Trecho do conto “A Carta Que Se Perdeu” [13.9.2007]

Não te entenderão quando amares. Os tempos são maus para quem ama. Eles entendem a paixão, porquê ela é patológica, é passional como uma hiena ferida que não morre e que, sedenta, suplica incessantemente por vinho impuro pela morfina. Não entendem o amor, porquê ele é são, é sadio como um leão dormindo e sonhando às margens silenciosas de fonte fresca. E se tu amares a quem apenas por ti puder se apaixonar? Tu te adoentarás e compartilharás — sem dela provares diretamente — dos efeitos deste mal: melancolia densa e desesperada, silêncios seguidos de gritarias, apego que arranha friamente e carícias que queimam feito saraiva, lágrimas secas engolidas por um estômago jejuante. E se tu amares a quem não te ama e pelo mundo todo se apaixona? Tu te adoentarás e compartilharás, provando indiretamente deste mal, dos efeitos da solidão desértica de olhar para olhos que não veem os teus, para órbitas de vazio cintilando desejo pela terra, menos pelo pó da terrinha que vivifica aí o teu peito e nele a eternidade palpita. Tu te sentirás desprezado, mas sabe disto: aqueles olhos não te veem porquê estão cegos, e o teu colírio faz arder antes de curar. Quem quer, paciente, provar da dor libertadora que traz visão ao espírito e que tanto alumia a íris da alma? E se tu amares a quem te ama? Por acaso escolhe-se a quem amar? Não. Escolhe-se por quem se apaixonar, porquê a paixão é pródiga com os defeitos: a paixão ama pacientemente no outro todos os erros, que atraem e arrastam como os olhos da Medusa e o canto das sereias; olhos e canto que, encantando, fazem do apaixonado um cadáver livre para, a qualquer momento, trocar de sepulcro, de cemitério e de coveiro. O amor, zeloso das qualidades, é que se apaixona ardentemente pelas virtudes. O amor se apaixona pelas virtudes; até pelas mínimas, até pelas ínfimas, até pelas diminutas e escondidas no mais imperceptível reduto vermelho dum coração repleto de negror. Então, o amor faz-te amar a quem não te ama e que, por isto, não merece amor. Eis o fato que é contradição, eis a realidade que excrucia. Medita nestas coisas. A paixão aliena: chama ao bem mal e ao mal bem. O amor tudo discerne: chama ao bem, bem; e ao mal, mal. E se tu te apaixonares, assim loucamente? Não! Enquanto mantiveres bem guardado este teu coração, não te apaixonarás em perdição. Se te apaixonasses, menos sofrerias, é verdade. Se fosses hiena, ririas facilmente ante qualquer facilidade. Mas, tu és leão: teu sorriso também ruge, e rugindo o mundo sorri. Tu verdadeiramente amas. E quem ama sofre no presente a medida suficiente da alegria que lhe cabe no futuro. Não te entendem, porquê amas. Tu, porém, vais além da mera cognição natural: tu tudo compreendes, e por isto amas. Amarás um dia aquela que te amar e este amor se levantará sobre os escombros dos afetos mundanos para organizar a reconstrução do mundo; e o teu amor será para os filhos de Adão e Eva o símbolo da mútua redenção entre homem e mulher, um memorial da boa parte da natureza humana. Lembra-te do sonho, lembra-te do sonho!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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