Esponjas de sol – XXV

  1. É preciso que, diariamente, te decidas a ganhar o Céu.
  2. “O que queres da vida?” Quero ser um homem bom.
  3. Uma prova de que a imensa maioria dos seres humanos está densamente insensível ao mundo que a rodeia é que se de repente toda essa gente ficasse cega, seriam pouquíssimas as coisas que esses homo sapiens pós-modernos reconheceriam pelo tato. Pensa por ti mesmo acerca de ti mesmo: tu és capaz de diferenciar, de olhos vendados, as diferenças sutis que existem entre a folha de caderno e o papel de pão, entre a pétala da rosa colombiana e o veludo, entre a pele da mulher que amas e a pele da mulher que não amas, entre o leite quente derramado na mão e a lágrima derramada na palma da mão, entre a porcelana grossa e o vidro fino, entre o metal menos duro e o plástico mais duro; enfim, se ficasses cego, tu saberias já ao primeiro momento de escuridão distinguir verdadeiramente a sensível “glória particular” material de cada uma das coisas nas quais tocas todo santo dia?
  4. O castigo dos imbecis consiste justamente em ser o que eles são.
  5. Esquerda e Direita não são apenas uma desgraça ideológica. São também uma desgraça retórico-matemática: ambas vivem fazendo as contas para aferir qual lado matou mais e qual lado matou menos — e vice-versa. Entre planilhas contadorescas de campos de concentração à destra e gulags à sinistra, só consigo me lembrar desta frase memorial de Michael Ende: “O horror perde seu espanto quando se repete muito.” E o que pode ser mais repetitivo que uma obsessão pato-ideológica movida a números?
  6. Militância Ideológica é um dos antônimos de Vida Consciente.
  7. Virtuoso é o homem que em si harmoniza Lei e Liberdade.
  8. Líder da Nação ou Herói da Pátria? Monarquia vs. República: dia-a-dia ordinário produtor de estabilidade vs. momento extraordinário produtor de estabilidade.
  9. Já tentastes ser bom para com os maus? Já tentastes pagar com bem o mal? Como é difícil e árduo e… doloroso cortar a carne do espírito entristecido — para ser humilde! — com a lâmina com a qual eles nos cortam a vingativa alma injustiçada, com a qual eles colhem as lágrimas de ira (santa e pecadora) diretamente dos nossos olhos. Mas, tenta ser bom. Tenta, tenta e outra vez tenta e, então, serás bom para com os maus e alegremente pagarás com bondade cada gesto de maldade.
  10. No ânimo dos nossos avós havia a grandeza da decisão aventureira. Por isto, eles cruzaram o Atlântico em busca de vida materialmente mais aprazível, porquanto eram homens existencialmente resolvidos: a civilização que empobrecera posteriormente sua bolsa de dobrões era também a civilização que anteriormente dourara sua mentalidade bárbara. Hoje, uma minoria dos seus descendentes economicamente bem estabelecidos compreende a necessidade de buscar uma vida espiritualmente mais aprazível e, por isto, volta à Europa, à África e à Ásia. O Velho Mundo tornou-se, para o neto do imigrante, o Antigo Mundo ao qual é imperioso ligar a alma sob pena de perecer física e metafisicamente neste Novo Mundo juvenilmente envelhecido.
  11. O Mundo está merecendo um novo dilúvio…
  12. Não se deve planejar todos os veios e sulcos que conduzem o regato da nossa vida pessoal ao Rio da Vida. O Superior, através dos declives naturais da terra (seu tao), sempre nos arrastará — a nós, inferiores — a Si, à sua corrente ordenada de significado, de ordem missioneira, de vida com propósito ascendente. É da natureza do espírito escorrer para o Espírito assim como é da natureza da água, da gota d’água solitária, juntar-se às águas com igual propósito e, então, voltar às nuvens para depois volver ao Aqüífero Primordial. Tentando riscar atalhos arbitrários, nós impedimos o Fluxo Soberano.
  13. Nós já não temos homens a quem honrar com estátuas. Então, nós gastamos nosso mármore e nosso bronze com vermes retorcidos e pústulas animalescas. Nossas praças estão regurgitando monumentos lombricóides. Quando escasseiam as virtudes entre nós e toda elevação da alma é vista como arranjo contextual de causas externas, grandioso fica sendo o gusano que dá cabo da nossa matéria fétida; afinal, não é ele o supremo e derradeiro devorador dos “feitores” da História?
  14. Não foi um terrorista — um “lone wolf” — que assassinou “ao vivo e a cores”, diante das câmeras televisivas do planeta, o embaixador russo junto à corte de Ancara. Foi o próprio Governo Turco, amigo-oculto de longa data do ISIS, quem atirou à traição contra o emissário do Kremlin. O Eurasianismo deixou de ser monopólio russo: com Erdogan, os otomanos estão de volta e vêem à peleja marchando aos gritos de “Ceddin deden, neslin baban!” Está armado o palco para a Terceira Grande Guerra. Logo mais, o Dragão Chinês cospe fogo.
  15. Uma morte sempre arrancará lágrimas de alguém. Ainda que o ceifado seja um injusto, alguma lágrima por ele rolará — de tristeza ou de alegria por seu passamento, mas rolará; porque é da natureza da morte expiar sentimentos (positivos ou negativos) através dos olhos.
