Pindorama: uma “Cidade de Deus”?

“E muitas nações passarão por esta cidade, e dirá cada um ao seu próximo: Por que procedeu o Senhor assim com esta grande cidade?”(Jeremias 22:8)
A cidade é, talvez, o mais antigo “agrupamento orgânico” humano depois da família, cellula mater (et sacra!) de toda e qualquer sociedade que entronque no patriarca Adão. Desde a Antigüidade nas vetustas porém “civilizadíssimas” Pólis gregas ou ainda dentre os agigantados muros milenares da palestina Jericó, e desde os “obscuros” tempos feudais com os nascentes Burgus da Idade Média, passando pelas importantes e imponentes urbes que imergiram juntamente com os “vapores” da Revolução Industrial, até alcançar o mundo pós-moderno, com suas muralhas de aço e concreto e seus soberbos arranha-céus à moda Babel, a cidade é, sem dúvida, o “ponto maior”, enfim, o ápice da confluência do que seja viver em grupo, ou seja, de fazer atuar o “ser social” humano entre seus pares; atuar, então, em sociedade. As abelhas têm suas colméias, as formigas seus formigueiros, e outros tantos seres da Animália têm lá suas colônias e “ninhos” coletivos; todavia, os humanos, têm cidades.
O grande Santo Agostinho, legitimamente alcunhado o “Abençoado” pelos nossos irmãos ortodoxos, em sua monumental obra “A Cidade de Deus”, dividiu o mundo entre o terreno e o celeste, o imanente dos homens e o espiritual transcendente, e assim, de certa forma, assinalou a confluência e a ligação, inevitáveis, entre ambas. A cidade do homem e a de Deus, que é o Reino dos Céus do qual fala o Santo Evangelho, acabam, pois, se encontrando “nel mezzo del cammin di nostra vita”, como cantou Dante Alighieri. Apesar de naturalmente distintas, elas se interligam; interligam-se na medida em que a humana depende da divina para que prospere e, assim, seja plenamente fecunda.
Ora, a Sião Celeste não carece de sólidos alicerces e espessos muros torreados para defender-se, não necessita de hordas de funcionários e burocratas bem como de departamentos de água e esgoto para dar-lhe funcionamento, não possui indústrias, comércio e Terceiro Setor, não conhece a carestia e a lancinante seca, a crônica falta de empregos, o aumento vertiginoso de tributação e impostos de renda, os gigantescos engarrafamentos de trânsito, o acúmulo de lixo e as enchentes, não conhece moradores de rua, fome e mendicância. Já as cidades do homem, a tudo conhecem e de tudo isso “dependem.” Estão todas cheias do melhor e do pior, suas estruturas avultam em contradições, suas ruas abrigam as gargalhadas dos prósperos e o choro mudo dos pedintes.
Cidades surgiram e se apagaram com o nascer e o morrer das civilizações. Com razão, pois, dizia Sêneca que um século forma as cidades e basta apenas uma hora para destruí-las. Num dia qualquer, ensolarado, eram ricas e altivas; noutro, tempestuoso, estavam enterradas por milenares e pesadas camadas de pó e areia. Retumbaram em glória e em orgulho para, algum tempo depois, serem destruídas e exterminadas do mapa e, quiçá um dia – com alguma sorte –, terem seus esqueletos de pedra e entulhos encontrados por arqueólogos, mas sem moradores, sem citadinos, sem vida, em ruínas…! De borbulhantes centros de poder a quietos sítios arqueológicos, diversão para acadêmicos de gabinete. Por isso, diz com correção o Salmo 127, em seu versículo 1, que Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”
Consideremos, então, que se a santa Cidade da Paz, Jerusalém, foi pesadamente saqueada pelos babilônicos, diabólicamente profanada por Antíoco Epifânio, secamente pisada pelas legiões romanas e, por fim, quantas e tantas vezes seu povo foi deportado e se viu preso por ferros e guilhões!, que se fará das demais povoações, tão menos espirituais e paupérrimamente cegas? Não ruíram Tróia, Nínive, Cartago, Tebas, Constantinopla e a Roma imperial? Terão, ao acaso, melhor destino Nova Iorque, Pequim, Londres, Tóquio e São Paulo? Pois, lhes digo, se a Cidade de Deus não imperar na humana, “non relinquetur lapis super lapidem qui non destruatur.” (Vulgata, Marcos 13:2)
Ora, que se fará então da nossa pequena Pindorama?: uma cidade que se deixa submeter masoquisticamente aos caprichos e desmandos de uma classe política tão mercenária quanto insípida, vergonhosamente controlada por meia dúzia de impudicos vereadores, corruptos até à medula, que se crêem “coronéis” à época da República Velha; uma terra que se deixa arrastar abatida pelos tortuosos caminhos do marasmo e do ócio e prefere calar a lutar, engolir “a seco” o brado há muito intalado a profetizar contra males já antigos; um município que não se levanta e não se põe à altura do luciferiano agressor quando é afrontado e que opta pelo “laissez faire, laissez aller, laissez passer” quando seus melhores cidadãos – seus filhos! – são alijados de toda dignidade e mandados à fogueira quando a inocência e a convicação da verdade neles faz-se óbvia!; um povo que virou preguiçosamente suas costas para o Eterno, tal como Israel com saudades do Egito da servidão, preferindo regalar-se na servidão do pecado e das potências corpóreas. Pindorama não é, hoje, uma “Cidade de Deus.” É, antes, uma principiante aprendiz de Sodoma e Gomorra, é uma das menores e medíocres afilhadas da Babilônia. A Sião Celeste já não é seu modelo; aliás, talvez nunca tenha sido; e se o foi, nunca por completo, nunca com a séria sinceridade do pecador arrependido, a seriedade do publicano da parábola do Cristo…
Porém, como diz-se popularmente, “nem tudo está perdido.” A exemplo dos valorosos sete mil escolhidos de Jeová que não se dobraram em indigna reverência ao deus Baal, conforme enuncia o livro de 1º Reis, no qual Elias cria-se solitário ante a prostituta e pseudo-profetiza Jezabel, ainda se conservam fiéis à decência alguns poucos pindoramenses; pindoramenses realmente dignos do adjetivo pátrio. Enquanto a maioria dorme, eles velam pela ética; enquanto alguns entram pobres na rica Pindorama e saem ricos da pobre Pindorama, eles denunciam os roubos, os mandos, os demandos, e clamam, como Habacuque, por justiça. Justiça que não exige nenhuma recompensa, nenhum pagamento. E, como costumo dizer, é mais glorioso vencermos nossos inimigos pela justiça do que pelas armas.
E ainda, no corrido relógio da vida, sobeja algum tempo para Pindorama mudar! E, pelo que claramente se vê, a desejada mudança começou; tímida, mas começou. Ventos melhores sopram, ventos por um futuro melhor, ventos de revolução. Doravante, os pindoramenses caminharão, em passos fortes e largos, para que a “Terra das Palmeiras” seja, integralmente, uma “Cidade de Deus”, na qual impere o evangélico valor do amor ao próximo e do constante zelo público.
Ai de ti, Pindorama!
“E dirão: Porque deixaram a aliança do Senhor seu Deus, e se inclinaram diante de outros deuses, e os serviram.” (Idem, 22:9)
O Prof. Dayher Giménez é historiador e filósofo
(artigo publicano no jornal “Notícia de Pindorama” de 5 de novembro de 2011)

Sonho de anjo


Menina, eu te vi dormindo…

e quieto e manso

sentei-me ao lado

a perscrutar o que acontecia

neste sono leve

e despreocupado

no qual dormem os santos.

Talvez sonhavas

com os bosques

forrados de folhas douradas

na qual pisavam

os nossos cavalos

e sobre as quais comíamos

as tortas da avó

ranzinza, a tua

avó que cheirava à canela.

O relógio pedia

mais um tempo

antes de voltar-me ao sol

gelado do Brasil

e deixar-te só

nestas neves flamejantes

da Germânia.

Pela primeira

vez o sono de um serafim

algum mortal

pôde sondar

sem o receio de fulminado

ser diluído

no Eterno

e acabar extinto sem alma

pelo atrevimento

d’olhar para o céu

destes teus olhos cerrados

como o Éden,

aquele jardim

proibido a nós pecadores.

Sonhavas sim!

E ousei sentir

que afinal o sereno sorriso

que carregavas

deitada em si

lá estava ao sonhar comigo.

Único e último




Antes do adeus na voz e no aceno

quero deixar-te um único poema.

Não vou versar tua beleza austera

de face angulosa como os cristais

de neve cinzas e azuis, teus olhos.

D’tua boca ficará a ferida na minha

e algo do mel e do fel como sabor.

Daquelas cartas que quieto escrevi

sobrarão os envelopes e os selos

e os papéis e as palavras não ditas.

Do louro cabelo da tua raça alemã

dois ou três fios acham-se por aí.

Mas, chega!, que amar à distância

é querer que uma vela oriental

no Ocidente fulgure como farol!

A mente mente.

Tudo o que o se pensa
se prende na despensa
do cérebro.

Conexões como redes
e pensamentos
como peixes pescados.

Dúvidas como luzes
e respostas
como túneis escuros.

Consciência e
iconsciência,
subconsciência:

mas nelas não há ciência.

A memória é um quadro
negro cheio de rabiscos
de um velho analfabeto.

Não são hieróglifos
a serem desvendados.

Não há padrão alfabético
nas coisas da psiquê.

E a mente mente
mentiras esquecidas
nas quais ainda
se acredita.

O Tempo

O tempo é um velho sem memória,
é um embrião cheio de consciência.

O tempo não existe.
O tempo pré-existe.

Como a água não é o líquido,
mas a sede,
o tempo não é o relógio,
não é o meu calendário,
não é a nossa História.

É o que fica no pó,
é o que sobra do vivido
e do sentido
até o dia do coração parar.

É a vontade de perpertuar.

O tempo é o sereno da noite
evaporado antes do meio-dia.

É a menor distância
entre dois pontos,
mas nunca é linha reta.