CONSELHOS AMOROSOS | Parte 3 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

VII. Sobre a alma de uma mulher. Já percebestes, nas manhãs frias, como embaça o espelho quando o calor mais-ou-menos do chuveiro atinge sua superfície de prata e, por mais que o material seja por si mesmo intrinsicamente apto a refletir tua imagem, ele não a mostra e mesmo só a demonstra quando passas as mãos sobre o vidro dando cabo da fina penugem cinzo-aquosa que o recobre? A mulher que amas é um espelho em embaçamento. O calor: é o relacionamento. É aquilo que está entre tu e ela mas não é tu ou ela: é o meio, é o caminho, é o que vem e o que vai entre tu e ela fundindo-os sem confundi-los. O calor deve ser forte o suficiente. Quando as coisas embaçarem, embaçarão porque o calor é pouco. Quando a temperatura da água não supera a temperatura do ambiente, tudo se nivela em anuviamento vaporoso. Então, quando já nos olhos dela não mais distinguires a ti mesmo e sobrar apenas um pouco discernível vulto de sombras irreflexas, é hora de acaricia-la não só com tuas mãos (coisa importante, anota); é momento de acaricia-la com o teu ser completo, de passar as mãos nela — naquela alma — com aquilo que em ti (ou seja, tu integralmente sendo o que és) fez com que ela te refletisse por completo. O amor feminino reside nesta constância: sempre que tu não te veres nela, na tua mulher, não é porque o espelho não funciona. É porque o teu calor mediocremente não superou o frio do lugar e, morno, apagou-te no espelho.

VIII. Nunca deixes chorar sozinha a mulher que amas. Por que tu permitirias que qualquer coisa arrancasse dela lágrimas em solidão? Se o mundo cai em trevas, é teu dever proteger (com o preço da tua vida) a única chama — a pequenina chaminha — que permanece acesa. Ela é a tua candeia. Aprende a enxugar lagrimas com Bob Marley: “No woman, no cry…” Seja o choro de tristeza ou de alegria, de ira ou de ternura sentimental ou mesmo motivado por qualquer outra emoção capaz de fazer nela aflorar estas gotas salgadas que põem o teu coração na mão, esteja por perto. Esteja ali, pertinho. Não, não te é necessário discursar palavras sensatas, conselhos de ocasião ou amenidades complacentes. Não, não te é necessário abrir a boca para demonstrar a ela e ao mundo que o dom da fala acompanha tua língua. Se possível, nada dize. Senta próximo, a um canto, e mira-a com aquela mesma atenção que tinhas quando miravas a bicicleta desejada na vitrine da loja da cidade grande. Mais: mira-a como se, outra vez, pela primeira vez a tivesses visto. Mira-a, dizendo sem falar, que não chore… O choro daquela que amas, meu caro aprendiz, tem a potência do choro que chorou Eva e do choro que chorou a Virgem Maria: ele comove a natureza animália (já vistes os cachorrinhos domésticos como ficam quando veem a pessoa querida aos prantos?), comove a natureza divina (lembras de como as lágrimas de Ana refizeram a interpretação do espírito profético de Eli?) e poderosamente comove a natureza humana (todos poderão parar para enxergar a tua mulher que chora, mas apenas tu és capaz de limpar-lhe os olhos).

IX. Deves saber “cair fora” — desistir e não insistir. Do não acatamento deste conselho procedem toda sorte de desilusões incuradas, traumas crônicos e obsessões capazes de fazer da tua existência amorosa um inferno terreno. Sebo nas canelas!, se são incompatíveis os valores, os projetos, os futuros e, sobretudo, os quereres acerca dos valores, dos projetos e dos futuros. Há, como diria São Paulo, um “jugo desigual” a desnivelar-vos — tu e ela? Pernas pra que te quero! Na mesma medida: quando uma mulher não quer, ela não quer. Se ela sutilmente finge que não quer, ela apenas diz de boca que não e, de certa forma, diz que quer mas diz que antes de consumar o querer tu deves pontualmente se “adequar” nisto ou naquilo. Por isso, se ela realmente finge que não quer, ela certamente dissimulará o “não” que sai da boca com um olhar mais languido, com um sorriso mais acanhado entre os dentes, com um tom de voz que paira entre a ironia e o dengo. Trata-se de um “sim” falsamente tímido, via de regra. Entretanto, quando uma mulher efetivamente não quer, desde logo tal decisão fica clara como água de fonte polar: uma mulher quando não quer, não quer totalmente; não há frestas na muralha dos seus olhos, não há fenda na armadura da sua boca, não há vácuo no silêncio da sua voz. Vai-te embora, oh rapaz! Poupa-te de vergonha e vexação, de tristeza à toa, de choramingos inférteis. Sê homem e admite logo que — por incompatibilidade ou por rejeição — o caso é um caso perdido.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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