Três trechos do conto “O Domingo Eterno”

(I) Deixa estar tudo o que não deve ser, como o barquinho de papel no mar. Sopra com teu fôlego puro e consciente esta nau de velas douradas — teu último poema.  Sopra dobrinhas na água para que se vá em silêncio e o papel se desmanche longe dos teus olhos. Deixa estar tudo o que não pode ser, como estas rimas tão preciosas, estas palavras tão bem arranjadas no papel que se umedece, que se rompe, que se desfaz.

(II) Helena me dizia que as maçãs-do-amor do parque eram as melhores, que elas tinham uma doçura equilibrada, um paladar harmonioso. Helena me dizia estas coisas, estas coisas de sabor e talvez de amor, enquanto se deliciava com a fruta macia guardada na casca de açúcar. Minha alegria nestes dias (que eram noites) era vê-la comendo-as. Helena me dizia que quando comia sozinha sentia-se sem apetite e mal, que todo o sabor dependia não da mão abençoada da cozinheira, mas da minha companhia e da alegria dos meus olhos em vê-la comendo.

(III) Tomei minhas duas filhas pelas mãos e girei-as no meio do jardim, onde ficava a fonte. Ester e Rebeca riam e sorriam e gargalhavam como se os céus tivessem concentrado toda a alegria do cosmos naqueles giros, como se o próprio Deus tivesse arrancado um poucochinho do girar dos astros e concedido às minhas mãos o ímpeto dos planetas, agora desacelerados. Girei-as leve e rapidamente, girei-as como se a gravidade estivesse suspensa e apenas as almas das minhas duas pequenas flutuassem sobre o canteiro de rosas de minha mãe, sua avó.  Agora, que lembro disto… Agora, olho fixamente para os olhos destas minhas duas já também avós e da outra que veio mais tarde e para os olhos de meus dois filhos que vieram ainda mais tarde, como que mirando as estrelas que ninguém mais viu depois que a espada passou a guardar não só a terra, mas também o céu delimitado pelos muros do Éden. Já posso ir em paz.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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