O Caminho Antigo

Um caminho antigo
Cortou a velha rodovia moderna de concreto.
Paralelepípedos caíram do céu:
Reta estrada de semi-lapidada pedra.
O sol derreteu todo o piche
E sob a erosão do tempo futuro
Deixou terra nua o lastro da via.
O caminho antigo,
Venerado comum pelos antigos caminhantes,
Arqueologia moral para os corredores
Do atalho moderno.
Apenas o caminho é radicular,
Porque ao seu largo as árvores respiram.
Apenas o caminho é frondoso,
Porque ao seu largo a sombra refresca.
Apenas o caminho alimenta,
Porque o pomo de ouro cai pelo caminho.

Se mai continga che ‘l poema sacro

Se nós fôssemos as pedras que se escondem no lago,
A profundidade das poças humanas não nos afligiria.
Um grão de areia no fundo do oceano talvez eu seja,
Um grão da Atlântida entre a poeira dos dinossauros.
Nada além dos suspiros antigos,
Nada aquém dos espirros novos.
Alguns homens tornam-se granito quando lhes vêem
As multidões — cheias da febre-idolatria de fazer deus.
Outros, como eu, preferem na sanguinolência do ser
Tornar o espírito risonho como aquela estátua alada,
A estátua que ainda respira novidade,
A estátua que ainda inspira antiguidade.

Soneto I

Às posses vis do ouro e da prata
Oponho a guarda da ciência vital.
Vós não sabeis que mais refulge
O conhecimento que o vil metal?

As Trinta Moedas que hoje são?
Sequer pó de argêntea feição…
Entesoura antes a vida urgente,
Cada segundo em ti esvaente.

Todo o bem do mundo enfermo
Presto abandona o rico túmulo:
À campa fria vai o verme glutão.

Toda riqueza inscrita em cara ata
Tem por companhia relés ladrão.
Vês o pergaminho e o livro? Efatá!

Enfrentamento

Quando a dor em ti implantar a ilusão da fuga,
Quando o piccolo soar o hino preferido de vovô,
[Tu talvez te perderás na encruzilhada da noite]
Quando o silêncio absoluto sussurrar “É Deus!”

Não te deixes enganar pelo clarão do anjo mal,
Porque as estrelas mais brancas caem na noite
Sob o movimentar delicado dos dedos do Filho.

Não percebes que o percurso da fuga é torto
Como aquelas linhas desenhadas pelos índios?
Rasgarás então as vestes da mulher de Potifar?

Quando os lírios mais velhos caírem mortos
E toda a justiça sucumbir à faca do ditador,
[Tu talvez te encontrarás entre os soldados],
Nada restará senão a dor do amor de Deus…

Fragmento

Trecho do conto “O Eu que não foi”, que não tenho tempo para começar nem para terminar de escrever:

O ambiente cinza e branco contrastava com seus olhos avermelhados e chorosos. Era o frio que irrigava com sangue quente a feição desesperada daquela semente mal brotada de humanidade. A neve fazia-lhe termicamente insensível, porque a agitação daquilo que sentia no alto-por-dentro de si, dentro da cabeça na qual dava de três em três segundos soquinhos ritmados, impedia-lhe de sentir o que quer que agitasse fisicamente o lado de fora, o mundo de fora. O mundo de dentro, incompreensível para si porque era si mesmo como um eco inverso-e-interno da própria voz, apocalipsava seu ser desfragmentado. Decidido a não mais sofrer com esta fala que era sua mas que também não era sua, decidido a não ter dentro de si os grunhidos organizados que entendiam o mundo mas que não existiam na lista de grunhidos padronizados da tribo, tomou fôlego, andou algumas dezenas de passos para trás e, tomando ainda um gole final de ar, virou-se brusca e rapidamente e correu reto feito o lobo que admirava, mas despencou letárgico como o falcão que odiava; correu e pulando para o alto e — como não tinha asas e como não queria ter asas — caiu para baixo. Sua última memória com fala-altissonante-para-dentro-e-silenciosa-para-fora foi para a fêmea de olhos claros como o céu da noitinha, aquela que jogara nas brasas a carne do primeiro urso que abatera quando sua barba ainda não tinha fios cor de gelo batido. Era um neanderthal. Suicidara-se o primeiro e o último indivíduo daquela espécie. Se as chamas da fogueira o impeliram para o fora e o além da caverna, as sombras horizontais do sol o impeliram para o aquém de um abismo vertical. A existência morreu quando deu de cara com a vida.

As Quatro Estações com ela

Vuelvo a saber en ti cómo germino…
O olivastro da pele e o castanho dos olhos,
Se querem florescer, floresçam nestes olhos.
Seda para os lençóis, miragem para a alma.
O lírio desabrochado é o ninho do lenhador.

Omnia sol temperat purus et subtilis…
Os negros cabelos de odalisca faiscando,
Se querem refrescar, refresquem esta pele.
Veludo para as noites, véu para os dias.
O trigal cor de carvão é o sol do minerador.

Apegada a mis brazos como una enredadera…
Os lábios vermelhos de delícias adocicadas,
Se querem frutificar, frutifiquem nesta boca.
Folhas de relva madura, sábia temperatura.
A romã farta de paz é o banquete do caçador.

Si puer cum puellula moraretur in cellula…
O corpo puro e nu entre lãs e peles aquecido,
Se quer repousar, repouse neste corpo agora.
Alcova de carne quente, sono impermanente.
A cornucópia de Vênus é o alvo do governador.

Apocalipsis [letra de música]

Cuando llorar el último hijo,
Los cielos caerán tranquilos
Y las florecitas del campo
Se irán nel volcán dormir.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Cuando llorar la última hija,
La tierra subirá al empíreo
Y las hojas de blanca naranja
Se irán ante Dios descansar.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Chamado à Contemplação — I

  1. Aquilo que tu crês que te farias louco se te pusesses a completamente investigá-lo: esta aí o caminho da tua sanidade. O novelo confuso da Eternidade tu desenrolarás quando puxares o primeiro fio quilométrico e não desistires té que o caminho do Início finalmente encontres.
  2. Olhar para o céu faz parte da rotina de quem não se deixou perder na rotina. Quem ainda levanta, segundinhos a fio, os olhos para o azul clarinho raiado dum amarelo serenado da manhã; quem ainda olha para o alto ricocheteando água gelada nos dias e noites de tempestade e encara sem temor o céu acinzentado; quem olha para o céu não perdeu a esperança de “num abrir e fechar de olhos”, quando Ele permitir, rasgar com braços de carne refulgente os ares e os ares anuviados que guardam a entrada invisível daqueloutro Céu.
  3. Nos olhos da tua amada, homem fiel, tu verás o assombro de Maria quando Gabriel lhe cantou “Ave, agraciada”. Diga à pombinha de tu’alma, diga à amante que dorme no teu coração aninhada: Eu te amo!

As três fases etárias do Amor

[Rascunho escrito há dois anos e reencontrado há dois minutos]

Somos crianças lançadas no mundo. Espécies de anjos com biologia semi-latente. De repente, nós vemos uma alma de carne-e-osso, de vestidinho azul e laço da mesma cor aliançando cabelos mais negros que os olhos do cosmos, mais negros que a malva, mais negros que aqueles “cabelos mais negros que a asa da graúna” de Iracema. Nós vemos o leite acanelado que lhe serve de pele e o sorriso de serafim mais ou menos acordado ao meio-dia. Eis uma menina! A gente cai prostrado como um búfalo do Serengeti que teve o coração atravessado pela lança prateada do cupido. Há nisso veneração a ideais: conhecemos Platão antes de lê-lo quando, crianças, nós nos apaixonamos pela amiguinha no Primário ou pela neta da vizinha. O amor é platônico porque não vai além dos rudimentos do próprio pensamento: Adãozinho encontrou metafisicamente Evinha. Nós somos menino e ela é menina. O corpo age porque o espírito o incita. O amor é nesta idade altamente simbólico e liricamente poético para o corpo: “borboletas no estômago”, “calafrios na espinha”, “mãos suando bicas”, “pés sapateando sem parar”…  Quase tudo é espírito dos 5 aos 10 anos. Duo des fleurs! Este estado acaba. Acaba e não volta mais, felizmente (porque incompleto e, por isso, menos perfeito). Idéias celestialmente sentidas.

O corpo se esparrama com força, se “espicha”. Nossos membros e nossos órgãos crescem em direção ao mundo físico para efetivamente poderem tocar no Mundo e nele laborarem a obra humana. Nós somos moleques e elas são garotas e pouco depois nós somos moços e elas são moças: somos adolescentes e jovens. Reúno as duas fases num mesmo “movimento” porque, salvo nas pessoas mais conscientes, é difícil perceber a passagem de uma etapa para outra (que, sim, não são ficções etário-psicológicas). Não tão de repente, a gente repara que o cabelo escuro é agora um cabelão preto e que a pele menos branca é na verdade morena. O vocabulário, perceberam?, muda quando tentamos definir aquela que nos atrai, afinal, já não é a beleza em si que atrai, mas a beleza que está depositada nela (na moça) e é nela e com ela uma coisa só. O macho encontra fisicamente a fêmea. Quase tudo é movido pela potência física dos 10 aos 20 anos. Na moça nós discernimos mais os traços, mais as curvas, mais a carne que a envolve — nós arrancamos o laço dos cabelos e queremos que o vestido encurte. Até no sorriso delas nós enxergamos um je ne sais quoi sexual: o apelo do nosso ser é sobrepujantemente afeito ao esplendor da matéria. O corpo age porque ele mesmo se excita. Emoções terrenamente experimentadas com um pouquinho de idéias celestialmente sentidas (o erótico fareja em si mesmo a ramela permanente de ideal). Para a maioria, a coisa estaciona aqui: estão misturados no coração a testosterona que nos chacoalha e o pensamento que nos aquieta.

O equilíbrio chega depois dos 20 anos. Quando se tem um cérebro em razoável funcionamento qualitativo, a alma põe-se nesta fase (a última) a harmonizar corpo a espírito. O fulgor do espírito faz-se um com o calor do corpo. O sentimento fruente de beleza funde-se ao pensamento entendente da beleza: “ela é linda como um serafim quando sorri, ah, quero beijá-la para sempre!”; “seus cabelos… seus cabelos negros feito carvão, ah, quero passar minhas noites debaixo deles!”; “sua pele de ninfa cheira a rosa, ah, quero tocá-la e respirá-la toda!” O homem finalmente encontra a mulher. A razão, enfim, ordena as coisas. Nós estamos, outra vez, no Éden, sentindo a vacuidade que Adão sentia antes de Eva; mas, nós a sanamos fazendo justamente o que fazia Adão com Eva depois que se descobriram nus, um para o outro, no planeta pós-pecado.  A nossa totalidade espírito-alma-e-corpo (a unidade, a pessoa, o sujeito) vai se completar com a totalidade dela. É a época do “Siempre que te pregunto / Que, cuándo, cómo y donde / Tú siempre me respondes / Quizás, Quizás, Quizás.” É o tempo venturoso em que há “jogos de amor”, jogos em que o que de jovem há em nós usufrui o que de criança há em nós: somos adultos, pois. O mistério e o transcendente estão entrelaçados com o evidente e o imanente: o céu e a terra estão unidos “até que a morte os separe.” Para uma pequena minoria, o deleite (o prazer de cima e o prazer de baixo) apenas começou.

Aos passos, aos passos

“…sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.”

O perdão que o mortal dá ao mortal
É aquele copo de água fresca e pura
Que em forma de oásis
O deserto a si mesmo oferece:
é o gole que cura.
Não sabes, tu que és morrente,
Que refrescas os lábios do sedento
E que a alma ferida de tudo se alivia
Quando tu a fazes verter doçura?
Põe tua mão sobre a fronte inimiga,
Roga aos céus por sua conversão.
Espera, espera e gotejará a oração.