Esponjas de sol — XXVIII

  1. Três mandamentos que adoto e aconselho que adote quem quiser levar vida livre e piedosa: I. Perdoa tudo a todos sempre, com coração sincero e humilde. Isto não só te libertará da violência da tua própria alma quando ela for injustiçada, mas te fará um abrigo de graça divina para a redenção dos próprios injustos. Com isto, de Deus também alcançarás melhor perdão e terás um espírito pacificado; II. Livra-te de todo melindre acerca do julgamento do mundo. O que importa é tua consciência diante de Deus, o que importa é tua conduta terrena aspirando à Eternidade, o que importa é tua ação reta e varonil; III. Nada espera de ninguém, senão que esperem de ti o melhor. Tu realmente não deves esperar bondade ou maldade das gentes, em suma, não deves esperar quaisquer coisas (benéficas ou maléficas) de quem quer que seja, mas espera, isto sim!, que de ti esperem todas estas boas coisas. Sê um exemplo para os exemplares, um exemplo para os inexemplares e um exemplo para os sem exemplo.
  2. Uma vida bem vivida é uma vida bem escolhida. Nossas escolhas atuais serão nossas alegrias ou nossos fardos futuros. Cada cabeça, uma sentença, e, a cada sentença, um juízo existencial inalterável. Por isto, quando fores decidir isto ou aquilo para “agora”, não te esqueças que tal decisão redundará nisto ou naquilo para “depois”. A tua semeadura será a tua colheita e a tua colheita — deliciosa ou detestável — será o teu alimento para todos os demais dias que viveres sobre este planetinha ordinário. Escolher é a força-motriz da tua glória venturosa ou do teu infame fracasso. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser via para o Céu ou atalho para o Inferno. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser mesa de fartura no deserto ou fome seca em floresta tropical. Escolhe, pois!
  3. Chorar o leite derramado é, definitivamente, grande tolice, se não for para prevenir futuros “derramamentos”. Seja o leite uma gota solitária ou o fruto da ordenha de toda uma manada, o pranto será infértil se for mera manifestação emocional de sofrimento e não for tratado como deve ser tratado: uma oportunidade de padecer pedagogicamente para, no futuro, não derramar o leite (ou, se derramá-lo novamente, não chorar tanto).
  4. Chegará o dia em que me cantarão os anjos um réquiem. Eu saberei e direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor! Mas Tu, ao meu lado e ao lado do féretro meu, cantará também, cantará tão bem: “…et perducant te in civitatem sanctam Ierusalem.” E eu centenário já, no corpo prestes a volver ao pó; e eu, recém-nascido em leito de carne gloriosa, direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor!
  5. Não existe grande amor para toda a vida que não seja acompanhado de pequenas e de pequeninas gentilezas diárias. No tempo, o amor é um micro conta-gotas que adiciona e subtrai diariamente suas nano-gotículas de carinho.
  6. É na liberdade que se prova qualquer amor. E é na ausência dos olhos que se prova o valor e as ações de quem ama (ou, mais frequentemente, de quem deveria amar, de quem diz amar). Ser incapaz de lealdade é ser incapaz de amar. Amor, teu sobrenome é lealdade!
  7. Vinte e oito anos é a minha idade. E desde os seis anos (logo depois dos meus cinco) eu vou tentando continuar a ser aquele “niño frente a Dios” que então sonhava com anjos jogando futebol e que agora, bem acordado, ora um “sólo le pido a Dios” para que os homens joguem menos futebol e pensem mais no mundo dos anjos.
  8. O maior sinal de infelicidade é o frenesi de querer ocupar o tempo. Minha geração é também infeliz por isto: porque, não tendo consciência da boa vida que escorre quieta no dia-a-dia, se aferra no ativismo desesperado de “fazer alguma coisa” o tempo todo, para não ter que olhar-se, em silêncio, diante do espelho ou para não ter que conviver consigo mesmo um ciclo de 24 horas completas. São incapazes de passar um dia livre consigo mesmos, porque senão adoecem em tristeza e depressão. Por isto, ocupam-se com frenesis barulhentos (talvez eles abafem o megafone da realidade que pulsa desespero no peito, certo?). Vide a dinâmica perversa duma balada: um poço de carências altissonantes, de traumas dourados por pose e enrijecidos pelo álcool que lhes amolece as almas. Não percebem o vácuo de significados que lhes martela a cabeça quando vocês vão dormir as 5 ou 6 ou 7 da manhã? Ouçam este bobo: vocês não serão felizes enquanto não olharem para a existência com aquele olhar que vocês tinham quando passavam “domingos medíocres” comendo a macarronada na casa dos avôzinhos, brincando com os primos a tarde toda, dormindo sossegados das 10 da noite às 10 da manhã, pondo o pé na terra onde a bola rolava e a cabeça no céu onde a pipa voava, esquecendo das necessidades do ego que lhes obriga a mostrarem-se o que não são (felizes, vocês não são). Ouçam este bobo, pelo amor de Deus e por amor a vocês mesmos.
  9. Dizer coisas bonitas não importa muito para o amor: fazer coisas bonitas, sim, importa muito para o amor. Mas quando fizeres coisas bonitas dirás inevitavelmente beleza. Impossível que tua ação não crie seu reverso em palavra.
  10. Tudo bem, os calendários se acabarão / E os relógios um a um pararão silentes. / Tudo o que conta o tempo e o mastiga, / Tudo o que anuncia em número a vida, / Tudo bem, isto no mal acabará um dia. / Os marcadores se desfarão no inferno / E sobrará, total, na terra a eternidade.
  11. O horizonte caminha comigo de ponto a ponto. / Se lhe volto as costas, ele gira e caminha comigo. / Se os meus pés são meu particular promontório, / Se o meu caminhar é meu limiar para o tempo, / O horizonte nada pode, senão caminhar comigo.
  12. A pedra de toque de qualquer pessoa são seus olhos. Nestes dois órgãos repousam toda a complexidade e toda a simplicidade humana: vê-se tudo ali, no movimento do globo e no fulgor da íris. “Olhos d’alma”, disse algum poeta anônimo. Deus proveu aos percebedores e sensíveis que pudessem perceber e sentir o quanto, às vezes, a palavra falada contradiz a palavra guardada no fundo dos olhos, o quanto aquilo que passou pela língua e pelas cordas vocais contraria o dito no profundo dos olhos.
  13. Oração de um velho patriarca ortodoxo georgiano: “Oh, Deus Eterno, aqui dos meus altos anos, canto-te estas palavras em voz vacilante, mas ouve-as mesmo assim, porque se a língua fraqueja é inda pronto meu coração. Oh, Deus Benevolente, Tu que consagraste-me a este ofício, dá-me Tua piedade e estende sobre minha alma Tua mão. Oh, Deus Pastor, Tu que és verdadeiro e vê nua minha mente, dá-me para que bem use o Teu cajado. Sê pai para mim, meu Pai. Dá-me a Ti, dá-me para Ti. Sê calor para meus pés frios neste inverno. Oh, Deus Santo, fazei-me santo a cada copo d’água e a cada cálice de vinho que eu der de beber aos teus santinhos. Isto te pede este teu servo, pequenino e suplicante. Ouve-me. Amém!”

[Assisti Ilia II cantando (https://www.youtube.com/watch?v=HuWAkADPV4Q). Não tenho a mínima idéia do significado das palavras cantadas, mas é isto que me caiu no espírito.]

  1. As piores angústias espirituais da existência, creio, passam os velhinhos que tiveram vida juvenil e adulta dissipada. Vi isto no olhar de alguns idosos num asilo. A pele enrugada (e fria) sente rolar a lágrima quente e o silêncio retoricamente discursa: “O que eu fiz da minha vida?”
  2. A palavra gera a ação, o abstrato gera o concreto, o metafísico gera o físico: “As más conversações corrompem os bons costumes.” (I Coríntios 15:33)
  3. Ou a vida será esta aventura que pregam os teólogos ou ela será esta lama animada que pregam os biólogos. Mas, vede, que se é uma coisa ou outra, porque a escolha? Se tu optas pelo caminho metafísico, serás nele feliz. E se escolhes perambular pelo físico, serás nele infeliz. Neste andar mesmo já se entende, já se compreende tudo.
  4. O indefinido é a rabiola “visível” do infinito.
  5. A angústia é um sentimento fenomenal. Ela é um choque distendido de consciência. Só se angustia quem tocou com o pensamento verdadeiro nalgum sentimento verdadeiro, fazendo com que ambos se chocassem, unidos, contra pensamentos e sentimentos falsos (mas tidos por verdadeiros) acerca da realidade — coletiva ou particular. A angústia te obriga à avaliação do mundo e à reavaliação de si. A angústia é uma graça do Espírito Santo; é uma agente da metanoia.
  6. Briga (não debate filosófico-teológico, importantíssimo, que é bem lá outra coisa) de católico com evangélico é uma das coisas mais contraproducentes não só em matéria espiritual pessoal, mas é, mesmo, questão de sobrevivência civilizacional coletiva do Cristianismo. Os fanáticos islâmicos quando matam cristãos não perguntam antes se eles são romanos ou protestantes, não diferenciam teologicamente tradicionalistas de calvinistas e carismáticos de pentecostais quando explodem bombas em igrejas. Basta chamar Cristo de “meu Deus e meu Senhor!” que te cortam a garganta, seja você copta, adventista, ortodoxo ou mesmo um “desigrejado”. E vocês, aí, infantilmente se “matando” com seus porretes e estilingues? O nome disto é fratricídio, meus irmãos!
  7. Questões teológicas e doutrinárias podem certamente levar o Papa, o Arcebispo de Canterbury, o Patriarca de Constantinopla e o Pastor de Wittenberg para o Inferno, mas, muito dificilmente, levarão os simplórios fieis (que ocupam bancos e que amam a Cristo e que apenas esperam viver quietos em Deus a “verdade” das suas igrejas) quando estes se põem a debater acerca de tais assuntos sem muito estudar e saber, infernizando seus irmãos.
  8. Vida boa é aquela que, espiritualmente, concentra em todas as suas fases, momentos e instantes todo o seu sentido, toda a sua completude e unidade de significados. Quando se tem um norte bem calibrado na alma, todos os acontecimentos existenciais (sobretudo as agruras) são “felicizadas” por este sentido que é Sentido, por estes significados que são Significado. É como se pululassem “paraísinhos de logos” a cada passo consciente; paraísinhos às vezes lacrimosos, inclusive, mas paraísinhos que apontam e fazem sentir o Paraíso do Verbo. Vida boa, porém, só se obtém quando se está determinado a preferi-la a tudo.
  9. O enorme contingente de maus católicos no Brasil deve-se ao enorme contingente de maus padres do Brasil. O grosso dos católicos nacionais não sabe o que é o Catolicismo porque seu clero brasileiro também não sabe o que é e, quando sabe, esconde o que é porque prefere uma visão mais “soft” de moral.
  10. A rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos.
  11. Qualquer religião subsiste sem inteligência (capacidade de apreender “as coisas visíveis e invisíveis”, certo?). Até a seita “atéia-teen” do Monstro do Espaguete Voador pode ser levada a sério. O Cristianismo, porém, existe-na-Inteligência porque emerge da própria Realidade: nele, o senso-comum (tão odiado, porque naturalmente cognoscível, pelos petulantes complexificadores) é capaz de fazer as vezes do Q.I. até mesmo na Mula de Balaão.
  12. Em termos de Pedagogia extra-escolar (doméstica, pois), sou da opinião de que não se deve bater de modo algum em crianças como meio de punição. Os pais devem, isto sim, amá-las tão fortemente que a simples demonstração de desaprovação por eles seja para seus filhos o maior e mais temível dos castigos. Castigos físicos apenas criam medo, não respeito verdadeiro. Impedem malcriações e erros morais (até certo ponto) pelo trauma inconsciente, não pela consciência livre. No entanto, para isto, a família deve ser singularmente sólida: pai e mãe devem ensinar pelo próprio exemplo de retidão, de caráter e de espírito elevado. E isto começa com um casamento igualmente bem instituído entre marido e mulher. Difícil? Mas é este o caminho, o caminho do amor que — por ser amor de fato — dispensa varas, chinelos, palmadas, socos, tabefes e toda sorte de barbárie em nome da correção legalista.
  13. O poema “Quadrilha” de Drummond é, no contexto do amor natural, a suprema realidade relacional.
  14. O único e grande medo que deve atribular nossa alma é o medo de passar pela vida como se ela fosse apenas existência: deixando pegadas de símio milenarmente envelhecido (do parto ao cemitério) e não o eternal legado de ser humano (da concepção à ressurreição).
  15. A renúncia cristã consciente (não a traumática da ascese dos fanáticos que em tudo veem pecado) é paradoxal: logo após, ela nos premia com o superlativo qualitativo das coisas quantitativamente renunciadas. Vem o mundo e te oferta uma coroa dalgum reino expansionista; vem Deus e te concede a soberania da tua alma. Vem o mundo e te oferta um harém de musas e ninfas deliciosamente inférteis; vem Deus e te concede a esposa, bela videira de seios frutíferos. Vem o mundo e te oferta uma mesa de finos manjareis palacianos; vem Deus e te concede o “pão nosso de cada dia” que mais saboroso fica conforme mais se trabalha por ele. A renúncia cristã que é, então, senão a renúncia de prazeres concentrada e temporalmente etéreos (cujo impacto imediato não passa dum polvilhar atômico de ilusões muito densas) em benefício de verdadeiro prazer permanente? A renúncia cristã é ganho de verdadeira, de verdadeira alegria!
  16. Nem tudo o que não brilha não é ouro.
  17. Tu trocas o certo pelo duvidoso quando, sucessiva e decrescentemente, duvidas da certeza. A certeza se esvai gradualmente quando olhas para trás — onde está o desejo abandonado.
  18. Pouca gente quer escalar a Grande Pirâmide de Gizé. Pouca gente quer pedalar sua bicicleta na Grande Muralha da China. Pouca gente quer voar de balão sobre o Saara. Pouca gente quer singrar mares e oceanos e caminhar pelas planícies e planaltos e pelas montanhas do planeta. Pouca gente quer comer na marmita dos berberes, na prataria dourada dos czares, na porcelana fina dos nipônicos; na verdade, pouca gente quer comer as comidas da terra. Pouca gente quer compor, quer escrever, quer erigir, quer pintar, quer esculpir, quer filmar. Pouca gente quer namorar, quer noivar, quer casar e quer gerar filhos. Pouca gente quer ser gente e perscrutar a Humanidade com suas obviedades patentes e seus mistérios insondáveis. Mas, ainda assim, há esta pouca gente que não é “pouca coisa”. Louvo a Deus por este pugilo de homens e mulheres que, ainda que poucos, diariamente salvam o mundo da pouquidão.
  19. Nunca obrigarás alguém à nada. Nem (e sobretudo) ao Bem. O que se faz coagido não tem valor espiritual e moral algum. Afinal, não é feito em função da consciência livre; mas é feito pela necessidade desalmada de cumprir um “requisito” externo ou de ceder à uma retórica molestante. Pergunta e aconselha: propõe, mas não impõe. Respeita as decisões alheias com severidade.
  20. Se diariamente tu te sentes mal porque és e pensas e acreditas em ideais mais elevados e tens em ti sentimentos e “aspirações altas e nobres e lúcidas” e o mundo não te compreende e as pessoas te olham de soslaio, dê-me a mão: tu és mais um dignitário desta invisível confraria de peixes fora d’água. Não te sintas mal por sentires aquilo que o coração de Deus também sente — esta angústia de querer ser bom. Sente, antes, o Bem que o Senhor depositou em ti: este bem de querer ser aquilo que Adão deveria ter sido, este bem de querer tocar o Ser por detrás do Ente, este bem de honrar a tua consciência podendo olhar reta e diretamente no fundo e no profundo dos olhos de qualquer ser humano. Não te entristeças. Te alegra, sobretudo, te alegra porque és e pensas e acreditas…
  21. Agora, que os pastos estão secos na terra acinzentada. / Agora, que o pastor está jogando às chamas seu cajado. / Agora, que tu és a ovelha perdida na noite mais escura, / Que farás senão ansiar por sacrifício a Deus no templo?
  22. Homem, as coisas para as quais tu diariamente vives honram a morte do teu Senhor?
  23. Nós homens somos naturalmente mais “abrutalhados” (o que não quer dizer menos preparados) para o amor. Mas, que coisa terrível e monstruosa é uma mulher insensível ao amor?
  24. Se prestares atenção mais meditada e pela intuição medida, perceberás que nas pedras há qualquer coisa de misterioso. Mistério místico e transcendente? De modo algum: mistério imanentíssimo, porquê mistério que revela a necessidade de constituir verdades aparentes. Erigir pirâmides, altares, totens e construções sólidas que nos ultrapassem no tempo… A rigidez da pedra talhada é uma concretização das nossas certezas abstratas, porque existem e existirão e superam e nos superarão?
  25. Sintoma número 1 de infelicidade disfarçada com entretimento: inquietude.
  26. O Trump tem lá o lema dele. O meu, para agora (já que o inglês engoliu o francês, que engoliu o latim), é este: make the West great again!
  27. Entre o dogmatismo ideológico do ferro enferrujado e a liquidez descompromissada da diarreia subjetiva, goteja eternamente para o alto o mercúrio cristão.
  28. Dizer que a idéia de “vida eterna” deriva necessariamente do desejo auto-conservativo de prolongar metafisicamente a existência material (contra a morte), equivale a dizer que o paladar deriva da mastigação deleitosa do nosso prato preferido.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *