Esponjas de sol — XXXIV

  1. O homem salvo não estagna na infância, na juventude, na adultez ou na velhice. Ele passa resoluto por cada uma destas fases e elas, por sua vez, lhe impregnam com o lastro das suas virtudes específicas. O homem salvo, eterno, é a um só tempo o melhor da criança, o melhor do jovem, o melhor do adulto e o melhor do velho. Podemos olhar para nossa infância com saudades, mas, se estamos conscientes da realidade da vida, nossos olhos ainda mais brilham quando pomo-los no presente e no futuro — para o além.
  2. Recordo-me bem da primeira vez que fiz, acordado, uma viagem de carro à noite. Eu tinha uns quatro para cinco anos. Olhei e vi do alto da serra as lâmpadas acesas da multidão de postes duma cidade (não sei qual), bem distante e abaixo do nível da estrada. Pensei comigo: “As estrelas ficaram com sono e resolveram deitar na terra para dormir.” Eu não sabia porcaria nenhuma de Astronomia, logo, cientificamente não sabia da impossibilidade gravitacional e física de estrelas baixarem calmamente sobre os montes para uma soneca. Porém, intuitivamente, eu já sabia do poder da poesia, do poder metafísico da imaginação brincando com idéias impossíveis para os adultos, mas possíveis e mais do que reais para a inocência de uma criança ignorante de Ptolomeu, Copérnico, Newton e tutti quanti. Coisa boa!
  3. Abri para ti meus braços, estes laços de carne e espírito, luz e sangue sobre ossos afilados à espera de silêncio e amor. Saí ao mundo, à tua procura, peneirando na mina a loucura entre o restolho e o ouro, na profunda, mineral lavrura.
  4. Um oceano flutuando sobre a terra é apenas uma gota d’água…
  5. Todas as primaveras se vão a cair sobre as campas / E os velhos lenhos quedam solitários ante a chuva, / Que apaga a fogueira dos novos galhos orgulhosos.
  6. A Realidade se apresenta menos emocionante, geralmente. É uma aparição fria. A realidade que queremos (aquela que nos faz sair à cata de pseudo pistas desconexas para montar, através de interpretação confortavelmente enviesada, nossa estrutura credente de verossimilhanças) é ardorosa, quente como o sangue que bombeia adrenalina nos veios cerebrais de nossa lógica vã e alienada.
  7. Diagnóstico duma baladeira: inibição, vergonha e timidez para o amor — para o sentimento; desinibição, desvergonha e ousadia para o sexo — para a emoção.
  8. Os últimos trechos das trilhas e das canções são assim as mesmas notas para pés e ouvidos. Se há triunfo ou derrota triunfal, soam clarins; se há vergonha de vitória roubada, apoteoses; se há qualquer coisa exceto honra, ilusões.
  9. Olhos cegos são os que mais olham fixamente em direção a outros olhos. Não veem, mas são vistos; e por quem são vistos às vezes eles são tidos — e mal interpretados — por olhos enamorados. Na dúvida, procura por brilho, mesmo aquele ínfimozinho que centelha nos cantinhos das piscadelas. Se esses olhos que te olham não detiverem faíscas carinhosas e de ti não fugirem de vez em quando, em pequenos eclipses de afeto, creia: estes olhares demorados nada são senão cegueira que calhou volver coincidentemente seus orbes de carne impotente em direção aos teus, sem saber que teus olhos estavam vivos, límpidos, e… videntes. Anota: às vezes, os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e os “olhos de ressaca” pertencem a uma Capitu mais cega que os três ratos cegos. “Los ojos porque suspiras, / sábelo bien, / los ojos en que te miras / son ojos porque te ven”? Cala-te, poeta, e não sê um maldito Dom Casmurro! Anota.
  10. Interpretação é tudo.
  11. Em matéria de amor, nada pior do que dar certezas e só receber dúvidas. “En la duda, ten la lengua muda”, diz o velho ditado espanhol.
  12. Acorde às 4h30min ao menos durante um dia na semana (sábado ou domingo, se possível). Toma um bom e fresco copo d’água. Vai orar pontualmente às 5h. Ora até que o papo com Ele acabe naturalmente num “até logo!” filial. Permanece o dia todo longe das redes sociais e do frenesi falador do mundo. Encontra um bom caminho e… vai caminhar — fazendas, sítios, valados, campos, enfim, pedaços de terra onde a natureza ainda reina. Jejua, ao mesmo tempo. Permite que o Espírito depure o teu espírito. Fala pouco; se possível, silencia. Ao cabo do dia, quando o horizonte escurecer, para ti as coisas estarão bem mais claras. Recomendo.
  13. Amor leva a sexo. Sexo não leva a amor.
  14. Em matéria de amor, quanto mais uma voz sussurra mais ela quer gritar.
  15. Choro pelos nossos mortos. Porém, mais que pelos mortos já entregues à terra da sepultura, eu choro sinceramente é pelos vivos que ainda estão mortos. A lágrima vertida pela morte física de alguém não pode ser comparada a tristeza da lágrima derramada pela morte espiritual de alguém. “O salário do pecado é a morte”, diz o apóstolo Paulo: morte em vida, sobretudo. Mais que réquiens pelos definitivamente defuntos, é preciso orar pelos mortos-vivos que ainda respiram o ar sulfuroso deste mundo sem esperança de ressuscitar também no aqui-e-agora.
  16. Se eu fosse hinduísta, eis minha contribuição para os Upanishads: Não se diga que o Espaço seja oco como a casca do ovo sem sua clara e sem sua gema, mas que o vácuo talvez seja a própria coisa. A matéria, em si, é um vazio do que resta a mais no Universo.
  17. Não, o porto não te quer agarrado às suas cordas; / A âncora mesma detesta descer ao fundo do mar: / Quer navegar, encostada na madeira de Trafalgar. / Ide ao antigo oceano buscar do universo as bordas.
  18. Com suas obras médias, o crente torna-se um homem ordinário, ou seja, ordenado para o diário. A cada dia basta o seu mal e o seu bem.
  19. Quantos poemas escritos e não entregues, quantos discursos escritos e não orados, quantas palavras ditas no banho, na cama, no silêncio preparador de triunfos [que não foram] da palavra. Quantas palavras germinadas em oculto, nos recônditos do cérebro, nas esquinas da língua, em papéis que viram o crepitar duma fogueira e que jamais foram tocados pelos olhos curiosos daqueles aos quais se destinavam. Mas, quantos assomos de coragem formulados em retórica da mais límpida, em estilo do mais elegante, em caligrafia da mais arquitetada, em sentimentos os mais… bobos! A sina não de bem lidar com as palavras, mas de querer com elas bem lidar publicamente, é esta: a cada verso e a cada parágrafo que teu coração adúltero do teu cérebro põe no mundo, o mundo apresenta-os como provas irrefutáveis, contra ti mesmo, no Tribunal dos mudos desverbados — mudos que, eis o ai!, calham ser vitoriosos no palco do Silêncio besta, cruel e inumano dos tímidos de si. Melhor dizer, melhor escrever, melhor acatar as palavras amantes daquela Palavra: doa o quanto doer. Pange lingua!
  20. Mandando a real: o pessoal vai pra cama facinho-facinho, mas se pela de medo de um “eu te amo!”
  21. Um homem orando sempre se parecerá com aquilo que ele é: apenas um homem orando. Uma mulher orando, porém, sempre se parecerá com aquilo que ela deve ser: um anjo balbuciando seu amor a Deus. Coisa bonita de ver.
  22. A palha, o vento espalha.
  23. Fala muito quando o silêncio alheio for apenas ausência de barulho. Mas, silencia ainda mais quando o mundo resolver produzir falatório. Trata as multidões como vagantes almas fugindo do Seu ambulatório, trata cada dimensão obtusamente sonora como fogo do purgatório.
  24. Intuição: o “formato” do Universo corresponde a um círculo oco como um cano.
  25. Se tu pudesses dar alguns passos para trás, entre o ontem de anos idos e a semana anterior. Se tu pudesses desfazer os feitos lá de trás, como a tapeçaria à noite desalinhada pelo amor. Se tu pudesses ouvir o murmúrio das letras, soluçando discursos prudentemente escondidos. Se tu pudesses alterar do bom tom as regras e então ao canalha chamar “canalha!”, ah iludidos, vós seríeis bem-aventurados com tal revelação.
  26. A consciência, meus amigos… É ela a última instância de julgamento. Nada mais tenebroso que alcançar a idade dos velhos e, já com os cabelos brancos, negar ao próprio eu a possibilidade de não mentir pelo quê quer que seja apenas e tão somente porquê sua alma aderiu a Deus tão profundamente quanto uma gota de água salgada foi descansar na imensidão dum oceano doce. Ficar velho e insensato: maldição.
  27. A vida existe e a existência vive.
  28. Um homem realmente torna-se Homem quando se angustia por aquilo (a virtude) que os outros meramente desdenham e ainda assim tem alegria bastante capaz de fazer-lhe contente, quando sente-se solitário diante do que pensam e gritam as maiorias contra o Bem (a verdade) e ainda assim consegue nutrir silenciosamente seu coração individuado para os dias maus que vêm mais duros, quando prefere as penas terrenas dos chistes e grosserias dos demais por escolher o caminho difícil (a honra) que não aufere lucros mas que ajunta tesouros no Céu.
  29. Força de vontade e auto-domínio: binômio do homem que é Homem.
  30. Nos versos tabacarianos de Fernando Pessoa, esta ária (“Non piangere, Liù”) de Puccini ficaria assim resumida: “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira / Talvez fosse feliz.” A ópera Turandot é um compêndio de psicologia sócio-afetiva.
  31. Decepcionar-se, nesta nossa vida, é condição para atingir a maturidade, é condição para abandonar ilusões pueris, é condição para julgar (com fidelidade à verdade e à sua realidade) o caráter humano. Decepcionar-se é esvaziar-se de suposições, sobretudo. Decepcionar-se é, mesmo com tristeza, agradar-se do descobrimento do concreto que confronta a fantasia e a ficção. Toda decepção inocula em nós o remédio da sinceridade, da sinceridade que devora (para depois regurgitar e cuspir) a mentira. Numa alma sincera, a decepção é o extremo-oposto da esperança: de decepção em decepção, dá-se cabo de quaisquer expectativas levianas. Toda decepção é um livramento divino. Anota.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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