Esponjas de sol — XXXII

  1. O Decálogo é uma espécie de “Kama Sutra” existencial que funciona.
  2. O cristão é aquele sujeito que põe a rotina prazenteira no mundo acima de todas as glórias mundanas. Dou-lhes um exemplo. Se a ele é dado escolher entre (I) erigir qualquer grande obra de genialidade artística tendo sua vida pessoal destituída do prazer ordinário dos comuns e (II) passar seus dias pacificamente amando, casando, criando filhos e morrendo quietinho na cama quentinha depois de uma vida consagrada a labor honesto e anônimo, certamente sua escolha consciente recairá sobre a segunda opção. Não lhes digo que exista oposição entre um estado de vida culturalmente elevado e a pura vida natural do homem natural. De modo algum! Digo-lhes que, se a ele imperiosamente for mandado escolher entre uma e outra vida, é a possibilidade da felicidade originária que o cristão abraçará de pronto. Por que? Porquê no espírito do cristão está o “pó do Éden”, que o dirige — feito bússola magnetizada pelo Céu — em direção ao [Re]Começo Perfeito.
  3. O mundo desabará para ser levantado. Como uma lua de quatro fases apagada, a Humanidade se iluminará de repente, depois, quando já não acreditarem mais em lua.
  4. Dá tudo, nada espera. Sê bom, mesmo que isto te faça algum “mal”. Aceita na tua mente e assimila no teu coração tudo aquilo que acontecer contigo nesta tua vida sob o sol. Nada espera, então, e sê tudo para todos — ajuda-os sempre! Ainda que te sintas desconfortável, faze o bem mesmo consciente de que provavelmente este teu agir irá incomodar teu ego. Meios e fins. Meios e fins: Deus não é maquiavélico. Ele harmonizará todas as coisas em ti, para que sejas verdadeiramente um homem bom.
  5. O mundo está muito raso. E no raso apenas o raso se afoga. Sê, ao menos, um pouco profundo e não te afogarás; e então submergirás o raso e ele aumentará ainda mais a tua profundidade, e assim tu farás mais profundo o mundo e o mundo em ti mergulhará até que um dia, pela sua proporção potencial germinada e com tua ajuda atingida, o mundo retornará a ti abissalmente profundo e tu — ainda que ao princípio tenhas sido maior que ele quando do início desta mútua fluência — finalmente serás como deves ser: infinitamente menor que o mundo e, enfim, tu poderás entranhar-te nas águas da realidade e nadar à braçadas sobre e sob sua imensa superfície.
  6. Quando tu amas e assim amante enxergas na amada um virtuoso potencial que ela própria não consegue enxergar (ou que talvez opaca e vagamente enxergue), muito certamente ela nenhum pouco sofrerá por isto. Mas tu sofrerás por ela — e sofrerás quase sempre com as “mãos atadas”. Isto é uma espécie de amor não correspondido.
  7. Quando eu era menino, pontificava imperiosidades o tempo todo. Dava ordens aos soldadinhos de plástico (não de chumbo — estes eram caros e, por isto, moleque nunca os tive), fazia dos coelhinhos da índia que meu pai criava monstros contra os quais movimentava os tanques de guerra de brinquedo, era diretíssimo e mandava cartinhas de amor às meninas da igreja e da escola, cavoucava os jardins alheios em busca de pedras para a coleção e berrava contra quem tentasse me dissuadir desta empreitada pseudo-mineralógica, brigava na rua e cometia contra meus oponentes manobras dignas dum Clausewitz. Era rei e sacerdote. Fiquei velho (cabelos amplamente brancos aos 28 anos) e, prestando atenção ao meu dia-a-dia, às vezes penso que embestei nestas virtudes: mais quieto, menos dinâmico, mais tímido, menos briguento. Estou camponês e paroquiano. Sabedoria da idade adulta ou entropia da idade infantil?
  8. Uma nação que não tem funerais de estado dignos nunca terá ascensões de estado dignas.
  9. Fugir da aparência do mal é olhar [e neste instante rapidíssimo que nos demonstra a poderosa natureza duma tentação presente-e-quase-futura] e correr.
  10. O caipira diz: “Quem vê cara, não vê coração.” E eu digo: quem vê coração, faz da cara um coração. Se você é um ser desperto para as coisas da consciência e do espírito, logo perceberá, depois do primeiro olhar, que a impressão estética que uma mulher lhe causar logo cederá lugar a uma intuição ética, cujo julgamento afetará a beleza ou a aparente feiura dela — positiva ou negativamente. A bela viola perderá a afinação e o pão bolorento parecerá apetitoso, a depender do âmago das suas cordas e da essência do seu trigo. Tudo isto, metaforicamente, quer dizer o seguinte: os valores de uma pessoa (já depois que a beleza ou a feiura fizerem seu trabalho de atração e de repulsão, respectivamente) refarão cada linha no rosto dela. Se houver virtude na alma, a aparente deselegância facial cederá lugar àquela beleza que vem de dentro, num crescendo encantador. Se houver vício na alma, a harmonia das formas se transformará e nos parecerá muito menos bela e, como tal, muito menos atraente, num diminuendo desencantador. Tanto na alta literatura antiga quanto na baixa expressividade interneteira moderna, esta realidade está bem sedimentada. Se por um lado o livro de Provérbios (11:22) nos diz que “Como jóia de ouro no focinho de uma porca, assim é a mulher formosa que não tem discrição”, os memes do Facebook afirmam o seu “É bonitinho, mas ordinário” no que tange a nós homens sob o julgamento feminino, p.ex. Minha opiniãozinha: o “método científico” do Senhor nos assevera que pelos frutos nós conhecemos a árvore. Aplique-se este método à beleza de alguém, esperando alguns dias, semanas e meses: na face, a disposição das linhas simétricas ou assimétricas será fisicamente a mesma, mas a metafísica da alma não nos engará a médio e a longo (e às vezes até a curto) prazo: as moças menos bonitas nos parecerão lindas e as lindas nos parecerão menos bonitas. A virtude aformoseia o rosto, o vício enfeia. Boileau-Despréaux bem o disse: “Rien n’est beau que le vrai: le vrai seul est aimable”Nada é belo senão o verdadeiro: só o verdadeiro é amável.
  11. Se Elizabeth II pensasse um poucochinho mais na sua dinastia, estabeleceria domiciliarmente netos seus pelo menos na Austrália, no Canadá e na Nova Zelândia e, até, incentivaria que eles fossem coroados reis e rainhas destes países. A Monarquia extra-Britannia está com os dias contados e semear as terras da Commonwealth com o “blaue blut” dos Windsor é sua única tábua de salvação. Mais: e do jeito que andam as coisas pela antiga Albion, se a monarquia não exercer seu papel de Fidei Defensor, os cardos brotarão outro Cromwell para ser seu Defender of the Faith.
  12. Chegará o dia em que o Brasil carecerá dos discursos de um Winston Churchill nascido sob o Cruzeiro do Sul, com português elevado e acessível, com língua forte e elegante, com oratória ardente e sincera. A luta política e bélica que um dia vem requisitará, para nossa vitória, uma verve poderosamente fluente e épica.
  13. O mundo simples, simples de tudo, é este que quero todo dia cedinho. Sol amarelo, céu azul, árvore verde, cada coisa no seu lugar e prontinho. O mundo em que a luz não se perde entre a meia-noite e o amanhecer, o mundo que repete sua novidade, o mundo simples que vai aparecer…
  14. Um ambiente que não melhore tua alma ou que pelo menos a conserve pacificada não deve ser frequentado, a não ser que ali tu sejas o profeta. Ambientes coletivos, sobretudo, onde se adensam as forças biológicas primitivas e seus impulsos mais baixos, não farão de ninguém um ser humano feliz na plena acepção da palavra. No máximo estarás ali neutramente, feito uma garça branca no lamaçal: fazendo inspeções sociológicas, antropológicas, teológicas, espirituais… Ambientes que servem à alienação para esquecimento de problemas, inclusive, apenas adiam a prestação de contas do homem consigo mesmo. Se o lugar e aquilo que acontece no lugar não servem ao gozo do teu espírito em união com teu corpo, dá o fora!
  15. Guarda o teu coração, puro e quieto, longe da mão-espinhal que o dilacera. Guarda o teu coração, limpo e santo, próximo do coração de quem o libera.
  16. Este sentimento de ter nascido em época errada esteve (e está) incrustado no coração de todo homem que foi (e é) chamado a transformar sua época.
  17. Se é indigno dos olhos de uma criança de cinco anos, é também indigno dos teus olhos.
  18. Os sonhadores cansam os acordados com seus discursos intermináveis sobre tais e tais planos, sobre tais e tais detalhes de cada um dos seus planos. Os sonhadores são enfadonhos, mas tais enfados são a glória do mundo, glória que sempre será numa e noutra geração parida porquê definitivamente “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
  19. Todo dia faço perguntas a quem encontro por aí. Hoje, de manhãzinha, perguntei à uma moça (muito bonita, por sinal): “Por que você pensa assim?” Resposta: “Não sei”. Perguntei: “Que pensa de Filosofia?”. Resposta: “Coisa de louco!” Perguntei: “Você gosta de ler?” Resposta: “Odeio!”. Perguntei: “O quê você quer fazer da vida?” Resposta: “Ganhar dinheiro e gastar tudo”. Perguntei (a última pergunta): “Você é feliz?”. Resposta (a última resposta): “Todo final de semana, bebo e transo até esquecer toda a semana. Esta é a minha felicidade.” Este é o retrato da minha doente, fraca e triste geração. Registro, apenas.
  20. O poder humano é a teia hierarquizada dos interesses (maiores e menores) dos homens (grandes e pequenos). Decida-te a não fazer de tua alma um fio vivo nesta teia de morte e ela desabará e, então, tu não serás aranha nem inseto. Tu serás homem livre!
  21. Elias sentiu-se só. E eu, Pai, mesmo sabendo que não estou só, sinto-me só. Fala comigo e traze-me o pão e a carne. Nutre-me com a refeição eterna. Que o terremoto trema a terra do meu coração, que o vendaval tire o fôlego dos meus pulmões, que a saraiva queime minha pele, mas… que ao fim tua voz mansa e suave console meu espírito! Senhor, sabes que tenho coração ingênuo: sou como a criança que a todo dia descobre a inexistência do mito que até a pouco lhe enchia de sonhos. A solitude, Pai, é grande quando nos outros não descubro o mesmo brilho e ideal, quando o que é fugaz e de irrisório valor toma o lugar do sol dourado que resplandece esperança no meu pensamento. Senhor, Tu deste ao profeta a capa e a virtude. Tira de mim a mantinha infantil e costura sobre meus ombros o manto da Tua proteção. E, então, ainda que desabrigado sob a tempestade, ainda que sozinho a peregrinar pelo caminho estreito, dar-me-ás a força do meu pó, o alento do meu sopro, o calor do meu sangue. Senhor, toma para Ti meu eu e faze-o livre da ilusão, livre da miragem, livre da quimera: entrega meu coração à comunhão real de duas solidões. Amém.
  22. Quanto mais distante de Deus, mais sofrerá a pessoa e menos ela saberá porquê. Que deve o cristão fazer diante disto, querendo ajudar? Corrigir com amor, quando possível e oportuno; e orar, sempre e em silêncio. Apenas o Espírito Santo argumentando (e com o sofrimento redarguindo a consciência) poderá despertar o morto. Não é um trabalho humano, para ti. É um trabalho divino que, talvez, possa servir-se de ti.
  23. Se te comove, te diz respeito.
  24. Apenas o pecado desumaniza.
  25. A grande felicidade, a suma felicidade, que é passar todos os dias com a alma pacificada, com o coração pronto e aberto ao bem, com a mente acesa e penetrante, com o espírito desperto para a verdade!
  26. Quem não ama pelas qualidades, se apaixona pelos defeitos.
  27. Quem não deseja as coisas para sempre, sequer as terá momentaneamente. Ou tu pões teu coração na eternidade ou o relógio consumirá tua existência num abrir e fechar de olhos. Quem não deseja amar alguém para sempre, escrever poesia para sempre, comer a macarronada da avozinha para sempre, cantar a música preferida para sempre, enfim, fazer aquilo que de fato toca o coração para sempre, não amará verdadeiramente mesmo que queira amar de vez em quando, não rabiscará nada além de frases desconexas no WhatsApp e compartilhará citações mambembes de terceiros no Facebook, comerá miojo sabor legumes como se fosse o único macarrão do mundo, balbuciará o hit do momento no chuveiro e gritará a música do instante no show. Escolhe ser humano para sempre e Deus se encarregará de te fazer imortal.
  28. Sentir-se tolo, besta, ingênuo, simples, piegas e bobo faz parte do processo de santificação. Tu vês as coisas como elas deveriam ser se a “maçã” não tivesse sido mordida, enquanto os outros veem as coisas como se elas sempre tivessem sido assim e árvore alguma tivesse sido violada.
  29. O preço que se paga por manter a consciência no lugar é alto. É alto porquê conduz ao Alto.
  30. “Para sempre!” — minha expressão preferida.
  31. Perguntaram-me por aí, jocosamente, se eu sou um “santo”. Negativo. Sou um cara cheio de defeitos e pecados. Tenho “la sangre caliente” e melancólica da velha raça castelhana, sou teimoso feito burro empacado, rigidamente prussiano com horários e mais detalhista que mosaísta bizantino, fortemente tentado pela gula da mesa farta e pela luxúria das belle donne, etc. Provavelmente, se o Espírito Santo não tivesse me tomado desde a mais tenra infância e então não tivesse me remido na Alegria, eu seria um bon vivant niilista, dissipador e provavelmente alcoólatra à moda “Tornei-me um ébrio” (lembram da música do Vicente Celestino?). Mas, de mim, nunca poderão acusar a insinceridade, a mentira e a desonra da fala dúbia e atravessada por interesses baixos. Sou da malta publicana do “mea culpa”, não da tribo dos fariseus. Esta (a sinceridade) deve ser minha melhor e mais bem equilibrada qualidade; e é ela que, por isto, me [re]salva de todo o resto — e me faz almejar e lutar, diariamente, pela santidade.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *