Os Sete Pecados Capitais [poeminha catequético]

Gula
A meia-noite é um meio-dia.
Almoçar e jantar, que alegria!
Mesa farta e um’alargada pia
Me empanzinam de sal & cia.

Avareza
Contando cada cobre e lata
Para trocar por níquel novo.
Café sem mingau nem ovo
Para não fazer pedir o povo.

Luxúria
Ai, a donzela que nada no lago
Vai pra sempre me tirar o sono!
E se nada assim a ver-se, corno
Acabo antes já do fim do ano.

Ira
Fogo pelos olhos e pela língua.
Acúleo de boca e pensamento.
O fígado pinga ácido ferimento
Té matar no espírito o lamento.

Inveja
O gordo olho do velho magro
Examina todo o porco assado.
A íris é boca que mastiga tudo:
O alho, o ouro, o verde prado.

Preguiça
Está tão molhada esta chuva
E tão seco este sol caloroso,
Que o leito é… mais deleitoso
E o capinar proceder ruinoso.

Soberba
Eu é que sou tudo e vós sois nada!
Não notastes esta superioridade,
Tão óbvia quanto a notoriedade
Da fama sobre a anônima verdade?

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 3 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

VII. Sobre a alma de uma mulher. Já percebestes, nas manhãs frias, como embaça o espelho quando o calor mais-ou-menos do chuveiro atinge sua superfície de prata e, por mais que o material seja por si mesmo intrinsicamente apto a refletir tua imagem, ele não a mostra e mesmo só a demonstra quando passas as mãos sobre o vidro dando cabo da fina penugem cinzo-aquosa que o recobre? A mulher que amas é um espelho em embaçamento. O calor: é o relacionamento. É aquilo que está entre tu e ela mas não é tu ou ela: é o meio, é o caminho, é o que vem e o que vai entre tu e ela fundindo-os sem confundi-los. O calor deve ser forte o suficiente. Quando as coisas embaçarem, embaçarão porque o calor é pouco. Quando a temperatura da água não supera a temperatura do ambiente, tudo se nivela em anuviamento vaporoso. Então, quando já nos olhos dela não mais distinguires a ti mesmo e sobrar apenas um pouco discernível vulto de sombras irreflexas, é hora de acaricia-la não só com tuas mãos (coisa importante, anota); é momento de acaricia-la com o teu ser completo, de passar as mãos nela — naquela alma — com aquilo que em ti (ou seja, tu integralmente sendo o que és) fez com que ela te refletisse por completo. O amor feminino reside nesta constância: sempre que tu não te veres nela, na tua mulher, não é porque o espelho não funciona. É porque o teu calor mediocremente não superou o frio do lugar e, morno, apagou-te no espelho.

VIII. Nunca deixes chorar sozinha a mulher que amas. Por que tu permitirias que qualquer coisa arrancasse dela lágrimas em solidão? Se o mundo cai em trevas, é teu dever proteger (com o preço da tua vida) a única chama — a pequenina chaminha — que permanece acesa. Ela é a tua candeia. Aprende a enxugar lagrimas com Bob Marley: “No woman, no cry…” Seja o choro de tristeza ou de alegria, de ira ou de ternura sentimental ou mesmo motivado por qualquer outra emoção capaz de fazer nela aflorar estas gotas salgadas que põem o teu coração na mão, esteja por perto. Esteja ali, pertinho. Não, não te é necessário discursar palavras sensatas, conselhos de ocasião ou amenidades complacentes. Não, não te é necessário abrir a boca para demonstrar a ela e ao mundo que o dom da fala acompanha tua língua. Se possível, nada dize. Senta próximo, a um canto, e mira-a com aquela mesma atenção que tinhas quando miravas a bicicleta desejada na vitrine da loja da cidade grande. Mais: mira-a como se, outra vez, pela primeira vez a tivesses visto. Mira-a, dizendo sem falar, que não chore… O choro daquela que amas, meu caro aprendiz, tem a potência do choro que chorou Eva e do choro que chorou a Virgem Maria: ele comove a natureza animália (já vistes os cachorrinhos domésticos como ficam quando veem a pessoa querida aos prantos?), comove a natureza divina (lembras de como as lágrimas de Ana refizeram a interpretação do espírito profético de Eli?) e poderosamente comove a natureza humana (todos poderão parar para enxergar a tua mulher que chora, mas apenas tu és capaz de limpar-lhe os olhos).

IX. Deves saber “cair fora” — desistir e não insistir. Do não acatamento deste conselho procedem toda sorte de desilusões incuradas, traumas crônicos e obsessões capazes de fazer da tua existência amorosa um inferno terreno. Sebo nas canelas!, se são incompatíveis os valores, os projetos, os futuros e, sobretudo, os quereres acerca dos valores, dos projetos e dos futuros. Há, como diria São Paulo, um “jugo desigual” a desnivelar-vos — tu e ela? Pernas pra que te quero! Na mesma medida: quando uma mulher não quer, ela não quer. Se ela sutilmente finge que não quer, ela apenas diz de boca que não e, de certa forma, diz que quer mas diz que antes de consumar o querer tu deves pontualmente se “adequar” nisto ou naquilo. Por isso, se ela realmente finge que não quer, ela certamente dissimulará o “não” que sai da boca com um olhar mais languido, com um sorriso mais acanhado entre os dentes, com um tom de voz que paira entre a ironia e o dengo. Trata-se de um “sim” falsamente tímido, via de regra. Entretanto, quando uma mulher efetivamente não quer, desde logo tal decisão fica clara como água de fonte polar: uma mulher quando não quer, não quer totalmente; não há frestas na muralha dos seus olhos, não há fenda na armadura da sua boca, não há vácuo no silêncio da sua voz. Vai-te embora, oh rapaz! Poupa-te de vergonha e vexação, de tristeza à toa, de choramingos inférteis. Sê homem e admite logo que — por incompatibilidade ou por rejeição — o caso é um caso perdido.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 2 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

IV. Quando te atraíres por uma mulher a ponto de tua pulsação voltar aos batimentos do primário ou dalguma taquicardia anterior, segura-te imediatamente no chão! Gasta pelo menos duas ou três semanas (ou um mês ou muito mais se necessário) a observá-la antes de propores seriedades. Mira os gestos e os gostos, as falas e os dizeres e, principalmente, com o que ela sorri, com o que ela ri, com o que ela gargalha. No humor da mulher reside densa parcela da sua alma. Observa-a e anota-a nos teus pensamentos. Aquieta os sentimentos, então. Observa de perto e de longe, como os ornitólogos põem os olhos nas aves raras do Tibet: com reverência profundamente religiosa e ao mesmo tempo com habilidosa curiosidade científica — com coração e cérebro calibrados. Se ires logo “pra cima”, não verás o que necessitas imperiosamente ver: ela como é na rotina, no dia-a-dia, na normalidade do tempo ordinário. Quando uma mulher sabe que tu a cativas, enfim, quando tu demonstras explicitamente tua atenção e intenção, ela assume outros ares — os ares da amante deliciosa e da amorosa penitente. Espia calmamente, porque nenhuma mulher é assim tão “mobile qual piuma al vento.”

V. Não é assim tão indispensável recordar datas se tanto amares a ponto de constantemente surgirem novas datas, que no calendário do amor efetivo acabarão sendo uma só coisa: o fato de que se ama no tempo. O “primeiro isto”, o “primeiro isso” e o “primeiro aquilo” só muito ficarão marcados na afetividade relacional de uma mulher se tu não te esforçares para sobrepujares cada acontecimento com outro de intensidade tão elevada quanto. Por que a primeira música do encontro deveria ser assim tão superior em importância à música que se ouviu (e comoveu) na rádio chiada do interior durante uma viagem na madrugada domingueira ou tão superior a música que vier embalar as idosas Bodas de Diamante? Apenas há tal hierarquia de datas importantes quando a relação vive de recordações e lembranças memoráveis do passado que não conseguem se manter no presente. A medíocre necessidade de decorares dias, meses e anos sob as naturais exigências (sim, a mulher detém este direito) dela, demonstra que tu não conseguiste fazê-la tão plena de datas que ela mesma não teria memória para guarda-las todas.

VI. Presentes são quase nada. Presença é quase tudo. Porque, nota bem, a presença implica em livremente presentear. Não: nada que ver com por sempre a mão na carteira e dispender somas vultosas com coisas caras e capazes de levares à falência até tuas miseras moedinhas engavetadas. Caro, para uma mulher, é o carinho. São singelos os presentes capazes de encantar uma mulher. E é o encantamento dela teu alvo. Mulher não é cara. Mulher é valorosa. Já experimentaste escrever-lhe versinhos nem que à moda “batatinha quando nasce”? Valem mais que sapatos, experimenta! Já roubaste no roseiral da vizinhança a mais vistosa flor e arrancando cada espinho com teus dedos (feridos, of course, mas que ditosos ferimentos!)? Valem sentimentalmente mais que os diamantes azulados vendidos pela Graff londrina. Estar ao lado dela dando o que se pode dar, dando o que se quer efetivamente dar, sendo a si mesmo o melhor que se pode dar é o ápice da conjugação do verbo presentear num namoro, num noivado, num casamento. A tua letra no papel e os teus versos bestas no papel valem mais que um soneto de Shakespeare; não porque sejam os teus rabiscos literários mais valiosos que as rimas preciosas do bardo, mas porque são teus para ela. A flor irisada do jardim de Dona Manuela vale mais que um estojo aveludado recém-saído do cofre; não porque os quilates custem na bolsa de valores menos que aquelas vistosas pétalas que em um dia já murcham, mas porque são tuas para ela.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 1 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

I. Quando amares uma mulher, tu não deves apenas amá-la com seu presente e (suporta esta realidade com varonilidade!) não deves amá-la no presente se o futuro estiver comprometido pelo presente. Tu certamente sofrerias em vão e estragarias uma existência mais prazerosa à ela e a ti mesmo. Não sejas sadomasoquista. Quando amares uma mulher, tu deves amar também aquilo que no coração dela brotará no porvir — porque hoje é já semeado: os desejos, os valores, os projetos, enfim, os movimentos todos em direção à comunhão de corpos, de espíritos e de almas que é um casamento. É preciso que saibas discernir o quanto o “hoje-fazendo” abalará o “amanhã-a-fazer” que será o “ontem-feito”. Tua paixão atual será tua desilusão vindoura se não souberes conter o ardor dos teus sentimentos com o “balde d’água fria” dos teus pensamentos.

II. Não escrevas poesia em bilhetes, nem em e-mails e muito menos em mensagens de WhatsApp. Escreve, como o Michel Temer, cartas; escreve os poemas que dedicares a ela em cartas bem feitas. Afinal, cartas são coisas que não se consomem nos bolsos com os outros papeizinhos e tickets, nem que com um “delet” vão à lixeira ou com uma passada no “touch” do celular se consomem no nimbo virtual. Escreve em cartas e escreve com teu mais refinado esmero para que, à primeira briga, ela olhe para aquele pedaço de papel (tão cheio de ti e tão cheio dela) e perceba que, se o rasgar em mil pedacinhos como ela quer, estará rasgando carne sanguinolenta, a carne sanguinolenta e humana dos dois corações ora brigões. Até porque (e há nisto uma pontinha de orgulho literário e moral), tu quererás certamente que teus filhos e netos e bisnetos e teus descendentes todos ponham os olhos naquilo e digam “é assim que tem que ser!”

III. Seja gentil e cala a boca diante da brabeza dela. Mas, seja tão gentil a ponto de tudo dizer apenas… calando a boca. A mulher quando irada/raivosa/revoltada/furiosa/encolerizada/ fala muito e compulsivamente querendo atrair não a reação adequada ou inadequada das tuas palavras, como que convidando a um diálogo (coisa para dois, sabes disso, não é?). Ela quer, a valer, é a tua atenção: atenção que concorde ou discorde através do teu olhar aprovante ou desaprovante, mas atenção sincera, atenção que não seja um mudo “piloto automático” de inércia física e metafísica, atenção refletida e silenciosa que atenda à necessidade dela de desabafar o que bem entender na tua cara. Se quiseres argumentar e “discutir a relação”, perderás a oportunidade mais do que gostosa de admirar o movimento ensandecido dos lábios de uma mulher quando ela demonstra amor fingindo ódio. Cala a boca, energúmeno!

A Realidade

Está aí o mundo, doloroso como a lágrima do mendigo,
Prostrado diante do balde em que vomitam os demônios.
A realidade plausível dos alardes e dos moribundos acena
Para a criança parida agora a pouco aos pés da prostituta.
Que me direis quando algum profeta falar em esperança?

Está aí o mundo, venturoso como a lágrima do amante,
Em pé, altivo em sua dignidade, diante do cálice dos anjos.
A realidade caminhante dos clarins e dos viventes saúda
O menino nascido agora a pouco no seio de uma virgem.
Que me direis quando o próprio Deus falar em esperança?

Soneto II

Invoca o farfalhar das folhas no inverno
Como quem escuta a sinfonia inacabada.
Alinha-te para ser visto na alta mansarda,
Alinha-te para que tenha sentido o terno.

O fraque, os leques, as mesas arrotadas,
O tabaco, os cristais, os cochichos mudos,
O pote de doce, os garfos, as facas afiadas,
O vinho do porto, os canapés, os carteados.

Está tudo ali, nas mesas da festa mundana:
O mundo feito mapa, em carne desenhado.
Melhor seria voltar ao campo e caminhar!

Melhor seria — porque é inverno — dormir;
Dormir e sonhar com as folhas que caíam
Quando Adão e Eva sonhavam-se no jardim.

Esponjas de sol – XXVI

772. A inteligência humana se limita a si mesma quando as certezas — positivas ou negativas — são demasiada e abarcantemente obsessivas. Quem muito (e em quase tudo) crê, pouco sabe. Quem pouco (e em quase nada) crê, pouco sabe.

773. O que na vida vale à pena, diziam nossos avós, passa por nós como oportunidade uma só vez: é o “cavalo encilhado” que não passa duas vezes. Se não pulamos sobre o corcel e o cavalgamos com energia, passam logo atrás seus potros e pangarés degenerados de mesmo caminho-e-linha; e nalgum deles nós tomamos destino: surge a oportunidade de ser rei dalgum estado nacional nascente e, se não tomares para ti a coroa, acabarás chefe de medíocre partido interiorano ou mesmo o “rei do frango frito” de Pitangueiras. Está ali, porém, o mesmo “destino equídeo”: governar sobre alguma coisa — nobre, insonsa ou vil. Surge a oportunidade de amares a mais elevada e importante (ao menos certamente para ti) mulher entre as mulheres: se não a amares, acabarás amando a mais esperta trigueirinha de toda a paróquia ou a amante do amante da amante do senador fulano-de-tal. Surge a oportunidade de, tendo talento para a pintura, te matriculares na mais prestigiosa academia de artes dalguma capital europeia: se não vais tomar lições com os mestres consagrados, tornar-te-ás retratista nalgum gueto suburbano asiático ou pintarás com desvelo os rodapés dalgum burguês abastado quando este quiser reproduzir no seu triplex soteropolitano o teto da Capela Sistina. O que na vida vale à pela, digo para ser também avô, passa como oportunidade uma só vez.

774. O que quero e desejo, respectivamente, é entender a compreensão e compreender o entendimento. Tal é o meu “sagrado graal” em matéria de Cognição.

775. Se um medo te atormenta, cuida para que ele não povoe teus sonhos. O medo nada é senão teu pavor; um pavor que pode abastecer de narrações as tuas noites. Mas se tu enredas fortemente tal temor no teu espírito, mas se tu o energizas com a potência criadora dos teus sonhos (e pesadelos…), há sempre a possibilidade de estares ou profetizando teu futuro viandante ou, à força da tua capacidade mental, recriando realmente o medo abstrato no theátron do mundo concreto.

776. Quando o mundo acabar, não acabará. / Não pode ter fim se não teve começo, / Não pode findar se não pôde respirar. / O mundo que acabará é só a semente / Que apodrecerá para a árvore brotar.

777. Quem mais chega a compreender uma língua, aproximando-se do Verbo por detrás dos verbos, é também aquele que mais percebe o quão pouco o significado verdadeiro das palavras tem a ver com o pseudo-significado venial e ordinário do dia-a-dia. A linguagem é a base da vida mística.

778. Saul e Saulo — benjamitas: o primeiro, odiou Davi e morreu[-se] em seu ódio; o segundo, odiou o Filho de Davi e renasceu em Seu amor.

779. Para um gênio (ou um sábio-fazedor), a vida é uma caminhada de fim de tarde na aldeia que se faz com a força despendida numa maratona metropolitana. É uma “blitzglatt” — um relâmpago suave. É como se o tempo fosse outro: um gêiser escoando para cima como um fio d’água de goteira para baixo.

780. O coração do homem sincero se encontra sempre entre o céu e a terra, entre a santidade e o pecado, entre a luz e a escuridão, entre Deus e o eu (não o diabo, que é um “atravessador existencial”). Há uma dialética tremenda puxando a alma do homem consciente ora para o pico da montanha ora para o fundo do abismo. É como estar, ao mesmo tempo, amando uma mulher e apaixonado por outra. Trata-se de uma duplicidade inerente à constituição mesma da nossa natureza, que nos alinha a pensamentos e sentimentos auto-dúplices de mesmo fulgor atrativo, de mesmo fervor passional e de mesmo penhor desejante. Perguntaram-me o que é tentação na vida cristã. É isto.

781. O artificial só auxilia a beleza quando “anima” aquilo que é natural. Mulheres cá das plagas facebookeanas, escutem-me: a opinião que vocês fazem comumente do nosso gosto (o gosto masculino) acerca de vocês mesmas é excepcionalmente distorcida e quase sempre não corresponde à realidade. A gente prefere as coisas como são (sem muitos rebocos da cosmética e plástisquismos). Vocês podem e até devem se adornar, mas o adorno — de quaisquer ordens estéticas — é e sempre será subsidiário, no máximo “micro-auxiliar”. Vocês é que nos agradam, nãos o barangandãs que vocês põem sob ou sobre a carne.

782. A nossa triste geração é aquela que consegue passar horas a fio no WhatsApp, mas que é incapaz de orar um singelo Pai-Nosso à hora de deitar-se porque já “está muito cansada”. Vai tudo muito mal…

783. A inteligência engessa a ciência quando é ingênua perante a ligeireza da intuição.

784. O que é, nesta vida, um mal entendido? Talvez mastigar isopor como  se pipoca sem sal fosse? Eu me engano quando chamo um urubu de “meu lôro” ou quando não distinguo o canto do canário do canto do curió? É mal entendido ouvir um “não, nunca!” na medida de um [meu] inconsciente  “não nunca!”?

785. No centro da clareira a fogueira ilumina mais?

786. Quem percebe um grão de sal na sobremesa e um grão de açúcar no prato principal? Só na receita…

787. Mestre, que é um homem errante?
É um homem que erra, aprendiz.

788. Grande crueldade: chamar de vagabundo a um homem cansado.

789. Com o coração numa mão, que se pode fazer com a outra? Libertá-la jogando seu carregamento no mar ou afagar este seu precioso depósito?

O Caminho Antigo

Um caminho antigo
Cortou a velha rodovia moderna de concreto.
Paralelepípedos caíram do céu:
Reta estrada de semi-lapidada pedra.
O sol derreteu todo o piche
E sob a erosão do tempo futuro
Deixou terra nua o lastro da via.
O caminho antigo,
Venerado comum pelos antigos caminhantes,
Arqueologia moral para os corredores
Do atalho moderno.
Apenas o caminho é radicular,
Porque ao seu largo as árvores respiram.
Apenas o caminho é frondoso,
Porque ao seu largo a sombra refresca.
Apenas o caminho alimenta,
Porque o pomo de ouro cai pelo caminho.

Se mai continga che ‘l poema sacro

Se nós fôssemos as pedras que se escondem no lago,
A profundidade das poças humanas não nos afligiria.
Um grão de areia no fundo do oceano talvez eu seja,
Um grão da Atlântida entre a poeira dos dinossauros.
Nada além dos suspiros antigos,
Nada aquém dos espirros novos.
Alguns homens tornam-se granito quando lhes vêem
As multidões — cheias da febre-idolatria de fazer deus.
Outros, como eu, preferem na sanguinolência do ser
Tornar o espírito risonho como aquela estátua alada,
A estátua que ainda respira novidade,
A estátua que ainda inspira antiguidade.

Soneto I

Às posses vis do ouro e da prata
Oponho a guarda da ciência vital.
Vós não sabeis que mais refulge
O conhecimento que o vil metal?

As Trinta Moedas que hoje são?
Sequer pó de argêntea feição…
Entesoura antes a vida urgente,
Cada segundo em ti esvaente.

Todo o bem do mundo enfermo
Presto abandona o rico túmulo:
À campa fria vai o verme glutão.

Toda riqueza inscrita em cara ata
Tem por companhia relés ladrão.
Vês o pergaminho e o livro? Efatá!

Enfrentamento

Quando a dor em ti implantar a ilusão da fuga,
Quando o piccolo soar o hino preferido de vovô,
[Tu talvez te perderás na encruzilhada da noite]
Quando o silêncio absoluto sussurrar “É Deus!”

Não te deixes enganar pelo clarão do anjo mal,
Porque as estrelas mais brancas caem na noite
Sob o movimentar delicado dos dedos do Filho.

Não percebes que o percurso da fuga é torto
Como aquelas linhas desenhadas pelos índios?
Rasgarás então as vestes da mulher de Potifar?

Quando os lírios mais velhos caírem mortos
E toda a justiça sucumbir à faca do ditador,
[Tu talvez te encontrarás entre os soldados],
Nada restará senão a dor do amor de Deus…

Fragmento

Trecho do conto “O Eu que não foi”, que não tenho tempo para começar nem para terminar de escrever:

O ambiente cinza e branco contrastava com seus olhos avermelhados e chorosos. Era o frio que irrigava com sangue quente a feição desesperada daquela semente mal brotada de humanidade. A neve fazia-lhe termicamente insensível, porque a agitação daquilo que sentia no alto-por-dentro de si, dentro da cabeça na qual dava de três em três segundos soquinhos ritmados, impedia-lhe de sentir o que quer que agitasse fisicamente o lado de fora, o mundo de fora. O mundo de dentro, incompreensível para si porque era si mesmo como um eco inverso-e-interno da própria voz, apocalipsava seu ser desfragmentado. Decidido a não mais sofrer com esta fala que era sua mas que também não era sua, decidido a não ter dentro de si os grunhidos organizados que entendiam o mundo mas que não existiam na lista de grunhidos padronizados da tribo, tomou fôlego, andou algumas dezenas de passos para trás e, tomando ainda um gole final de ar, virou-se brusca e rapidamente e correu reto feito o lobo que admirava, mas despencou letárgico como o falcão que odiava; correu e pulando para o alto e — como não tinha asas e como não queria ter asas — caiu para baixo. Sua última memória com fala-altissonante-para-dentro-e-silenciosa-para-fora foi para a fêmea de olhos claros como o céu da noitinha, aquela que jogara nas brasas a carne do primeiro urso que abatera quando sua barba ainda não tinha fios cor de gelo batido. Era um neanderthal. Suicidara-se o primeiro e o último indivíduo daquela espécie. Se as chamas da fogueira o impeliram para o fora e o além da caverna, as sombras horizontais do sol o impeliram para o aquém de um abismo vertical. A existência morreu quando deu de cara com a vida.

As Quatro Estações com ela

Vuelvo a saber en ti cómo germino…
O olivastro da pele e o castanho dos olhos,
Se querem florescer, floresçam nestes olhos.
Seda para os lençóis, miragem para a alma.
O lírio desabrochado é o ninho do lenhador.

Omnia sol temperat purus et subtilis…
Os negros cabelos de odalisca faiscando,
Se querem refrescar, refresquem esta pele.
Veludo para as noites, véu para os dias.
O trigal cor de carvão é o sol do minerador.

Apegada a mis brazos como una enredadera…
Os lábios vermelhos de delícias adocicadas,
Se querem frutificar, frutifiquem nesta boca.
Folhas de relva madura, sábia temperatura.
A romã farta de paz é o banquete do caçador.

Si puer cum puellula moraretur in cellula…
O corpo puro e nu entre lãs e peles aquecido,
Se quer repousar, repouse neste corpo agora.
Alcova de carne quente, sono impermanente.
A cornucópia de Vênus é o alvo do governador.

Apocalipsis [letra de música]

Cuando llorar el último hijo,
Los cielos caerán tranquilos
Y las florecitas del campo
Se irán nel volcán dormir.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Cuando llorar la última hija,
La tierra subirá al empíreo
Y las hojas de blanca naranja
Se irán ante Dios descansar.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Chamado à Contemplação — I

  1. Aquilo que tu crês que te farias louco se te pusesses a completamente investigá-lo: esta aí o caminho da tua sanidade. O novelo confuso da Eternidade tu desenrolarás quando puxares o primeiro fio quilométrico e não desistires té que o caminho do Início finalmente encontres.
  2. Olhar para o céu faz parte da rotina de quem não se deixou perder na rotina. Quem ainda levanta, segundinhos a fio, os olhos para o azul clarinho raiado dum amarelo serenado da manhã; quem ainda olha para o alto ricocheteando água gelada nos dias e noites de tempestade e encara sem temor o céu acinzentado; quem olha para o céu não perdeu a esperança de “num abrir e fechar de olhos”, quando Ele permitir, rasgar com braços de carne refulgente os ares e os ares anuviados que guardam a entrada invisível daqueloutro Céu.
  3. Nos olhos da tua amada, homem fiel, tu verás o assombro de Maria quando Gabriel lhe cantou “Ave, agraciada”. Diga à pombinha de tu’alma, diga à amante que dorme no teu coração aninhada: Eu te amo!

As três fases etárias do Amor

[Rascunho escrito há dois anos e reencontrado há dois minutos]

Somos crianças lançadas no mundo. Espécies de anjos com biologia semi-latente. De repente, nós vemos uma alma de carne-e-osso, de vestidinho azul e laço da mesma cor aliançando cabelos mais negros que os olhos do cosmos, mais negros que a malva, mais negros que aqueles “cabelos mais negros que a asa da graúna” de Iracema. Nós vemos o leite acanelado que lhe serve de pele e o sorriso de serafim mais ou menos acordado ao meio-dia. Eis uma menina! A gente cai prostrado como um búfalo do Serengeti que teve o coração atravessado pela lança prateada do cupido. Há nisso veneração a ideais: conhecemos Platão antes de lê-lo quando, crianças, nós nos apaixonamos pela amiguinha no Primário ou pela neta da vizinha. O amor é platônico porque não vai além dos rudimentos do próprio pensamento: Adãozinho encontrou metafisicamente Evinha. Nós somos menino e ela é menina. O corpo age porque o espírito o incita. O amor é nesta idade altamente simbólico e liricamente poético para o corpo: “borboletas no estômago”, “calafrios na espinha”, “mãos suando bicas”, “pés sapateando sem parar”…  Quase tudo é espírito dos 5 aos 10 anos. Duo des fleurs! Este estado acaba. Acaba e não volta mais, felizmente (porque incompleto e, por isso, menos perfeito). Idéias celestialmente sentidas.

O corpo se esparrama com força, se “espicha”. Nossos membros e nossos órgãos crescem em direção ao mundo físico para efetivamente poderem tocar no Mundo e nele laborarem a obra humana. Nós somos moleques e elas são garotas e pouco depois nós somos moços e elas são moças: somos adolescentes e jovens. Reúno as duas fases num mesmo “movimento” porque, salvo nas pessoas mais conscientes, é difícil perceber a passagem de uma etapa para outra (que, sim, não são ficções etário-psicológicas). Não tão de repente, a gente repara que o cabelo escuro é agora um cabelão preto e que a pele menos branca é na verdade morena. O vocabulário, perceberam?, muda quando tentamos definir aquela que nos atrai, afinal, já não é a beleza em si que atrai, mas a beleza que está depositada nela (na moça) e é nela e com ela uma coisa só. O macho encontra fisicamente a fêmea. Quase tudo é movido pela potência física dos 10 aos 20 anos. Na moça nós discernimos mais os traços, mais as curvas, mais a carne que a envolve — nós arrancamos o laço dos cabelos e queremos que o vestido encurte. Até no sorriso delas nós enxergamos um je ne sais quoi sexual: o apelo do nosso ser é sobrepujantemente afeito ao esplendor da matéria. O corpo age porque ele mesmo se excita. Emoções terrenamente experimentadas com um pouquinho de idéias celestialmente sentidas (o erótico fareja em si mesmo a ramela permanente de ideal). Para a maioria, a coisa estaciona aqui: estão misturados no coração a testosterona que nos chacoalha e o pensamento que nos aquieta.

O equilíbrio chega depois dos 20 anos. Quando se tem um cérebro em razoável funcionamento qualitativo, a alma põe-se nesta fase (a última) a harmonizar corpo a espírito. O fulgor do espírito faz-se um com o calor do corpo. O sentimento fruente de beleza funde-se ao pensamento entendente da beleza: “ela é linda como um serafim quando sorri, ah, quero beijá-la para sempre!”; “seus cabelos… seus cabelos negros feito carvão, ah, quero passar minhas noites debaixo deles!”; “sua pele de ninfa cheira a rosa, ah, quero tocá-la e respirá-la toda!” O homem finalmente encontra a mulher. A razão, enfim, ordena as coisas. Nós estamos, outra vez, no Éden, sentindo a vacuidade que Adão sentia antes de Eva; mas, nós a sanamos fazendo justamente o que fazia Adão com Eva depois que se descobriram nus, um para o outro, no planeta pós-pecado.  A nossa totalidade espírito-alma-e-corpo (a unidade, a pessoa, o sujeito) vai se completar com a totalidade dela. É a época do “Siempre que te pregunto / Que, cuándo, cómo y donde / Tú siempre me respondes / Quizás, Quizás, Quizás.” É o tempo venturoso em que há “jogos de amor”, jogos em que o que de jovem há em nós usufrui o que de criança há em nós: somos adultos, pois. O mistério e o transcendente estão entrelaçados com o evidente e o imanente: o céu e a terra estão unidos “até que a morte os separe.” Para uma pequena minoria, o deleite (o prazer de cima e o prazer de baixo) apenas começou.

Aos passos, aos passos

“…sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.”

O perdão que o mortal dá ao mortal
É aquele copo de água fresca e pura
Que em forma de oásis
O deserto a si mesmo oferece:
é o gole que cura.
Não sabes, tu que és morrente,
Que refrescas os lábios do sedento
E que a alma ferida de tudo se alivia
Quando tu a fazes verter doçura?
Põe tua mão sobre a fronte inimiga,
Roga aos céus por sua conversão.
Espera, espera e gotejará a oração.

Moisés e a Sarça

No campo branco as estrelas não têm brilho. São solzinhos como as fagulhas de pele que vemos suspensas quando a luz serenada da manhã rompe através das frestas da tenda. E eu aqui, diante do fogaréu que arde sem consumir o manázeiro, mesmo que seja a hora das trevas mais densas, pareço estar no lugar do escaravelho dorminhoco que acordou com o clarão da fogueira que construíram sobre sua toca.

Está ali em algum lugar, entre a labareda azul e a chama amarela, entre a flama vermelha e a língua violeta; está ali o ponto de branco puro, de branco que não é branco porque transcende o branco. Está ali aquela pedra intangível, aquela gema não física, aquela inlapidada rocha de eternidade. Ou não? Não, não é mineral. Brilha como o cristal do cetro do príncipe meu primo; contudo, é jóia para fulgurar na fronte de algum deus. É uma Voz Consciente.

El chama dentre as chamas. Arde o Eu no coração. Escutei, levantei o cajado e feri as folhas e os galhos: brotou óleo. Os deuses todos são apenas um? Um para terra, amor, céu, estrelas, árvores, animais, vinho, festas, guerra e tudo e o todo? O plural é um… O plural que é três — porque é alto de espírito, porque é profundo de alma, porque é largo sem corpo — é uno. Do centro da queima, as palavras dizem-me que é, que existe, que se torna, que se mostra.

Deitei no campo branco. A escuridão da mente embaçada pela poesia que estalava no lume cedeu lugar à visão de três grandes triângulos de pedra moendo doze feixes de trigo. O som do fazimento de farinha em meio ao deserto de areia lívia, o cântico chiado da arrastação de cubos de granito por esqueletos empoeirados. Choveu óleo sobre minha cabeça. Tenho que descer à terra onde os pastores são odiados, para libertar as ovelhas de Quem planeja ser o que somos!

Diário em Midgard — XIV

Dois ares se aproximam da ilha. Do Ocidente, o frio soprado; do Oriente, o calor inspirado. Duas massas que contrastam na temperatura, mas que sobre Penglai — este é o nome da ilha — concentram-se como brisa de alta primavera. Sinto, porém, as (poucas) diferenças nos extremos. De um lado, é mais deleitoso cochilar com um livro nas mãos. De outro, lançar-se às águas e correr feito menino na praia; de um, a reflexão confortável, sem suores; de outro, a ação que desacomoda e molha. Num lado o vinho está sempre frio no cálice; no outro o chá permanece mais tempo aquecido na xícara.

Leio racionalmente o Livro Prateado que me emprestou ontem o Regente de Hy-Brasil. Um ensinamento para amanhã: “A liberdade de um indivíduo na sociedade não deve estar subordinada a qualquer poder legislativo que não aquele estabelecido pelo consentimento na comunidade nem sob o domínio de qualquer vontade ou restrição de qualquer lei, a não ser aquele promulgado por tal legislativo conforme o crédito que lhe foi confiado.”

Leio idealmente o Pergaminho Dourado que me emprestou anteontem o Príncipe de Utopia. Um ensinamento para depois de amanhã: “Todos os homens são meus filhos. O que desejo para meus filhos, e desejo seu bem-estar e felicidade neste mundo e no vindouro, é o que desejo para todos os homens. Tu não entendes até que ponto este desejo, e se alguns de vós entendeis, não entendem a magnitude de meu desejo.” 

Teologia de um menino de cinco anos

Esconde o mundo
no sótão celeste,
onde a abóbada resplandecente
custodia o reflexo do sem fundo
no baú da avozinha,
na mala do avozinho.

“Poets do not go mad;
but chess-players do.”

A graça final está
em que o sangue vertido
suave volverá
ao imolado sacrifício,
gota a gota, gota a gota:
luz após carmesim.

התפוח לא נופל רחוק מהעץ

Israel, trigo dourado que colhido satisfará o amansado leão.
Vinho cujo sabor mistura no escarlate o carneiro e o Jordão.

