Versos livres — I: Sansão e Dalila

O teu sorriso era [já não é] uma espiral de docidão,
Como se de uma linha à outra nos lábios repousassem
As curvas das galáxias, feitas da cera e do mel da primeira colmeia.
Então meu paladar se aguçava,
Então o cálice da ceia dos amantes
Se contentava com a água fresca da mina da roça.
O teu sorriso que me abalava o âmago e os ossos,
Que me alterava a temperatura como se febril no Saara eu sonhasse,
Que me acometia de risos e gargalhadas de expectação divina e infantil…
O teu sorriso deixou de ser, como as nuvens abandonam a pareidolia
Quando o vento vândalo e realista é mais forte que a brisa artista.
O teu sorriso era para mim um chamado ao silêncio devocional,
Uma convocação do arauto das alegrias amenas,
Um toque de clarim real ouvido apenas pelo espantalho do milharal.
Então, as formigas vieram e carregaram cada gota de mel
E as vespas desfizeram os favos hexagonais de luz e carne.
Então, cá eu contemplo a linha reta de tua expressão:
Inerte e muda, inerte e muda como uma estátua de sal.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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