Esponjas de sol – XXVII

  1. Sexo sem amor é como sabor sem nutrição: você mastiga (você come), mas não se alimenta. A língua se extasia no paladar endorfínico, mas o corpo não recebe as proteínas, os nutrientes e as vitaminas. Não é outro o motivo causador dessas multidões de anêmicos (de carentes) ambulantes, que procuram diariamente nos buffets palacianos aquilo que apenas os pratos da rotina serena podem propiciar. No pensamento, o pessoal não quer amar e se casar no altar e então ter filhos (porque isto, afinal, inibe certos cardápios de prazer); mas no sentimento, deseja ainda a praxe encantada e pragmática do semanal amor romântico à moda arroz-com-feijão-e-ovo-frito-e-bife na mesa larga entre os tios e tias, primos e primas, irmãos e irmãos, pai e mãe, avôs e avós. As carências desta geração — dos homens e, principalmente, das mulheres — derivam disto: batata frita é coisa boa, mas dela você apenas tem os pluri-multi gostos das mil lanchonetes que frequenta, onde come todas as espécies de batatas fritas (das chips inglesas às bratkartoffel alemãs), mas onde também logo após as cospe anoréxicamente, fatia à fatia. Não crê que está hora de encontrar a “batata frita tradicional” de algum antigo fogão caseiro e, na mesma mesa por décadas a fio, mastigar, comer e se nutrir daquela que, entre todas, será definitivamente “a melhor batata frita do mundo”? Pense nisto.
  2. Dada a atual conjuntura das nações, a única forma de evitar uma guerra [definitiva?] entre Ocidente Cristão e Oriente Islâmico é a rendição incondicional do primeiro ao segundo. Caelum denique!
  3. A situação das nações ocidentais [cristãs] frente ao Globalismo ficará tão terrivelmente perigosa para suas soberanias que, para defenderem-se de um poder global centralizado, monarquias precisarão ser instauradas/restauradas e-ou “ditaduras” à moda romana (caveant consules!) deverão surgir para concentrar poder eficiente na luta contra o Anticristo.
  4. Os ingleses de outrora cantavam os versos de William Blake — Jerusalem — nas suas pelejas nacionais. Hoje em dia, sussurram Imagine e sopram bolhinhas de sabão.
  5. ONU? Anathema!
  6. Os sinceros são quase sempre ingênuos. Nós cremos que os outros depositam nas palavras que saem da boca a verdade que está lá dentro deles quando eles falam e dizem. Particularmente, talvez minha sorte consista em que, não obstante ser sentimentalmente ingênuo, não o seja intelectualmente. Aquilo que me abala o coração pouquíssimo comove meu cérebro — forte com a alma que o envolve. Afinal, quando se está de fato interessado no conhecimento “das coisas visíveis e invisíveis”, não se é pego de supetão no pensamento e aquilo que pega de surpresa no sentimento logo é simbioticamente aderido à razão e apenas vem servir como mera e posterior comprovação prática da realidade teórica anteriormente sabida. Deus julgará a História da Humanidade e as histórias e as estórias de cada um dos homens e, então, sinceros ou dissimulados, ingênuos ou velhacos, o tudo de todos virá à luz. Alegremo-nos quando o Senhor resolve aluminar um poucochinho das coisas encobertas no dia-a-dia, gotejando homeopaticamente a verdade com o conta-gotas do Espírito Santo.
  7. Nossa consciência diante de Deus vale mais que o mundo inteiro. Todo o resto é dispensável como o são aqueles pequenos pontinhos amarronzados que encontramos nas fechaduras dos banheiros públicos: é dispensável como são dispensáveis as fezes de um mosquito.
  8. A biografia de Henrique VIII é um denso líbelo contra o adultério e pecados conexos. Ana Bolena foi amante do rei enquanto este era casado com Catarina de Aragão (excelente esposa, acabou seus dias piamente depois do divórcio década depois) e, quando esposa, acabou decapitada a mando dele sob a acusação de adultério. Joana Seymour foi amante do rei enquanto este era casado com Bolena e, depois enquanto esposa, morreu sofrendo num parto difícil. Catarina Howard foi amante do rei enquanto este era casado com Ana de Cléves (que não foi amante de ninguém, por isso também sobreviveu década ao divórcio) e, já esposa, foi decapitada a mando dele sob acusação de adultério. Ele se casou ainda uma sexta vez com Catarina Parr, que sem frequentar as alcovas indecentes do rei antes de ir com ele ao altar, morreu velha e em muito sobreviveu ao marido. E o luxurioso rei Henrique, que a todas estas traiu regular e concomitantemente? Sifílico, enlouquecia ano a ano; carregado de dores lancinantes nas juntas, nos ossos, nos órgãos, no espírito. Basta dizer que seu corpo morto, cheio de putrefação gerada em vida, explodiu no caixão. Pouco, para aquele que ainda martirizou tantos e tantos e também martirizou a Thomas More. “O salário do pecado é a morte”, diz lá o Evangelho.
  9. Os príncipes Ricardo e Eduardo, os “Príncipes da Torre”, creio que foram mortos por Henrique VII (também assassino doutros tantos pretendentes à coroa). O quanto padeceu existencialmente a descendência do Rei Tudor interpreta “constelacionalmente” todo o caso.
  10. Não me agrada em absoluto a idéia de uma dinastia estrangeira governar um povo no qual não está imantando seu espírito e sua alma e seu corpo. Podem passar séculos, mas o assento do trono sempre está aquecido.
  11. A Sinfonia n.o 1 de Rachmaninoff: densamente bela, como o último (e consciente) gole de vinho de um bêbado antes da conversão — a conversão que lhe permitirá cear o “sangue”. Visceralmente escatológica, profundamente augúrica.
  12. O pessoal se esquece, recorrentemente, que o mesmo Deus que erigiu o Céu para os arrependidos também criou o Inferno para os impenitentes. E lá não é lugar “de pranto e ranger de dentes” apenas para demônios e teletubbies (que sequer têm dentes)…
  13. Quisera poder agarrar cada filho-da-puta e canalha libertino pelo pescoço e torce-los como se torcem na roça caipira os pescoços das galinhas para o caldo dos doentes. Quisera poder, diante de tanta malícia e leviandade, aos socos quebrar um a um os dentes dos velhacos labiosos. Quisera, com espada na mão, retalhar “pichações de ferimentos” nas costas e frontes dos cafetões que levam moças de bom coração para o mau caminho. Quisera açoitar cada destruidor de lar em praça pública, diante da assistência de outros tantos bons pais de família. Quisera capar cada depravado mal encaminhador de meninas ingênuas com a lâmina que deu cabo dos cães que mastigaram a carne de Jezabel. Quisera buscar pedras no topo do Ararat para lapidar o crânio de todo e qualquer malandro assaltante de inocências e fragilidades femininas. Quisera… Mas, olho para tua fronte, oh Cristo!, e já não quero… Quero, já agora, que tu enxugues toda lágrima e que céus e terra passem o mais rápido possível. Quero que sofram! Ah, isto ainda o quero. Mas já não o quero para vingar cóleras e iras. Mas já não o quero para fartar-me de justicismo visceral e impiedoso. Quero que sofram para que acordem desta profunda letargia, para que estas consciências cauterizadas te ouçam através do megafone do sofrimento e, então, parem de sofrer e de fazer os outros sofrerem. Quero — desejo e anseio — que cada um destes seja “entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.”
  14. Dignidade espiritual implica em estar livre o suficiente para, de si mesmo, contar as pequenas verdades inconvenientes com o mesmo ímpeto e glória com que se anuncia as grandes verdades lisonjeiras acerca de si mesmo. Nenhum verniz, nenhuma superficialidade de pseudo “bom tom” ou de “desculpinha para não pegar mal” é capaz de anular no homem que está se fundindo (sem se confundir com) em Deus a verdade de mostrar-se falho também nas coisinhas mais nânicas. Ora, tu xingas aqueles que te irritam com o barulho da mastigação? Tu tens medo de altura como aos cinco anos de idade tinhas medo de escuro? Tu és desastrado a ponto de quebrar copos e pratos toda santa semana? Pois é. Sou eu. Somos nós todos, com ou sem a indignidade de importar-se em deixar estar na reclusão das aparências da vida estas pequeninas falhinhas da nossa humanidadezinha.
  15. Quando crianças, nós temos todos os sonhos do mundo. Adultos, mas não menos sonhadores se conscientes da existência, a gente chega à conclusão de que o dourado celeste dos sonhos não vale tanto à pena quanto por as mãos no vermelho sujo da terra: a terra que é a perpétua memória presente e constante da [nossa] realidade. A realidade — nua, dura e crua — é um sonho que se escolhe sonhar se nós nos despimos daquilo que São Paulo chama “coisas de menino” e, então, resolvemos construir os abrinquedados castelos de areia com o barro conspurcado do mundo.
  16. Com meu pai, aprendi como se deve tratar uma mulher. Com minha mãe, aprendi com quais tipos de mulher não devo tratar. Com meu pai aprendi quais tipos de homem não devo ser: não ser, sobretudo, um abutre “secando” a presa desavisada no alto calor do deserto para comer-lhe as carnes e depois jogar a carcaça numa montanha de ossos. Com minha mãe aprendi quais tipos de “mulher” aceitam ser destratadas por aqueles tipos de “homem”: aceitam ser uma bisteca suculenta pendurada no gancho de aço do açougue a espera da gula sem paladar dalgum filho-da-puta ruminador de corações. Em suma, aprendi a não ser um bostinha obsessivamente materialista. Com meu pai aprendi a ser homem integral como ele o é — varão cristão, todo honrado, plenamente bom. Com minha mãe aprendi a valorizar e querer sumamente bem a uma mulher integral como ela o é — varoa cristã, toda elevação, plenamente bondosa. Com meu pai e com minha mãe aprendi (e eles aprenderam dos pais e mães deles) que certos valores fundamentais — eternos e permanentes num mundo fugaz e passageiro — não se transigem de jeito maneira. Aprendi que as coisas boas não são fáceis como o Facebook, não são baratas como o Instagram, não são veniais como o WhatsApp. Aprendi que a vida boa não é superficial e que um casal a sério só se forma a sério e só permanece formado a sério com valores sérios. Não há coisa mais séria que o Amor. Não há valor mais elevado que o Amor. O ordinário das baladinhas suadas e alcoólicas que acabam atrás do banheiro químico não me interessa. O ordinário com o qual os neanderthais raveanos pós-modernos estão acostumados não me interessa. Podem me chamar de reacionário, de conservador, de quadrado, de antiquado. Eu sou das antigas mesmo. E é isto. E Feliz [resto de] Dia dos Namorados pros cêis.
  17. O auge da maturidade é saber escolher conscientemente entre dois (ou entre vários) caminhos; é ter a capacidade de agir livremente ao apontar para as rotas de existência e dizer “quero isto!” e “não quero isto!”; é ter senso de proporção qualitativa para com suas possibilidades de vida no Mundo e, a partir dos critérios para si e por si em Deus estipulados, o indivíduo dizer acerca de sua atuação na Realidade justamente aquilo que nos diz, exortando, o célebre poema de Henley (Invictus): “Eu sou o mestre de meu destino: eu sou o capitão de minha alma.” Só é maduro o suficiente para ser feliz quem é capaz de deslizar por entre os poderes construídos na própria alma pela Queda. É maduro quem derruba estes poderes. E é maduro quem se levanta por sobre os escombros da “arquitetura do desejo” que o Contexto erigiu em seu próprio espírito e, desde o quase nada, recomeça as obras de “engenharia da vontade” que farão de si mesmo esta Obra: ser um Ser que é imagem e semelhança Daquele que É.
  18. Curioso. Os dias cinzas de frio tem qualquer coisa de proximidade afetiva e intelectual com o Eu e com Tempo. Preste atenção em como nossa rotina fica mais consciente, menos atrapalhada, mais retilínea, menos anárquica: como nossa rotina fica mais “entre-pautada” por nós mesmos — nos dá sensação de maior individualidade (talvez porque o calor mais próximo seja o nosso). A gente põe a cabeça pra fora das cobertas com uma sensação de que o mundo lá fora tem qualquer coisa que nos é estranha; coisa que, quando a temperatura é mais alta, nos faz mais do que nunca pertencentes ao mesmo mundo da grande massa material fundida e confundida. Os dias cinzas de frio nos afastam dos objetos e da matéria alheios aos nossos próprios objetos e matéria, meio que nos retro-catapultando para o calor telúrico primordial que habita nosso peito. Curioso em como, nestes dias cinzas de frio, o tempo se parece mais com algo que passa efetivamente (mas com destino fixo, com um fim mais conhecido). Curioso em como, nos dias quentes de calor, dias mais coloridos — ou mais amarelos, laranjas e vermelhos –, o tempo se parece mais com algo que não passa senão no calendário, um calendário que apenas marca a insignificância de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Em dias frios, o tempo é uma linha quilométrica e nós discernimos (porque nos ensimesmamos) seu começo e sentimos que caminhamos até seu fim. Em dias quentes, o tempo é um novelo quilométrico e nós mal sabemos (porque estamos diluídos nos coletivos existenciais) se há de fato começo, meio e fim e mesmo mal sabemos se há de fato um novelo. Curioso.
  19. Com o perdão da palavra, mas… em adultos (critério cronológico válido para homens e mulheres) rebeldia e porraloquismo é coisa de criança mal desmamada. Não há nada de transgressor em mostrar o dedo do meio para os pais em casa e para o mundo inteiro no Facebook e vomitar — entre cuspes vociferantes — suas opiniões birrentas “na cara da sociedade” como se elas constituíssem um novo decálogo para a salvação de nós outros. O tipo “rebelde sem causa” já era um saco em tempos mais ideológicos (aqueles que pariram hippies para Woodstock e pichadores para as paredes das catedrais parisienses em Maio de 68), mas, agora, em tempos de dissolvência digital, estes idealistas de dedo em riste são ainda mais chatos; mais chatos porque sequer têm, propriamente, qualquer coisa para chamar de “minha opinião”, por mais lesada que ela seja. Ô… fio, ô… fia: o dedo do meio significaria alguma coisa na mão de Winston Churchill (o qual, contudo, preferia o “V” armado pelos dedos indicador e médio) e na mão da Iron Lady Thatcher (que costumava apontar para seus amigos e inimigos com o indicador); mas, na sua mãozinha bem nutrida pelo trabalho dos pais que você despreza, isso é apenas um tosco sinal de falta de educação e de burrice caricaturalizada. Transgressão das boas, transgressão verdadeira, é postar-se diante de um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial, é dar sua vida nas florestas do Congo para pregar o nome de Cristo, é compor uma sinfonia à Shostakovich num meio musical que ainda aplaude minuetos afrescalhados, é… fazer, construir, erigir, levantar, criar… é ser densa e orgulhosamente humano quando já poucos têm coragem de abraçar a Realidade, mesmo que aos prantos. Mostrar o dedo do meio para as câmeras até um macaquinho mamando é capaz de mostrar, certo?
  20. Sobre a tal profecia contra Reuel Bernardino, apenas uma única palavra me interessou, dado o bradado “Homem, a tua capa vai cair!”: Quetzal. Em língua proto-nahua (asteca, vá lá), quetzal ou quetzalli significa “manto sagrado”. É o nome de um pássaro; nome que, em grego (pharo-machrus), significa “manto largo.” Curioso, não?
  21. Suposta carta que se encontrou no bolso direito da camisa de um soldado russo que, em luta, morreu agora a pouco no Iraque: “Glorioso Deus, para vós a escuridão nada significa. Para nós, é o breu que nos faz esquecer quem somos. Quando é tudo treva, mal sabemos de fato quem somos. O pânico nos desumaniza. Senhor, escutais o ricochetear dos tiros de fuzis do ISIS? Eles nos des-individualizam. Porque nossas armas são para a defesa de muitos eus; e as deles são para o extermínio dos nossos eus. Eles todos são um eu que não é um eu, são um conjunto de dados reto-raciocinantes que agem instintiva e matematicamente furiosos. Tu és um Eu; afinal, que medo terias? A escuridão é ser de carne e osso e existir como existem os olhos estalados do búfalo que se viu solitário diante do bando centeliar dos leões. O meu eu se amedronta diante dessa hoste. Todos os homens do meu batalhão pereceram. Todos. Fiquei eu. Fiquei eu só, aqui atrás da parede principal do trono dalgum príncipe mesopotâmico, adornado de leões que daqui a pouco aqueles frenéticos rugidores, que estão lá foram, implodirão com dinamite. Entendes este meu linguajar, certo? Não sou filósofo. Mal li Wittgenstein. É que meu vocabulário só consegue expressar estes pensamentos a Ti recorrendo a certos artifícios de linguagem… Glorioso Deus, para vós que significo? Porque vejo em meu peito o abismo negro do medo… Nós! Nós. Nós… Eu… Eu. Eu! Decidi-me: vou já para fora, porque sou luz do mundo. Urah!”

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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