Pensa, Esther, querida, que no horizonte do teu reto jejum
se aquecem os recém-nascidos filhos de Raquel sorridente.
Pensa, Jacó, meu pai, que no teu manquejar de imprudente
jovem se eleva, em fundação altiva, o torreão de Jerusum.

A listra de alva cor que o sacerdote embandeirou no alto,
a faixa de nuvem diurna que pela manhã adornou a estrela:
Jerusalém, terra de meus pais esquecidos, no céu a janela
que o profeta em sonhos contou transforma o sol em vulto.

Israel, oliveira que da raiz enterrada goteja o óleo de Arão.
Mel das montanhas inacessíveis no cálice do leite de Sião.

O aguilhão enferrujou-se no Sangue…

O bebêzinho, filho de Mariinha e Seu Zé,  já nasceu chagado: no útero, já estavam pregadas as mãozinhas e os pesinhos, já estavam lacerados o dorsinho e as costinhas, já estavam feridas a testinha e a moleirinha, já estava cortado o ladinho com o pulmãozinho vertendo água pura. Deus foi concebido e nasceu morrendo entre os homens: sofreu até no sorriso mais cândido de criança. Tudo isto para nos libertar da “virose” da Morte. Tudo isto para nos por no reto caminho da eternidade que se espreguiça diante do relógio. Tudo isto para nossa alegria sem fim aqui e agora (na resignação santa diante dos infortúnios) e para nossa felicidade sem fim no porvir permanente dos olhos enxugados. Esta é a mensagem da Páscoa: a morte que parece vencer por algum tempinho, mas que logo fugitivamente se escandaliza com o fulgor dos mil sóis da Ressurreição. Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!

Lenta Alegria [letra de música]

Para a melodia adaptada de “Printre Miei”

Não se aquece o louco que Te encara.
Está sem nada, sequer um nome tem;
um enfigurado de Tua face.
Falta calor e leite.
Está com desejo de um outro parto.
Mas nesta vida está o deserto que mana
esperança na escuridão da miséria.
Te encontro, oh Rei que alumia o breu.
Me entreguei à tua tocha, fogo de paz.
No palato não há palavra que extrai verdade;
Nua está a língua decepada diante de Ti.
Tanto esperei à sombra da tua Cruz
que me escorei na vida enfim.

Me levanto, oh Criador,
rendendo-te o hino:
há um cálice de vinho aqui! (3 bis)

Três definições

Dança Folclórica Armênia: Organismo de lírica pulsão levitatória, fileira de densa suavidade marcial, tamborins abuzinados ao amanhecer com cântico ósseo-espiritual, pés que assumem a assunção do espírito, colorida primavera de passos sob o Ararat, Ocidente e Oriente feitos uma só carne ondulante sobre a relva. Pés, calcanhares, pernas e joelhos que “vêm” como as cabras montesas. 

Hino da Índia: Cinco milênios de silêncio desencantados do vazio que resolveram assoviar uma marcha militar, castas de notas sobrepostas à si mesmas quando o cadáver sinfônico de um deus persiste vivendo nas árias, qualquer coisa entre a gana de jejuar consoantes imanentes e a mania de assoprar vogais transcendentes. 

Pinturas Rupestres: Cuspes acatarrados da mais pura tintura jamais feita por mãos humanas quando primevamente o cérebro vislumbrou dentro de si versões do que é e está fora de si, digitais riscando linhas adedadas de simulação da realidade pouco depois de geneticamente a imagem se borrar com suas próprias semelhanças. 

Resumo da semana

Domingo: churrasco em família e culto.

Segunda-feira: Não queiras com teu cérebro florescer no Céu. Nada há nos teus chispados neurônios senão véu. O Jardineiro colherá o que plantou na luz do breu. É mistério, toma-o com o desjejum de todo dia; é mistério — aproveita dele o sabor de café e alegria.

Terça-feira: As teclas do piano que dedilhou Chopin ainda menino eram feitas do marfim de um elefante que ouvia o piar da coruja e fechava os olhos, que ouvia o balançar noturno das folhas da amarula e dormia melhor, que ouvia o efeito da lua sobre a selva e aquietava-se ante o predador, que ouvia o choro e o lamento dos elefantes diante do cadáver real e marchava até o rio.

Quarta-feira: A heráldica japonesa, ultra-simbólica há milênios, regurgita uma densa elegância e simples complexidade de tal forma eterno-minimalista, que o nosso design ocidental apenas começou a chegar-lhe aos escabelos do tracejado na década de 30 do século passado.

Quinta-feira: Melhor uma devassa Madalena enjoada do trigo gorduroso de Jericó que uma destas pudicas Bovarys panificando os biscoitos litúrgicos do Primo Basílio.

Sexta-feira: Era exatamente meio-dia e um quarto quando um carcará passou rasando pouco acima do para-brisa do carro. Carregava um pobre pardal entre as garras. Ouvi o piado-gemido do coitado. All Creatures of Our God and King!

Sábado: trabalho, filmes e caminhada.