Dois trechos de dois contos [que não serão terminados]

O CAMINHO DA ALVORADA

Deixei que a lenha queimasse o fundo da grande panela, que o alumínio escovado perdesse de si qualquer vestígio de semelhança com a prata. Deixei mais: deixei que o cozido de carneiro fervesse até que o líquido vermelho se recolhesse ao teto da cozinha em forma de fumaça branca e até que aquilo que de massal restasse da carne e das batatas se reduzisse à cinzas da cor e do peso do borralho deitado aos pés da lenha. Deixei que os estampidos da madeira queimando se confundissem com o farfalhar do zimbreiro: o violino foi fazer companhia à lenha. O abeto, o bordo, o salgueiro e o ébano dum Stradivarius, quanto à potência para ser combustível, em nada diferem da madeira frouxa dos pequenos pinheiros. Deixei não porquê quis conscientemente deixar. Deixei porque a fúria tomou-me; a fúria com a qual me tomei de mim mesmo. Não tive fome de comida e sequer me lembrei dos seus apetrechos então já em uso na casa. Três dias nada coloquei na boca. Não tive fome de música e sequer percebi que três semanas antes, pouco depois de o sino do correio me ter interrompido a courante da Partita n.o 2 de Bach, lida a carta, eu tinha lançado o caro instrumento às chamas. Três meses se contaram até que voltei a cozinhar (ao quarto dia, passei a comer na taverna). Três calendários completos se passaram silentes até que voltei a tocar. Tu não sabes, Beatriz, o mal que me fizeste. Tua carta está, sobrevivente, comigo. No verso — bom e limpo papel usaste — compus um Agnus Dei para minhas bodas com Helena.

 

SALVAÇÃO

O pouco dinheiro que o capitão trazia no bolso era insuficiente para comprar a mais fina aliança de casamento que algum aprendiz de ourives pobretão ousasse fabricar com as sobras esfareladas de ouro que lhe caíssem da lima. Tinha apenas meia dúzia de cobres e níqueis leves, que mal davam para uma semana de sopa rala de repolho na estalagem d’Os Três Patos. Como voltar para casa sem a jóia fundamental de qualquer matrimônio? Sem a aliança, não casaria. Havia prometido à ela que voltaria herói de guerra, condecorado, e que consigo e para si traria recuperada alguma suficiente parte do ouro das igrejas do Leste que os turcos haviam pilhado quatro séculos antes. “Ah, besta quadrada de alma redonda! Eu! Por que não casaste logo com a filha loira da tua lavadeira? Foste te enamorar logo da filha trigueirinha do Senhor de Allerheiligen! Ah, besta redonda de espírito quadrado! Ela! Como darás à donzela anel competente se as tuas terras confiscaram os franceses e a grã-cruz empenhoraste para dar de comer ao cavalo?” Sentou-se à beirada do rio que os aldeões chamavam d’Os Cisnes, bem embaixo duma macieira carregada de frutos ainda verdes. Comeu três inteirinhas, em fatias, adoçando-as com o açúcar amarronzado que lhe dera em salário a idosa viúva do general seu padrinho. Dormiu a tarde toda. Sonhou que era noite e que a lua estava apenas a 91,5 metros de si (em jardas, medida antiga, quanto dá?); e que na lua, sua noiva plantava e colhia as flores preferidas num jardim cuja forma geométrica resolvia o antigo problema da quadratura do círculo. Acordou risonho. Era já noite e a lua estava bem incrustada no céu. Pensou, gritando seu eureka: “Prata, prata, prata!” Meteu a mão no alforje e dele arrancou a relíquia — uma gota do sangue do Senhor. Já à manhãzinha do domingo, derreteu o metal e, por horas a fio, porquê era prata densa e forte como o aço, deu-lhe a forma de uma aliança. Quanto à gota, guardou-a num pequeno frasco de perfume. Iria diluí-la no cálice da comunhão, sem que o ministro notasse, pouco antes da marcha nupcial.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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