Esponjas de sol — XXXIII

  1. Em 2009, depois de uma decepção das grandes, tomei uma resolução na vida. Ela só me trouxe coisas boas e melhores até hoje. É esta, que subdividi em três preceitos: (I) Aquilo que não puder ser apenas teu, exclusivamente teu e apenas por ti tocado para sempre, não queiras para ti, ainda que te amargures e sofras; (II) Não desejes fazer aquilo que qualquer outra pessoa possa fazer, porquê a tua vocação é só tua e só tu a poderás desempenhar com fidelidade adequada à Providência; (III) Quando existirem muitas e inúmeras possibilidades de escolha, não te decidas por nenhuma delas, afinal, tu queres o melhor, que é uma e única e só coisa — e que sozinha deverá se apresentar ao teu arbítrio. Agora, em 2017, atualizo e adiciono mais esta regra, a quarta: (IV) Estes três preceitos têm prazo de validade ilimitado e aplicam-se a tudo aquilo que na vida te tomar pelo menos meia dúzia de minutos na oração.
  2. O povo reage à realidade, não às explicações acerca da natureza da realidade. Via de regra.
  3. Passei o machado nos treze nós. / O tronco ficou liso para o corte, / Como um broto recém-nascido. / O lar surgiria assim desta morte. / Serrei as tábuas e fiz o quadrado, / Perfeito alicerce para nossos pós.
  4. Se tentares sepultar um jardim, que fim levará cada planta e flor? Ora, renascerão e florescerão mais fortes ainda: porquê de si mesmas volverão. Quando és para ti mesmo um adubo, mais te pareces com Deus.
  5. Troco as buzinas disparadas e os alarmes estridentes pelos sinos que anunciam e badalam o transcendente. Troco o v8 do carro possante pelo cavalo caminhante, trotando elegante como quando marchava às gentes. Troco as ficadas de balada com tantas moças carentes pelo altar silente que me dará a mulher pura ofegante. Troco a taça de cristal do mais caro dos restaurantes pelo fogão à lenha que construiu meu bisavô viridante. Troco as notícias dos sites, nestas internets alienantes, pelo livro de página amarela no sítio quieto dormente. Troco os quatro cãezinhos sofrendo alergias doentes pelas dúzias de cachorros correndo no mato contentes. Troco o filho único solitário aprendendo física ausente pelas três meninas e pelos dois meninos lendo cientes. Troco tudo, toda a glória da civilização dos continentes pela natureza assente duma família livre e consciente. Troco cada parafernália, invencionice e pus atraente pela terra, pela água, pelo ar, pelo fogo dos inocentes. Troco, mil vezes troco, cada falso prazer delinquente pelo gozo permanente de ser gente almal no imanente. Troco o concreto armado de cinza em linhas incipientes pelo traçado original dos tijolinhos vermelhos fulgentes. Troco a idéia oca de igualdade materialista e demente pela sã hierarquia de cada coisa em seu lugar potente. Troco o estrondo do relógio que acorda maquinalmente pelo canto dos sabiás piando seus hinos normalmente. Troco a pressa das paixões que avassalam etereamente pelo amor que se constrói assim lenta e serodiamente. Troco os diplomas das novas disciplinas putrefacientes pelo pergaminho que a Sócrates condenou repelente. Troco a teologia dos clérigos sem a fé de antigamente pela oração daquela velhinha de véu e olhar vidente. Troco, troco já, só não troco o meu eu intransigente por qualquer outra anomalia à maioria conveniente.
  6. Amor é renúncia. Renúncia de barulhos cacofônicos para a conquista de silêncios alternando-se àquela “música só nossa”. Renúncia de diversões sazonais que se repetem igual e indefinidamente, semana após semana, em ganho de alegrias permanentemente renovadas, que se diferem no fruir do tempo fluindo. Renúncia de todas as alternativas abstracionalmente medíocres repousando nas cores estagnadas na paleta em favor da concreta e inspirada criação duma obra prima irretocável pelo pincel humano. Renúncia de todas estas falsas possibilidades estatísticas que são os “contatinhos” em troca de um só e certeiro e decorado número. Renúncia de paixões emocionalescas (que nada são senão modinhas afetivas) por um amor “clássico” — enraizado nos fatos sentimentais que se mantêm desde a Eternidade. Renunciar a todas, em função de uma, é ganhar tudo numa só pessoa. O amor é a renúncia da escravidão a inúmeros senhores tiranos em proveito da servidão voluntária a um só seu e único servo. Homem e mulher que, por e para si, mutuamente, não renunciam ao mundo, renunciam à única possibilidade de terem o mundo depositado em suas juntas, justas e entrelaçadas mãos.
  7. Uma alma forte é aquela que se sente a mais fraca, entre todas, quando vai ter com Deus…
  8. Que é a luz, quando o reflexo é mais sombra que clarão? / Que é a treva, quando a fresta ilumina toda a escuridão? / Escuta-me, porquê o silêncio do universo diz-me dúvida / Enquanto a voz do cosmos brada seu cântico de certeza!
  9. Talvez, nos santos, os cabelos brancos sejam a alma tomando conta do corpo. O princípio, o gérmen da ressurreição! E quanto aos demais homens? Talvez seja o corpo entropicamente tornando-se etéreo, incolor no nada…
  10. Que é sinceridade? É empregar toda a realidade da alma em cada ação.
  11. A alegria do dia. Ouvi uma velhinha cantarolando, com voz suave mas firme, enquanto punha a roupa no varal, o refrão de um hino que, quando menino, eu ouvia e também cantava na igreja: “Fica, Senhor, já se faz tarde. Tens meu coração para pousar. Faz em mim morada permanente. Fica, Senhor, fica Senhor, meu Salvador.” Ouvi e parei, me encostando no poste, atrás do muro da casa dela. Assim que ela terminou, eu disse um amém baixinho pra ela não ouvir e se assustar e, então, fui-me cá para casa. Coisa boa. Coisa bonita. Coisa rara… Minha senhora, dona de nome que desconheço: muito obrigado!
  12. Um gole d’água na boca do trabalhador: quanto mais prazer que nas garrafas todas de álcool engolidas pelo vagabundo!
  13. Uma lamúria ouvia o rei da boca do camponês: contava-lhe como a alma telúrica dos campos estava se esgotando na bolsa cheia do burguês. “Vede, majestade, que a terra que põe a mesa, a tua e a minha, será mais fraca que os bancos?” Assim nasceu o Absolutismo. Generalizações trovadorescas de idealistas, por um lado, legitimadas por idéias maquiavélicas de dominação, por outro.
  14. O país que se furtou a ter Dona Isabel como Imperatriz teve que engolir Sinhá Dilma como “Presidenta”.
  15. Honrar pai e mãe (digo por mim mesmo) é condição indispensável para crescer e se dar bem na vida. Se tu não ouves os conselhos dos teus pais, tu serás cego para a realidade. Apenas quem nos ama é capaz de perceber que sob nosso caminho há alçapões, buracos, arapucas e armadilhas. Se teu pai e tua mãe dizem “filho, não faça isto!”, “filha, não seja assim!”, ouça e obedeça mesmo que, de momento, tu não entendas o porquê. Gente cega — e, pela idade, geralmente, filhos são cegos em relação à experiência existencial dos pais — não tem condições de avaliar se vai ou não cair no abismo. Quem simplesmente avisa, amigo é. Mas quem avisa e instrui aos berros, pai ou mãe é. A gravidade do perigo eminente exige de quem ama não que envie mensagenzinha educada e serena do tipo “se você fizer isto, perecerá, mas a escolha é sua”; exige que se puxe abruptamente o desavisado, com força e alarde, da beira do precipício. Se tu queres ser feliz, honra teus pais. Eles não são “chatos”, “quadrados”, “calhordas”, “coroas” e “ignorantes”: eles são as únicas pessoas capazes de, sabendo quem tu és, impedir que o mundo te transforme numa pessoa fracassada.
  16. Nós nos arrependemos de certos amores, mas nunca dos poemas que eles nos fizeram criar.
  17. Não tenha tempo para as coisas que não têm alma.
  18. Entre o porvir e o futuro, / Escolho o primeiro, seguro / De que o tempo é crente / Na eternidade que recolho.
  19. Há na terra uma tapera, um palácio de madeira, onde os anos eu passaria, lendo e vivendo, amando e vivendo, comendo e vivendo, fazendo a vida e vivendo. Ali, deitado sob o zimbro. Ali, deitado à margem do rio. Ali, deitado com ela sob o luar.
  20. Ou tu te encontras com Deus ou nunca te encontrarás contigo mesmo…
  21. O céu começa no coração; ali, onde o inferno termina.
  22. Quem te vê como Deus te vê? Quem te vê como tu, no íntimo, a ti mesmo te vês? Quem assim te vê, te ama. Porquê vê o quê tu és: vê quem tu és. E quem te vê como o Diabo te vê? A multidão, certamente, tem para ti os mesmos olhos do Maligno. Quem te vê como tu, no íntimo, a ti não te vês? Quem assim te vê, não te ama. Quem assim te vê, sequer te vê: porquê vê a carcaça pseudo-personalitária que está caricaturizada no mundo. Toma nota!
  23. Gênios não têm qualidades próprias de máquinas, estas sim criadas por gênios. Gente que desempenha tarefas fenomenais/extraordinárias à moda “memória de computador”, p.ex., não é genial. É cérebro-maquinal. Não é capacidade (para conhecimento) mental. É armazenamento de dados num hd orgânico; patológico. Gênios têm algumas poucas limitações proporcionais às suas muitas profundidades. Superdotados tem muitas limitações desproporcionais às suas poucas alturas.
  24. Sabedoria é uma tradição experimentada.
  25. O mundo está podre. Escolha não apodrecer com ele.
  26. Amo aquela que é dúvida? Não, já não a amo. Decresce o amor, vagarosamente, à nível anterior. Agora, estão saindo uma a uma as borboletas do panapaná estomacal. E os calafrios são meras cócegas que em si guardam lonjuras tanto do quente quanto do frio. A temperatura ambiente chega com nano-estalos.
  27. Implicância, modalidade de carinho.
  28. A inteligência se desfaz a si mesma quando conscientemente o homem decide acolher a alienação que lhe tolhe o sofrimento.
  29. O mundo está organizado de modo a triturar a inteligência de quem decide desprezar a Deus.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *