“[…] vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.”

Estava assistindo a um vídeo no Youtube. Josemaría Escrivá fazendo uma bonita preleção. Calhou de ele citar Colossenses 3:3 em latim. Vamos lá. As nuances semânticas do texto latino são muito mais ricas que as traduções portuguesas e, graças à erudição de Jerônimo de Estridão, elas captam integralmente o grego koiné autorial. Em português, a totalidade de significados do texto quer dizer isto: “A vida real-e-verdadeira de vocês está seguramente escondida [e custodiada: guardada com zelo] com Cristo-em-Deus.” Vejam que precisamos nos valer de muito mais palavras para expressar o significado que o texto paulino latinizado revela com apenas oito. Adiante. Fala-se de vida como consciência agente e qualificada diante da Realidade. A conotação é de privacidade e segredo, como que falando da vida do cristão em similitude com um jardim fechado (logo, trata-se de uma vida interior), fazendo desta um “Éden” particularíssimo onde Deus vem passear às tardinhas e onde acontecem diálogos diretos circunscritos apenas a Ele e ao fiel. Diá-logos, em verdade, que nossa consciência pode receber como brados altissonantes ou sussurros, mas que recebe advindos deste cenáculo íntimo — por isto, trata-se efetivamente de vida intra-muros. Esta vida escondida (sem conotações de refúgio, note-se) revela uma suspensão de si-no-mundo através de uma elevação dual (de consciência, primeiramente, e ação, secundariamente) de si-em-si-mesmo. Esta vida escondida é o “eu essencial” em comunicação permanente conosco-no-dia-a-dia porque em comunicação constante com-Deus-o-tempo-todo, é a dinâmica do que se é sendo verdadeiramente um “eu” — o eu profundo com o qual Deus dialoga tête-à-tête e que, vedado o acesso do Mundo, só pode única e efetivamente comunicar-se com Ele. Nada que ver, portanto, com oração, que é um processo mais superficial e cuja autoria iniciadora é humana.  Este “jardim” (que é a “vita abscondita”; chamemo-la, pois, assim de jardim), pode ou não ser ocupado pelo homem e por Deus: (I) quando o homem solitariamente o ocupa, há o vazio (vacuum); (II) quando nem homem e nem Deus o ocupam, há o nada (nihil). O primeiro é, mais gravemente, um estado intelectual e sentimental no qual o homem se instala como seu próprio anthropo-theos, como seu deus humano que apenas consigo mesmo conversa, mas donde retira significação (falsa); o segundo, é estado mental e emocional derivado de completo distanciamento de significados, é a oquidão na qual o próprio ser humano deixa de ser para si um interlocutor ontológico, sequer capaz de fala cognoscível auto-denotativa. Para o cristão salvo, contudo, este jardim está sempre por si e pelo Senhor ocupado. E é nesta “pequena ágora de dois” (quero com isto dizer que há um processo dialético promovido em nosso espírito pelo Senhor) que nossa vida de bonanças e desassossegos espirituais flui sob as intervenções dEle, a fim de produzir a metanoia do novo homem, do homem nascido de novo. Colossenses 3:3 é, neste sentido, complementado pelo versículo 21 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas: “Eis que o Reino de Deus está dentro de vós”[…] ecce enim regnum Dei intra vos est.” Belo, não? Tudo isto para dizer o seguinte: devemos permitir a fluência desde diálogo com Deus desde o âmago de nosso ser, porque rios de águas vivas correm da fonte que refresca o centro deste jardim, donde o Senhor concede ouvir Seus mistérios. Bom domingo e abençoada semana a todos!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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