Esponjas de sol — XXXI

  1. É do ar dar à luz seu altar de expansão, sem tudo perder, sem nada cobrar. Dá e ergue ao lúmen o sacrifício do vácuo: geme neste século e a eternidade é tua.
  2. Tua voz, Senhor, ouvi quando a tempestade mais forte caiu, quando trovões e raios de breu e prata luzidos desabaram, quando no jardim os lírios fizeram-se algas do grande Rio. Tua voz, Senhor, era a cantiga que fez ninar toda a Criação; era a melodia que o Bebê embalado recitava para embalar. Tua voz, Senhor, ouvi entre as flechas de energia poderosa, entre as montanhas que sobrevoavam os ares barulhentos.
  3. Luz que ascende ao espaldar de Cristo, o Rei. O inimigo foi da luz o carniceiro e o comedor, até que nos mostrou, então, o Ser seu corpo de terra…!
  4. Quem vence, ergue monumentos altissonantes para o futuro: livros, sobretudo; todas as suas gerações lerão e ouvirão seus discursos explícitos em letras bem discerníveis. As biografias de Grant no Norte. Quem perde, levanta monumentos silenciosos num presente indefinidamente estendido: estátuas, sobretudo; todas as suas gerações mirarão no centro dos jardins e praças a mudez estática do discurso implícito, o discurso do bronze que vai se tornando enigma e arte. As estátuas de Lee no Sul. No meio, entre ambos, outra categoria: o vencedor-perdedor — Lincoln.
  5. Haverá um Moisés moderno, liderando alguma nação de reis e sacerdotes na batalha contra o Globalismo do Anticristo. Parafraseio, ao avesso (e salomonicamente), Menéndez Pidal: Os feitos da História se repetem e o homem que realiza a História é sempre o mesmo.
  6. O Grande Compromisso relacional que Homem e Deus têm entre si é este: compartilhar a mesma Grande Angústia (que em ambos inverte-se no que diz respeito à “agência”). Deus tem a Sua, que é o Homem; e o Homem tem a sua, que é Deus.
  7. O cavaleiro, em régio e alvo corcel, cavalga ao som do clarim prateado. Herói, herói desta terra de mil sóis! Ainda que caia e levante arqueado, é dele a mão que aponta para o céu.
  8. Ao Brasil? Falta liturgia heróica — e cristã. Uns bons hinos marciais e processionais fariam mais pela alma e pelo intelecto do povo brasileiro que trezentos anos de qualquer pedagogia escolar universalizante atualmente praticada pelo Estado. Um “I Vow to Thee, My Country” e um “Jerusalem”, à moda nossa, na boca de meia nação, quase que por si só arribariam nosso moral diante de qualquer grande adversidade civilizacional.
  9. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim terás sempre o fogo que tu me deste: a chama que aniquila a palha e refina o ouro, dia após dia. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim não ouvirás queixumes diante da palavra reta que puseste em meu coração: hei de errar de tempo em tempo, mas querendo acertar o alvo que lá no horizonte aconselha-me “ajusta os óculos, ô rapaz!” Eu te prometo, oh minha alma, que meu proceder, ainda que comparável ao das crianças, será sempre valoroso: aos trancos e barrancos, verás que avanço pelo caminho ascendente e reto. Eu te prometo, oh minha alma, que os meus suspiros de paixão nunca haverão de expelir a pneuma divina dos meus alvéolos cerebrais: minha razão é meu sentimento e meu sentimento é minha razão. Eu te prometo, oh minha alma, que a consciência que palpita anúncios e mensagens de Deus aqui no peito, abrirá sobre os montes sua boca e sua língua dirá o necessário. Eu te prometo, oh minha alma, que teu sangue prateado não se poluirá com a covardia uréica da espécie vacilante: ser forte e corajoso é meu propósito contigo aliançado. Eu te prometo, oh minha alma, que não te trairei com vergonhas e iniquidades, que não adulterarei tua densidade eterna e imortal: os relógios do mundo não cronometrarão meus batimentos e passos. Eu te prometo, oh minha alma.
  10. Um dia, a rasidão vem cobrar seu preço. Uma pessoa oca pode ser vazia por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, dá-se de cara com a Realidade e ela, peça à peça, despe o indivíduo fútil das marcas e das grifes que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente nonsense, sem saber porquê, afinal, toda a vaidosa acumulação de roupas, de carros, de jóias e disto e daquilo, vale menos que qualquer sorriso besta daquele cristãozinho caipira e roceiro que deu um “Deus te abençoe!” junto com o pesado saco de batatas que se comprou na feira naquela semana em que a empregada precisou faltar. Uma pessoa supérflua pode ser inútil por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, o ritmo da existência corriqueira é interrompido por qualquer acontecimento (doença, acidente, falta de grana, etc) que a obriga a passar dias e dias sentada, parada, desligada do mundinho que lhe obrigava a comportar-se assim ou assado, adornada assim ou assado, teatralizando assim ou assado: a festança alienante se retira com seus fumos e sobra o ar puro da realidade que impregna a mente até esganar o coração com dúvidas — primeiro com furos nos furinhos, depois com buracos nos buraquinhos e por fim com abismos nas crateras de nada no peito, até que a pessoa berre e esbraveje contra si mesma um libertador “Putz, o que é que eu tô fazendo com a minha vida!” Um dia “cai-se em si” (queda quebradora e esparramadora de crânio) e os valores antigos começam a brotar do chão à partir daqueles pedaços de massa cinzenta da qual se foi abdicando conforme ia-se moldando à turma, à patotinha, à roda escarnecedora das amizades tão irrelevantes quanto os sapatos, quanto as bebedeiras, quanto às baladas, quanto aos camarotes, quanto às ostentações. Um dia, acorda-se (ainda jovem ou de meia-idade ou já velho) e dá-se de cara com Deus e Ele, pecado a pecado, despe o indivíduo superficial das idéias e ideologias triviais que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente blasé, sem saber porquê, afinal, tudo aquilo que dantes se prezava passou a não ter valor, a não fazer diferença, a não botar sentido no calendário. Uma pessoa nula pode ser infrutuosa por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre.
  11. O homem natural vive numa gangorra erótica: divide-se, sucessivamente, entre várias mulheres; porquê numas vê a “cavala” que lhe acende o sangue e a carne (o útil, biológicamente), e noutras enxerga a “amélia” que lhe sereniza o coração e a mente (o agradável, afetivamente). Ora deseja a paixão daquela que apenas é capaz de lhe estremecer sexualmente, ora anseia pelo amor daquela que apenas é capaz de lhe apaziguar o espírito sedento de carinho. Quando percebe isto, enfim, quando percebe que esporadicamente é vítima desta [repito] “gangorra erótica”, o homem pode libertar-se e, então, pode conscientemente escolher unir o útil ao agradável: uma só mulher, que lhe satisfaça o corpo, o espírito e a alma. Mas, leva tempo encontrá-la. Leva tempo, mas vale à pena. Leva tempo, porquê “o amor é uma longa paciência”, conforme bem poetou o velho portuga Vergílio Ferreira. O grande ideal da gangorra é equilibrarem-se seus lados — os dois lados da mesma tábua — que descem-e-sobem e, outra vez (lembra quando eras criança?), ficar com os pés suspensos e parados acima da terra, flutuando no ar, porquê ali dois pesos equivalentes transformaram a gangorra em balança…
  12. Tu finalmente saberás que definitivamente encontraste a Deus quando encontrares qualquer pessoa nesta vida e em cada uma delas sentires que reencontraste um irmão.
  13. Fui olhar pela janela porquê latiam os cães. Chovia, e os latidos se sobrepunham aos trovões. Por que cargas d’água tanto cachorro fora da casinha, e da casa, em pleno toró? Ghost riders in the sky… Eles viam o que eu não via.
  14. Sexo ilícito causa extrema irritabilidade.
  15. Entre os salvos, há uma categoria de pessoas que só consegue se afastar do pecado porquê Deus a aproxima constantemente do sofrimento. Quando se diz que “alguns vêm pelo amor e outros pela dor”, a realidade é esta mesma — e tudo vai muito além deste jargão da soteriologia gospel. Tem gente que só se acalma, que só se pacifica, que só consegue viver livre de irritações e violências, quando Deus as faz passar (esporadicamente) por determinadas dores físicas e metafísicas. Pedagogia espiritual.
  16. Ouvi hoje, por duas vezes, os dois sons mais belos que existem neste “mundão véio sem portera”: as gargalhadas de um bebê de colo e as gargalhadas de uma mulher apaixonada. Bach ou Mozart ou Handel nenhum seriam capazes de por em partitura melodias tão elevadas. Deus compõe. Deus compôs.
  17. A liberalidade de dar, de doar, é indício de desapego material. Porém, a liberalidade (que é libertação) de dar-se, de doar-se, é prova inequívoca de apego espiritual. As melhores pessoas que conheci, e que conheço, são aquelas que não apenas estendem suas mãos caridosas cheias de meios a quem precisa de ajuda; são aquelas pessoas que estendem-se com mãos, braços, pés, pernas, tronco, enfim, que com o corpo todo (então, com a alma e o espírito todos) estendem-se total e integralmente a quem necessita ser ajudado.
  18. O teu valor, oh homem, é medido pela gravidade das tuas renúncias.
  19. Tu chegas a ser o que és quando tua maior felicidade individual é… seres quem és! Quando já não quiseres parecer-te com este ou aquele, quando outros não forem para ti modelos, então, finalmente, serás o que és e sempre foste: tu serás tu mesmo, e a alegria de sê-lo te completará de gozo indizível e profundo. Grande gáudio é não querer ser outro, é não almejar ter outra vida, é em ti mesmo teres o prazer de ser — e assim é porquê tu és no Ser, porquê tu és do Ser.
  20. Dentre as três tradições cristãs, a liturgia ortodoxa é insuperavelmente a mais bela e também a mais espiritualmente solene e viva.
  21. A imagem, a alegoria. A arca que pousa sobre o Ararat é lenha para o altar de pedra, que é a própria montanha. Noé e sua mulher, seus filhos e noras, e os animais — são o sacrifício. O sol, no horizonte, é o fogo que não queima nem calcina. Ele aquece a vida que desce do altar e volta para a casa, e volta para o mundo. Sacrifício que respira a salvo o ar limpo e puro, úmido. É o sacrifício da morte, o sacrifício do sacrifício, o caminho inverso do sacrifício: o costume é subir para morrer; ali, desceu-se para viver.
  22. A paz que Deus nos dá, quando nada pedimos a Ele senão que possamos amá-Lo, supera todos os gozos deste mundo. Os presentes graciosos (Sola Gratia!) que Deus nos dá, quando renunciamos às baboseiras deste mundo, excedem nossos melhores e mais inspirados sonhos. A Ele eu sou grato por poder amá-Lo sem “contrapartidas”. A Deus eu sou grato por ganhar tudo merecendo nada. A alegria de agir com consciência livre neste mundo — sabendo como ele funciona — é a maior alegria a que pode aspirar um descendente (resgatado) de Adão.
  23. Quando tu te decidires escolher a Deus e deixares os deuses deste mundo, estes deuses passarão logo a propor-te parceria; se a rejeitares, eles te proporão coleguismo; se o rejeitares, a proposta será amizade; e se ainda esta rejeitares, os deuses propor-te-ão apaixonadíssima sociedade plena com direito a lucros e dividendos nas pilhagens físicas e metafísicas, querendo-te fazer também um deus. Então, se desta proposta também te furtares, tu serás dos deuses um inimigo capital — tu serás para eles um satanás, um satanâs para os diabolos; e, então, serás amigo de Deus; e então serás irmão e filho de Deus. Teu nome, oh Imagem-e-Semelhança, é Philotheos.
  24. Que bela esperança eu queria ter quando o vento levava a lágrima. Que bela chance de o luto conter quando toda obra era arte prima. A Civilização é um container sujo: arca de ouro custodiando merda…
  25. Luz na Babilônia ou trevas em Jerusalém. Escolhe, pois!
  26. Um rato não nasce com o coração de um leão. Se aí dentro de ti as luzes mais escondidas vez ou outra emergem e brevemente faíscam em meio à tua própria escuridão e por um instante o pulso firme da tua consciência esgana a loucura do teu pecado e tu por isto vislumbras o céu clarinho da verdade pacificando teu ser inquieto, sabe logo isto: tu tens uma vocação à grandeza verdadeira. Deixa ela ressurgir no teu peito. Deixa ela germinar no teu espírito. Deixa rugir o leão!
  27. Se tu não entendes porquê teu coração é bobo. Se tu não entendes porquê teu coração é ingênuo como o coração das crianças. E se tu não entendes porquê, ainda assim (sendo bobo e infantil), contra ele se batem toda a esperteza e toda a malícia do mundo, sabe pois isto: o teu coração é “bobo” porquê tens nele qualquer especial pureza, o teu coração é de “menino” cheirando a leite porquê tens nele algo da fé dos inocentes. Se contra o teu coração forças terríveis e poderosas raposeiramente se lançam em guerra, sabe que assim acontece porquê o Senhor te quis provar “para saber o que estava no teu coração” (Deuteronômio 8:2). Tua bobeira é tua grandeza e virtude; ela te dará a suma sabedoria! Tua criançolice é tua arquinha de salvação num mundo velhaco e adultesco à espera de outro dilúvio; ela te renderá a suma santidade!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *