Apocalipsis [letra de música]

Cuando llorar el último hijo,
Los cielos caerán tranquilos
Y las florecitas del campo
Se irán nel volcán dormir.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Cuando llorar la última hija,
La tierra subirá al empíreo
Y las hojas de blanca naranja
Se irán ante Dios descansar.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Diário em Midgard — XIV

Dois ares se aproximam da ilha. Do Ocidente, o frio soprado; do Oriente, o calor inspirado. Duas massas que contrastam na temperatura, mas que sobre Penglai — este é o nome da ilha — concentram-se como brisa de alta primavera. Sinto, porém, as (poucas) diferenças nos extremos. De um lado, é mais deleitoso cochilar com um livro nas mãos. De outro, lançar-se às águas e correr feito menino na praia; de um, a reflexão confortável, sem suores; de outro, a ação que desacomoda e molha. Num lado o vinho está sempre frio no cálice; no outro o chá permanece mais tempo aquecido na xícara.

Leio racionalmente o Livro Prateado que me emprestou ontem o Regente de Hy-Brasil. Um ensinamento para amanhã: “A liberdade de um indivíduo na sociedade não deve estar subordinada a qualquer poder legislativo que não aquele estabelecido pelo consentimento na comunidade nem sob o domínio de qualquer vontade ou restrição de qualquer lei, a não ser aquele promulgado por tal legislativo conforme o crédito que lhe foi confiado.”

Leio idealmente o Pergaminho Dourado que me emprestou anteontem o Príncipe de Utopia. Um ensinamento para depois de amanhã: “Todos os homens são meus filhos. O que desejo para meus filhos, e desejo seu bem-estar e felicidade neste mundo e no vindouro, é o que desejo para todos os homens. Tu não entendes até que ponto este desejo, e se alguns de vós entendeis, não entendem a magnitude de meu desejo.” 

Diário em Midgard — XIII

Avisto o primeiro e provavelmente o único e solitário e último túmulo de toda Terra. Nunca vi — mas agora o vejo diante de mim — um jazigo como este. É arredondado como o dos vikings anteriores a Kodransson. E é sereno e acolhedor como uma toca. A relva o encobre. Nada tem de tosco: é arquitetado por quem sabe construir com beleza. Sobre ele, ergue-se imponente uma tamareira antioquitana.

Uma pequenino portal piramidal, de calcário nas beiradas e de granito no centro mesmo da portinhola, parece fazer as vezes de entrada. Trata-se, percebo tocando-o, apenas de desenho finamente esculpido. Não há como abrir o túmulo. Ao lado dele, uma estela branca escrita em quéchua e latim diz: “Hanaq pachap kusikuynin: hic iacet David, rex quondam, rexque futurus.”

Na lateral da estela, em semítico antigo, está gravada esta data: “Primeiro dia do primeiro mês do primeiro ano”. Recordo-me de algo. Há três dias, na aldeia, foi dito pelo profeta (que é sapateiro e então martelava três taxinhas em cada pé das minhas botas de sete-léguas) que daqui três milênios não mais haveria morte entre aqueles que comeram o pão de trigo vermelho. Um clarão!

Diário em Midgard — XII

Estou no Pátio dos Leões. Seu piso, colorido e oval como a mais perfeita opala daquele marajá que abraçou o crucifixo enquanto morria-lhe a filha única pelas mãos de um soldado pagador de promessas. Suas paredes, superiores em altura e brilho àquelas luzes encapsuladas nos vitrais que custodiavam os reis franceses quando eles iam fazer suas preces no Útero parisiense.

O centro do pátio é banhado por um pequenino lago — uma folha-quase-placa de água que emerge do chão tão lenta e vagarosamente quanto a areia da Ampulheta Dourada submerge em suas próprias dunas. No centro do centro do pátio, equilibrando-se sobre a água, está um enclave de terra branca, uma ilhota cujo tamanho não vai além de um milionésimo de 12 mil estádios.

Naquele solo rico como o roxo mas alvo como o calcário infértil do Saara, está plantada uma árvore, uma oliveira. Diz-me sussurrando o sacerdote: “Nosso Pai colheu meia semente da árvore original e plantou-a neste recinto, onde a madeira que brotava da montanha ruge aqui, pia ali, brame lá e fala aí. A raiz central, mais fina que o mais fino fio de cabelo, desce até o centro da terra.” É um bonsai.

Diário em Midgard — XI

Pulei no lago. Deitado sobre a água morna, abro e fecho os braços e as pernas como aquelas crianças que com o movimento dos corpos desenham-se anjos na neve. As ondinhas ondulam-se em nano-tsunamis. Sinto-me Gulliver ao ver, na margem próxima, as lontras — tão nadadoras! — olhando-me com olhos de quem viu o fogo de santelmo que acompanhou Colombo.

É uteral o sentimento, que toma carne e osso; e o sentido, que alivia o espírito. A paz dos mortos ressuscitados, será esta? A serenidade do caipira que nunca fugiu ao fogo-fátuo. A limpidez de temores do bebê que espirra no focinho do tigre. A calmaria dos pescadores que distinguem a densidade das gotas de vida das gotas de morte quando o horizonte pinga cinza.

A água está se resfriando. Ouço um roçar de cristais de grave timbre. Olho para o lado: vem passando, deslizando como folha outonal, uma montanha de gelo cor-de-céu. O âmago de minha coluna vibra — calafrio cálido. É um arrepio provocado por pena de arcanjo, uma cócega arrancada do estômago besuntado de vinho, carneiro, pão e maças caramelizadas. Corro à praia. Arranco a espada da bainha. Volto ao lago. Meus braços avançam até o lado oriental do castelo polar. A lâmina descasca-lhe um bom pedaço. Tenho já como viver por aqui alguns anos ainda. O cantil logo estará cheio.

Diário em Midgard — X

Ao abrigo das luzes que de onde vêm não sabemos, caminhamos silenciosos em direção ao horizonte mais dourado entre todos os quatro. Se é redonda e circular como a hóstia estelar, já não posso dizer; mas esta terra que pisamos hoje parece ser quadrangular e plana. Há um norte definido pelas alturas celestes e o caminho é tão reto que talvez o sumido geômetra da aldeia o tenha traçado quando ainda era criança.

Há murmúrio ou mesmo um canto a emanar dos raios dourados e prateados que dançam, alados, no céu. Estranho: como ali estão se não se vê o fio de luz que os conecta ao sol? E onde está o sol? A luz é tremenda, mas… onde está o arqui-astro? Espera. O menino que vai a frente cantarola: “Sol da justiça, sol da justiça, temos agora teu resplendor!” O padeiro, que caminha ao meu lado, e ao lado do senhor das vinhas, dá-me um cutucão e sussurra: “É meia-noite, homem! Não notaste que dormiste menos?”

Estamos aos pés de uma pequena montanha. Parece-se, na forma, com o domo de uma daquelas catedrais renascentistas. Chamam-na a “Casa de Enoque”. Ao pé direito, atrás de uma gigantesca oliveira de aparência milenar, está um curral. Todo o povo caminha para lá. Estamos já a soleira da entrada. Todos, um por um, entram. Estou já próximo. Sou agora o próximo. Entro. De joelhos: meu Deus e meu Senhor, então toda a luz do universo provém deste cordeirinho recém-nascido?!

Esponjas de sol – XXIV

  1. Emoção: volatilidade concentrada. Sentimento: densidade espargente.
  2. O aforismo é uma jaculatória intelectual.
  3. Nada é tão belo quanto aquilo que é natural, tanto na ética quanto na estética, tanto no ato quanto na potência.
  4. Três classes profissionais que perderam o dom da palavra: a advocatícia, a eclesiástica e a política. Já não sabem falar com adequação ao próprio ofício, ou seja, não sabem “orar”; elas estão constituídas por uma maioria acachapante de advogados, religiosos e políticos que estão incapacitados para o discurso, seja no plenário, no altar ou no palanque. Que é a Lei, a Sagrada Escritura e a Proposta sem a palavra bem dita?
  5. Escrever um TCC, no atual contexto acadêmico, é um exercício de plágio passivo adornado com citações e bibliografia. Não se admitindo a criação de conhecimento — com o devido método científico, of course — ou mesmo seu desenvolvimento através de desdobramentos racionais, toda a dinâmica de composição de um Trabalho de Conclusão de Curso resume-se à repetição enfadonha, burra e contraproducente do que certos indivíduos escreveram acerca do que outros escreveram sobre as idéias de ainda uns outros indivíduos cujos restos intelectuais estão tão vivos quanto seus restos mortais. A lógica é idiotizante: na graduação você deve primeiramente escrever acerca e sobre textos de terceiros, depois deve subir o degrau do stricto senso, variando ferrenhamente na mesma plataforma de “cachorro-correndo-atrás-do-próprio-rabo” (mas com maior apuro na utilização pró-formática das plumas e firulas) da pós-graduação ao doutorado para que, então, quando você estiver caducando, lhe deixarem em paz para usufruir das suas faculdades intelectuais ao ir à fonte da Água do Conhecimento e deixar de beber do grande e douradíssimo cálice de cuspe de gerações inteiras de burocratas da academia que, sim!, deve conter um centésimo dessa H20 gostosamente saciadora…
  6. Quem abandona Castália se afoga em água. Quem abandona a Igreja, em fogo.
  7. “Se a vida te der um limão, faça uma limonada”, diz o provérbio americano que bem demonstra o espírito empreendedor daquele povo. Nós os brasileiros, porém, não só nos negamos a espremer o insigne fruto cítrico. Nós preferimos reclamar do azedume da polpa, do sumo que tira lágrimas e mancha a pele e até mesmo ousamos falar mal da sombrinha pacata que o limoeiro derrama sobre a terra. Quando não, articulamos intelectualmente uma ideologia anti-limonista e criamos um partido político azedofóbico. Que metáfora sócio-econômica!
  8. O diabo também está nos detalhes. Detalhes ainda mais ocultos. Por isto, é mais difícil acreditar nele que em Deus.
  9. Quem escreve o que quer, recebe a correção ortográfica que não quer.
  10. Todo homem é um fato.
  11. O pecado age como uma gota de sangue no algodão: toma-nos por completo vagarosamente.
  12. O que entristece o espírito humano é mal, sempre mal. Corpo e alma podem se “alegrar” (retirar prazer) com o mal, mas o espírito — que fica incólume, porque não foi tocado pelo Pecado Original — não. Ele é a bússola supra-consciencial.
  13. Eu sou meu senhor, mas Deus é o Senhor de mim.
  14. Um sujeito balançando loucamente os braços, mexendo doidamente as pernas e movimentando espasmodicamente todo o corpo é um desordeiro acional, ou seja, empenha sua ação corporal de modo disfuncional no Mundo. Dois homens fazendo estes mesmíssimos movimentos ao mesmo tempo (ou não) implica num padrão, numa unidade de formatação extra-individual; aí, a anarquia torna-se organizada (não ordem) mesmo que não tenha sentido ontológico real. Some o acaso e aparece um significado: há ali um porquê.
  15. O eu luta diariamente por sua própria existência.
  16. Deus não é nosso médico ou curandeiro, nosso banqueiro ou agiota, nosso psicólogo ou puxa-saco, nosso guarda ou capanga. Se nós cremos em Deus na medida em que precisamos dos “favores” dEle, nossa fé não é fé: é interesse, e interesse vergonhosamente egoísta. Deus deve ser nosso amigo e, então, se Ele quiser, será nossa saúde, nossa prosperidade, nossa paz, nossa segurança…
  17. Uma das maiores perguntas existenciais a serem feitas: Se a Civilização ruísse completamente hoje e não sobrassem livros e bibliotecas, o que dela tu poderias reconstruir amanhã?
  18. Alguém (algum psicólogo de escol, de preferência) deveria estudar este curioso fenômeno afetivo que é o “ódio não correspondido.” É gigantesca a quantidade de pessoas que sucumbem à depressão, ao ressentimento e às angústias da alma por não serem odiadas por aqueles a quem elas odeiam. Prossegue a questão: se essas pessoas souberem que, além de nós não as odiarmos, odiamos a outros, elas padecerão também de “ciúmes”?
  19. Conhecer não o desconhecido, mas o irreconhecido; e reconhecer o desreconhecido. Tal é a busca do homem sábio, que aceita o mistério porque sabe o que é misterioso e, por isto, não se deixa anuviar pela fumaça de enxofre que, por iniqüidade e indolência, quer cerrar sobre a Realidade, envolvendo-a com as sombras que não são as marcas do profundo e do escondido, mas as trevas da ignorância e da alienação. O vagabundo e o mau, porque chicoteados pelo Logos, chamam de “mysterium trememdum” até o evidente. O óbvio parece oculto para o homem obtuso, para o homem raso.
  20. A existência é uma espécie de arrebatamento — ἁρπαγησόμεθα — ao contrário.
  21. Deus — escondido e oculto, fagulha entre as brumas, gota de leite no barril de whisky.
  22. O intelecto é o potencializador máximo do mau. O homem de capacidade mental medíocre é mau no limite pouco criativo da própria biologia instintiva.
  23. Alguns homens são “corajosos” até que alguém descubra que a “coragem” deles não é coragem. É medo descorado.
  24. As pessoas podem tentar nos influenciar — com incentivos ou ameaças — mas nossa ação no mundo depende apenas de nós. Diante de Deus, não poderemos culpar os outros afirmando que fomos induzidos por quem quer que seja — fraco ou poderoso. Nossa alma pertence apenas a nós e dela somente nós daremos conta.
  25. As justas medievais e os duelos românticos eram modelos de civilidade e pragmatismo. Lavava-se a dignidade rapidamente. Hoje em dia, já que nossos contendedores não servem para serem armados cavaleiros (falta genealogia e honra) nem têm polimento suficiente para agir como gentis-homens (falta postura e virtude), as escaramuças e os tiros são via Facebook.
  26. Os fracos logo sucumbem, servilmente se entregam ainda de pé. Mas os fortes (e nós devemos sê-lo com todas as forças dos nossos espíritos) guerreiam ainda que de joelhos. Se não tivermos espadas, usaremos enxadas. Se não tivermos enxadas, usaremos as mãos. Se não tivermos mãos, postamo-nos altivamente diante do inimigo e resistimos-lhe à face. A alma é nossa arma primeira e derradeira.
  27. Líderes surgem em pequena quantidade em tempos de adversidade. Na paz mais duradoura, porém, pululam os chefes.
  28. Os santos, ao contrário dos pecadores, são tentados sobretudo pelos grandes pecados, pelos pecados mais vis e iníquos, enfim, pelos superlativos de cada gênero de pecado; não pela fornicação ordinária, mas pela devassidão adúltera, p.ex. O pecador, de tanto ceder aos pecadilhos e pecadinhos que a todo o momento lhe fisgam a alma, fica sem força, sem tempo e sem energia para os “pecadões”.
  29. Livrai-nos, oh Deus, do desejo puramente mimético.
  30. O homem pequeno (são bilhões!) é ambicioso, quer ser célebre entre os homens da sua geração. O homem grande (são centenas…) nada ou muitíssimo pouco ambiciona em termos de “glória” e, por isto mesmo, seu nome não raramente será lembrado por incontáveis gerações. A humildade pessoal é um extraordinário motor histórico.
  31. O Bem é objetivo. O mal, difuso. A objetividade é concisa e legisla: por isto, mandamentos incomodam sujeitos subjetivos. Que tipo de homem é, nas ações, mais objetivo que um santo? Que tipo de homem é, nas ações, mais subjetivo que um pecador?
  32. A medida da loucura é a obsessão. O sujeito que padece da cabeça é um obsessivo; é, em bom português, o famoso “homem de uma nota só”: ele só age, fala, escreve, pensa, etc, etc, etc, e posta sobre assunto muito específico, assunto este que é a causa direta das suas perturbações psíquicas. Esta obsessão, porém, via de regra, é um mecanismo dissipador inconsciente de um problema maior: para evitar o macro-complexo e seus efeitos, o sujeito se apega a um específico efeito superficial destes e gera um micro-complexo fazendo dele, por sua vez, uma causa que tende, a curto e médio prazo, a amenizar esses próprios efeitos. Os principais luminares da ínclita oposição local são assim: gente mentalmente perturbada cujos ciclos de instável harmonia psicológica não passam de arrefecimento parcial da própria desarmonia permanente.
  33. O cristão pode lutar contra o Mundo porque está reconciliado com o Mundo.
  34. Amigos verdadeiros e puxa-sacos bajuladores se assemelham na ação: ambos manifestam gentileza em seus atos. Mas, numa coisa eles se diferenciam profundamente: na fala. O amigo não esconde verdades, o amigo faz você ouvir o que você não quer ouvir, o amigo às vezes aconselha coisas duras — mas sempre para o bem. Para o puxa-saco, porém, tudo está sempre “certo”, “legal”, “ótimo”, afinal, ele é um pseudo-otimista mentiroso que apenas quer incentivar (para, de alguma forma, usufruir ganho) seus erros, seus prazeres tortos, seus pecados. Aprender a diferenciar alhos de bugalhos é tarefa primordial para quem quer estar cercado de gente boa e leal.
  35. Sempre que se fala de Humanidade como sinônimo de Civilização, há algo de podre no Reino da Terra.
  36. As hienas choram no deserto enquanto a caravana chega à terra que mana leite e mel.
  37. Que é a liturgia senão a geometrização natural da ação corporal humana diante do eterno-estático divino? Uma genuflexão, p.ex., é uma contradição acional em termos corporais: quer-se aquietar o corpo através de um movimento reverente do corpo. Toda ação litúrgica é assim: movimento que aspira ao repouso através de movimento repousante.
  38. Você já ouviu falar de alguém que deu parte na polícia contra algum vizinho que estava ouvindo Mozart nas alturas últimas do seu hometheater às 3h e tantas da madrugada? Já ouviu falar de alguém que chamou a PM para conter uma saveiro perigosamente rebaixada que percorria loucamente as ruas do bairro ao som da 5ª Sinfonia de Beethoven? Não? Por que será que não?
  39. O Japão, a se converter ao Cristianismo, será protestante. A China, por sua vez, católica. O Japão é a Alemanha asiática. A China, a Espanha. Os paralelos são surpreendentes: o austero complexo e o simples ostentoso.
  40. O local é global desde a Odisséia.
  41. Não se pode tocar no gado durante as vaquejadas, não se pode tocar nos ovos azulados das tartarugas marinhas, não se pode tocar nas capivaras dos rios paulistas. Mas, pode-se (com ética cética e clínica asséptica) martirizar sanguinolentamente um bebê ainda no ventre de sua mãe. Eis a lei dos homens: a positiva negação da Lei. Aí de ti, oh Brasil, terra de Moloque!
  42. Estes fetos abortados, estes corpinhos finos e transparentes como girinos, dilacerados pelo metal frio dos bisturis e sugados como geléia pelos tubos dos aspiradores uterinos, ressuscitarão no Dia do Juízo Final e apontarão os dedos — os dedos crescidos e regenerados dos seus corpos gloriosos — para cada um de vocês, comparsas de Herodes, que desde aqui no Facebook ajudaram a descartá-los nas latas de lixo biológico dos hospitais sob o título-argumento de “amontoado de células”! Lembra-te, oh homem, que o abortado é pó, e que do pó há de retornar.
  43. O covarde — sobretudo na sua variação brasileira — é um grande medidor de distâncias. Ele apunhala verbalmente o Presidente da República, que dele está razoavelmente longe (placidamente instalado no Alvorada), mas lambuza-se de medo diante mesmo da idéia de passar um pito cívico-democrático no prefeitinho ladrãozinho que é seu compadrezinho desde o colegial e que, por acaso, também é seu vizinho. Da comodidade do seu sofá, ele chacina com impropérios duros como o titânio todos os quinhentos e trezes deputados (também reunidos no grande pires convexo do Congresso), mas mija frio ante a hipótese de chamar às falas o vereadorzinho vendidinho e mensaleirinho — no qual ele votou — que com ele comunga no mesmo altar da mesma igreja todo santo dominguinho. O covarde, oh dicionários!, deveria estar inscrito como palavra sinônima no verbete “brasileiro.” Mas, aí vem nossa coragem. O gigante está sonhando.
  44. A nenhum fato físico pode se opor uma idéia, enfim, um pensamento que vise alterar a compreensão já evidente da natureza do próprio fato em si. Se levado a sério este pressuposto, sobrariam sobre o planeta tão poucas ideologias que ninguém mais se importaria em saber para que serve o sufixo “ismo.”
  45. Pessimismo realista: pede um rio morrente e não perene, vago e rasteiro como uma gota prolongada.
  46. Lírios brancos na alvorada / Enegrecem sob o luar, / Derramam suas pétalas / No altar do além-mar.
  47. Máxima da mística cristã: Só quem precisa de uma verdade oculta é capaz de encontrá-la.
  48. Foi um “feto”, oh cristãos de araque!, foi o “amontoado de células” que era João Batista o primeiro ser humano a reconhecer Nosso Senhor Jesus Cristo — por sua vez, “feto” ainda mais informe: um “amontoado de células sem dor nem consciência e sentimentos” (com menos de três meses) no ventre da Virgem Maria.
  49. O mercantilismo metalista veneziano e a política papal derrubaram Constantinopla: o moderado Islamismo sunita triunfou na mais antiga capital cristã do Velho Mundo. O capitalismo financeiro europeu e a política papal derrubarão Washington: o proto-Islamismo wahhabita triunfará na mais antiga capital cristã do Novo Mundo. Espero estar errado…
  50. Satanás é exegeta desde sempre.
  51. Homem algum jamais foi alfabetizado. Todos os que aqui na terra lidam e lidaram ativamente com as palavras são e foram letrados. Alfabetizados nós seremos quando ganharmos o “corpo glorioso” e, então, pudermos tocar a Palavra, porque nossa partícula nuclear de logos será unida (mas não confundida) ao Logos.
  52. Choque não é descarga de energia, muito menos a energia mesma. Choque é contato desarmônico (ou desarmonioso) de energia com/contra energia. Aliás, é o enfrentamento de harmonias antitéticas. A palavra mesmo denuncia: o verbo chocar — ação de coisa, não coisa.
  53. As coisas que sabemos existir, mas que não acessamos diretamente através dos sentidos, não passam de idéias para nós. É abstração, pura abstração. Uma coisa só é conhecida como coisa quando à idéia sobre esta coisa soma-se o sentir desta coisa.
  54. Enigma:

A reunião das árvores e dos homens,

A união dos galhos e dos estômagos,

O concílio das folhas e das gargantas,

O conselho das flores e das bocas

O coleguismo dos frutos e das línguas,

A amizade das sementes e dos dentes.

O gregarismo das galáxias e dos mamíferos,

A ajuda dos sistemas e dos macacos,

O auxílio das constelações e dos bonobos,

A cooperação das estrelas e dos polegares.

  1. O idealismo moral materialista — ou a “virtu materialista” — consiste em permitir ao abutre mastigar a águia sob o argumento de que esta dieta o tornará superior: a idéia da grandeza material da águia deve fazer do abutre fedorento um ser nobre se ele a matar, comer e digerir até pespegar as qualidades da vítima imolada no seu próprio DNA. Quão metafisicamente demoníaco (e antigo) é, no âmago, o Materialismo! Canibalismo de ressentidos. Igualitarismo antropofágico. Como tornar-se bom quando se crê que todo o bem provém unicamente das articulações químico-físico-biológicas da matéria? “Se tudo é matéria, a matéria do próximo é melhor que a minha: apossar-me-ei dela, assimilando-a a mim.” Os caetés andaram lendo Nietzsche.
  2. A música chinesa é o uivo do bambu e o gotejar do chá no gongo.
  3. A morte de um grande homem desconhecido das massas é como o atirar de um seixo daqueles que as crianças e os velhos gostam de ver ricochetear sobre a superfície dos lagos. Pega-se uma pedra a esmo, indistintamente, sobre um monte de pedras, e, sem observá-la com a atenção necessária que a revelaria distinta das demais, atiram-na e ela pula e pinga, pula e pinga sobre a água, mas não afunda. Como o machado de Eliseu, a estranha pedra inobediente à física volve à margem, volta à terra dos vivos. É o “adamas” — é um diamante superior, uma pedra filosofal, um fragmento de um Stonehenge edênico. É a “adamá” — é uma terra superior, uma terra densa que levita, um punhado ainda úmido da argila do primeiro tablete cuneiforme pós-edênico. O grande homem (por mais que se empenhem em submergi-lo nos pontos mais profundos do abismo das águas turvas do esquecimento público) sempre vem à tona.
  4. Deus também quer fazer o pardal renascer das cinzas. A fênix que se ajuste com a mitologia! A suprema vocação do cristão que interferirá permanentemente na Realidade consiste neste paradoxo: quando sincero, o homem pequeno e medíocre é chamado à grandeza e aos grandes feitos. Não é outra a história do pastorzinho Davi. Não é outra a estória do hobbit Bilbo Bolseiro.
  5. A degradação bovina enquanto símbolo de corrupção e opressão: o Bezerro de Ouro, dos judeus; o Minotauro no Labirinto, dos helenos; o Touro de Basã, dos israelitas; e… a Vaca no Brejo, dos brasileiros.
  6. Um dia, o Céu será uma Terra de nuvens sólidas e a Terra será um Céu de montanhas flutuantes. Novos Céus e nova Terra serão também Nova Física Prática. E nós seremos, todos, Newtons e Einsteins unificados com os cérebros refulgindo “luz inacessível”, capazes então de discernir a [re]Criação totalmente acessível. Quem lê, entenda.
  7. A simplicidade é o adorno da beleza.
  8. Não existe monaquismo protestante. Por que? Porque o “Ide” reformado é universal e permanentemente extra muros.
  9. Para voltar à Civilização, o Brasil tem apenas dois caminhos políticos: (I) a Monarquia Católica ou (II) a República Puritana. Ambos, certamente, sedimentados em Constitucionalismo e Parlamentarismo democráticos. A Monarquia, mais na Constituição; a República, mais no Parlamento. Creio que, se tudo der certo, o segundo caminho triunfará.
  10. Deus soberanamente escolheu criar os indivíduos que o escolheriam. Deus escolheu que nós o escolhêssemos.
  11. A História está lambuzada de “merda”. Do primeiro tomo de Heródoto à última pesquisinha anti-Annales USPiana, todo e qualquer historiador acaba registrando o fatalismo fecal que besunta as páginas da “Magistra Vitae.” De qualquer forma, é sempre preferível ser o homem que defeca no Mundo a ser o verme imundo que se alimenta dos detritos intestino-intelectuais que aquela meia dúzia (os que defecam) esparrama sobre a terra-no-Tempo. Está aí a diferença entre os homens de ação (causadores) e os militantes alienados de causas (reativos). Melhor ser Marx que ser marxista. Melhor ser Rousseau quer ser rousseano. Melhor ser o individuum-leitmotiv de qualquer caganeira ideológica que afete o coletivo (que faça tampar os narizes até dos portadores de anosmia crônica! — os neutrões-em-cima-da-muralha) que ser este coletivo que, com colherzinha de ouro, degusta diarréia como se se deliciasse com o crème brûlée feito pelo próprio Massialot. Os primeiros, ao menos, entram para a História e mantêm seus intestinos e intelectos intocados por terceiros; os segundos, languidamente escorrem na privada, dissolvendo-se na correnteza do esgoto da memória pública. Vede que isto não é, de modo algum, uma apologia (pecaminosa, portanto) à moda helena da “glória” e da “fama” a despeito dos meios; é a atenção ao valor da atividade em si (boa ou má).
  12. Franz Biberkopf nada é senão uma releitura fatalisticamente freudiana de Jean Valjean.
  13. Se Deus não existe, eu não existo.
  14. Deus não é um ídolo. Deus não é, para quem o conhece, “o único ídolo.” O crente não é simplesmente um ateu de Baal que rende a Deus a adoração (a latria) que um qualquer daqueles sacerdotes que querelaram contra Elias rendia. A adoração cristã é o culto prestado pelo intelecto livre — o “culto racional”, no dizer paulino — e pelo coração amorosamente ofertado. Não se tem que apaziguar a deidade, sacrificando-lhe o melhor da Terra; afinal, Ela é que por nós sacrificou o melhor do Céu. Nosso monoteísmo não é a idolatria de um único Deus. Logo, não basta crer em Javé como único deus. Não basta cantarolar “Shemá Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Ehad” e, ainda assim, dedicar a Ele o tratamento que se daria a um Dagom oficialmente teologizado sob a fórmula “Credo in unum Deum”
  15. O Estilo Gótico é o ápice da Arquitetura.

Sobre hoje

Quando caixões são carregados e o céu resolve escurecer em pleno dia, quando as nuvens descarregam sua água cinzenta sobre a terra há pouco revolvida no campo santo, é sinal de que a tristeza vem de Cima. São legitimadas por Deus cada uma das lágrimas salgadas que se confundem com cada uma das gotas adocicadas da chuva. Há luto verdadeiro.

O sofrimento nos humaniza como nenhuma outra condição espiritual. Mais do que unir os homens na diversidade, as grandes dores, os grandes pesares, os grandes padecimentos nos unem na adversidade. O sofrimento nos civiliza, nos desamalgama deste individualismo coletivista pós-moderno para nos reintroduzir, abruptamente, no organismo da Humanidade: “And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”. O corpo místico social cessa suas guerras intestinas para produzir em si todos os processos responsáveis pela reflexão existencial: cai um avião para que se elevem os espíritos dos mortos que ressuscitarão nAquele Dia e para que se mortifiquem os espíritos dos que por enquanto ficarão de pé sobre o globo terrestre. Nos velórios, somos montes de pó levantado diante de pugilos de pó deitado, como diria Vieira.

A morte coletiva invulgarmente nos obriga à uma liturgia para a morte. A morte de um só indivíduo é acompanhada como o desaparecimento de um número, um número que outros números carregam silenciosamente e sem protocolos até o túmulo; a morte conjunta de dois, desperta curiosidade e envolve mais gente, afinal, é preciso que haja um acontecimento de “maior abrangência” para que dois seres humanos deixem seus corpos ao mesmo tempo — por isto, ao cemitério afluem não só mais pessoas, mas também mais significado coletivo; se morrem três ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou oito ou nove ou dez, há já um temor reverencial e uma atenção extraordinária, uma vez que não podem morrer tantas pessoas “à toa” e, então, é mais larga a conversa entre os vivos e é mais alta a especulação acerca de um “por que?” e é necessária uma cerimônia para dignificar o significado compreendido; se são duas ou três dezenas ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou já uma centena e além a quantidade dos falecidos, não só uma cidade e uma região e uma província acodem à beira dos ataúdes, mas uma nação pára e volta seu olhar para um fato que a praticamente todos obriga um inquisitivo auto-exame. Via de regra, mortes coletivas personalizam o grupo dos falecidos; ao passo que mortes individuais despersonalizam o morto solitário se se tratar de um homem comum — um de nós, um anônimo para quase todos os demais membros da espécie.

Quando multidões se sentem tocadas pela morte alheia, cada indivíduo que as compõe compreende que (vide acima) os sinos dobram não só pelos mortos, mas por ele mesmo.

Então, um espírito litúrgico, o antigo espírito litúrgico que nos acompanha desde as cavernas, toma os vivos não só pela morte dos mortos, mas pela Morte que sentimental e intelectualmente toca os vivos: os joelhos lembram-se de que foram feitos para se ajoelhar; as mãos repentinamente recordam o sinal da cruz; os lábios lembram-se de que o silêncio é a plenitude da palavra; os ritmos musicais batuqueiros das arquibancadas se refinam até que no horizonte escurecido do meio-dia os ouvidos escutem a Marcha Fúnebre de Chopin; os governos recordam-se de que o futebol é o substituto moderno da justa medieval e que se cavaleiros eram armados para sucumbir em batalha, jogadores devem ser condecorados e feitos membros de uma ordem melitense caso dêem a vida em nome de um nome e de um valor — o nome da pátria e o valor da luta congregadora; então, cortejos como os que conduziam os féretros dos nobres medievos são perfilados nas rodovias e, se carruagens góticas carregavam os brasões das linhagens genealógicas adornados com motes latinos, carretas seguem adiante com o escudo do time e com uma solitária hashtag — #ForçaChape é um eufemismo casual para “Vivat in Aeternum”. Buzinas de automóveis e sirenes de viaturas são trombetas e clarins. Bandeiras futebolísticas são estandartes e pavilhões heráldicos.

Se uma partida acaba sendo um show coletivo (um “auê” físico de agitação corporal), um funeral torna-se um spectaculum público (um réquiem metafísico de repouso corporal). Mortes coletivas produzem secundariamente mudanças de apuro estético que emergem do apuro ético: retilíneos lenços brancos substituem as mangas das camisas mal-passadas, pacificando os olhos com tecidos adequadamente absorvedores da tristeza; as camisetas coloridas, mesmo as do time, uniformizam-se simbolicamente e, ainda que mantendo visualmente a vivacidade da paleta cromática, tornam-se um preto austero, afinal, a cor das armas do cavaleiro é também a cor da sua mortalha.

A morte que gera liturgia é a morte que coroa a vida, que dignifica tanto mortos quanto vivos, é a morte que prega nas artérias dos corações que ainda batem a final e grande mensagem: há um significado, há O Significado.

Até o Céu.

03.12.2016, A.D.

A fênix suicida

Alguns poucos espíritos intelectuais distingue-se de todos os outros por sua extrema sensibilidade. São mais que “antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound. São verdadeiros satélites terrenos, almas que conjugam as significações que pairam entre céus e terra e, por isto, sentem em si mesmos as tensões do Mundo. São sismógrafos metafísicos das vívidas harmonias e das turbulências existenciais da Humanidade.

Via de regra, estes espíritos ou constroem um futuro a partir das ruínas do presente ou sucumbem com o presente tornando-se dele a pedra dilapidada, a hera no muro, o manuscrito rasgado. Enfim, ou produzem uma obra que retrata e trata a crise (superando-a para o porvir de reconstrução da Civilização) ou que a retrata e diagnostica, mas juntamente com ela sucumbe à morte, nem que nos moldes eterno-entrópicos e semi-imortais de um Dorian Grey…

Stefan Zweig foi um intelectual desses que fenecem com seu mundo. A Belle Époque coloriu a juventude do menino judeu de classe alta, mas logo o horizonte vienense de valsas e louros tornou-se acinzentando com o tiro que dilacerou a jugular do arquiduque Francisco Ferdinando. O Império caiu e com sua queda elevaram-se Marx, Nietzsche, Freud e toda a caverna de materialistas, niilistas, cientificistas e positivistas que propiciaram Auschwitz e que se coagularam num homem e numa ideologia: Adolf Hitler e o Ódio à Liberdade.

A obra de Zweig é marcada pela profunda cisão que dividia sua própria alma: (I) o saudosismo do último frêmito romântico-liberal que tinha redourado o Ocidente nos cafés fervilhando arte e filosofia e (II) a visão tempestuosa do totalitarismo batendo à porta dos filhos de Abraão e dos filhos solidários de Jafé. A maioria dos seus livros, porém, ou revisita temas eruditos do passado ou se desdobra em vislumbres cheios de êxtase patológico para com o futuro por medo do presente (seu livro “Brasil, país do futuro” é exemplo pronto e acabado deste ilusionismo fujão). Zweig nunca foi um realista, ou melhor: nunca se deu bem com a Realidade. Seu cérebro afiado sentia a realidade enquanto seu coração bondoso a deformava. Era um idealista demasiadamente civilizado para reagir concretamente contra a barbárie, seja admitindo-a para si como fato histórico cíclico seja escrevendo abertamente contra ela. Preferia discorrer sobre a queda de Constantinopla, tão distante, a escrever sobre os saques da S.S. nos museus que freqüentara ao lado das moças que cortejava.

Deu no que deu. A alma que tecia louvores às igrejas alemãs que abrigavam na mesma nave a missa católica e o culto protestante e se entusiasmava ao revisitar a mística das cabalas nas sinagogas, “de repente” viu profanados os altares que se dobravam a Belém e a Jerusalém, que se dobravam à arca onde eram imolados os cordeiros e à manjedoura onde comiam os cordeirinhos. Stefan fez as malas e fugiu para o Novo Mundo. Fugiu e, quando caiu em si, deprimiu-se, devolveu a tocha a Prometeu e foi se despregar da existência com uma dose cavalar de barbitúricos: + Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942.

A visão do Leviatã outra vez lançando caos em nome da ordem subjugou as vozes discordantes, as vozes que viam em Babel sua “felix culpa” democrática. A ditadura ordena uma só língua à uma multidão sempre monofônica…  Os poliglotas e os pacatos falantes de sua fala local devem ser silenciados — tal é a norma do partido que almeja ser totalidade. E, então, diante disto, que poderia ter feito o gentil erudito? Uma boa resposta: perpetuar a civilização sobrevivendo a ela para, então, ajudar com o cultivo das novas sementes e com os novos enxertos da antiga Árvore do Conhecimento pelos continentes.

O intelectual sério é uma fênix que, se morta, renasce das cinzas não dos próprios livros, mas dos próprios feitos de luta pelos livros. Mas… Zweig preferiu suicidar-se. A fênix se suicidou, não sabendo que assim não renasceria das cinzas, mas, como todos os mortais, voltaria ao pó mudo. O grande martírio do homem de espírito não é dar a vida pela causa, mas sustentá-la em cadeias, em prisões, em tempos de cólera anti-logos. O grande martírio do intelectual é viver onde só se pode existir. Talvez, convertido à alguma fé, poderia formar um “exército de dois homens” com seu compatriota Otto Maria Carpeaux, que nele encontraria um igual e não precisaria homeostasear-se para ter com quem papear e com quem dividir o pão seco do exílio.

Sic transit gloria mundi.

Apocalipse na pólis

A cicuta persiste sendo a bebida dos Dom Quixotes, estejam eles de lança em riste, de caneta ao alto ou com a alma regurgitando ideais em lousas, livros ou no Facebook.

Mas, eis a perguntinha que querem calar: Por que o poder odeia o intelecto livre e o intelecto livre inspira e aspira [ao] poder? A resposta, derramada diretamente da penúltima gota do “cálice de vinho tinto de sangue”: a política tradicional é fruto esmagado da ignorância daquele constante 1/3 das massas que se leiloam eleitoralmente, ao passo que a cultura que antagoniza a política tradicional é fruto dos raciocínios daquela aristocracia do espírito que não quer ver ignorantes as tais massas. Fórmula contraditória, mas tão realista quanto a fome doída das crianças que ainda agora nascem para morrer sob o sol ardente do ex-império de Bokassa.

Se o intelecto só floresce na Civilização quando os homens já não precisam se preocupar com o “pão nosso de cada dia” com aquela ansiedade estomacal que dominava os neanderthais, que lugar terá na lista das prioridades governamentais as questões da alma, tão mais abstratas que uma cesta básica? Afinal, se estava certo André Malraux, ao dizer que “La culture, c’est ce qui répond à l’homme quand il se demande ce qu’il fait sur la terre”, como haverá a libertação através da cultura se mal consegue o homem brasileiro deste novo milênio despregar do próprio corpo, com um banho à hora do sono, o pó da terra que o cobriu durante todo o dia?

Os coronéis sabem disso. Os senhores feudais, idem. Por isso, os apadrinhados e os servos devem ser mantidos no “lugar”: nos cochos, alimentadores do corpo e alienadores da mente. Sequer o corpo, aliás, na contramão do adágio romano, pode ou deve estar inteiramente são: qualquer cidadão que se utiliza dos “serviços” públicos é capaz de diagnosticá-los como portadores de anemia administrativa crônica e aguda. Nem se fale das bolsas perpétuas, verdadeiros instrumentos de empobrecimento a longo prazo dos desempobrecidos a curto prazo…

Os homens de espírito também sabem disso. E os barões sem brasão e os coronéis sem espadim da Guarda Nacional sabem que os homens de espírito sabem. Fica aí armado o palco para o ódio empedernido que os governantes pouco ilustrados nutrem pelos seus não eleitores que lhe jogam tomates e ovos pobres das alturas niveladas das “ruas de marfim”; afinal, torre é bastião de suseranos, certo?

Se mataram Sócrates e Thomas More, que não quererão os nossos tiranetes caipirescos fazer com os gentis Quaresmas da pátria tupiniquim?

Esta é a hora até mesmo dos Sancho Panças irem brandir armas contra os excelentíssimos frestões, nem que o vinho chapinha seja maculado de cicuta, pingada do mesmo conta-gotas que deu cabo de Napoleão. Afinal, não foi o interesseiro mas amigável gorducho sem rocim que Cervantes fez nomear prefeito?

 

Artigo publicado originalmente em: https://catanduvanaoesquece.com/2016/11/07/apocalipse-na-polis/