  16. Nas mulheres louras, o calor libídico aparece sobretudo sob forma estética: o dourado da pele e do pêlo, denunciando o impacto imediato e físico de seu erótico “furioso ouro”. Nas morenas, a chama é interna, substanciosamente ideal — é um ethos sexual flamejante que se demonstra na ação mediata, porque, quanto à estética, elas são “suave prata”. Foi isto que William Blake quis dizer com seus versos, citados por Borges no conto “Ulrica.”
  17. A música árabe: flecha de haste de palmeira cortando vendaval em noite de lua crescente e estrela solitária.
  18. O Microtonalismo é um entorpecente musical.
  19. Ao fugir do seu destino, o homem o constrói.
  20. A pessoa mais forte é silenciosa. A mais fraca, tremendamente barulhenta.
  21. Se eu fosse fundar um partido, ele se chamaria simplesmente “Herança e Futuro.” Seu símbolo seria uma árvore com as raízes à mostra. O lema, a célebre frase de Victor Hugo: “Troque suas folhas, mantenha suas raízes.” Sigla conservadora e libertária.
  22. Já perceberam que há mais de um século os modernistas tentam (e às vezes conseguem) destruir, quebrar, explodir e esfaquear obras clássicas de Arte — como a Monalisa, tantas vezes atacada –, enquanto que ninguém jamais tentou arremessar ao chão o mais do que tosco urinol de Duchamp? Por que? Porque o “conservador” respeita até a iconoclastia do bárbaro travestido de artista.
  23. Eu me vou para o silêncio dos constantes segundos, / Que de tão rápidos acabam por ser eternos. / Eu me vou para a completude dos findos estudos, / Que de tão lentos acabam por ser passageiros.
  24. A Beleza anima a própria alma.
  25. Só é bela a arquitetura que é orgânica. E o que é “arquitetura orgânica”? É aquela cuja composição é universal, enfim, que é estruturada por um sentido e ser katholikós, logo, que é organizada a partir da idéia de que há um todo abrangente que contém (e soma) parte(s) e de que a parte é por si um todo pormenorizado. Trata-se de uma macro-estrutura que coliga micro-estruturas que, por sua vez, são macro-estruturas de segunda ordem que se fundem naquelas micro-estruturas — porque se auto-contêm — através de uma só coisa: uma casa, p.ex.
  26. O “1” é o único número que realmente existe. Já que uma coisa nunca é igual à outra coisa (logo, é única, não obstante gênero e espécie), as quantidades (os outros números) nada são senão conjuntos de unidades entre si associadas.
  27. Os príncipes devem continuar sendo príncipes de jure porque foram príncipes de facto et de jure e não mais serão príncipes de facto; foram principes e não mais serão primus capio. As altezas de antanho devem, com a ascensão natural das repúblicas parlamentares, constituírem uma das parcelas perenes das aristocracias sociais não-estatais, sendo, pois, capazes de estabelecerem-se como primus inter pares meritocráticos.
  28. A lavadeira de Cícero e o mordomo de Winston Churchill fizeram mais pela Civilização que a quase totalidade da intelligentzia brasileira — aqui existente desde que se escreveu uma carta e se rezou uma missa no Ano do Senhor de 1500.
  29. Os Sith estão para o Império Galáctico como a Sociedade Thule está para o Terceiro Reich.
  30. Se hoje nós tivéssemos que pegar em armas para defender nossas famílias, nossa religião e nossa liberdade, que tipo de soldados poderíamos tirar desta juventude besuntada de alienação? — de álcool, de som alto e de orgias. Os hércules marombados de academia seriam incapazes de levantar uma espada no campo de batalha, os valentões noiados seriam incapazes de se atirar em escaramuça contra a artilharia, os sertanejos universitários seriam incapazes de montar seus cavalos e avançar em carga contra as colunas de tanques inimigos. Estaríamos perdidos! Acabaríamos acocorados, em posição fetal, dentro das nossas casas-cavernas, esperando que a piedade do inimigo ao menos nos transformasse em escravos. Correr, avançar e cavalgar para à ruína em nome de um ideal não passa pela cabeça da imensa maioria dos nossos jovens. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á…” Heroísmo? Heroísmo agora é levantar 200 quilos na competição, é dar tiro de fuzil russo pro alto na “comunidade”, é esporear o pobre do cavalo na arena de rodeio… O ISIS vem aí.
  31. Quem nada faz, tudo teme.
  32. Título para dois livros de poesias romântico-cabalísticas que nunca escreverei: “As Hordas das Horas” e “As Heras das Eras.”
  33. O herói é o homem anti-conjuntura.
  34. O sociopata quer árkhō. O psicopata, κράτος.
  35. Alterar a forma é, também, alterar o conteúdo. Cuidarás da liturgia! Semper reformanda, ma non troppo!
  36. No Ocidente, os teólogos são filósofos. No Oriente, são artistas.
  37. Não é condição da verdade que ela seja racional, muito menos lógica.
  38. A Vida não escreve a História. A História prescreve a Vida.
  39. Qualquer projeto de “renda mínima” é ilegítimo justamente porque existir não é um trabalho.
  40. Para o cristão, a um mesmo tempo, Cristo ainda está se encarnando através dos úteros cristalinos da Virgem Maria, ainda está pregando no Templo, ainda está curando os doentes, ainda está percorrendo as estações da via sacra, ainda está bebendo vinagre, ainda está sendo pregado, ainda está sendo morto, ainda está ressuscitando. A vida temporal do Cristo é eterna.
  41. Imagem espiritual: a água da mina colhida na moringa de barro.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

1 pensamento em “Esponjas de sol – XXV”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *