois nós dois nos amamos e nunca nos amamos.
E sempre não sabemos o que dizer um ao outro…
Somos Adão e Eva saindo do Éden
Numa madrugada cega e fria.
Eu sou aquele pedaço de céu
Onde dorme a Estrela do Norte,
Tu, solitária, do espaço guardada.
24.10.17

Versos livres — III: O Cavaleiro e a Sarracena

É noite em Jaffa.
Cintilam pelos céus — o de seda e o de fora —
As estrelas dantes escondidas.
É um ninho este mundo,
Uma alcova e uma cama de campanha.
Sultão ou soldado,
Poeta ou mudo,
Está no amor certa guerra
E na guerra certo amor.
Os olhares das virgens lascivas
E os olhares das odaliscas donas de casa:
A íris da antiga companheira
É no deserto
A íris da amante mais nova.
Os véus iluminados por velas
E as ruas clareadas pelo luar:
Despida antes da despedida,
Coberta antes do reencontro.
Onde está ela, pura de rena rajada?
Onde está, nua de pele acobreada?
Sumiste por entre o incenso
Quando a bela cidade caiu,
Quando a rota de comércio
Desfez das tâmaras a venda paterna.
Já é dia e o sol sobre todas levantou
Seu linho mais negro, a capa anônima,
A renda miúda que veda à minha terra
O resplendor do teu acastanhado céu.

Versos livres — II: Otelo e Desdemona

Quando as noites mal dormidas assim são porquê anseias o dia,
Quando os sonhos tornam-se pouca coisa diante da fábula acordada:
Olha, que é paixão!
Há nesta peregrinação de viradas e reviradas no colchão sentimento,
Alguma variação de “verei!” com “não verei…”
E de “bem-me-queres” permanentemente permeados de “mal-me-queres”.
Então, deitado acordas sem dormir, velando ilusões apressadas em morrer na alvorada.
Então, levantando corres a enfrentar o conto de carne e osso e… só isso!
Porquê ali está o nada
E nada poderás obter contra a realidade da auto-imposta agonia:
O dia é a razão arrastada contra o sentimento da vagueza alada,
É como aquela vela furada que do nauta arranca o vento e a sombra.
Não te lamentes. Rema com tua mão.
Rema até o porto criado pelo sedimento da sabedoria acumulada,
Esta epopéia empírica de empíreos derrubados até o chão.
À noite, ide dormir após o último pensamento puro;
Para que o dia te conceda o primeiro sentimento puro.

Esponjas de sol — XXXIV

  1. O homem salvo não estagna na infância, na juventude, na adultez ou na velhice. Ele passa resoluto por cada uma destas fases e elas, por sua vez, lhe impregnam com o lastro das suas virtudes específicas. O homem salvo, eterno, é a um só tempo o melhor da criança, o melhor do jovem, o melhor do adulto e o melhor do velho. Podemos olhar para nossa infância com saudades, mas, se estamos conscientes da realidade da vida, nossos olhos ainda mais brilham quando pomo-los no presente e no futuro — para o além.
  2. Recordo-me bem da primeira vez que fiz, acordado, uma viagem de carro à noite. Eu tinha uns quatro para cinco anos. Olhei e vi do alto da serra as lâmpadas acesas da multidão de postes duma cidade (não sei qual), bem distante e abaixo do nível da estrada. Pensei comigo: “As estrelas ficaram com sono e resolveram deitar na terra para dormir.” Eu não sabia porcaria nenhuma de Astronomia, logo, cientificamente não sabia da impossibilidade gravitacional e física de estrelas baixarem calmamente sobre os montes para uma soneca. Porém, intuitivamente, eu já sabia do poder da poesia, do poder metafísico da imaginação brincando com idéias impossíveis para os adultos, mas possíveis e mais do que reais para a inocência de uma criança ignorante de Ptolomeu, Copérnico, Newton e tutti quanti. Coisa boa!
  3. Abri para ti meus braços, estes laços de carne e espírito, luz e sangue sobre ossos afilados à espera de silêncio e amor. Saí ao mundo, à tua procura, peneirando na mina a loucura entre o restolho e o ouro, na profunda, mineral lavrura.
  4. Um oceano flutuando sobre a terra é apenas uma gota d’água…
  5. Todas as primaveras se vão a cair sobre as campas / E os velhos lenhos quedam solitários ante a chuva, / Que apaga a fogueira dos novos galhos orgulhosos.
  6. A Realidade se apresenta menos emocionante, geralmente. É uma aparição fria. A realidade que queremos (aquela que nos faz sair à cata de pseudo pistas desconexas para montar, através de interpretação confortavelmente enviesada, nossa estrutura credente de verossimilhanças) é ardorosa, quente como o sangue que bombeia adrenalina nos veios cerebrais de nossa lógica vã e alienada.
  7. Diagnóstico duma baladeira: inibição, vergonha e timidez para o amor — para o sentimento; desinibição, desvergonha e ousadia para o sexo — para a emoção.
  8. Os últimos trechos das trilhas e das canções são assim as mesmas notas para pés e ouvidos. Se há triunfo ou derrota triunfal, soam clarins; se há vergonha de vitória roubada, apoteoses; se há qualquer coisa exceto honra, ilusões.
  9. Olhos cegos são os que mais olham fixamente em direção a outros olhos. Não veem, mas são vistos; e por quem são vistos às vezes eles são tidos — e mal interpretados — por olhos enamorados. Na dúvida, procura por brilho, mesmo aquele ínfimozinho que centelha nos cantinhos das piscadelas. Se esses olhos que te olham não detiverem faíscas carinhosas e de ti não fugirem de vez em quando, em pequenos eclipses de afeto, creia: estes olhares demorados nada são senão cegueira que calhou volver coincidentemente seus orbes de carne impotente em direção aos teus, sem saber que teus olhos estavam vivos, límpidos, e… videntes. Anota: às vezes, os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e os “olhos de ressaca” pertencem a uma Capitu mais cega que os três ratos cegos. “Los ojos porque suspiras, / sábelo bien, / los ojos en que te miras / son ojos porque te ven”? Cala-te, poeta, e não sê um maldito Dom Casmurro! Anota.
  10. Interpretação é tudo.
  11. Em matéria de amor, nada pior do que dar certezas e só receber dúvidas. “En la duda, ten la lengua muda”, diz o velho ditado espanhol.
  12. Acorde às 4h30min ao menos durante um dia na semana (sábado ou domingo, se possível). Toma um bom e fresco copo d’água. Vai orar pontualmente às 5h. Ora até que o papo com Ele acabe naturalmente num “até logo!” filial. Permanece o dia todo longe das redes sociais e do frenesi falador do mundo. Encontra um bom caminho e… vai caminhar — fazendas, sítios, valados, campos, enfim, pedaços de terra onde a natureza ainda reina. Jejua, ao mesmo tempo. Permite que o Espírito depure o teu espírito. Fala pouco; se possível, silencia. Ao cabo do dia, quando o horizonte escurecer, para ti as coisas estarão bem mais claras. Recomendo.
  13. Amor leva a sexo. Sexo não leva a amor.
  14. Em matéria de amor, quanto mais uma voz sussurra mais ela quer gritar.
  15. Choro pelos nossos mortos. Porém, mais que pelos mortos já entregues à terra da sepultura, eu choro sinceramente é pelos vivos que ainda estão mortos. A lágrima vertida pela morte física de alguém não pode ser comparada a tristeza da lágrima derramada pela morte espiritual de alguém. “O salário do pecado é a morte”, diz o apóstolo Paulo: morte em vida, sobretudo. Mais que réquiens pelos definitivamente defuntos, é preciso orar pelos mortos-vivos que ainda respiram o ar sulfuroso deste mundo sem esperança de ressuscitar também no aqui-e-agora.
  16. Se eu fosse hinduísta, eis minha contribuição para os Upanishads: Não se diga que o Espaço seja oco como a casca do ovo sem sua clara e sem sua gema, mas que o vácuo talvez seja a própria coisa. A matéria, em si, é um vazio do que resta a mais no Universo.
  17. Não, o porto não te quer agarrado às suas cordas; / A âncora mesma detesta descer ao fundo do mar: / Quer navegar, encostada na madeira de Trafalgar. / Ide ao antigo oceano buscar do universo as bordas.
  18. Com suas obras médias, o crente torna-se um homem ordinário, ou seja, ordenado para o diário. A cada dia basta o seu mal e o seu bem.
  19. Quantos poemas escritos e não entregues, quantos discursos escritos e não orados, quantas palavras ditas no banho, na cama, no silêncio preparador de triunfos [que não foram] da palavra. Quantas palavras germinadas em oculto, nos recônditos do cérebro, nas esquinas da língua, em papéis que viram o crepitar duma fogueira e que jamais foram tocados pelos olhos curiosos daqueles aos quais se destinavam. Mas, quantos assomos de coragem formulados em retórica da mais límpida, em estilo do mais elegante, em caligrafia da mais arquitetada, em sentimentos os mais… bobos! A sina não de bem lidar com as palavras, mas de querer com elas bem lidar publicamente, é esta: a cada verso e a cada parágrafo que teu coração adúltero do teu cérebro põe no mundo, o mundo apresenta-os como provas irrefutáveis, contra ti mesmo, no Tribunal dos mudos desverbados — mudos que, eis o ai!, calham ser vitoriosos no palco do Silêncio besta, cruel e inumano dos tímidos de si. Melhor dizer, melhor escrever, melhor acatar as palavras amantes daquela Palavra: doa o quanto doer. Pange lingua!
  20. Mandando a real: o pessoal vai pra cama facinho-facinho, mas se pela de medo de um “eu te amo!”
  21. Um homem orando sempre se parecerá com aquilo que ele é: apenas um homem orando. Uma mulher orando, porém, sempre se parecerá com aquilo que ela deve ser: um anjo balbuciando seu amor a Deus. Coisa bonita de ver.
  22. A palha, o vento espalha.
  23. Fala muito quando o silêncio alheio for apenas ausência de barulho. Mas, silencia ainda mais quando o mundo resolver produzir falatório. Trata as multidões como vagantes almas fugindo do Seu ambulatório, trata cada dimensão obtusamente sonora como fogo do purgatório.
  24. Intuição: o “formato” do Universo corresponde a um círculo oco como um cano.
  25. Se tu pudesses dar alguns passos para trás, entre o ontem de anos idos e a semana anterior. Se tu pudesses desfazer os feitos lá de trás, como a tapeçaria à noite desalinhada pelo amor. Se tu pudesses ouvir o murmúrio das letras, soluçando discursos prudentemente escondidos. Se tu pudesses alterar do bom tom as regras e então ao canalha chamar “canalha!”, ah iludidos, vós seríeis bem-aventurados com tal revelação.
  26. A consciência, meus amigos… É ela a última instância de julgamento. Nada mais tenebroso que alcançar a idade dos velhos e, já com os cabelos brancos, negar ao próprio eu a possibilidade de não mentir pelo quê quer que seja apenas e tão somente porquê sua alma aderiu a Deus tão profundamente quanto uma gota de água salgada foi descansar na imensidão dum oceano doce. Ficar velho e insensato: maldição.
  27. A vida existe e a existência vive.
  28. Um homem realmente torna-se Homem quando se angustia por aquilo (a virtude) que os outros meramente desdenham e ainda assim tem alegria bastante capaz de fazer-lhe contente, quando sente-se solitário diante do que pensam e gritam as maiorias contra o Bem (a verdade) e ainda assim consegue nutrir silenciosamente seu coração individuado para os dias maus que vêm mais duros, quando prefere as penas terrenas dos chistes e grosserias dos demais por escolher o caminho difícil (a honra) que não aufere lucros mas que ajunta tesouros no Céu.
  29. Força de vontade e auto-domínio: binômio do homem que é Homem.
  30. Nos versos tabacarianos de Fernando Pessoa, esta ária (“Non piangere, Liù”) de Puccini ficaria assim resumida: “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira / Talvez fosse feliz.” A ópera Turandot é um compêndio de psicologia sócio-afetiva.
  31. Decepcionar-se, nesta nossa vida, é condição para atingir a maturidade, é condição para abandonar ilusões pueris, é condição para julgar (com fidelidade à verdade e à sua realidade) o caráter humano. Decepcionar-se é esvaziar-se de suposições, sobretudo. Decepcionar-se é, mesmo com tristeza, agradar-se do descobrimento do concreto que confronta a fantasia e a ficção. Toda decepção inocula em nós o remédio da sinceridade, da sinceridade que devora (para depois regurgitar e cuspir) a mentira. Numa alma sincera, a decepção é o extremo-oposto da esperança: de decepção em decepção, dá-se cabo de quaisquer expectativas levianas. Toda decepção é um livramento divino. Anota.

Terciário I

As talhas de pedra sentiram alguma eletricidade ou força transcendental aguçando seus cristalos celulares? Ressuscitaram, de repente, como quando do primeiro instante de existência sob o “Fiat!”, os minerais que o homem tornara vasos d’água? Continuou fria e inerme a pedra quando a água (sobre a qual o Espírito veio pairar para fermentar) fez-se vinho para nobre gosto.

Quando eu disse a Helena que a amava, não queria realmente dizer-lhe outra frase, melhor ou pior composta. Literariamente que se lasque a sentença, o estilo, o refino ou o desleixo da semântica. Não caberia qualquer outro dito, senão o tradicionalíssimo clichê que acompanha a boca de todo homem apaixonado desde o Éden: “Eu te amo.” Basta este simples — mas muito denso — arranjo frasal para por a alma de um homem no centro do coração de uma mulher.

Um cacho de uvas, pendente da cruz, que assentada sobre um ramo de trigo… Fazem do sangue e da carne símbolo para nosso estômago e comida para nossa mente. Goteja farinha do lenho e o vinho enrijece o monte.

Versos livres — I: Sansão e Dalila

O teu sorriso era [já não é] uma espiral de docidão,
Como se de uma linha à outra nos lábios repousassem
As curvas das galáxias, feitas da cera e do mel da primeira colmeia.
Então meu paladar se aguçava,
Então o cálice da ceia dos amantes
Se contentava com a água fresca da mina da roça.
O teu sorriso que me abalava o âmago e os ossos,
Que me alterava a temperatura como se febril no Saara eu sonhasse,
Que me acometia de risos e gargalhadas de expectação divina e infantil…
O teu sorriso deixou de ser, como as nuvens abandonam a pareidolia
Quando o vento vândalo e realista é mais forte que a brisa artista.
O teu sorriso era para mim um chamado ao silêncio devocional,
Uma convocação do arauto das alegrias amenas,
Um toque de clarim real ouvido apenas pelo espantalho do milharal.
Então, as formigas vieram e carregaram cada gota de mel
E as vespas desfizeram os favos hexagonais de luz e carne.
Então, cá eu contemplo a linha reta de tua expressão:
Inerte e muda, inerte e muda como uma estátua de sal.

Soneto VII

Se a brisa descer em tempo de inverno
Ou maresia de repente vier do deserto,
Escuta a cantiga que o amor expressa,
Porquê fora de estação surge a paixão.

Se uma pétala de rosa fresca cair morta
E for primavera colorindo a vida à porta,
Silencia diante duma provável traição,
Porquê na estação mais fecunda a ilusão.

Se o Senhor, porém, dois quiser no altar,
Se unir Ele desejar para sempre um casal,
A Calenda se desfará na chama eternal.

Se o Senhor deitar sobre estes dois dedos
O leve fardo e o suave jugo duma aliança,
Um a um o tempo desfará os idos medos.

Cartas a uma moça relutante em amar — III

Minha cara,

É já o terceiro domingo e é já a terceira carta, a última carta. Nada mais te direi além do que hoje, nas linhas adiante, te direi. A palavra será tua, então. Tu é que me dirás qualquer coisa, se quiseres dizer. Não consiste em persuasão e retórica meus parágrafos contigo argumentando. São conselhos bem testemunhados pela sinceridade. Agora, findemos pelo começo. Foi-se o fim invernal da velhice e a meia idade de veraneio outonal. Falo-te já na primavera: dos inícios do amor na juventude. Falo-te destes dias que ainda correm: quando te dizem que estás na “flor da idade”, é isto que, em parte, significa.

Tua beleza está ainda nova no tempo. Ela rebrilha a potência do teu corpo e o dínamo da tua alma, como se um pequeno sol aí no teu peito — e não um coração — bombeasse sangue pelo teu organismo. Tu estás forte como o caule do lírio em primeira florada. Ousará qualquer profanador arrancar-te do canteiro para, em leito estranho, coroar a morte do teu espírito? Eles te fazem isto, e tu pouco ou nada percebes: ceifam-te, pétala à pétala, para misturar-te com as flores de plástico que artificialmente fingem adornar os ambientes insalubres do planeta. Te digo simplesmente que tua beleza não foi criada pelo jardineiro para contaminar-se, sequer esteticamente, com o mundo. Tu eticamente foste feita para que apenas um conhecedor de fragrâncias raras se contentasse com um só (o teu) perfume; para que apenas um conhecedor de sutilezas acetinadas da pele se contentasse com uma só e específica (a tua) delicadeza ao tato; para que apenas um olhar conhecedor das belezas e harmonias das formas para sempre se contentasse com uma só (a tua) mirada. Percebes teu valor, menina? Um poeta, já não me lembro qual, ensinou que “As flores não deixam o mal ir adiante.”

Tu serias feliz, em verdade, se permitisses que os mistérios serenos, as idas e vindas mais bruscas, os olhares furtivos e os silêncios entrecortados do amor juvenil te contentassem os dias. Quanto mais apaziguado teu espírito estaria sem o frenesi biológico destas conquistas que não são conquista — que são saques físicos e nada mais senão qualquer atividade próxima de pilhagem sentimental. Tu ainda não sabes o que é um balcão, o que é estares neste balcão e o que é uma serenata para ti debaixo do balcão. Tu ainda não sabes o que são bilhetinhos espalhados pela semana. O WhatsApp é incapaz de prover-te das incertezas da caligrafia dos poemas meditados, da letra vacilante de quem depõe no papel a própria alma. Tu serias feliz se alguém detivesse tua companhia nos teus dias trigueiros de mocidade. A primavera é para o cantar dos pássaros acasalados, não para orgias de urubus e abutres, por mais jovens e fogosos que eles sejam… A primavera, a tua juventude, é para o colorido dos dias e não para o acinzentar das madrugadas sem sereno.

Te lembras quando teu estômago parecia guardar não uma borboleta acrobata, mas um panapaná inteiro de borboletas saltimbancas? Te lembras quando as mãos suavam frio como se tivessem tocado o glacial zero absoluto? Te lembras quando passavas horas esperando na porta da escola para que teus olhos de repente, num milésimo de segundo calculadíssimo, olhassem e logo se desviassem para o lado? Não queres mais isto? Como é bom este jogo-luta da conquista, quando duas solidões se encontram na órbita do tempo e vão fazer dos seus particulares vácuos unidos um altar de significado compartilhado. Como é bom amar e abandonar como resto e porcaria tudo aquilo que até o instante anterior parecia ser a máxima fonte de sentido para a existência! Te lembras quando coravas e tuas bochechas, quentes, ficavam mais vermelhas que os teus lábios escarlates? Te lembras quando dormias e acordavas com pensamentos fixos mas reconfortantes? A lembrar, depois recorda-te e mais luz te iluminará.

Quem fruirá do melhor da tua juventude e de quem tu fruirás, igualmente, o melhor do viço dos anos? Quem terá o teu perfume impregnado na alma, quando os passos te fizerem mais distante, recordando-se até donde em ti a fresta física encontra a fenda do transcendente? Quem te será leal quando no varejo e no atacado mundano a oferta de corpos e sexo é tão livre e barata quanto variável? Quem compartilhará contigo teus melhores anos de pujança corporal e sentimental, quando em cada ação e pensamento parecem residir toda a energia do cosmos? Tu renuncias à tanta alegria quando permites que seja puramente material o encontro de dois corpos: um êxtase químico e biológico, que nada desprende para o teu ser senão os pruridos comuns à classe mamífera. Apalpar não é acariciar, farejar não é cheirar, roçar não é tocar, labiar não é beijar, ver não é olhar, falar não é dizer. Quem? Uma vez perdidos e gastos estes dias, não haverá mais volta completa: a semente que perde a umidade do orvalho durante sucessivas manhãs será, se crescer, para sempre uma árvore mais anêmica e certamente menos frondosa do que poderia ser. O ápice da fertilidade corporal é também o ápice da fertilidade para o amor verdadeiro. És, por enquanto, terra por ti mesma adubada. Guarda-te.

Recordo-te que amar é primeiro deter o espírito do outro. Quem te ama, antes te amará pelas filigranas da tua personalidade, pelas nuances da tua individualidade, pelas pequeninas essências incrustadas na tua totalidade de ser. Quem te ama, sobretudo, te amará a ponto de querer-te por perto como se lhe estivesse amputado todo o ser, feito tronco desligado do contato nutridor com a terra. Isto que te escrevo não toca suficientemente teu coração a ponto de perceberes que amor é detenção da totalidade (o vôo) nas partes, enfim, que não existe amor naquilo que não amalgama-te à alguém como a pena à asa? Quem, hoje, por qualquer valor teu te admira? Dize-me quem em consideração leva teus talentos encubados, teus dons potenciais e tuas possibilidades elevadas para a vida quando te puxa pela cintura? Quem, quando se deita sob teus cabelos, encontra conforto para as agruras dum dia-a-dia implacável com os honestos? Quem discerne as expressões da tua face como apenas o próprio artista poderia desvendar o carinhoso mistério nas linhas do rosto da musa retratada?

Qual besta masculina tu podes dizer que um dia te amou? Sê contigo mesmo sincera e passa em revista por cada um daqueles que já te beijaram. Nenhum? Algum? Eu bem o sei; e assim sei porquê em ti percebo as ânsias aceleradas da carência, os frêmitos desesperados da alma com sede. Ouça-me. Se mais perguntas eu te fizer, se mais questões eu te propor, se mais dúvidas eu te levantar, nada além do que até agora angariei de ti acrescentaria às tuas idéias. Não te falarei sequer de namoro, de noivado ou mesmo de casamento. Não é necessário, pois. Todo o já escrito é caminho para estas fases que antecedem à feitura duma família. Todo o já escrito é via única para minha proposta inicial, a proposta que comissionei a mim zelosamente revelar-te: tu não queres amar porquê ainda não amaste efetivamente. Segue em silêncio por algum tempo. Cala-te durante as voltas do relógio necessárias para teu amadurecimento. Depois, vem a mim e dize-me se nalguma coisa te fraudei. A verdade, saberás, foi bem dita. E a verdade, disse-nos o Senhor, liberta.

Deste, que te quer bem porquê te ama.

Notas do Silêncio — I

O silêncio convém apenas a espíritos que mergulharam no profundo da Linguagem. Todos os demais, superficiais na Palavra, precisam do barulho para sobreviver ao próprio vácuo de Significado.

À inteligência convém o silêncio, porque a alma é serena e fluidamente pacífica nos homens conscientes. Ouvi-la, a inteligência, requer atenção sob-espiritual. Sob-espiritual: o fluxo comunicativo entre o homem e a Imagem-e-Semelhança. Uma atenção que dispensa a ação sonora exterior.

Poucos homens prestam atenção aos seus sons corporais. Não distinguem os batimentos cardíacos e são incapazes de entendê-los como correspondentes às batidas das percussões musicais que às vezes lhes movimentam a psiquê. No máximo, ouvem a própria flatulência quando se preocupam com a possibilidade de que alguém lhes tome por broncos incivilizados. Preocupação superficial, cosmética — a-ética. O som dos movimentos dos braços, das mãos, das pernas, dos pés, dos dedos, das articulações e juntas. O som do átomo.

A burrice está para o pensamento como a feiura está para os ângulos. No pensamento, o silêncio é a vírgula da dízima periódica do infinito posto na imaginação.

Estoure todo a energia num boom de nada!

Há níveis sub-animalescos e eles correspondem à anti-espiritualidade demoníaca. Níveis sonoros. O sub-animalesco é o demoníaco, porquê na hierarquia das criaturas ela corresponde à degeneração do mais elevado. Não há animal que não seja, pois, bom. Não há perversão animal. Há, isto sim, graus de perversão humana que a nivela aos animais pelo instinto. O sub-animal, contudo, ultrapassa o instinto (que, em certo sentido, mantém estrutura boa) e desce à degeneração consciente, nivelando o homem a específicos animais — daí, a simbólica dos vícios valendo-se da fauna planetária.

Esponjas de sol — XXXIII

  1. Em 2009, depois de uma decepção das grandes, tomei uma resolução na vida. Ela só me trouxe coisas boas e melhores até hoje. É esta, que subdividi em três preceitos: (I) Aquilo que não puder ser apenas teu, exclusivamente teu e apenas por ti tocado para sempre, não queiras para ti, ainda que te amargures e sofras; (II) Não desejes fazer aquilo que qualquer outra pessoa possa fazer, porquê a tua vocação é só tua e só tu a poderás desempenhar com fidelidade adequada à Providência; (III) Quando existirem muitas e inúmeras possibilidades de escolha, não te decidas por nenhuma delas, afinal, tu queres o melhor, que é uma e única e só coisa — e que sozinha deverá se apresentar ao teu arbítrio. Agora, em 2017, atualizo e adiciono mais esta regra, a quarta: (IV) Estes três preceitos têm prazo de validade ilimitado e aplicam-se a tudo aquilo que na vida te tomar pelo menos meia dúzia de minutos na oração.
  2. O povo reage à realidade, não às explicações acerca da natureza da realidade. Via de regra.
  3. Passei o machado nos treze nós. / O tronco ficou liso para o corte, / Como um broto recém-nascido. / O lar surgiria assim desta morte. / Serrei as tábuas e fiz o quadrado, / Perfeito alicerce para nossos pós.
  4. Se tentares sepultar um jardim, que fim levará cada planta e flor? Ora, renascerão e florescerão mais fortes ainda: porquê de si mesmas volverão. Quando és para ti mesmo um adubo, mais te pareces com Deus.
  5. Troco as buzinas disparadas e os alarmes estridentes pelos sinos que anunciam e badalam o transcendente. Troco o v8 do carro possante pelo cavalo caminhante, trotando elegante como quando marchava às gentes. Troco as ficadas de balada com tantas moças carentes pelo altar silente que me dará a mulher pura ofegante. Troco a taça de cristal do mais caro dos restaurantes pelo fogão à lenha que construiu meu bisavô viridante. Troco as notícias dos sites, nestas internets alienantes, pelo livro de página amarela no sítio quieto dormente. Troco os quatro cãezinhos sofrendo alergias doentes pelas dúzias de cachorros correndo no mato contentes. Troco o filho único solitário aprendendo física ausente pelas três meninas e pelos dois meninos lendo cientes. Troco tudo, toda a glória da civilização dos continentes pela natureza assente duma família livre e consciente. Troco cada parafernália, invencionice e pus atraente pela terra, pela água, pelo ar, pelo fogo dos inocentes. Troco, mil vezes troco, cada falso prazer delinquente pelo gozo permanente de ser gente almal no imanente. Troco o concreto armado de cinza em linhas incipientes pelo traçado original dos tijolinhos vermelhos fulgentes. Troco a idéia oca de igualdade materialista e demente pela sã hierarquia de cada coisa em seu lugar potente. Troco o estrondo do relógio que acorda maquinalmente pelo canto dos sabiás piando seus hinos normalmente. Troco a pressa das paixões que avassalam etereamente pelo amor que se constrói assim lenta e serodiamente. Troco os diplomas das novas disciplinas putrefacientes pelo pergaminho que a Sócrates condenou repelente. Troco a teologia dos clérigos sem a fé de antigamente pela oração daquela velhinha de véu e olhar vidente. Troco, troco já, só não troco o meu eu intransigente por qualquer outra anomalia à maioria conveniente.
  6. Amor é renúncia. Renúncia de barulhos cacofônicos para a conquista de silêncios alternando-se àquela “música só nossa”. Renúncia de diversões sazonais que se repetem igual e indefinidamente, semana após semana, em ganho de alegrias permanentemente renovadas, que se diferem no fruir do tempo fluindo. Renúncia de todas as alternativas abstracionalmente medíocres repousando nas cores estagnadas na paleta em favor da concreta e inspirada criação duma obra prima irretocável pelo pincel humano. Renúncia de todas estas falsas possibilidades estatísticas que são os “contatinhos” em troca de um só e certeiro e decorado número. Renúncia de paixões emocionalescas (que nada são senão modinhas afetivas) por um amor “clássico” — enraizado nos fatos sentimentais que se mantêm desde a Eternidade. Renunciar a todas, em função de uma, é ganhar tudo numa só pessoa. O amor é a renúncia da escravidão a inúmeros senhores tiranos em proveito da servidão voluntária a um só seu e único servo. Homem e mulher que, por e para si, mutuamente, não renunciam ao mundo, renunciam à única possibilidade de terem o mundo depositado em suas juntas, justas e entrelaçadas mãos.
  7. Uma alma forte é aquela que se sente a mais fraca, entre todas, quando vai ter com Deus…
  8. Que é a luz, quando o reflexo é mais sombra que clarão? / Que é a treva, quando a fresta ilumina toda a escuridão? / Escuta-me, porquê o silêncio do universo diz-me dúvida / Enquanto a voz do cosmos brada seu cântico de certeza!
  9. Talvez, nos santos, os cabelos brancos sejam a alma tomando conta do corpo. O princípio, o gérmen da ressurreição! E quanto aos demais homens? Talvez seja o corpo entropicamente tornando-se etéreo, incolor no nada…
  10. Que é sinceridade? É empregar toda a realidade da alma em cada ação.
  11. A alegria do dia. Ouvi uma velhinha cantarolando, com voz suave mas firme, enquanto punha a roupa no varal, o refrão de um hino que, quando menino, eu ouvia e também cantava na igreja: “Fica, Senhor, já se faz tarde. Tens meu coração para pousar. Faz em mim morada permanente. Fica, Senhor, fica Senhor, meu Salvador.” Ouvi e parei, me encostando no poste, atrás do muro da casa dela. Assim que ela terminou, eu disse um amém baixinho pra ela não ouvir e se assustar e, então, fui-me cá para casa. Coisa boa. Coisa bonita. Coisa rara… Minha senhora, dona de nome que desconheço: muito obrigado!
  12. Um gole d’água na boca do trabalhador: quanto mais prazer que nas garrafas todas de álcool engolidas pelo vagabundo!
  13. Uma lamúria ouvia o rei da boca do camponês: contava-lhe como a alma telúrica dos campos estava se esgotando na bolsa cheia do burguês. “Vede, majestade, que a terra que põe a mesa, a tua e a minha, será mais fraca que os bancos?” Assim nasceu o Absolutismo. Generalizações trovadorescas de idealistas, por um lado, legitimadas por idéias maquiavélicas de dominação, por outro.
  14. O país que se furtou a ter Dona Isabel como Imperatriz teve que engolir Sinhá Dilma como “Presidenta”.
  15. Honrar pai e mãe (digo por mim mesmo) é condição indispensável para crescer e se dar bem na vida. Se tu não ouves os conselhos dos teus pais, tu serás cego para a realidade. Apenas quem nos ama é capaz de perceber que sob nosso caminho há alçapões, buracos, arapucas e armadilhas. Se teu pai e tua mãe dizem “filho, não faça isto!”, “filha, não seja assim!”, ouça e obedeça mesmo que, de momento, tu não entendas o porquê. Gente cega — e, pela idade, geralmente, filhos são cegos em relação à experiência existencial dos pais — não tem condições de avaliar se vai ou não cair no abismo. Quem simplesmente avisa, amigo é. Mas quem avisa e instrui aos berros, pai ou mãe é. A gravidade do perigo eminente exige de quem ama não que envie mensagenzinha educada e serena do tipo “se você fizer isto, perecerá, mas a escolha é sua”; exige que se puxe abruptamente o desavisado, com força e alarde, da beira do precipício. Se tu queres ser feliz, honra teus pais. Eles não são “chatos”, “quadrados”, “calhordas”, “coroas” e “ignorantes”: eles são as únicas pessoas capazes de, sabendo quem tu és, impedir que o mundo te transforme numa pessoa fracassada.
  16. Nós nos arrependemos de certos amores, mas nunca dos poemas que eles nos fizeram criar.
  17. Não tenha tempo para as coisas que não têm alma.
  18. Entre o porvir e o futuro, / Escolho o primeiro, seguro / De que o tempo é crente / Na eternidade que recolho.
  19. Há na terra uma tapera, um palácio de madeira, onde os anos eu passaria, lendo e vivendo, amando e vivendo, comendo e vivendo, fazendo a vida e vivendo. Ali, deitado sob o zimbro. Ali, deitado à margem do rio. Ali, deitado com ela sob o luar.
  20. Ou tu te encontras com Deus ou nunca te encontrarás contigo mesmo…
  21. O céu começa no coração; ali, onde o inferno termina.
  22. Quem te vê como Deus te vê? Quem te vê como tu, no íntimo, a ti mesmo te vês? Quem assim te vê, te ama. Porquê vê o quê tu és: vê quem tu és. E quem te vê como o Diabo te vê? A multidão, certamente, tem para ti os mesmos olhos do Maligno. Quem te vê como tu, no íntimo, a ti não te vês? Quem assim te vê, não te ama. Quem assim te vê, sequer te vê: porquê vê a carcaça pseudo-personalitária que está caricaturizada no mundo. Toma nota!
  23. Gênios não têm qualidades próprias de máquinas, estas sim criadas por gênios. Gente que desempenha tarefas fenomenais/extraordinárias à moda “memória de computador”, p.ex., não é genial. É cérebro-maquinal. Não é capacidade (para conhecimento) mental. É armazenamento de dados num hd orgânico; patológico. Gênios têm algumas poucas limitações proporcionais às suas muitas profundidades. Superdotados tem muitas limitações desproporcionais às suas poucas alturas.
  24. Sabedoria é uma tradição experimentada.
  25. O mundo está podre. Escolha não apodrecer com ele.
  26. Amo aquela que é dúvida? Não, já não a amo. Decresce o amor, vagarosamente, à nível anterior. Agora, estão saindo uma a uma as borboletas do panapaná estomacal. E os calafrios são meras cócegas que em si guardam lonjuras tanto do quente quanto do frio. A temperatura ambiente chega com nano-estalos.
  27. Implicância, modalidade de carinho.
  28. A inteligência se desfaz a si mesma quando conscientemente o homem decide acolher a alienação que lhe tolhe o sofrimento.
  29. O mundo está organizado de modo a triturar a inteligência de quem decide desprezar a Deus.

Cartas a uma moça relutante em amar — II

Minha cara,

Espero que tenhas refletido e que, ao menos, estejas com os sentimentos mais acessíveis àquela questão. Continuo, agora, pelo meio do caminho. O meio do caminho são os anos firmes e maduros, os anos que vão dos trinta aos sessenta e poucos. Os anos nos quais em ti se deveriam integrar, meio a meio, idéias acerca dos sentimentos e sentimentos acerca das idéias. Os anos do verão e os do outono feitos uma só estação: abrasamento entrosado a cálido frescor, para os que amam; e decomposição ao sol e apodrecimento à sombra, para os que não amam. O inverno ficou para trás, na primeira carta de letras mais frias, a perguntar: lareira farta de lenha em casa confortável ou esfregação de mãos geladas na caverna úmida? Sei que entendes e compreendes minhas metáforas.

Vês a rotina dos teus pais? Vives a rotina dos teus pais? Viveste a rotina dos teus pais, entre eles e contigo? Queres coisa semelhante ou muito diversa ou um rígido meio termo ou mesmo queres talvez temperar tudo com novidades e tradições à tua maneira? Pois está aqui, neste período, a possibilidade de um relacionamento realista entre homem e mulher, de receita antiga: erotismo e companheirismo rotineiros, assentados no tempo ordinário. A rotina sobrevém a todos nós, menina. Ela é o tempero do inédito, do incomum, do extraordinário, do “de vez em quando” que surpreende. Ninguém pode sobreviver espiritual e fisicamente sem viver um dia após o outro compartilhando, de segunda à sexta-feira, uma rotina mais ou menos definida de pequenos e médios prazeres que desembocam nos sábados e domingos dos grandes prazeres. Ninguém pode sobreviver mastigando buffets de segunda à segunda-feira; por isto, arroz e feijão doméstico devem temperar a semana para propiciar a mesa “exótica” do fim de semana. Outro dia, eu já te dizia que a rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos. Por que te disse e te digo isto? Porquê o amor se prova pelo tempo passando: ele perpassa as idas e vindas dos dias, com suas ações medíocres e sublimes, como uma mesma água escorrendo sobre a areia (desde que com força suficiente para nela não se infiltrar) e sobre a rocha. Estes anos de vida adulta, de meia-idade, como dizem, são os anos do comum, os anos do sempre semelhante mas do sempre renovado. Estes anos sãos os anos em que se provam a consistência dos nossos sentimentos através da dissolvência do calendário. Se a rotina for restauradora e não corroedora, o amor sairá mais fortalecido e os beijos mais queridos que nos tempos da mocidade. Se não amares, anota: não terás estas coisas e passarás teus dias frustrada por dentro e encolhida por fora, tentando infertilmente reviver a juventude (duas vezes) perdida.

Considera o quê te pergunto. Quem te completará de significado nestes dias em que tua particular humanidade, adulta, estará no cume das forças do espírito mas também suscetível ao abismo das fraquezas da carne e, então, precisares de alento para não ceder às tolices da existência? Quem dançará contigo nas tantas festas de batizados, casamentos, aniversários e nas comemorações quaisquer que de ti exigirem um par especialmente conhecedor dos teus pés para os bailados? Mesmo sem música e platéia: quem dançará contigo na cozinha, quando a eletricidade faltar e tudo ficar iluminado por velas, até que tu possas voltar à sobremesa no forno e ele à churrasqueira no jardim? Quem te acordará com abraços seguros e sossegadores, quando um pesadelo noturno te fizer chorar como quando, ainda menina, acordastes perguntando por tua mãe? Quem rirá das tuas piadas sem graça, não fingindo que é boa a piada, mas rindo porquê é bom teu ânimo e é contagiante teu bom-humor? Quem te limpará o canto da boca quando, na mordida faminta, o molho te lambuzar os lábios? Quem soprará o ardido cisco do teu olho, depois da caminhada com pó e ventania na fazenda? Quem aguentará, com afagos e chocolates, teus acessos de cólera e cólica quando a TPM te transformar numa medusa mitológica? Tu realmente não almejas alguém “para sempre e sempre, aleluia”? Tu até podes não acreditar que existiram aquele homem e aquela mulher primordiais por Deus aninhados no Éden; mas, deverias viver (viverás?) como viveriam Adão e sua Eva…

Sexo após transa não é amor coisa nenhuma. É biologia afobada movida por coração desesperado e ansioso. É espirro de prazer que deseja e acredita ser ciclone de gozo. As imagens que uso para te ensinar estas coisas podem parecer-te algo “altissonantes”, mas são as melhores em didática que hoje sou capaz de arranjar. A balada te abala o espírito e o racha como a terra seca do sertão sem chuva. Não percebes que te aniquilas semanalmente e, ao cabo, persiste no teu coração o desejo ardente de andar pelo mundo de mãos dadas até o fim do horizonte de sol poente? Sei bem que bem sabes que apenas mal te faz esta existência entre os maus. Nenhum homem que contigo passa uma ou mesmo algumas noites poderá dar-te quaisquer destes regalos, porquê não pode dar-te amor. Nenhum. Eles às vezes te ofertam o quê não têm para, iludindo-te (como a um burro atrelado à cenoura que o obriga a trotar), te aproveitarem como a um pedacinho de toucinho salgado num infindo banquete de carnes suculentas. Tu queres, a valer, ser apenas este insignificante aperitivo no menu inacabável dos canalhas glutões, um ossinho de cálcio poeirento jogado ao ossuário das rezes passada e futuramente abatidas, cujo fim orgânico é também o vaso sanitário?

Escolhe ser uma só carne com alguém ou serás apenas uma peça à exposição no homicida açougue social, até que deste teu corte o mundo enjoe e acabes, feito Jezabel, comida de cães pelas ruas marginais da cidade. Para isto, deves amar antes a Deus. Se tu amares mais a Deus que a qualquer homem, tu terás apenas um para ti e, então, tu jamais o abandonarás. E se ele amar mais a Deus que a ti, ele jamais te deixará, porquê não poderá exilar-se da mulher que o santifica, que o faz homem eterno. O último imperador da Áustria, aquele país musical de valsas românticas e altares barrocos, sussurrou à sua esposa no leito de núpcias: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu.” Que alguém também isto te diga.

Quem te dará a mão quando a multidão apontar teus pecados esquecidos? Quem acalentará teus medos incrédulos quando a razão natural descrer do óbvio sobrenatural? Quem te encomendará à grandeza de uma vida dedicada a ladrilhar com pedras bem talhadas o lamaçal da existência venial? Quem não te esconderá do mundo e, feito Justiniano, far-te-á sua Teodora? Quem te dará filhos e filhas para crescer e multiplicar o Céu na Terra? Quem te limpará dos olhos toda lágrima — aquelas provindas da cebola mal cortada e aquelas vindas do âmago ferido? Quem não se irritará com tuas manias quando a convivência revelar as bobas e sérias idiossincrasias? Quem não procurará nas esquinas o corpo mais sarado quando tua pele se estriar e quando o cansaço numa cansativa quarta-feira não permitir sexo-de-subir-nas-paredes? Quem será homem-varão na tua vida, e não macho de fácil cio, quando a indecência alheia vier ferir tua dignidade com assovios e leviandade, quando ameaças físicas e metafísicas te fizerem frágil e impotente?

Medita. Espera mais uma semana e a correspondência terminará; e terminará também, queira Deus, com tuas sandices, com teus medos e… com tua relutância.

Deste, que te quer bem e que te diz: “If you intend thus to disdain, / It does the more enrapture me, / And even so, I still remain / A lover in captivity.”

Inquietud

El sonido de mis sueños
Por la noche se calla.
Sin mi coche, camino a pie
Sólo com Dios, sin baño.
Voy encontrando el tiempo
Como quien, por primera vez,
Encuentra su propia cara
En el espejo.
El sonido ahora es himno,
Alabanza al Significado.
Soy yo mismo,
Ante el tiempo desesperado.
El silencio compone la esperanza
Y la melodía aparece en la partitura
Como las letras en la pared figuran.

Cartas a uma moça relutante em amar — I

Minha cara,

Ser-te-ei como sempre fui contigo: verdadeiro. E, por isto, vou já à coronária questão: a questão do teu coração. Começo pelo fim…

Quem te fará companhia quando a doença final, a última dor, tomar teu corpo? Quem assistirá teu fim com afagos, canja e conselhos imortais? Quem por ti derramará lágrimas quando o sacerdote oficiar o sermão fúnebre, na possibilidade de que ainda te rendas à Fé na eminência do momento supremo? Algum lenço noturno tomará para si como relíquia a fina camada do óleo santo sobre tua fronte deitado? Quem caminhará pesaroso ao lado do teu caixão, quando tua carne friamente estirada estiver a caminho do sepulcro? Quem poderá te escrever um digno epitáfio, derradeira carta de amor? Quem? Sabes e te recordas que morrerás? Sabes que as forças da tua mocidade um dia se dissolverão? Quem te amará quando tua pele já não for firme, cheia da queratina juvenil, e os teus olhos se parecerem com aquelas estrelas que explodem num último fôlego de luz? Só te beijará na velhice por amor quem hoje te beija por amor: porquê o sexo a partir de certa idade só se mantem, constante e verdadeiramente, quando as almas se gostam em seus corpos.

Tu agora plantas solidão. Ainda há tempo favorável para evitar que ela germine; porém, se te demorares muito, suas sementes logo haverão de brotar e se espraiarão nutrindo-se da tua fenecente aura; e quando crescerem — e elas crescerão ao teu redor — te encontrarás no centro de uma selva escura, a selva da qual fostes a culpada jardineira. A selva da oquidão: sem esposo, sem filhos, sem netos, sem bisnetos, sem o teu eu original pensado por Deus. Quem te dará o banho quente e confortável, quando ao menos da tua primeira cirurgia? (todos os velhos passam por cirurgias). Quem organizará a festa dos teus 83 anos? Quem te comprará flores em dias normais ou mesmo as recolherá do jardinzinho encostado na parede da garagem? Quem te fará chá fraquinho e açucarado aos sábados e café forte aos domingos? Não se trata, escuta-me, de ter apenas alguém que te sirva de babá para a senilidade corporal. Não, até porque tu também deverias (deverás, digo) sê-la. Trata-se da companhia querida e livre de quem tu amas e por quem tu és amada.

Quando hoje recusas um amor seguro e tranquilo, porquê preferes as paixões inconsequentes e tempestuosas, sabe, porém, que já recusas alegria em todos os teus anos a partir de amanhã. Preferirás que um estranho a quem pagues preço elevado te limpe as vergonhas? Que um desconhecido abra, por recomendação médica (e não para que tu vejas o brilho quente e amarelo do sol e respires o ar fresco da manhãzinha que traz os aromas da rua) a janela do teu asséptico quarto de hospital? Como te sentirás quando descobrires que todos os auxílios tidos serão feitos com indiferença rotineira por quem eventualmente te servir? Mais, ainda, pergunto-te: e quando teu coração te contar que todos não te devotam afeição alguma, mas que apenas cumprem (mesmo nos sorrisos cumprimentadores com seus sempre iguais bom dia, boa tarde e boa noite) com suas obrigações profissionais estabelecidas pelo Conselho de Medicina, pelas portarias regulatórias desta ou daquela categoria alinhadas com este ou com aquele estudo científico?

Repito, rumino: vê que de modo algum deves querer amar por conta destas coisas (o futuro solitário ou o futuro assistido); e sequer, e jamais, se ama por elas. Não se ama por estas coisas. Elas não geram amor — apenas produzem algum apego auto-centrado, egoísta. Na verdade, penso que o peso deste teu (por enquanto?) futuro necessário te sirva como “trauma” suficiente para fazer-te refletir sobre o amor. Não deves amar para ter qualquer dessas beatas benesses que relatei. Se amardes, tua as terás naturalmente. São consequências do amor tais gentis tratamentos, nunca causas. Do contrário, te apegarás ao bem-estar, e não a alguém que o trará porque necessariamente te ama. E nesta relação não serás sujeito de direitos, serás na mesma proporção — a inauferível mas conhecida proporção da eternidade — sujeito de deveres.

Medita. Receberás, no domingo próximo, a segunda carta.

Deste, que te quer bem.

Esponjas de sol — XXXII

  1. O Decálogo é uma espécie de “Kama Sutra” existencial que funciona.
  2. O cristão é aquele sujeito que põe a rotina prazenteira no mundo acima de todas as glórias mundanas. Dou-lhes um exemplo. Se a ele é dado escolher entre (I) erigir qualquer grande obra de genialidade artística tendo sua vida pessoal destituída do prazer ordinário dos comuns e (II) passar seus dias pacificamente amando, casando, criando filhos e morrendo quietinho na cama quentinha depois de uma vida consagrada a labor honesto e anônimo, certamente sua escolha consciente recairá sobre a segunda opção. Não lhes digo que exista oposição entre um estado de vida culturalmente elevado e a pura vida natural do homem natural. De modo algum! Digo-lhes que, se a ele imperiosamente for mandado escolher entre uma e outra vida, é a possibilidade da felicidade originária que o cristão abraçará de pronto. Por que? Porquê no espírito do cristão está o “pó do Éden”, que o dirige — feito bússola magnetizada pelo Céu — em direção ao [Re]Começo Perfeito.
  3. O mundo desabará para ser levantado. Como uma lua de quatro fases apagada, a Humanidade se iluminará de repente, depois, quando já não acreditarem mais em lua.
  4. Dá tudo, nada espera. Sê bom, mesmo que isto te faça algum “mal”. Aceita na tua mente e assimila no teu coração tudo aquilo que acontecer contigo nesta tua vida sob o sol. Nada espera, então, e sê tudo para todos — ajuda-os sempre! Ainda que te sintas desconfortável, faze o bem mesmo consciente de que provavelmente este teu agir irá incomodar teu ego. Meios e fins. Meios e fins: Deus não é maquiavélico. Ele harmonizará todas as coisas em ti, para que sejas verdadeiramente um homem bom.
  5. O mundo está muito raso. E no raso apenas o raso se afoga. Sê, ao menos, um pouco profundo e não te afogarás; e então submergirás o raso e ele aumentará ainda mais a tua profundidade, e assim tu farás mais profundo o mundo e o mundo em ti mergulhará até que um dia, pela sua proporção potencial germinada e com tua ajuda atingida, o mundo retornará a ti abissalmente profundo e tu — ainda que ao princípio tenhas sido maior que ele quando do início desta mútua fluência — finalmente serás como deves ser: infinitamente menor que o mundo e, enfim, tu poderás entranhar-te nas águas da realidade e nadar à braçadas sobre e sob sua imensa superfície.
  6. Quando tu amas e assim amante enxergas na amada um virtuoso potencial que ela própria não consegue enxergar (ou que talvez opaca e vagamente enxergue), muito certamente ela nenhum pouco sofrerá por isto. Mas tu sofrerás por ela — e sofrerás quase sempre com as “mãos atadas”. Isto é uma espécie de amor não correspondido.
  7. Quando eu era menino, pontificava imperiosidades o tempo todo. Dava ordens aos soldadinhos de plástico (não de chumbo — estes eram caros e, por isto, moleque nunca os tive), fazia dos coelhinhos da índia que meu pai criava monstros contra os quais movimentava os tanques de guerra de brinquedo, era diretíssimo e mandava cartinhas de amor às meninas da igreja e da escola, cavoucava os jardins alheios em busca de pedras para a coleção e berrava contra quem tentasse me dissuadir desta empreitada pseudo-mineralógica, brigava na rua e cometia contra meus oponentes manobras dignas dum Clausewitz. Era rei e sacerdote. Fiquei velho (cabelos amplamente brancos aos 28 anos) e, prestando atenção ao meu dia-a-dia, às vezes penso que embestei nestas virtudes: mais quieto, menos dinâmico, mais tímido, menos briguento. Estou camponês e paroquiano. Sabedoria da idade adulta ou entropia da idade infantil?
  8. Uma nação que não tem funerais de estado dignos nunca terá ascensões de estado dignas.
  9. Fugir da aparência do mal é olhar [e neste instante rapidíssimo que nos demonstra a poderosa natureza duma tentação presente-e-quase-futura] e correr.
  10. O caipira diz: “Quem vê cara, não vê coração.” E eu digo: quem vê coração, faz da cara um coração. Se você é um ser desperto para as coisas da consciência e do espírito, logo perceberá, depois do primeiro olhar, que a impressão estética que uma mulher lhe causar logo cederá lugar a uma intuição ética, cujo julgamento afetará a beleza ou a aparente feiura dela — positiva ou negativamente. A bela viola perderá a afinação e o pão bolorento parecerá apetitoso, a depender do âmago das suas cordas e da essência do seu trigo. Tudo isto, metaforicamente, quer dizer o seguinte: os valores de uma pessoa (já depois que a beleza ou a feiura fizerem seu trabalho de atração e de repulsão, respectivamente) refarão cada linha no rosto dela. Se houver virtude na alma, a aparente deselegância facial cederá lugar àquela beleza que vem de dentro, num crescendo encantador. Se houver vício na alma, a harmonia das formas se transformará e nos parecerá muito menos bela e, como tal, muito menos atraente, num diminuendo desencantador. Tanto na alta literatura antiga quanto na baixa expressividade interneteira moderna, esta realidade está bem sedimentada. Se por um lado o livro de Provérbios (11:22) nos diz que “Como jóia de ouro no focinho de uma porca, assim é a mulher formosa que não tem discrição”, os memes do Facebook afirmam o seu “É bonitinho, mas ordinário” no que tange a nós homens sob o julgamento feminino, p.ex. Minha opiniãozinha: o “método científico” do Senhor nos assevera que pelos frutos nós conhecemos a árvore. Aplique-se este método à beleza de alguém, esperando alguns dias, semanas e meses: na face, a disposição das linhas simétricas ou assimétricas será fisicamente a mesma, mas a metafísica da alma não nos engará a médio e a longo (e às vezes até a curto) prazo: as moças menos bonitas nos parecerão lindas e as lindas nos parecerão menos bonitas. A virtude aformoseia o rosto, o vício enfeia. Boileau-Despréaux bem o disse: “Rien n’est beau que le vrai: le vrai seul est aimable”Nada é belo senão o verdadeiro: só o verdadeiro é amável.
  11. Se Elizabeth II pensasse um poucochinho mais na sua dinastia, estabeleceria domiciliarmente netos seus pelo menos na Austrália, no Canadá e na Nova Zelândia e, até, incentivaria que eles fossem coroados reis e rainhas destes países. A Monarquia extra-Britannia está com os dias contados e semear as terras da Commonwealth com o “blaue blut” dos Windsor é sua única tábua de salvação. Mais: e do jeito que andam as coisas pela antiga Albion, se a monarquia não exercer seu papel de Fidei Defensor, os cardos brotarão outro Cromwell para ser seu Defender of the Faith.
  12. Chegará o dia em que o Brasil carecerá dos discursos de um Winston Churchill nascido sob o Cruzeiro do Sul, com português elevado e acessível, com língua forte e elegante, com oratória ardente e sincera. A luta política e bélica que um dia vem requisitará, para nossa vitória, uma verve poderosamente fluente e épica.
  13. O mundo simples, simples de tudo, é este que quero todo dia cedinho. Sol amarelo, céu azul, árvore verde, cada coisa no seu lugar e prontinho. O mundo em que a luz não se perde entre a meia-noite e o amanhecer, o mundo que repete sua novidade, o mundo simples que vai aparecer…
  14. Um ambiente que não melhore tua alma ou que pelo menos a conserve pacificada não deve ser frequentado, a não ser que ali tu sejas o profeta. Ambientes coletivos, sobretudo, onde se adensam as forças biológicas primitivas e seus impulsos mais baixos, não farão de ninguém um ser humano feliz na plena acepção da palavra. No máximo estarás ali neutramente, feito uma garça branca no lamaçal: fazendo inspeções sociológicas, antropológicas, teológicas, espirituais… Ambientes que servem à alienação para esquecimento de problemas, inclusive, apenas adiam a prestação de contas do homem consigo mesmo. Se o lugar e aquilo que acontece no lugar não servem ao gozo do teu espírito em união com teu corpo, dá o fora!
  15. Guarda o teu coração, puro e quieto, longe da mão-espinhal que o dilacera. Guarda o teu coração, limpo e santo, próximo do coração de quem o libera.
  16. Este sentimento de ter nascido em época errada esteve (e está) incrustado no coração de todo homem que foi (e é) chamado a transformar sua época.
  17. Se é indigno dos olhos de uma criança de cinco anos, é também indigno dos teus olhos.
  18. Os sonhadores cansam os acordados com seus discursos intermináveis sobre tais e tais planos, sobre tais e tais detalhes de cada um dos seus planos. Os sonhadores são enfadonhos, mas tais enfados são a glória do mundo, glória que sempre será numa e noutra geração parida porquê definitivamente “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
  19. Todo dia faço perguntas a quem encontro por aí. Hoje, de manhãzinha, perguntei à uma moça (muito bonita, por sinal): “Por que você pensa assim?” Resposta: “Não sei”. Perguntei: “Que pensa de Filosofia?”. Resposta: “Coisa de louco!” Perguntei: “Você gosta de ler?” Resposta: “Odeio!”. Perguntei: “O quê você quer fazer da vida?” Resposta: “Ganhar dinheiro e gastar tudo”. Perguntei (a última pergunta): “Você é feliz?”. Resposta (a última resposta): “Todo final de semana, bebo e transo até esquecer toda a semana. Esta é a minha felicidade.” Este é o retrato da minha doente, fraca e triste geração. Registro, apenas.
  20. O poder humano é a teia hierarquizada dos interesses (maiores e menores) dos homens (grandes e pequenos). Decida-te a não fazer de tua alma um fio vivo nesta teia de morte e ela desabará e, então, tu não serás aranha nem inseto. Tu serás homem livre!
  21. Elias sentiu-se só. E eu, Pai, mesmo sabendo que não estou só, sinto-me só. Fala comigo e traze-me o pão e a carne. Nutre-me com a refeição eterna. Que o terremoto trema a terra do meu coração, que o vendaval tire o fôlego dos meus pulmões, que a saraiva queime minha pele, mas… que ao fim tua voz mansa e suave console meu espírito! Senhor, sabes que tenho coração ingênuo: sou como a criança que a todo dia descobre a inexistência do mito que até a pouco lhe enchia de sonhos. A solitude, Pai, é grande quando nos outros não descubro o mesmo brilho e ideal, quando o que é fugaz e de irrisório valor toma o lugar do sol dourado que resplandece esperança no meu pensamento. Senhor, Tu deste ao profeta a capa e a virtude. Tira de mim a mantinha infantil e costura sobre meus ombros o manto da Tua proteção. E, então, ainda que desabrigado sob a tempestade, ainda que sozinho a peregrinar pelo caminho estreito, dar-me-ás a força do meu pó, o alento do meu sopro, o calor do meu sangue. Senhor, toma para Ti meu eu e faze-o livre da ilusão, livre da miragem, livre da quimera: entrega meu coração à comunhão real de duas solidões. Amém.
  22. Quanto mais distante de Deus, mais sofrerá a pessoa e menos ela saberá porquê. Que deve o cristão fazer diante disto, querendo ajudar? Corrigir com amor, quando possível e oportuno; e orar, sempre e em silêncio. Apenas o Espírito Santo argumentando (e com o sofrimento redarguindo a consciência) poderá despertar o morto. Não é um trabalho humano, para ti. É um trabalho divino que, talvez, possa servir-se de ti.
  23. Se te comove, te diz respeito.
  24. Apenas o pecado desumaniza.
  25. A grande felicidade, a suma felicidade, que é passar todos os dias com a alma pacificada, com o coração pronto e aberto ao bem, com a mente acesa e penetrante, com o espírito desperto para a verdade!
  26. Quem não ama pelas qualidades, se apaixona pelos defeitos.
  27. Quem não deseja as coisas para sempre, sequer as terá momentaneamente. Ou tu pões teu coração na eternidade ou o relógio consumirá tua existência num abrir e fechar de olhos. Quem não deseja amar alguém para sempre, escrever poesia para sempre, comer a macarronada da avozinha para sempre, cantar a música preferida para sempre, enfim, fazer aquilo que de fato toca o coração para sempre, não amará verdadeiramente mesmo que queira amar de vez em quando, não rabiscará nada além de frases desconexas no WhatsApp e compartilhará citações mambembes de terceiros no Facebook, comerá miojo sabor legumes como se fosse o único macarrão do mundo, balbuciará o hit do momento no chuveiro e gritará a música do instante no show. Escolhe ser humano para sempre e Deus se encarregará de te fazer imortal.
  28. Sentir-se tolo, besta, ingênuo, simples, piegas e bobo faz parte do processo de santificação. Tu vês as coisas como elas deveriam ser se a “maçã” não tivesse sido mordida, enquanto os outros veem as coisas como se elas sempre tivessem sido assim e árvore alguma tivesse sido violada.
  29. O preço que se paga por manter a consciência no lugar é alto. É alto porquê conduz ao Alto.
  30. “Para sempre!” — minha expressão preferida.
  31. Perguntaram-me por aí, jocosamente, se eu sou um “santo”. Negativo. Sou um cara cheio de defeitos e pecados. Tenho “la sangre caliente” e melancólica da velha raça castelhana, sou teimoso feito burro empacado, rigidamente prussiano com horários e mais detalhista que mosaísta bizantino, fortemente tentado pela gula da mesa farta e pela luxúria das belle donne, etc. Provavelmente, se o Espírito Santo não tivesse me tomado desde a mais tenra infância e então não tivesse me remido na Alegria, eu seria um bon vivant niilista, dissipador e provavelmente alcoólatra à moda “Tornei-me um ébrio” (lembram da música do Vicente Celestino?). Mas, de mim, nunca poderão acusar a insinceridade, a mentira e a desonra da fala dúbia e atravessada por interesses baixos. Sou da malta publicana do “mea culpa”, não da tribo dos fariseus. Esta (a sinceridade) deve ser minha melhor e mais bem equilibrada qualidade; e é ela que, por isto, me [re]salva de todo o resto — e me faz almejar e lutar, diariamente, pela santidade.

Trecho do conto “A Carta Que Se Perdeu” [13.9.2007]

Não te entenderão quando amares. Os tempos são maus para quem ama. Eles entendem a paixão, porquê ela é patológica, é passional como uma hiena ferida que não morre e que, sedenta, suplica incessantemente por vinho impuro pela morfina. Não entendem o amor, porquê ele é são, é sadio como um leão dormindo e sonhando às margens silenciosas de fonte fresca. E se tu amares a quem apenas por ti puder se apaixonar? Tu te adoentarás e compartilharás — sem dela provares diretamente — dos efeitos deste mal: melancolia densa e desesperada, silêncios seguidos de gritarias, apego que arranha friamente e carícias que queimam feito saraiva, lágrimas secas engolidas por um estômago jejuante. E se tu amares a quem não te ama e pelo mundo todo se apaixona? Tu te adoentarás e compartilharás, provando indiretamente deste mal, dos efeitos da solidão desértica de olhar para olhos que não veem os teus, para órbitas de vazio cintilando desejo pela terra, menos pelo pó da terrinha que vivifica aí o teu peito e nele a eternidade palpita. Tu te sentirás desprezado, mas sabe disto: aqueles olhos não te veem porquê estão cegos, e o teu colírio faz arder antes de curar. Quem quer, paciente, provar da dor libertadora que traz visão ao espírito e que tanto alumia a íris da alma? E se tu amares a quem te ama? Por acaso escolhe-se a quem amar? Não. Escolhe-se por quem se apaixonar, porquê a paixão é pródiga com os defeitos: a paixão ama pacientemente no outro todos os erros, que atraem e arrastam como os olhos da Medusa e o canto das sereias; olhos e canto que, encantando, fazem do apaixonado um cadáver livre para, a qualquer momento, trocar de sepulcro, de cemitério e de coveiro. O amor, zeloso das qualidades, é que se apaixona ardentemente pelas virtudes. O amor se apaixona pelas virtudes; até pelas mínimas, até pelas ínfimas, até pelas diminutas e escondidas no mais imperceptível reduto vermelho dum coração repleto de negror. Então, o amor faz-te amar a quem não te ama e que, por isto, não merece amor. Eis o fato que é contradição, eis a realidade que excrucia. Medita nestas coisas. A paixão aliena: chama ao bem mal e ao mal bem. O amor tudo discerne: chama ao bem, bem; e ao mal, mal. E se tu te apaixonares, assim loucamente? Não! Enquanto mantiveres bem guardado este teu coração, não te apaixonarás em perdição. Se te apaixonasses, menos sofrerias, é verdade. Se fosses hiena, ririas facilmente ante qualquer facilidade. Mas, tu és leão: teu sorriso também ruge, e rugindo o mundo sorri. Tu verdadeiramente amas. E quem ama sofre no presente a medida suficiente da alegria que lhe cabe no futuro. Não te entendem, porquê amas. Tu, porém, vais além da mera cognição natural: tu tudo compreendes, e por isto amas. Amarás um dia aquela que te amar e este amor se levantará sobre os escombros dos afetos mundanos para organizar a reconstrução do mundo; e o teu amor será para os filhos de Adão e Eva o símbolo da mútua redenção entre homem e mulher, um memorial da boa parte da natureza humana. Lembra-te do sonho, lembra-te do sonho!

Dante a Beatriz, no século XXI

Um dia serás velhinha e o mundo te será, finalmente, real.
Mas da realidade do mundo, Beatriz, tu terás apenas o cinza.
Bela tola, tu serás tão feia quanto a santa Mãe de Whistler,
Mas não terás o calor da lareira familiar, do pincel familiar
Que te arranjaria em verde e amarelo a uma futura geração.
Preferiste a vergonha dos pixels anônimos e do mundo fácil,
Escolheste o fugaz que fraciona tua alma como a carne moída
Da ração dos cães que ficam no meio do caminho da reação.
Quando fores velhinha recordarás dos meus poemas gentis
E chorarás pela vida que poderia ter sido e não foi jamais.
Um dia, um dia o mundo te cobrará minha lágrima nas tuas.

Esponjas de sol — XXXI

  1. É do ar dar à luz seu altar de expansão, sem tudo perder, sem nada cobrar. Dá e ergue ao lúmen o sacrifício do vácuo: geme neste século e a eternidade é tua.
  2. Tua voz, Senhor, ouvi quando a tempestade mais forte caiu, quando trovões e raios de breu e prata luzidos desabaram, quando no jardim os lírios fizeram-se algas do grande Rio. Tua voz, Senhor, era a cantiga que fez ninar toda a Criação; era a melodia que o Bebê embalado recitava para embalar. Tua voz, Senhor, ouvi entre as flechas de energia poderosa, entre as montanhas que sobrevoavam os ares barulhentos.
  3. Luz que ascende ao espaldar de Cristo, o Rei. O inimigo foi da luz o carniceiro e o comedor, até que nos mostrou, então, o Ser seu corpo de terra…!
  4. Quem vence, ergue monumentos altissonantes para o futuro: livros, sobretudo; todas as suas gerações lerão e ouvirão seus discursos explícitos em letras bem discerníveis. As biografias de Grant no Norte. Quem perde, levanta monumentos silenciosos num presente indefinidamente estendido: estátuas, sobretudo; todas as suas gerações mirarão no centro dos jardins e praças a mudez estática do discurso implícito, o discurso do bronze que vai se tornando enigma e arte. As estátuas de Lee no Sul. No meio, entre ambos, outra categoria: o vencedor-perdedor — Lincoln.
  5. Haverá um Moisés moderno, liderando alguma nação de reis e sacerdotes na batalha contra o Globalismo do Anticristo. Parafraseio, ao avesso (e salomonicamente), Menéndez Pidal: Os feitos da História se repetem e o homem que realiza a História é sempre o mesmo.
  6. O Grande Compromisso relacional que Homem e Deus têm entre si é este: compartilhar a mesma Grande Angústia (que em ambos inverte-se no que diz respeito à “agência”). Deus tem a Sua, que é o Homem; e o Homem tem a sua, que é Deus.
  7. O cavaleiro, em régio e alvo corcel, cavalga ao som do clarim prateado. Herói, herói desta terra de mil sóis! Ainda que caia e levante arqueado, é dele a mão que aponta para o céu.
  8. Ao Brasil? Falta liturgia heróica — e cristã. Uns bons hinos marciais e processionais fariam mais pela alma e pelo intelecto do povo brasileiro que trezentos anos de qualquer pedagogia escolar universalizante atualmente praticada pelo Estado. Um “I Vow to Thee, My Country” e um “Jerusalem”, à moda nossa, na boca de meia nação, quase que por si só arribariam nosso moral diante de qualquer grande adversidade civilizacional.
  9. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim terás sempre o fogo que tu me deste: a chama que aniquila a palha e refina o ouro, dia após dia. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim não ouvirás queixumes diante da palavra reta que puseste em meu coração: hei de errar de tempo em tempo, mas querendo acertar o alvo que lá no horizonte aconselha-me “ajusta os óculos, ô rapaz!” Eu te prometo, oh minha alma, que meu proceder, ainda que comparável ao das crianças, será sempre valoroso: aos trancos e barrancos, verás que avanço pelo caminho ascendente e reto. Eu te prometo, oh minha alma, que os meus suspiros de paixão nunca haverão de expelir a pneuma divina dos meus alvéolos cerebrais: minha razão é meu sentimento e meu sentimento é minha razão. Eu te prometo, oh minha alma, que a consciência que palpita anúncios e mensagens de Deus aqui no peito, abrirá sobre os montes sua boca e sua língua dirá o necessário. Eu te prometo, oh minha alma, que teu sangue prateado não se poluirá com a covardia uréica da espécie vacilante: ser forte e corajoso é meu propósito contigo aliançado. Eu te prometo, oh minha alma, que não te trairei com vergonhas e iniquidades, que não adulterarei tua densidade eterna e imortal: os relógios do mundo não cronometrarão meus batimentos e passos. Eu te prometo, oh minha alma.
  10. Um dia, a rasidão vem cobrar seu preço. Uma pessoa oca pode ser vazia por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, dá-se de cara com a Realidade e ela, peça à peça, despe o indivíduo fútil das marcas e das grifes que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente nonsense, sem saber porquê, afinal, toda a vaidosa acumulação de roupas, de carros, de jóias e disto e daquilo, vale menos que qualquer sorriso besta daquele cristãozinho caipira e roceiro que deu um “Deus te abençoe!” junto com o pesado saco de batatas que se comprou na feira naquela semana em que a empregada precisou faltar. Uma pessoa supérflua pode ser inútil por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, o ritmo da existência corriqueira é interrompido por qualquer acontecimento (doença, acidente, falta de grana, etc) que a obriga a passar dias e dias sentada, parada, desligada do mundinho que lhe obrigava a comportar-se assim ou assado, adornada assim ou assado, teatralizando assim ou assado: a festança alienante se retira com seus fumos e sobra o ar puro da realidade que impregna a mente até esganar o coração com dúvidas — primeiro com furos nos furinhos, depois com buracos nos buraquinhos e por fim com abismos nas crateras de nada no peito, até que a pessoa berre e esbraveje contra si mesma um libertador “Putz, o que é que eu tô fazendo com a minha vida!” Um dia “cai-se em si” (queda quebradora e esparramadora de crânio) e os valores antigos começam a brotar do chão à partir daqueles pedaços de massa cinzenta da qual se foi abdicando conforme ia-se moldando à turma, à patotinha, à roda escarnecedora das amizades tão irrelevantes quanto os sapatos, quanto as bebedeiras, quanto às baladas, quanto aos camarotes, quanto às ostentações. Um dia, acorda-se (ainda jovem ou de meia-idade ou já velho) e dá-se de cara com Deus e Ele, pecado a pecado, despe o indivíduo superficial das idéias e ideologias triviais que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente blasé, sem saber porquê, afinal, tudo aquilo que dantes se prezava passou a não ter valor, a não fazer diferença, a não botar sentido no calendário. Uma pessoa nula pode ser infrutuosa por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre.
  11. O homem natural vive numa gangorra erótica: divide-se, sucessivamente, entre várias mulheres; porquê numas vê a “cavala” que lhe acende o sangue e a carne (o útil, biológicamente), e noutras enxerga a “amélia” que lhe sereniza o coração e a mente (o agradável, afetivamente). Ora deseja a paixão daquela que apenas é capaz de lhe estremecer sexualmente, ora anseia pelo amor daquela que apenas é capaz de lhe apaziguar o espírito sedento de carinho. Quando percebe isto, enfim, quando percebe que esporadicamente é vítima desta [repito] “gangorra erótica”, o homem pode libertar-se e, então, pode conscientemente escolher unir o útil ao agradável: uma só mulher, que lhe satisfaça o corpo, o espírito e a alma. Mas, leva tempo encontrá-la. Leva tempo, mas vale à pena. Leva tempo, porquê “o amor é uma longa paciência”, conforme bem poetou o velho portuga Vergílio Ferreira. O grande ideal da gangorra é equilibrarem-se seus lados — os dois lados da mesma tábua — que descem-e-sobem e, outra vez (lembra quando eras criança?), ficar com os pés suspensos e parados acima da terra, flutuando no ar, porquê ali dois pesos equivalentes transformaram a gangorra em balança…
  12. Tu finalmente saberás que definitivamente encontraste a Deus quando encontrares qualquer pessoa nesta vida e em cada uma delas sentires que reencontraste um irmão.
  13. Fui olhar pela janela porquê latiam os cães. Chovia, e os latidos se sobrepunham aos trovões. Por que cargas d’água tanto cachorro fora da casinha, e da casa, em pleno toró? Ghost riders in the sky… Eles viam o que eu não via.
  14. Sexo ilícito causa extrema irritabilidade.
  15. Entre os salvos, há uma categoria de pessoas que só consegue se afastar do pecado porquê Deus a aproxima constantemente do sofrimento. Quando se diz que “alguns vêm pelo amor e outros pela dor”, a realidade é esta mesma — e tudo vai muito além deste jargão da soteriologia gospel. Tem gente que só se acalma, que só se pacifica, que só consegue viver livre de irritações e violências, quando Deus as faz passar (esporadicamente) por determinadas dores físicas e metafísicas. Pedagogia espiritual.
  16. Ouvi hoje, por duas vezes, os dois sons mais belos que existem neste “mundão véio sem portera”: as gargalhadas de um bebê de colo e as gargalhadas de uma mulher apaixonada. Bach ou Mozart ou Handel nenhum seriam capazes de por em partitura melodias tão elevadas. Deus compõe. Deus compôs.
  17. A liberalidade de dar, de doar, é indício de desapego material. Porém, a liberalidade (que é libertação) de dar-se, de doar-se, é prova inequívoca de apego espiritual. As melhores pessoas que conheci, e que conheço, são aquelas que não apenas estendem suas mãos caridosas cheias de meios a quem precisa de ajuda; são aquelas pessoas que estendem-se com mãos, braços, pés, pernas, tronco, enfim, que com o corpo todo (então, com a alma e o espírito todos) estendem-se total e integralmente a quem necessita ser ajudado.
  18. O teu valor, oh homem, é medido pela gravidade das tuas renúncias.
  19. Tu chegas a ser o que és quando tua maior felicidade individual é… seres quem és! Quando já não quiseres parecer-te com este ou aquele, quando outros não forem para ti modelos, então, finalmente, serás o que és e sempre foste: tu serás tu mesmo, e a alegria de sê-lo te completará de gozo indizível e profundo. Grande gáudio é não querer ser outro, é não almejar ter outra vida, é em ti mesmo teres o prazer de ser — e assim é porquê tu és no Ser, porquê tu és do Ser.
  20. Dentre as três tradições cristãs, a liturgia ortodoxa é insuperavelmente a mais bela e também a mais espiritualmente solene e viva.
  21. A imagem, a alegoria. A arca que pousa sobre o Ararat é lenha para o altar de pedra, que é a própria montanha. Noé e sua mulher, seus filhos e noras, e os animais — são o sacrifício. O sol, no horizonte, é o fogo que não queima nem calcina. Ele aquece a vida que desce do altar e volta para a casa, e volta para o mundo. Sacrifício que respira a salvo o ar limpo e puro, úmido. É o sacrifício da morte, o sacrifício do sacrifício, o caminho inverso do sacrifício: o costume é subir para morrer; ali, desceu-se para viver.
  22. A paz que Deus nos dá, quando nada pedimos a Ele senão que possamos amá-Lo, supera todos os gozos deste mundo. Os presentes graciosos (Sola Gratia!) que Deus nos dá, quando renunciamos às baboseiras deste mundo, excedem nossos melhores e mais inspirados sonhos. A Ele eu sou grato por poder amá-Lo sem “contrapartidas”. A Deus eu sou grato por ganhar tudo merecendo nada. A alegria de agir com consciência livre neste mundo — sabendo como ele funciona — é a maior alegria a que pode aspirar um descendente (resgatado) de Adão.
  23. Quando tu te decidires escolher a Deus e deixares os deuses deste mundo, estes deuses passarão logo a propor-te parceria; se a rejeitares, eles te proporão coleguismo; se o rejeitares, a proposta será amizade; e se ainda esta rejeitares, os deuses propor-te-ão apaixonadíssima sociedade plena com direito a lucros e dividendos nas pilhagens físicas e metafísicas, querendo-te fazer também um deus. Então, se desta proposta também te furtares, tu serás dos deuses um inimigo capital — tu serás para eles um satanás, um satanâs para os diabolos; e, então, serás amigo de Deus; e então serás irmão e filho de Deus. Teu nome, oh Imagem-e-Semelhança, é Philotheos.
  24. Que bela esperança eu queria ter quando o vento levava a lágrima. Que bela chance de o luto conter quando toda obra era arte prima. A Civilização é um container sujo: arca de ouro custodiando merda…
  25. Luz na Babilônia ou trevas em Jerusalém. Escolhe, pois!
  26. Um rato não nasce com o coração de um leão. Se aí dentro de ti as luzes mais escondidas vez ou outra emergem e brevemente faíscam em meio à tua própria escuridão e por um instante o pulso firme da tua consciência esgana a loucura do teu pecado e tu por isto vislumbras o céu clarinho da verdade pacificando teu ser inquieto, sabe logo isto: tu tens uma vocação à grandeza verdadeira. Deixa ela ressurgir no teu peito. Deixa ela germinar no teu espírito. Deixa rugir o leão!
  27. Se tu não entendes porquê teu coração é bobo. Se tu não entendes porquê teu coração é ingênuo como o coração das crianças. E se tu não entendes porquê, ainda assim (sendo bobo e infantil), contra ele se batem toda a esperteza e toda a malícia do mundo, sabe pois isto: o teu coração é “bobo” porquê tens nele qualquer especial pureza, o teu coração é de “menino” cheirando a leite porquê tens nele algo da fé dos inocentes. Se contra o teu coração forças terríveis e poderosas raposeiramente se lançam em guerra, sabe que assim acontece porquê o Senhor te quis provar “para saber o que estava no teu coração” (Deuteronômio 8:2). Tua bobeira é tua grandeza e virtude; ela te dará a suma sabedoria! Tua criançolice é tua arquinha de salvação num mundo velhaco e adultesco à espera de outro dilúvio; ela te renderá a suma santidade!

Poesia-proseada VI

Não querer ter te conhecido, não querer ter em ti me reconhecido, não querer ter em ti um pouco de mim. É por isso que estou aborrecido, é por isso que o coração está arrefecido, é por isso que qualquer não é um sim. Nada que eu diga para a mente soará desde agora coerente. Nada que eu recite ao coração parecerá razão neste instante. O cansaço de caminhar na tua direção e a direção pela piscadela mudar. O cansaço de correr no caminho oposto e o rumo pela cara fechada se alterar. Não sei, juro pelos céus, se o teu enigma é querer de adulto ou desejo de criança. Não sei, juro novamente, se o teu dizer é o que é ou é o que dizem as contradições. Confusão de olhares, fusão de não sei o quê, ilusão de procederes, alienação de consciências. Tu me machucas e num segundo me curas, tu me espancas e num segundo me medicas, tu me aniquilas e num segundo me ressuscitas, tu me aguilhoas e num segundo és a própria liberdade. É loucura ou qualquer variante de folia? É razão ao extremo ou qualquer espécie de melancolia? Dize logo a tua realidade, dize logo o que é verdade, dize logo o que é saudade… Não sei se teu cumprimento é doce nos olhos ou amargo na boca, não sei se teu aceno toca a mim quando passo ou é batida de mãos para a mosca que fica, não sei como decifrar, não sei como decodificar. Menina, pára com isto. Pára enquanto eu vivo de amores por ti, enquanto os amores e os dissabores são uma mesma coisa. Até quando, eu te pergunto, até quando ficaremos os dois assim?

Dois trechos de dois contos [que não serão terminados]

O CAMINHO DA ALVORADA

Deixei que a lenha queimasse o fundo da grande panela, que o alumínio escovado perdesse de si qualquer vestígio de semelhança com a prata. Deixei mais: deixei que o cozido de carneiro fervesse até que o líquido vermelho se recolhesse ao teto da cozinha em forma de fumaça branca e até que aquilo que de massal restasse da carne e das batatas se reduzisse à cinzas da cor e do peso do borralho deitado aos pés da lenha. Deixei que os estampidos da madeira queimando se confundissem com o farfalhar do zimbreiro: o violino foi fazer companhia à lenha. O abeto, o bordo, o salgueiro e o ébano dum Stradivarius, quanto à potência para ser combustível, em nada diferem da madeira frouxa dos pequenos pinheiros. Deixei não porquê quis conscientemente deixar. Deixei porque a fúria tomou-me; a fúria com a qual me tomei de mim mesmo. Não tive fome de comida e sequer me lembrei dos seus apetrechos então já em uso na casa. Três dias nada coloquei na boca. Não tive fome de música e sequer percebi que três semanas antes, pouco depois de o sino do correio me ter interrompido a courante da Partita n.o 2 de Bach, lida a carta, eu tinha lançado o caro instrumento às chamas. Três meses se contaram até que voltei a cozinhar (ao quarto dia, passei a comer na taverna). Três calendários completos se passaram silentes até que voltei a tocar. Tu não sabes, Beatriz, o mal que me fizeste. Tua carta está, sobrevivente, comigo. No verso — bom e limpo papel usaste — compus um Agnus Dei para minhas bodas com Helena.

 

SALVAÇÃO

O pouco dinheiro que o capitão trazia no bolso era insuficiente para comprar a mais fina aliança de casamento que algum aprendiz de ourives pobretão ousasse fabricar com as sobras esfareladas de ouro que lhe caíssem da lima. Tinha apenas meia dúzia de cobres e níqueis leves, que mal davam para uma semana de sopa rala de repolho na estalagem d’Os Três Patos. Como voltar para casa sem a jóia fundamental de qualquer matrimônio? Sem a aliança, não casaria. Havia prometido à ela que voltaria herói de guerra, condecorado, e que consigo e para si traria recuperada alguma suficiente parte do ouro das igrejas do Leste que os turcos haviam pilhado quatro séculos antes. “Ah, besta quadrada de alma redonda! Eu! Por que não casaste logo com a filha loira da tua lavadeira? Foste te enamorar logo da filha trigueirinha do Senhor de Allerheiligen! Ah, besta redonda de espírito quadrado! Ela! Como darás à donzela anel competente se as tuas terras confiscaram os franceses e a grã-cruz empenhoraste para dar de comer ao cavalo?” Sentou-se à beirada do rio que os aldeões chamavam d’Os Cisnes, bem embaixo duma macieira carregada de frutos ainda verdes. Comeu três inteirinhas, em fatias, adoçando-as com o açúcar amarronzado que lhe dera em salário a idosa viúva do general seu padrinho. Dormiu a tarde toda. Sonhou que era noite e que a lua estava apenas a 91,5 metros de si (em jardas, medida antiga, quanto dá?); e que na lua, sua noiva plantava e colhia as flores preferidas num jardim cuja forma geométrica resolvia o antigo problema da quadratura do círculo. Acordou risonho. Era já noite e a lua estava bem incrustada no céu. Pensou, gritando seu eureka: “Prata, prata, prata!” Meteu a mão no alforje e dele arrancou a relíquia — uma gota do sangue do Senhor. Já à manhãzinha do domingo, derreteu o metal e, por horas a fio, porquê era prata densa e forte como o aço, deu-lhe a forma de uma aliança. Quanto à gota, guardou-a num pequeno frasco de perfume. Iria diluí-la no cálice da comunhão, sem que o ministro notasse, pouco antes da marcha nupcial.

Que pergunta, heim Luísa?

“Como julgar, de forma completa, a personalidade de uma mulher, com uma só pergunta?” Pergunta-me, justamente, uma mulher: a cara leitora Luísa Schultz. Respondo à partir do meu ponto de vista masculino. Mas… Com uma só pergunta? Impossível, heim! Bom, bem.. Difícil (e perigoso) resumir tudo numa única questão, Luísa. Arrisco, porém. Talvez esta — O que é mais bonito e preferível, num sábado noturno: um jantar sob o céu estrelado do sítio à meia-noite ou a atmosfera iluminada da cidade às três da madrugada no bar?

A pergunta tem uma perspectiva espiritual. De um lado, está o natural singelo, algo inocente e cândido; está a capacidade de aceitação das coisas conforme elas são no mundo original, está a capacidade do maravilhamento de poder viver sob o signo da realidade e também a preferência pelo mistério (algo infantil, certamente) de admirar a realidade. Este espírito bucólico de “volta à casa” numa mulher compreende em medida substancial, ao meu ver, aquilo que se poderia chamar de “aura pra casar” de uma mulher, um certo “espírito de Hera” primordial. Ela pode gostar da cidade, pode morar na cidade, mas sempre terá um apreço idealista pelo campestre. Afinal, a urbe não tem útero. É disto que falo. Se você leu “A Cidade e as Serras”, certamente me entenderá. Por outro lado, está a paixão por Mordor (lembra de Tolkien?), pela civilização maquinária de fumaças e frenesi. Se ela preferir a metrópole simplesmente porquê o cinza das multidões citadinas lhe causa o prazer do movimento e porquê a agitação anônima constantemente lhe insufla adrenalina nas artérias mentais, ela pode ser o docinho de coco mais doce da terra, mas até a beleza dela fica artificialmente afetada e certamente ela envelhecerá mais precocemente. Pode parecer firula e besteira pseudo-psicológica para quem nunca prestou atenção nisto, mas é uma verdade das mais densas. Jung talvez tenha passado perto destes dois simulacros de arquétipos que, sem querer, eu acabo propondo. Entretanto, é certo que a mulher que prefere estrelas puras tem uma personalidade diferente daquela que prefere neóns anuviados — sobretudo se por personalidade entende-se uma macro-atitude básica para com as únicas duas possibilidades de habitat [metafísico-e-físico] planetário. No meio deste caminho entre o sítio no mato e a cidade que mata, há um caminhar patologicamente degradado (no sentido de graduação mesmo: o graduar diminuído) de materialismo e misticismo, pessimismo e otimismo, niilismo e fideísmo, etc. Então, é isto: Personalidade Celeste-Telúrica e Personalidade Atmosférico-Terrena. Como alegorias, inclusive, as duas possibilidades também podem servir para uma diferenciação religiosa da personalidade. Por fim, cara Luísa, ressalto que estas duas categorias, in structura, aplicam-se também a nós homens, mas por meios e questões substancialmente diferentes, diversas e divergentes. Mas tome, cara leitora, tudo isto como besteirol e palpiteirismo de alguém que não tinha resposta melhor para dar assim tão em cima da hora.

Soneto VI

Tu te mirarás, um dia, velho ao espelho
E perguntarás se valeu à pena caminhar
Por cada terra atrás daquele livro velho,
Atrás das pegadas que indicavam o Lar.

Então, um anjo invisível te fará dormir
E de olhos cerrados verás a Jerusalém,
E, no dourado sonho, em pé acordado,
Verás tudo o que o profeta viu no véu.

Tu acordarás mais cedinho para vê-los:
Tua mulher, dormindo em paz amada,
Ao lado dos retratos dos filhos e netos.

Tu dormirás, na tardinha, para te veres:
Sonharás que estás diante dum espelho
E, refletido em prata, criança tu te verás.

Soneto V

Não te escreverei linha alguma nunca mais.
Este trabalho suadouro de rimas garimpar,
De fundir o metal dos versos e vogais limar,
Nunca mais, nunca mais sob estes meus ais.

Poesia que verte assim toda minha agrura
E que sob o manto do lirismo é tua tortura,
Nunca mais, nunca mais haverá de pagar
Com arte e louvação o desdém do teu ar.

Apenas as ricas frases para outras salvar,
Porque o elevado é anel para toda mulher
Cuja mão o coração do poeta sabe guardar.

Nunca mais, então, nunca mais o versejar.
Nunca mais o fino doce em dourada colher.
Nunca mais terás o quê às amigas mostrar.