Único e último




Antes do adeus na voz e no aceno

quero deixar-te um único poema.

Não vou versar tua beleza austera

de face angulosa como os cristais

de neve cinzas e azuis, teus olhos.

D’tua boca ficará a ferida na minha

e algo do mel e do fel como sabor.

Daquelas cartas que quieto escrevi

sobrarão os envelopes e os selos

e os papéis e as palavras não ditas.

Do louro cabelo da tua raça alemã

dois ou três fios acham-se por aí.

Mas, chega!, que amar à distância

é querer que uma vela oriental

no Ocidente fulgure como farol!

A mente mente.

Tudo o que o se pensa
se prende na despensa
do cérebro.

Conexões como redes
e pensamentos
como peixes pescados.

Dúvidas como luzes
e respostas
como túneis escuros.

Consciência e
iconsciência,
subconsciência:

mas nelas não há ciência.

A memória é um quadro
negro cheio de rabiscos
de um velho analfabeto.

Não são hieróglifos
a serem desvendados.

Não há padrão alfabético
nas coisas da psiquê.

E a mente mente
mentiras esquecidas
nas quais ainda
se acredita.

O Tempo

O tempo é um velho sem memória,
é um embrião cheio de consciência.

O tempo não existe.
O tempo pré-existe.

Como a água não é o líquido,
mas a sede,
o tempo não é o relógio,
não é o meu calendário,
não é a nossa História.

É o que fica no pó,
é o que sobra do vivido
e do sentido
até o dia do coração parar.

É a vontade de perpertuar.

O tempo é o sereno da noite
evaporado antes do meio-dia.

É a menor distância
entre dois pontos,
mas nunca é linha reta.