Maiêutica

Subirei pela escada de Jacó
sem anjo como exemplo
e no topo do terceiro céu
desatarei de Górdio o nó
conquistando o velo do eu

E o eu que quieto pereceu
volvendo em vida ao pó
agora vencerá e o troféu
porei sobre as chagas de Jó

Aos pés de Sofia nossa avó
lerei hieróglifos d’Perséu
e o som do piano em dó
susurrará: a razão verteu

Fé e ao sábio enlouqueceu
cortando o fio do bandó
deste Sansão não incréu
pedreiro em um templo
onde leu: γνῶθι σεαυτόν

Pindorama: ou vai ou racha!


Pindorama tem diante de si o todo universal e o nada do vácuo, a alegria do reino dos céus e a ardente estagnação do inferno. Estamos no angustioso “momento supremo” de nossa História, de tal forma que tanto o mínimo erro quanto o mínimo acerto nos aniquilarão, arrancando-nos, em “perpétuo definitivo”, do estreito caminho do verdadeiro progresso humano. “Ou vai ou racha!”  exclamaria o caipira.

É imperioso um projeto audacioso e generosamente ambicioso, mas ao mesmo tempo pautado pela análise racional de todas as variáveis sociais e culturais do município, que precisam ser canalizadas, filtradas e direcionadas para um “programa civilizatório” que tenha como alvo único e último a formação e sedimentação de uma cultura eminentemente cristã, na qual o cultivo da Língua, da Religião e da Alta Cultura nos acrescentará “todas as demais coisas” (Mateus 6:33) — ou seja, qualidade de vida numa economia sólida e distributiva.

Nesse sentido, deve-se notar que nossa economia interna é a mais medíocre e pequena da microregião catanduvense, entretanto, ao comparar-se nossa qualidade e potência social e intelectual com a dos nossos vizinhos, é sensato observar que estamos um pouco além: possuímos algo próximo à uma “elite pensante”, mesmo que em muito distante daquilo que precisamos — mas, como dizem, em terra de cegos quem tem um olho é rei. Cabe a nós, então, transformar esses “homens de geléia” em homens de carne e osso, capazes de lutar até que o suor salino converta-se em sangue digno da terra.


Pindorama carece não só de homens de inteligência e com preparo, mas de hominibus bonae voluntatis — homens de boa vontade.

Conselhos aos prefeitos eleitos

Texto extraído do fenomenal e supra-temporal clássico de Miguel de Cervantes, “Dom Quixote de la Mancha.” A cena (capítulos 52 e 53) — Sancho Pança vai assumir o governo local e o ingenioso hidalgo lhe dá alguns conselhos:
 
“1. Os trajes devem se ajustar a dignidade de quem os usa. / 2. Atenção à “lei das suposições razoáveis”. / 3. Tenha fé. / 4. Conheça primeiro a você mesmo. / 5. Exerça o cargo com branda suavidade e ligada à prudência. / 6. Seja humilde. / 7. A virtude se adquire e vale mais que o sangue que se herda. / 8. Nunca interpretes arbitrariamente a lei.

9. Mais compaixão às lágrimas dos pobres, mas não mais justiça. / 10. Descubra a verdade entre as dádivas dos ricos e entre os soluços dos pobres. / 11. Não carregue com todo o rigor da lei a quem erra. / 12. Em relação ao inimigo esquece a razão de o ser e avalie a verdade do caso. /13. Não te cegue a paixão própria em causa alheia. / 14. A quem tens que castigar com ações, não trates mal com palavras.

15. Dos atributos santos resplandece mais o da misericórdia que o da justiça. / 16. Sejas asseado. Não andes desmazelado. / 17. Tome discretamente o pulso ao que pode render seu trabalho. / 18. Não comas alho nem cebola em função do hálito. / 19. Ande devagar, fale com pausa, mas não que pareça que te escutas a ti mesmo. / 20. Jante pouco.

 21. Moderação ao beber. O vinho em excesso não guarda segredos nem cumpre promessas. / 22. Nunca arrotar na frente de alguém. / 23. Seja moderado em dormir. / 24. Serás incomodado por quem criticas e não serás premiado por quem exaltares. / 25. Tolices dos ricos passam por sentenças no mundo. / 26. Quando se dorme, todos são iguais. / 27. Sem boa índole, não há ciência que valha.”

Justiça, injustiça e indolência

Um dos poemas mais “sinceros” do lusitano setecentista Manuel du Bocage é, com certeza, “A constância do sábio superior aos infortúnios”; poema esse integrante dos chamados “Sonetos morais e devotos.” Seus versos, tão melancólicos quanto heróicamente estóicos, transparecem aqueles mesmos sentimentos de perda e injustiça que os profetas bíblicos nutriam em seus escritos e falas, seja diante de Jeová, seja diante da turba, a chamada “casa rebelde.”

São quatro os parágrafos:

“Em sórdida masmorra aferrolhado / De cadeias aspérrimas cingido / Por ferozes contrários perseguido / Por línguas impostoras criminado: // Os membros quase nus, o aspecto honrado / Por vil boca, e vil mão roto, e cuspido / Sem ver um só mortal compadecido / De seu funesto, rigoroso estado: // O penetrante, o bárbaro instrumento / De atroz, violenta, inevitável morte // Olhando já na mão do algoz cruento: / Inda assim não maldiz a iníqua sorte / Inda assim tem prazer, sossego, alento, / O sábio verdadeiro, o justo, o forte.”

Como quase sempre na boa poesia portuguesa dos tempos do Arcadismo, após uma leitura reflexiva, saímos “ensinados.” A princípio, duas coisas ficam claras: 1ª A injustiça não é exceção, é regra; 2ª Sujeitos à ela, nos resta apenas acatá-la com dignidade para que, havendo possibilidade, possamos sobrepujá-la na medida das nossas forças e inteireza moral.

Quem, entre nós, nunca foi acusado de alguma coisa sem nunca, nunca mesmo!, ter nela tomado parte? Quem já não foi alvo de insultos imerecidos, de maldosas imprecações? Qual, dentre os filhos de Adão e Eva, poderá afirmar que nunca foi trocado, tendo mérito e valor, por algum medíocre bajulador? Quando, na História do ser humano, o bem triunfou em todas as batalhas e o ímpio sempre saiu vencido? Conhecemos as respostas. E conhecemo-las justamente porquê, em algum dia marcado no calendário, a injustiça nos feriu.

Porém, há sempre uma dose de egoísmo em nossos assomos de injustiçados. Costumamos erguer a voz contra o erro (e seus males) apenas quando ele nos toca diretamente e, de alguma forma, destrói nossos sonhos, vontades e honra. Quase nunca nossa revolta é pautada pelo assim chamado “bem comum.” Aliás, lixamo-nos pelo bem comum e pouquíssima ou nenhuma atenção dedicamos para com as injustiças alheias desde que elas não nos incomodem. Porém, quando o mínimo arranhão estraga a pintura da nossa “lataria moral,” ah!, aí “a coisa pega.” Entretanto, isso (nosso indecente “não-tô-nem-aí”) é tão imoral quanto os atos daqueles que nos fazem mal. Marasmo e indolência, às vezes, são piores que a própria atividade (em si) do erro.

Enquanto nosso discurso for pautado pelo mote dos covardes, o famoso “isso-não-é-problema-meu”, teremos o direito de reclamar, mas não o de sermos ouvidos. Enfim, conforme asseverou o grande legislador ateniense Sólon, “Haverá justiça no mundo somente quando aqueles que não forem injustiçados se sentirem tão indignados quanto aqueles que o forem.” Por isso, não se irrite quando as pessoas não derem “a mínima” para os seus problemas; elas apenas estão seguindo o seu exemplo e, em boa medida, pagando com a mesma moeda. Lex talionis!

Quanto àqueles que, no caso do poema, revoltam-se por si e pelos seus semelhantes e, mesmo assim, continuam a granjear tão somente as penas da injustiça, resta conservarem-se íntegros e sábios, sabendo acatar os infortúnios da vida, posto que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.”(Eclesiastes 3:1)

Pessimistas, realistas e otimistas

A vida humana é inequivocamente composta de extremos em praticamente todos os seus domínios e áreas. E, justamente por conta dessa “multiplicidade”, o ente humano acaba por “fazer uso” de pelo menos três tipos (quase “congênitos”) de discernimentos da realidade, enfim, daquilo que nos afigura como sendo o correto “andar das coisas.” Curiosamente, essas visões da realidade sempre são marcadas por uma relação na qual o presente acaba sendo uma visão, meio que “antecipada”, do futuro.

Pode-se, portanto, transitando-se de um pólo ao outro de um suposto determinismo das personalidades, ser pessimista, realista ou otimista. O pessimista é aquele que tende a encontrar o caos, o mal e o trágico em considerável parcela dos acontecimentos; o realista, por sua vez, supõe discernir apenas os fatos concretos da existência, sem, contudo, atribuir valores que escapam das questões e das coisas em si; já o otimista, às vezes carregado de um perigoso “alto astral”, costuma enxergar esperança e felicidade no improvável e na tristeza.

Naturalmente, é sempre desejável que seja feito um exame crítico, lógico e racional dos fatos inerentes à nossa “sacra vitae”, tentando, mesmo com hercúlea dificuldade, desvencilhar-se de emoções e sentimentos afetados. Claro está que não se pode separar o inseparável e dividir o indivisível, uma vez que todo pensamento racional é produzido, mesmo que minimamente, eivado de emoção. Como humanos, somos um todo – indissociável – no qual espírito, alma e corpo coexistem à “imagem e semelhança” da Santíssima Trindade. Ou seja: não se pensa sem sentir e não se sente sem pensar. Porém, há emoções que, apelando para os superlativos dos sentidos, se deixem guiar para posições e pensamentos nos quais o “coração” tem muito poder e o “cérebro” influência quase nula nas nossas percepções do mundo e daquilo que nos cerca.

O conhecimento milenar, acumulado por quase todos os povos, é claro ao dizer que a sabedoria é um dos frutos da moderação. E o é. Assim como nosso corpo biológico não pode, por muito tempo, em estado natural, suportar o quase congelamento das baixas temperaturas da Antártica e a causticante aridez dos desertos líbios, é impossível ao ser humano manter sua integridade físico-intelectual caso se deixe aprisionar por visões distorcidas (e por ele mesmo produzidas) da existência. Quando o prudente equilíbrio deixa de existir, estados patológicos avançam e, como os fungos parasitas que controlam a mente de certas espécies de formigas e as matam quando e onde querem, o ser humano perde uma considerável força de um dos mais belos e misteriosos dons dados ao homem por Deus: a consciência.

Sponsa

E o tempo arenoso na ampulheta

me diga se é Receba neste poço

quem me aguarda com sorrisos

abertos e os olhos fulgurantes

a dizer-me que agora errantes

o mundo será do altar os pisos

e o coração sem dor e alvoroço

o propiciatório dum amor violeta.

“L’absence est à l’amour ce qu’est au feu le vent; Il éteint le petit, il allume le grand.”

(Bussy)

Pindorama: uma “Cidade de Deus”?

“E muitas nações passarão por esta cidade, e dirá cada um ao seu próximo: Por que procedeu o Senhor assim com esta grande cidade?”(Jeremias 22:8)
A cidade é, talvez, o mais antigo “agrupamento orgânico” humano depois da família, cellula mater (et sacra!) de toda e qualquer sociedade que entronque no patriarca Adão. Desde a Antigüidade nas vetustas porém “civilizadíssimas” Pólis gregas ou ainda dentre os agigantados muros milenares da palestina Jericó, e desde os “obscuros” tempos feudais com os nascentes Burgus da Idade Média, passando pelas importantes e imponentes urbes que imergiram juntamente com os “vapores” da Revolução Industrial, até alcançar o mundo pós-moderno, com suas muralhas de aço e concreto e seus soberbos arranha-céus à moda Babel, a cidade é, sem dúvida, o “ponto maior”, enfim, o ápice da confluência do que seja viver em grupo, ou seja, de fazer atuar o “ser social” humano entre seus pares; atuar, então, em sociedade. As abelhas têm suas colméias, as formigas seus formigueiros, e outros tantos seres da Animália têm lá suas colônias e “ninhos” coletivos; todavia, os humanos, têm cidades.
O grande Santo Agostinho, legitimamente alcunhado o “Abençoado” pelos nossos irmãos ortodoxos, em sua monumental obra “A Cidade de Deus”, dividiu o mundo entre o terreno e o celeste, o imanente dos homens e o espiritual transcendente, e assim, de certa forma, assinalou a confluência e a ligação, inevitáveis, entre ambas. A cidade do homem e a de Deus, que é o Reino dos Céus do qual fala o Santo Evangelho, acabam, pois, se encontrando “nel mezzo del cammin di nostra vita”, como cantou Dante Alighieri. Apesar de naturalmente distintas, elas se interligam; interligam-se na medida em que a humana depende da divina para que prospere e, assim, seja plenamente fecunda.
Ora, a Sião Celeste não carece de sólidos alicerces e espessos muros torreados para defender-se, não necessita de hordas de funcionários e burocratas bem como de departamentos de água e esgoto para dar-lhe funcionamento, não possui indústrias, comércio e Terceiro Setor, não conhece a carestia e a lancinante seca, a crônica falta de empregos, o aumento vertiginoso de tributação e impostos de renda, os gigantescos engarrafamentos de trânsito, o acúmulo de lixo e as enchentes, não conhece moradores de rua, fome e mendicância. Já as cidades do homem, a tudo conhecem e de tudo isso “dependem.” Estão todas cheias do melhor e do pior, suas estruturas avultam em contradições, suas ruas abrigam as gargalhadas dos prósperos e o choro mudo dos pedintes.
Cidades surgiram e se apagaram com o nascer e o morrer das civilizações. Com razão, pois, dizia Sêneca que um século forma as cidades e basta apenas uma hora para destruí-las. Num dia qualquer, ensolarado, eram ricas e altivas; noutro, tempestuoso, estavam enterradas por milenares e pesadas camadas de pó e areia. Retumbaram em glória e em orgulho para, algum tempo depois, serem destruídas e exterminadas do mapa e, quiçá um dia – com alguma sorte –, terem seus esqueletos de pedra e entulhos encontrados por arqueólogos, mas sem moradores, sem citadinos, sem vida, em ruínas…! De borbulhantes centros de poder a quietos sítios arqueológicos, diversão para acadêmicos de gabinete. Por isso, diz com correção o Salmo 127, em seu versículo 1, que Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”
Consideremos, então, que se a santa Cidade da Paz, Jerusalém, foi pesadamente saqueada pelos babilônicos, diabólicamente profanada por Antíoco Epifânio, secamente pisada pelas legiões romanas e, por fim, quantas e tantas vezes seu povo foi deportado e se viu preso por ferros e guilhões!, que se fará das demais povoações, tão menos espirituais e paupérrimamente cegas? Não ruíram Tróia, Nínive, Cartago, Tebas, Constantinopla e a Roma imperial? Terão, ao acaso, melhor destino Nova Iorque, Pequim, Londres, Tóquio e São Paulo? Pois, lhes digo, se a Cidade de Deus não imperar na humana, “non relinquetur lapis super lapidem qui non destruatur.” (Vulgata, Marcos 13:2)
Ora, que se fará então da nossa pequena Pindorama?: uma cidade que se deixa submeter masoquisticamente aos caprichos e desmandos de uma classe política tão mercenária quanto insípida, vergonhosamente controlada por meia dúzia de impudicos vereadores, corruptos até à medula, que se crêem “coronéis” à época da República Velha; uma terra que se deixa arrastar abatida pelos tortuosos caminhos do marasmo e do ócio e prefere calar a lutar, engolir “a seco” o brado há muito intalado a profetizar contra males já antigos; um município que não se levanta e não se põe à altura do luciferiano agressor quando é afrontado e que opta pelo “laissez faire, laissez aller, laissez passer” quando seus melhores cidadãos – seus filhos! – são alijados de toda dignidade e mandados à fogueira quando a inocência e a convicação da verdade neles faz-se óbvia!; um povo que virou preguiçosamente suas costas para o Eterno, tal como Israel com saudades do Egito da servidão, preferindo regalar-se na servidão do pecado e das potências corpóreas. Pindorama não é, hoje, uma “Cidade de Deus.” É, antes, uma principiante aprendiz de Sodoma e Gomorra, é uma das menores e medíocres afilhadas da Babilônia. A Sião Celeste já não é seu modelo; aliás, talvez nunca tenha sido; e se o foi, nunca por completo, nunca com a séria sinceridade do pecador arrependido, a seriedade do publicano da parábola do Cristo…
Porém, como diz-se popularmente, “nem tudo está perdido.” A exemplo dos valorosos sete mil escolhidos de Jeová que não se dobraram em indigna reverência ao deus Baal, conforme enuncia o livro de 1º Reis, no qual Elias cria-se solitário ante a prostituta e pseudo-profetiza Jezabel, ainda se conservam fiéis à decência alguns poucos pindoramenses; pindoramenses realmente dignos do adjetivo pátrio. Enquanto a maioria dorme, eles velam pela ética; enquanto alguns entram pobres na rica Pindorama e saem ricos da pobre Pindorama, eles denunciam os roubos, os mandos, os demandos, e clamam, como Habacuque, por justiça. Justiça que não exige nenhuma recompensa, nenhum pagamento. E, como costumo dizer, é mais glorioso vencermos nossos inimigos pela justiça do que pelas armas.
E ainda, no corrido relógio da vida, sobeja algum tempo para Pindorama mudar! E, pelo que claramente se vê, a desejada mudança começou; tímida, mas começou. Ventos melhores sopram, ventos por um futuro melhor, ventos de revolução. Doravante, os pindoramenses caminharão, em passos fortes e largos, para que a “Terra das Palmeiras” seja, integralmente, uma “Cidade de Deus”, na qual impere o evangélico valor do amor ao próximo e do constante zelo público.
Ai de ti, Pindorama!
“E dirão: Porque deixaram a aliança do Senhor seu Deus, e se inclinaram diante de outros deuses, e os serviram.” (Idem, 22:9)
O Prof. Dayher Giménez é historiador e filósofo
(artigo publicano no jornal “Notícia de Pindorama” de 5 de novembro de 2011)

Sonho de anjo


Menina, eu te vi dormindo…

e quieto e manso

sentei-me ao lado

a perscrutar o que acontecia

neste sono leve

e despreocupado

no qual dormem os santos.

Talvez sonhavas

com os bosques

forrados de folhas douradas

na qual pisavam

os nossos cavalos

e sobre as quais comíamos

as tortas da avó

ranzinza, a tua

avó que cheirava à canela.

O relógio pedia

mais um tempo

antes de voltar-me ao sol

gelado do Brasil

e deixar-te só

nestas neves flamejantes

da Germânia.

Pela primeira

vez o sono de um serafim

algum mortal

pôde sondar

sem o receio de fulminado

ser diluído

no Eterno

e acabar extinto sem alma

pelo atrevimento

d’olhar para o céu

destes teus olhos cerrados

como o Éden,

aquele jardim

proibido a nós pecadores.

Sonhavas sim!

E ousei sentir

que afinal o sereno sorriso

que carregavas

deitada em si

lá estava ao sonhar comigo.

Único e último




Antes do adeus na voz e no aceno

quero deixar-te um único poema.

Não vou versar tua beleza austera

de face angulosa como os cristais

de neve cinzas e azuis, teus olhos.

D’tua boca ficará a ferida na minha

e algo do mel e do fel como sabor.

Daquelas cartas que quieto escrevi

sobrarão os envelopes e os selos

e os papéis e as palavras não ditas.

Do louro cabelo da tua raça alemã

dois ou três fios acham-se por aí.

Mas, chega!, que amar à distância

é querer que uma vela oriental

no Ocidente fulgure como farol!

A mente mente.

Tudo o que o se pensa
se prende na despensa
do cérebro.

Conexões como redes
e pensamentos
como peixes pescados.

Dúvidas como luzes
e respostas
como túneis escuros.

Consciência e
iconsciência,
subconsciência:

mas nelas não há ciência.

A memória é um quadro
negro cheio de rabiscos
de um velho analfabeto.

Não são hieróglifos
a serem desvendados.

Não há padrão alfabético
nas coisas da psiquê.

E a mente mente
mentiras esquecidas
nas quais ainda
se acredita.

O Tempo

O tempo é um velho sem memória,
é um embrião cheio de consciência.

O tempo não existe.
O tempo pré-existe.

Como a água não é o líquido,
mas a sede,
o tempo não é o relógio,
não é o meu calendário,
não é a nossa História.

É o que fica no pó,
é o que sobra do vivido
e do sentido
até o dia do coração parar.

É a vontade de perpertuar.

O tempo é o sereno da noite
evaporado antes do meio-dia.

É a menor distância
entre dois pontos,
mas nunca é linha reta.