Apocalipsis [letra de música]

Cuando llorar el último hijo,
Los cielos caerán tranquilos
Y las florecitas del campo
Se irán nel volcán dormir.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Cuando llorar la última hija,
La tierra subirá al empíreo
Y las hojas de blanca naranja
Se irán ante Dios descansar.

Por las tardes y madrigales,
Por las noches y rumbas,
Por las mañanas y silencios:
José y María nos caminan.

Diário em Midgard — XIV

Dois ares se aproximam da ilha. Do Ocidente, o frio soprado; do Oriente, o calor inspirado. Duas massas que contrastam na temperatura, mas que sobre Penglai — este é o nome da ilha — concentram-se como brisa de alta primavera. Sinto, porém, as (poucas) diferenças nos extremos. De um lado, é mais deleitoso cochilar com um livro nas mãos. De outro, lançar-se às águas e correr feito menino na praia; de um, a reflexão confortável, sem suores; de outro, a ação que desacomoda e molha. Num lado o vinho está sempre frio no cálice; no outro o chá permanece mais tempo aquecido na xícara.

Leio racionalmente o Livro Prateado que me emprestou ontem o Regente de Hy-Brasil. Um ensinamento para amanhã: “A liberdade de um indivíduo na sociedade não deve estar subordinada a qualquer poder legislativo que não aquele estabelecido pelo consentimento na comunidade nem sob o domínio de qualquer vontade ou restrição de qualquer lei, a não ser aquele promulgado por tal legislativo conforme o crédito que lhe foi confiado.”

Leio idealmente o Pergaminho Dourado que me emprestou anteontem o Príncipe de Utopia. Um ensinamento para depois de amanhã: “Todos os homens são meus filhos. O que desejo para meus filhos, e desejo seu bem-estar e felicidade neste mundo e no vindouro, é o que desejo para todos os homens. Tu não entendes até que ponto este desejo, e se alguns de vós entendeis, não entendem a magnitude de meu desejo.” 

Diário em Midgard — XIII

Avisto o primeiro e provavelmente o único e solitário e último túmulo de toda Terra. Nunca vi — mas agora o vejo diante de mim — um jazigo como este. É arredondado como o dos vikings anteriores a Kodransson. E é sereno e acolhedor como uma toca. A relva o encobre. Nada tem de tosco: é arquitetado por quem sabe construir com beleza. Sobre ele, ergue-se imponente uma tamareira antioquitana.

Uma pequenino portal piramidal, de calcário nas beiradas e de granito no centro mesmo da portinhola, parece fazer as vezes de entrada. Trata-se, percebo tocando-o, apenas de desenho finamente esculpido. Não há como abrir o túmulo. Ao lado dele, uma estela branca escrita em quéchua e latim diz: “Hanaq pachap kusikuynin: hic iacet David, rex quondam, rexque futurus.”

Na lateral da estela, em semítico antigo, está gravada esta data: “Primeiro dia do primeiro mês do primeiro ano”. Recordo-me de algo. Há três dias, na aldeia, foi dito pelo profeta (que é sapateiro e então martelava três taxinhas em cada pé das minhas botas de sete-léguas) que daqui três milênios não mais haveria morte entre aqueles que comeram o pão de trigo vermelho. Um clarão!

Diário em Midgard — XII

Estou no Pátio dos Leões. Seu piso, colorido e oval como a mais perfeita opala daquele marajá que abraçou o crucifixo enquanto morria-lhe a filha única pelas mãos de um soldado pagador de promessas. Suas paredes, superiores em altura e brilho àquelas luzes encapsuladas nos vitrais que custodiavam os reis franceses quando eles iam fazer suas preces no Útero parisiense.

O centro do pátio é banhado por um pequenino lago — uma folha-quase-placa de água que emerge do chão tão lenta e vagarosamente quanto a areia da Ampulheta Dourada submerge em suas próprias dunas. No centro do centro do pátio, equilibrando-se sobre a água, está um enclave de terra branca, uma ilhota cujo tamanho não vai além de um milionésimo de 12 mil estádios.

Naquele solo rico como o roxo mas alvo como o calcário infértil do Saara, está plantada uma árvore, uma oliveira. Diz-me sussurrando o sacerdote: “Nosso Pai colheu meia semente da árvore original e plantou-a neste recinto, onde a madeira que brotava da montanha ruge aqui, pia ali, brame lá e fala aí. A raiz central, mais fina que o mais fino fio de cabelo, desce até o centro da terra.” É um bonsai.

Diário em Midgard — XI

Pulei no lago. Deitado sobre a água morna, abro e fecho os braços e as pernas como aquelas crianças que com o movimento dos corpos desenham-se anjos na neve. As ondinhas ondulam-se em nano-tsunamis. Sinto-me Gulliver ao ver, na margem próxima, as lontras — tão nadadoras! — olhando-me com olhos de quem viu o fogo de santelmo que acompanhou Colombo.

É uteral o sentimento, que toma carne e osso; e o sentido, que alivia o espírito. A paz dos mortos ressuscitados, será esta? A serenidade do caipira que nunca fugiu ao fogo-fátuo. A limpidez de temores do bebê que espirra no focinho do tigre. A calmaria dos pescadores que distinguem a densidade das gotas de vida das gotas de morte quando o horizonte pinga cinza.

A água está se resfriando. Ouço um roçar de cristais de grave timbre. Olho para o lado: vem passando, deslizando como folha outonal, uma montanha de gelo cor-de-céu. O âmago de minha coluna vibra — calafrio cálido. É um arrepio provocado por pena de arcanjo, uma cócega arrancada do estômago besuntado de vinho, carneiro, pão e maças caramelizadas. Corro à praia. Arranco a espada da bainha. Volto ao lago. Meus braços avançam até o lado oriental do castelo polar. A lâmina descasca-lhe um bom pedaço. Tenho já como viver por aqui alguns anos ainda. O cantil logo estará cheio.

Diário em Midgard — X

Ao abrigo das luzes que de onde vêm não sabemos, caminhamos silenciosos em direção ao horizonte mais dourado entre todos os quatro. Se é redonda e circular como a hóstia estelar, já não posso dizer; mas esta terra que pisamos hoje parece ser quadrangular e plana. Há um norte definido pelas alturas celestes e o caminho é tão reto que talvez o sumido geômetra da aldeia o tenha traçado quando ainda era criança.

Há murmúrio ou mesmo um canto a emanar dos raios dourados e prateados que dançam, alados, no céu. Estranho: como ali estão se não se vê o fio de luz que os conecta ao sol? E onde está o sol? A luz é tremenda, mas… onde está o arqui-astro? Espera. O menino que vai a frente cantarola: “Sol da justiça, sol da justiça, temos agora teu resplendor!” O padeiro, que caminha ao meu lado, e ao lado do senhor das vinhas, dá-me um cutucão e sussurra: “É meia-noite, homem! Não notaste que dormiste menos?”

Estamos aos pés de uma pequena montanha. Parece-se, na forma, com o domo de uma daquelas catedrais renascentistas. Chamam-na a “Casa de Enoque”. Ao pé direito, atrás de uma gigantesca oliveira de aparência milenar, está um curral. Todo o povo caminha para lá. Estamos já a soleira da entrada. Todos, um por um, entram. Estou já próximo. Sou agora o próximo. Entro. De joelhos: meu Deus e meu Senhor, então toda a luz do universo provém deste cordeirinho recém-nascido?!

Esponjas de sol – XXIV

  1. Emoção: volatilidade concentrada. Sentimento: densidade espargente.
  2. O aforismo é uma jaculatória intelectual.
  3. Nada é tão belo quanto aquilo que é natural, tanto na ética quanto na estética, tanto no ato quanto na potência.
  4. Três classes profissionais que perderam o dom da palavra: a advocatícia, a eclesiástica e a política. Já não sabem falar com adequação ao próprio ofício, ou seja, não sabem “orar”; elas estão constituídas por uma maioria acachapante de advogados, religiosos e políticos que estão incapacitados para o discurso, seja no plenário, no altar ou no palanque. Que é a Lei, a Sagrada Escritura e a Proposta sem a palavra bem dita?
  5. Escrever um TCC, no atual contexto acadêmico, é um exercício de plágio passivo adornado com citações e bibliografia. Não se admitindo a criação de conhecimento — com o devido método científico, of course — ou mesmo seu desenvolvimento através de desdobramentos racionais, toda a dinâmica de composição de um Trabalho de Conclusão de Curso resume-se à repetição enfadonha, burra e contraproducente do que certos indivíduos escreveram acerca do que outros escreveram sobre as idéias de ainda uns outros indivíduos cujos restos intelectuais estão tão vivos quanto seus restos mortais. A lógica é idiotizante: na graduação você deve primeiramente escrever acerca e sobre textos de terceiros, depois deve subir o degrau do stricto senso, variando ferrenhamente na mesma plataforma de “cachorro-correndo-atrás-do-próprio-rabo” (mas com maior apuro na utilização pró-formática das plumas e firulas) da pós-graduação ao doutorado para que, então, quando você estiver caducando, lhe deixarem em paz para usufruir das suas faculdades intelectuais ao ir à fonte da Água do Conhecimento e deixar de beber do grande e douradíssimo cálice de cuspe de gerações inteiras de burocratas da academia que, sim!, deve conter um centésimo dessa H20 gostosamente saciadora…
  6. Quem abandona Castália se afoga em água. Quem abandona a Igreja, em fogo.
  7. “Se a vida te der um limão, faça uma limonada”, diz o provérbio americano que bem demonstra o espírito empreendedor daquele povo. Nós os brasileiros, porém, não só nos negamos a espremer o insigne fruto cítrico. Nós preferimos reclamar do azedume da polpa, do sumo que tira lágrimas e mancha a pele e até mesmo ousamos falar mal da sombrinha pacata que o limoeiro derrama sobre a terra. Quando não, articulamos intelectualmente uma ideologia anti-limonista e criamos um partido político azedofóbico. Que metáfora sócio-econômica!
  8. O diabo também está nos detalhes. Detalhes ainda mais ocultos. Por isto, é mais difícil acreditar nele que em Deus.
  9. Quem escreve o que quer, recebe a correção ortográfica que não quer.
  10. Todo homem é um fato.
  11. O pecado age como uma gota de sangue no algodão: toma-nos por completo vagarosamente.
  12. O que entristece o espírito humano é mal, sempre mal. Corpo e alma podem se “alegrar” (retirar prazer) com o mal, mas o espírito — que fica incólume, porque não foi tocado pelo Pecado Original — não. Ele é a bússola supra-consciencial.
  13. Eu sou meu senhor, mas Deus é o Senhor de mim.
  14. Um sujeito balançando loucamente os braços, mexendo doidamente as pernas e movimentando espasmodicamente todo o corpo é um desordeiro acional, ou seja, empenha sua ação corporal de modo disfuncional no Mundo. Dois homens fazendo estes mesmíssimos movimentos ao mesmo tempo (ou não) implica num padrão, numa unidade de formatação extra-individual; aí, a anarquia torna-se organizada (não ordem) mesmo que não tenha sentido ontológico real. Some o acaso e aparece um significado: há ali um porquê.
  15. O eu luta diariamente por sua própria existência.
  16. Deus não é nosso médico ou curandeiro, nosso banqueiro ou agiota, nosso psicólogo ou puxa-saco, nosso guarda ou capanga. Se nós cremos em Deus na medida em que precisamos dos “favores” dEle, nossa fé não é fé: é interesse, e interesse vergonhosamente egoísta. Deus deve ser nosso amigo e, então, se Ele quiser, será nossa saúde, nossa prosperidade, nossa paz, nossa segurança…
  17. Uma das maiores perguntas existenciais a serem feitas: Se a Civilização ruísse completamente hoje e não sobrassem livros e bibliotecas, o que dela tu poderias reconstruir amanhã?
  18. Alguém (algum psicólogo de escol, de preferência) deveria estudar este curioso fenômeno afetivo que é o “ódio não correspondido.” É gigantesca a quantidade de pessoas que sucumbem à depressão, ao ressentimento e às angústias da alma por não serem odiadas por aqueles a quem elas odeiam. Prossegue a questão: se essas pessoas souberem que, além de nós não as odiarmos, odiamos a outros, elas padecerão também de “ciúmes”?
  19. Conhecer não o desconhecido, mas o irreconhecido; e reconhecer o desreconhecido. Tal é a busca do homem sábio, que aceita o mistério porque sabe o que é misterioso e, por isto, não se deixa anuviar pela fumaça de enxofre que, por iniqüidade e indolência, quer cerrar sobre a Realidade, envolvendo-a com as sombras que não são as marcas do profundo e do escondido, mas as trevas da ignorância e da alienação. O vagabundo e o mau, porque chicoteados pelo Logos, chamam de “mysterium trememdum” até o evidente. O óbvio parece oculto para o homem obtuso, para o homem raso.
  20. A existência é uma espécie de arrebatamento — ἁρπαγησόμεθα — ao contrário.
  21. Deus — escondido e oculto, fagulha entre as brumas, gota de leite no barril de whisky.
  22. O intelecto é o potencializador máximo do mau. O homem de capacidade mental medíocre é mau no limite pouco criativo da própria biologia instintiva.
  23. Alguns homens são “corajosos” até que alguém descubra que a “coragem” deles não é coragem. É medo descorado.
  24. As pessoas podem tentar nos influenciar — com incentivos ou ameaças — mas nossa ação no mundo depende apenas de nós. Diante de Deus, não poderemos culpar os outros afirmando que fomos induzidos por quem quer que seja — fraco ou poderoso. Nossa alma pertence apenas a nós e dela somente nós daremos conta.
  25. As justas medievais e os duelos românticos eram modelos de civilidade e pragmatismo. Lavava-se a dignidade rapidamente. Hoje em dia, já que nossos contendedores não servem para serem armados cavaleiros (falta genealogia e honra) nem têm polimento suficiente para agir como gentis-homens (falta postura e virtude), as escaramuças e os tiros são via Facebook.
  26. Os fracos logo sucumbem, servilmente se entregam ainda de pé. Mas os fortes (e nós devemos sê-lo com todas as forças dos nossos espíritos) guerreiam ainda que de joelhos. Se não tivermos espadas, usaremos enxadas. Se não tivermos enxadas, usaremos as mãos. Se não tivermos mãos, postamo-nos altivamente diante do inimigo e resistimos-lhe à face. A alma é nossa arma primeira e derradeira.
  27. Líderes surgem em pequena quantidade em tempos de adversidade. Na paz mais duradoura, porém, pululam os chefes.
  28. Os santos, ao contrário dos pecadores, são tentados sobretudo pelos grandes pecados, pelos pecados mais vis e iníquos, enfim, pelos superlativos de cada gênero de pecado; não pela fornicação ordinária, mas pela devassidão adúltera, p.ex. O pecador, de tanto ceder aos pecadilhos e pecadinhos que a todo o momento lhe fisgam a alma, fica sem força, sem tempo e sem energia para os “pecadões”.
  29. Livrai-nos, oh Deus, do desejo puramente mimético.
  30. O homem pequeno (são bilhões!) é ambicioso, quer ser célebre entre os homens da sua geração. O homem grande (são centenas…) nada ou muitíssimo pouco ambiciona em termos de “glória” e, por isto mesmo, seu nome não raramente será lembrado por incontáveis gerações. A humildade pessoal é um extraordinário motor histórico.
  31. O Bem é objetivo. O mal, difuso. A objetividade é concisa e legisla: por isto, mandamentos incomodam sujeitos subjetivos. Que tipo de homem é, nas ações, mais objetivo que um santo? Que tipo de homem é, nas ações, mais subjetivo que um pecador?
  32. A medida da loucura é a obsessão. O sujeito que padece da cabeça é um obsessivo; é, em bom português, o famoso “homem de uma nota só”: ele só age, fala, escreve, pensa, etc, etc, etc, e posta sobre assunto muito específico, assunto este que é a causa direta das suas perturbações psíquicas. Esta obsessão, porém, via de regra, é um mecanismo dissipador inconsciente de um problema maior: para evitar o macro-complexo e seus efeitos, o sujeito se apega a um específico efeito superficial destes e gera um micro-complexo fazendo dele, por sua vez, uma causa que tende, a curto e médio prazo, a amenizar esses próprios efeitos. Os principais luminares da ínclita oposição local são assim: gente mentalmente perturbada cujos ciclos de instável harmonia psicológica não passam de arrefecimento parcial da própria desarmonia permanente.
  33. O cristão pode lutar contra o Mundo porque está reconciliado com o Mundo.
  34. Amigos verdadeiros e puxa-sacos bajuladores se assemelham na ação: ambos manifestam gentileza em seus atos. Mas, numa coisa eles se diferenciam profundamente: na fala. O amigo não esconde verdades, o amigo faz você ouvir o que você não quer ouvir, o amigo às vezes aconselha coisas duras — mas sempre para o bem. Para o puxa-saco, porém, tudo está sempre “certo”, “legal”, “ótimo”, afinal, ele é um pseudo-otimista mentiroso que apenas quer incentivar (para, de alguma forma, usufruir ganho) seus erros, seus prazeres tortos, seus pecados. Aprender a diferenciar alhos de bugalhos é tarefa primordial para quem quer estar cercado de gente boa e leal.
  35. Sempre que se fala de Humanidade como sinônimo de Civilização, há algo de podre no Reino da Terra.
  36. As hienas choram no deserto enquanto a caravana chega à terra que mana leite e mel.
  37. Que é a liturgia senão a geometrização natural da ação corporal humana diante do eterno-estático divino? Uma genuflexão, p.ex., é uma contradição acional em termos corporais: quer-se aquietar o corpo através de um movimento reverente do corpo. Toda ação litúrgica é assim: movimento que aspira ao repouso através de movimento repousante.
  38. Você já ouviu falar de alguém que deu parte na polícia contra algum vizinho que estava ouvindo Mozart nas alturas últimas do seu hometheater às 3h e tantas da madrugada? Já ouviu falar de alguém que chamou a PM para conter uma saveiro perigosamente rebaixada que percorria loucamente as ruas do bairro ao som da 5ª Sinfonia de Beethoven? Não? Por que será que não?
  39. O Japão, a se converter ao Cristianismo, será protestante. A China, por sua vez, católica. O Japão é a Alemanha asiática. A China, a Espanha. Os paralelos são surpreendentes: o austero complexo e o simples ostentoso.
  40. O local é global desde a Odisséia.
  41. Não se pode tocar no gado durante as vaquejadas, não se pode tocar nos ovos azulados das tartarugas marinhas, não se pode tocar nas capivaras dos rios paulistas. Mas, pode-se (com ética cética e clínica asséptica) martirizar sanguinolentamente um bebê ainda no ventre de sua mãe. Eis a lei dos homens: a positiva negação da Lei. Aí de ti, oh Brasil, terra de Moloque!
  42. Estes fetos abortados, estes corpinhos finos e transparentes como girinos, dilacerados pelo metal frio dos bisturis e sugados como geléia pelos tubos dos aspiradores uterinos, ressuscitarão no Dia do Juízo Final e apontarão os dedos — os dedos crescidos e regenerados dos seus corpos gloriosos — para cada um de vocês, comparsas de Herodes, que desde aqui no Facebook ajudaram a descartá-los nas latas de lixo biológico dos hospitais sob o título-argumento de “amontoado de células”! Lembra-te, oh homem, que o abortado é pó, e que do pó há de retornar.
  43. O covarde — sobretudo na sua variação brasileira — é um grande medidor de distâncias. Ele apunhala verbalmente o Presidente da República, que dele está razoavelmente longe (placidamente instalado no Alvorada), mas lambuza-se de medo diante mesmo da idéia de passar um pito cívico-democrático no prefeitinho ladrãozinho que é seu compadrezinho desde o colegial e que, por acaso, também é seu vizinho. Da comodidade do seu sofá, ele chacina com impropérios duros como o titânio todos os quinhentos e trezes deputados (também reunidos no grande pires convexo do Congresso), mas mija frio ante a hipótese de chamar às falas o vereadorzinho vendidinho e mensaleirinho — no qual ele votou — que com ele comunga no mesmo altar da mesma igreja todo santo dominguinho. O covarde, oh dicionários!, deveria estar inscrito como palavra sinônima no verbete “brasileiro.” Mas, aí vem nossa coragem. O gigante está sonhando.
  44. A nenhum fato físico pode se opor uma idéia, enfim, um pensamento que vise alterar a compreensão já evidente da natureza do próprio fato em si. Se levado a sério este pressuposto, sobrariam sobre o planeta tão poucas ideologias que ninguém mais se importaria em saber para que serve o sufixo “ismo.”
  45. Pessimismo realista: pede um rio morrente e não perene, vago e rasteiro como uma gota prolongada.
  46. Lírios brancos na alvorada / Enegrecem sob o luar, / Derramam suas pétalas / No altar do além-mar.
  47. Máxima da mística cristã: Só quem precisa de uma verdade oculta é capaz de encontrá-la.
  48. Foi um “feto”, oh cristãos de araque!, foi o “amontoado de células” que era João Batista o primeiro ser humano a reconhecer Nosso Senhor Jesus Cristo — por sua vez, “feto” ainda mais informe: um “amontoado de células sem dor nem consciência e sentimentos” (com menos de três meses) no ventre da Virgem Maria.
  49. O mercantilismo metalista veneziano e a política papal derrubaram Constantinopla: o moderado Islamismo sunita triunfou na mais antiga capital cristã do Velho Mundo. O capitalismo financeiro europeu e a política papal derrubarão Washington: o proto-Islamismo wahhabita triunfará na mais antiga capital cristã do Novo Mundo. Espero estar errado…
  50. Satanás é exegeta desde sempre.
  51. Homem algum jamais foi alfabetizado. Todos os que aqui na terra lidam e lidaram ativamente com as palavras são e foram letrados. Alfabetizados nós seremos quando ganharmos o “corpo glorioso” e, então, pudermos tocar a Palavra, porque nossa partícula nuclear de logos será unida (mas não confundida) ao Logos.
  52. Choque não é descarga de energia, muito menos a energia mesma. Choque é contato desarmônico (ou desarmonioso) de energia com/contra energia. Aliás, é o enfrentamento de harmonias antitéticas. A palavra mesmo denuncia: o verbo chocar — ação de coisa, não coisa.
  53. As coisas que sabemos existir, mas que não acessamos diretamente através dos sentidos, não passam de idéias para nós. É abstração, pura abstração. Uma coisa só é conhecida como coisa quando à idéia sobre esta coisa soma-se o sentir desta coisa.
  54. Enigma:

A reunião das árvores e dos homens,

A união dos galhos e dos estômagos,

O concílio das folhas e das gargantas,

O conselho das flores e das bocas

O coleguismo dos frutos e das línguas,

A amizade das sementes e dos dentes.

O gregarismo das galáxias e dos mamíferos,

A ajuda dos sistemas e dos macacos,

O auxílio das constelações e dos bonobos,

A cooperação das estrelas e dos polegares.

  1. O idealismo moral materialista — ou a “virtu materialista” — consiste em permitir ao abutre mastigar a águia sob o argumento de que esta dieta o tornará superior: a idéia da grandeza material da águia deve fazer do abutre fedorento um ser nobre se ele a matar, comer e digerir até pespegar as qualidades da vítima imolada no seu próprio DNA. Quão metafisicamente demoníaco (e antigo) é, no âmago, o Materialismo! Canibalismo de ressentidos. Igualitarismo antropofágico. Como tornar-se bom quando se crê que todo o bem provém unicamente das articulações químico-físico-biológicas da matéria? “Se tudo é matéria, a matéria do próximo é melhor que a minha: apossar-me-ei dela, assimilando-a a mim.” Os caetés andaram lendo Nietzsche.
  2. A música chinesa é o uivo do bambu e o gotejar do chá no gongo.
  3. A morte de um grande homem desconhecido das massas é como o atirar de um seixo daqueles que as crianças e os velhos gostam de ver ricochetear sobre a superfície dos lagos. Pega-se uma pedra a esmo, indistintamente, sobre um monte de pedras, e, sem observá-la com a atenção necessária que a revelaria distinta das demais, atiram-na e ela pula e pinga, pula e pinga sobre a água, mas não afunda. Como o machado de Eliseu, a estranha pedra inobediente à física volve à margem, volta à terra dos vivos. É o “adamas” — é um diamante superior, uma pedra filosofal, um fragmento de um Stonehenge edênico. É a “adamá” — é uma terra superior, uma terra densa que levita, um punhado ainda úmido da argila do primeiro tablete cuneiforme pós-edênico. O grande homem (por mais que se empenhem em submergi-lo nos pontos mais profundos do abismo das águas turvas do esquecimento público) sempre vem à tona.
  4. Deus também quer fazer o pardal renascer das cinzas. A fênix que se ajuste com a mitologia! A suprema vocação do cristão que interferirá permanentemente na Realidade consiste neste paradoxo: quando sincero, o homem pequeno e medíocre é chamado à grandeza e aos grandes feitos. Não é outra a história do pastorzinho Davi. Não é outra a estória do hobbit Bilbo Bolseiro.
  5. A degradação bovina enquanto símbolo de corrupção e opressão: o Bezerro de Ouro, dos judeus; o Minotauro no Labirinto, dos helenos; o Touro de Basã, dos israelitas; e… a Vaca no Brejo, dos brasileiros.
  6. Um dia, o Céu será uma Terra de nuvens sólidas e a Terra será um Céu de montanhas flutuantes. Novos Céus e nova Terra serão também Nova Física Prática. E nós seremos, todos, Newtons e Einsteins unificados com os cérebros refulgindo “luz inacessível”, capazes então de discernir a [re]Criação totalmente acessível. Quem lê, entenda.
  7. A simplicidade é o adorno da beleza.
  8. Não existe monaquismo protestante. Por que? Porque o “Ide” reformado é universal e permanentemente extra muros.
  9. Para voltar à Civilização, o Brasil tem apenas dois caminhos políticos: (I) a Monarquia Católica ou (II) a República Puritana. Ambos, certamente, sedimentados em Constitucionalismo e Parlamentarismo democráticos. A Monarquia, mais na Constituição; a República, mais no Parlamento. Creio que, se tudo der certo, o segundo caminho triunfará.
  10. Deus soberanamente escolheu criar os indivíduos que o escolheriam. Deus escolheu que nós o escolhêssemos.
  11. A História está lambuzada de “merda”. Do primeiro tomo de Heródoto à última pesquisinha anti-Annales USPiana, todo e qualquer historiador acaba registrando o fatalismo fecal que besunta as páginas da “Magistra Vitae.” De qualquer forma, é sempre preferível ser o homem que defeca no Mundo a ser o verme imundo que se alimenta dos detritos intestino-intelectuais que aquela meia dúzia (os que defecam) esparrama sobre a terra-no-Tempo. Está aí a diferença entre os homens de ação (causadores) e os militantes alienados de causas (reativos). Melhor ser Marx que ser marxista. Melhor ser Rousseau quer ser rousseano. Melhor ser o individuum-leitmotiv de qualquer caganeira ideológica que afete o coletivo (que faça tampar os narizes até dos portadores de anosmia crônica! — os neutrões-em-cima-da-muralha) que ser este coletivo que, com colherzinha de ouro, degusta diarréia como se se deliciasse com o crème brûlée feito pelo próprio Massialot. Os primeiros, ao menos, entram para a História e mantêm seus intestinos e intelectos intocados por terceiros; os segundos, languidamente escorrem na privada, dissolvendo-se na correnteza do esgoto da memória pública. Vede que isto não é, de modo algum, uma apologia (pecaminosa, portanto) à moda helena da “glória” e da “fama” a despeito dos meios; é a atenção ao valor da atividade em si (boa ou má).
  12. Franz Biberkopf nada é senão uma releitura fatalisticamente freudiana de Jean Valjean.
  13. Se Deus não existe, eu não existo.
  14. Deus não é um ídolo. Deus não é, para quem o conhece, “o único ídolo.” O crente não é simplesmente um ateu de Baal que rende a Deus a adoração (a latria) que um qualquer daqueles sacerdotes que querelaram contra Elias rendia. A adoração cristã é o culto prestado pelo intelecto livre — o “culto racional”, no dizer paulino — e pelo coração amorosamente ofertado. Não se tem que apaziguar a deidade, sacrificando-lhe o melhor da Terra; afinal, Ela é que por nós sacrificou o melhor do Céu. Nosso monoteísmo não é a idolatria de um único Deus. Logo, não basta crer em Javé como único deus. Não basta cantarolar “Shemá Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Ehad” e, ainda assim, dedicar a Ele o tratamento que se daria a um Dagom oficialmente teologizado sob a fórmula “Credo in unum Deum”
  15. O Estilo Gótico é o ápice da Arquitetura.

Sobre hoje

Quando caixões são carregados e o céu resolve escurecer em pleno dia, quando as nuvens descarregam sua água cinzenta sobre a terra há pouco revolvida no campo santo, é sinal de que a tristeza vem de Cima. São legitimadas por Deus cada uma das lágrimas salgadas que se confundem com cada uma das gotas adocicadas da chuva. Há luto verdadeiro.

O sofrimento nos humaniza como nenhuma outra condição espiritual. Mais do que unir os homens na diversidade, as grandes dores, os grandes pesares, os grandes padecimentos nos unem na adversidade. O sofrimento nos civiliza, nos desamalgama deste individualismo coletivista pós-moderno para nos reintroduzir, abruptamente, no organismo da Humanidade: “And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”. O corpo místico social cessa suas guerras intestinas para produzir em si todos os processos responsáveis pela reflexão existencial: cai um avião para que se elevem os espíritos dos mortos que ressuscitarão nAquele Dia e para que se mortifiquem os espíritos dos que por enquanto ficarão de pé sobre o globo terrestre. Nos velórios, somos montes de pó levantado diante de pugilos de pó deitado, como diria Vieira.

A morte coletiva invulgarmente nos obriga à uma liturgia para a morte. A morte de um só indivíduo é acompanhada como o desaparecimento de um número, um número que outros números carregam silenciosamente e sem protocolos até o túmulo; a morte conjunta de dois, desperta curiosidade e envolve mais gente, afinal, é preciso que haja um acontecimento de “maior abrangência” para que dois seres humanos deixem seus corpos ao mesmo tempo — por isto, ao cemitério afluem não só mais pessoas, mas também mais significado coletivo; se morrem três ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou oito ou nove ou dez, há já um temor reverencial e uma atenção extraordinária, uma vez que não podem morrer tantas pessoas “à toa” e, então, é mais larga a conversa entre os vivos e é mais alta a especulação acerca de um “por que?” e é necessária uma cerimônia para dignificar o significado compreendido; se são duas ou três dezenas ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou já uma centena e além a quantidade dos falecidos, não só uma cidade e uma região e uma província acodem à beira dos ataúdes, mas uma nação pára e volta seu olhar para um fato que a praticamente todos obriga um inquisitivo auto-exame. Via de regra, mortes coletivas personalizam o grupo dos falecidos; ao passo que mortes individuais despersonalizam o morto solitário se se tratar de um homem comum — um de nós, um anônimo para quase todos os demais membros da espécie.

Quando multidões se sentem tocadas pela morte alheia, cada indivíduo que as compõe compreende que (vide acima) os sinos dobram não só pelos mortos, mas por ele mesmo.

Então, um espírito litúrgico, o antigo espírito litúrgico que nos acompanha desde as cavernas, toma os vivos não só pela morte dos mortos, mas pela Morte que sentimental e intelectualmente toca os vivos: os joelhos lembram-se de que foram feitos para se ajoelhar; as mãos repentinamente recordam o sinal da cruz; os lábios lembram-se de que o silêncio é a plenitude da palavra; os ritmos musicais batuqueiros das arquibancadas se refinam até que no horizonte escurecido do meio-dia os ouvidos escutem a Marcha Fúnebre de Chopin; os governos recordam-se de que o futebol é o substituto moderno da justa medieval e que se cavaleiros eram armados para sucumbir em batalha, jogadores devem ser condecorados e feitos membros de uma ordem melitense caso dêem a vida em nome de um nome e de um valor — o nome da pátria e o valor da luta congregadora; então, cortejos como os que conduziam os féretros dos nobres medievos são perfilados nas rodovias e, se carruagens góticas carregavam os brasões das linhagens genealógicas adornados com motes latinos, carretas seguem adiante com o escudo do time e com uma solitária hashtag — #ForçaChape é um eufemismo casual para “Vivat in Aeternum”. Buzinas de automóveis e sirenes de viaturas são trombetas e clarins. Bandeiras futebolísticas são estandartes e pavilhões heráldicos.

Se uma partida acaba sendo um show coletivo (um “auê” físico de agitação corporal), um funeral torna-se um spectaculum público (um réquiem metafísico de repouso corporal). Mortes coletivas produzem secundariamente mudanças de apuro estético que emergem do apuro ético: retilíneos lenços brancos substituem as mangas das camisas mal-passadas, pacificando os olhos com tecidos adequadamente absorvedores da tristeza; as camisetas coloridas, mesmo as do time, uniformizam-se simbolicamente e, ainda que mantendo visualmente a vivacidade da paleta cromática, tornam-se um preto austero, afinal, a cor das armas do cavaleiro é também a cor da sua mortalha.

A morte que gera liturgia é a morte que coroa a vida, que dignifica tanto mortos quanto vivos, é a morte que prega nas artérias dos corações que ainda batem a final e grande mensagem: há um significado, há O Significado.

Até o Céu.

03.12.2016, A.D.

A fênix suicida

Alguns poucos espíritos intelectuais distingue-se de todos os outros por sua extrema sensibilidade. São mais que “antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound. São verdadeiros satélites terrenos, almas que conjugam as significações que pairam entre céus e terra e, por isto, sentem em si mesmos as tensões do Mundo. São sismógrafos metafísicos das vívidas harmonias e das turbulências existenciais da Humanidade.

Via de regra, estes espíritos ou constroem um futuro a partir das ruínas do presente ou sucumbem com o presente tornando-se dele a pedra dilapidada, a hera no muro, o manuscrito rasgado. Enfim, ou produzem uma obra que retrata e trata a crise (superando-a para o porvir de reconstrução da Civilização) ou que a retrata e diagnostica, mas juntamente com ela sucumbe à morte, nem que nos moldes eterno-entrópicos e semi-imortais de um Dorian Grey…

Stefan Zweig foi um intelectual desses que fenecem com seu mundo. A Belle Époque coloriu a juventude do menino judeu de classe alta, mas logo o horizonte vienense de valsas e louros tornou-se acinzentando com o tiro que dilacerou a jugular do arquiduque Francisco Ferdinando. O Império caiu e com sua queda elevaram-se Marx, Nietzsche, Freud e toda a caverna de materialistas, niilistas, cientificistas e positivistas que propiciaram Auschwitz e que se coagularam num homem e numa ideologia: Adolf Hitler e o Ódio à Liberdade.

A obra de Zweig é marcada pela profunda cisão que dividia sua própria alma: (I) o saudosismo do último frêmito romântico-liberal que tinha redourado o Ocidente nos cafés fervilhando arte e filosofia e (II) a visão tempestuosa do totalitarismo batendo à porta dos filhos de Abraão e dos filhos solidários de Jafé. A maioria dos seus livros, porém, ou revisita temas eruditos do passado ou se desdobra em vislumbres cheios de êxtase patológico para com o futuro por medo do presente (seu livro “Brasil, país do futuro” é exemplo pronto e acabado deste ilusionismo fujão). Zweig nunca foi um realista, ou melhor: nunca se deu bem com a Realidade. Seu cérebro afiado sentia a realidade enquanto seu coração bondoso a deformava. Era um idealista demasiadamente civilizado para reagir concretamente contra a barbárie, seja admitindo-a para si como fato histórico cíclico seja escrevendo abertamente contra ela. Preferia discorrer sobre a queda de Constantinopla, tão distante, a escrever sobre os saques da S.S. nos museus que freqüentara ao lado das moças que cortejava.

Deu no que deu. A alma que tecia louvores às igrejas alemãs que abrigavam na mesma nave a missa católica e o culto protestante e se entusiasmava ao revisitar a mística das cabalas nas sinagogas, “de repente” viu profanados os altares que se dobravam a Belém e a Jerusalém, que se dobravam à arca onde eram imolados os cordeiros e à manjedoura onde comiam os cordeirinhos. Stefan fez as malas e fugiu para o Novo Mundo. Fugiu e, quando caiu em si, deprimiu-se, devolveu a tocha a Prometeu e foi se despregar da existência com uma dose cavalar de barbitúricos: + Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942.

A visão do Leviatã outra vez lançando caos em nome da ordem subjugou as vozes discordantes, as vozes que viam em Babel sua “felix culpa” democrática. A ditadura ordena uma só língua à uma multidão sempre monofônica…  Os poliglotas e os pacatos falantes de sua fala local devem ser silenciados — tal é a norma do partido que almeja ser totalidade. E, então, diante disto, que poderia ter feito o gentil erudito? Uma boa resposta: perpetuar a civilização sobrevivendo a ela para, então, ajudar com o cultivo das novas sementes e com os novos enxertos da antiga Árvore do Conhecimento pelos continentes.

O intelectual sério é uma fênix que, se morta, renasce das cinzas não dos próprios livros, mas dos próprios feitos de luta pelos livros. Mas… Zweig preferiu suicidar-se. A fênix se suicidou, não sabendo que assim não renasceria das cinzas, mas, como todos os mortais, voltaria ao pó mudo. O grande martírio do homem de espírito não é dar a vida pela causa, mas sustentá-la em cadeias, em prisões, em tempos de cólera anti-logos. O grande martírio do intelectual é viver onde só se pode existir. Talvez, convertido à alguma fé, poderia formar um “exército de dois homens” com seu compatriota Otto Maria Carpeaux, que nele encontraria um igual e não precisaria homeostasear-se para ter com quem papear e com quem dividir o pão seco do exílio.

Sic transit gloria mundi.

Apocalipse na pólis

A cicuta persiste sendo a bebida dos Dom Quixotes, estejam eles de lança em riste, de caneta ao alto ou com a alma regurgitando ideais em lousas, livros ou no Facebook.

Mas, eis a perguntinha que querem calar: Por que o poder odeia o intelecto livre e o intelecto livre inspira e aspira [ao] poder? A resposta, derramada diretamente da penúltima gota do “cálice de vinho tinto de sangue”: a política tradicional é fruto esmagado da ignorância daquele constante 1/3 das massas que se leiloam eleitoralmente, ao passo que a cultura que antagoniza a política tradicional é fruto dos raciocínios daquela aristocracia do espírito que não quer ver ignorantes as tais massas. Fórmula contraditória, mas tão realista quanto a fome doída das crianças que ainda agora nascem para morrer sob o sol ardente do ex-império de Bokassa.

Se o intelecto só floresce na Civilização quando os homens já não precisam se preocupar com o “pão nosso de cada dia” com aquela ansiedade estomacal que dominava os neanderthais, que lugar terá na lista das prioridades governamentais as questões da alma, tão mais abstratas que uma cesta básica? Afinal, se estava certo André Malraux, ao dizer que “La culture, c’est ce qui répond à l’homme quand il se demande ce qu’il fait sur la terre”, como haverá a libertação através da cultura se mal consegue o homem brasileiro deste novo milênio despregar do próprio corpo, com um banho à hora do sono, o pó da terra que o cobriu durante todo o dia?

Os coronéis sabem disso. Os senhores feudais, idem. Por isso, os apadrinhados e os servos devem ser mantidos no “lugar”: nos cochos, alimentadores do corpo e alienadores da mente. Sequer o corpo, aliás, na contramão do adágio romano, pode ou deve estar inteiramente são: qualquer cidadão que se utiliza dos “serviços” públicos é capaz de diagnosticá-los como portadores de anemia administrativa crônica e aguda. Nem se fale das bolsas perpétuas, verdadeiros instrumentos de empobrecimento a longo prazo dos desempobrecidos a curto prazo…

Os homens de espírito também sabem disso. E os barões sem brasão e os coronéis sem espadim da Guarda Nacional sabem que os homens de espírito sabem. Fica aí armado o palco para o ódio empedernido que os governantes pouco ilustrados nutrem pelos seus não eleitores que lhe jogam tomates e ovos pobres das alturas niveladas das “ruas de marfim”; afinal, torre é bastião de suseranos, certo?

Se mataram Sócrates e Thomas More, que não quererão os nossos tiranetes caipirescos fazer com os gentis Quaresmas da pátria tupiniquim?

Esta é a hora até mesmo dos Sancho Panças irem brandir armas contra os excelentíssimos frestões, nem que o vinho chapinha seja maculado de cicuta, pingada do mesmo conta-gotas que deu cabo de Napoleão. Afinal, não foi o interesseiro mas amigável gorducho sem rocim que Cervantes fez nomear prefeito?

 

Artigo publicado originalmente em: https://catanduvanaoesquece.com/2016/11/07/apocalipse-na-polis/

Esponjas de sol – XXIII

631. O triângulo solitário como representação da Santíssima Trindade é falho. O “correto” seria um triângulo contendo, centralmente, um círculo. Na medida em que o triângulo é uno como figura total, é também trino por conter três ângulos-cantos que também se triangulam ao formar outros três triângulos — três derivações parciais do todo, logo, três outras figuras e, por isto, três entes por si, o que é contrário à Revelação. Porém, se há ali um círculo, há o eterno sem ângulos que reúne os ângulos na placidez de sua curva infinita. Os ângulos demonstram o que é diferente na açãoe a ausência de ângulos que os reúne demonstra o que é igual na propulsão. É a unidade perfeita na diversidade perfeita: é um-que-é-três.  

632. As biografias dos heróis bíblicos são sempre cheias de contradição. Via de regra, são pequenos como Davi, chorões com Jeremias, jovens idealistas como José, viúvas piedosas como Judite e tímidos gagos como Moisés aqueles que vencem os grandes como Golias, os calculistas como Joaquim, os políticos pragmáticos como os nobres egípcios, os pretensiosos como Holofernes e os tiranos espalhafatosos como Ramsés II. Portanto, se veres alguém triunfando contra todas as “possibilidades naturais”, contra todas as poderosas hostes deste mundo bruto, desconfie: talvez Deus esteja movendo os pauzinhos da História.

633. O maior elogio que se pode fazer à beleza de uma mulher é ficar encabulado, desconcertado, sem palavras (ou com elas engasgadas no ponto que divide a alma das cordas vocais) diante dela. Estagnar diante de uma filha de Eva,“como un niño frente a Dios”, incapaz sequer de balbuciar os mais simplórios adjetivos de admiração é o ápice do maravilhamento — verdadeiro thaumazein, no dizer filosófico. Quando cessam as palavras é o ser todo que se prostra, é a unidade de espírito-alma-e-corpoque elogia.

634. The Exile Reloaded — Senhor, estão cativos os nossos olhos da luz que não quer amanhecer: o sol está enterrado no quintal, junto com o cachorro do vovô. Para que tantos livros na estante? Para que a Velha Escritura somente? Ficam os bibelôs kitsch e os cristais! Nós guardamos o maná na geladeira, entre o camarão e o resto do manjar. Senhor, estas roupas que crescem conosco não são suaves com as sedas chinas, não são imperiais como a púrpura, não são arminho nem rico linho. Remendaremos o custoso corroído; o gratuito sempre novo, dá aos outros!

635. Não basta gostar de algo; é preciso conhecê-lo, entendê-lo e, na medida do possível, esforçar-se por compreendê-lo com certa integralidade. Então, mais do que simplesmente ter simpatia afetiva por determina coisa, ter-se-á satisfação em dominá-la a ponto de dela extrair sua amplitude-na-realidade. O grande erro dos lobos anciãos e das velhas raposas da política é que eles gostam muito de política, mas não entendem porcaria nenhuma dela. Os senhores feudais gostam a valer dos brasões, das moedas douradas, dos salamaleques dos vassalos, enfim, da “mise en scène” do poder político, porém nada discernem acerca das estruturas mesmas da política e de como elas afetam e são afetadas pelas demandas do espírito, da alma e do corpo humano. Ainda bem!  

636. Cômico: a frustração repentina e abrupta de uma lógica linear de conteúdo afetivo sério ou ordinário (ao qual se rende certa reverência comportamental) por uma “manifestação” ilógica de conteúdo afetivo extraordinariamene piegas ou hilário (propulsora da irreverência dormente ou geradora de nova irreverência).

637. As entranhas do “poder” são o poder das entranhas. Do contrário, a gente não assistiria ao triste espetáculo público dos vômitos verborrágicos, das caganeiras mentais, das cólicas de cortisol, da bílis pinga-ácido. Toda a ação dos bárbaros na luta pelo “poder” nasce do poder das suas próprias entranhas — fétidas, pútridas, corroídas… pelo mal.

638. O ego de certos sujeitos é tão super-inflado que a gente chega a ter a opinião-diagnóstico de que eles sofrem de claustrofobia do globo terrestre.

639. A madrugada solitária, abismo entre dia e noite, expõe a luz embrionária, cálice do sábio deleite. Só beberá do amanhecer o de sincero pensamento, cantando alegre lamento ao luzido rei sombreador. Tu não conheces o todo, nem suspeitas da parte. Como escreverás à Arte se não narras teu êxodo?

640. A vida deve ser levada a sério não porque há um público de olhos atentos e caderninho de anotações em riste bisbilhotando nossos passos sobre a terra. A vida deve ser levada a sério porque temos que prestar contas a nós mesmos para que, no momento supremo, quando o corpo estiver pronto para o túmulo, prestemos contas Àquele que nos deu um “naco” do seu Fôlego — nossa alma imortal. É a inviolabilidade da nossa consciência marchando sob a Lei de Deus que deve moldar nossas ações no Mundo, para o qual devemos virar as costas sempre que ele ousar supor que pode nos influenciar como se fôssemos poodles adestrados de picadeiro destinados às gargalhadas da arquibancada existencial. Quem vive detém soberanamente seu próprio palco e, como tal, sempre (“forever and never, hallelujah!”) dará o tom do silêncio, do pranto, do riso, da ira, do mimimi, etc, daqueles que escolheram mofar sentados na platéia. Quem leva a vida a sério torna-se a ação motriz daqueles que, mecanicamente, feito ventríloquos vitorianos, apenas reagem.  

641. O domínio da linguagem é a linguagem do domínio.

642. Nossos dias cronológicos são dominados por “dias temáticos” em termos de palavreado e de assunto para este palavreado. Dizemos e escrevemos certas coisas e, se nos auto-avaliamos neste nosso ofício humano de lançar palavras no Mundo, percebemos que certas expressões vão formando um “crescendo”logo-semântico de significados que se enraízam e se expandem no tempo ulterior. Certas palavras e expressões se repetem “inconscientemente” nestas nossas pequenas jornadas atemporais. É como se o Logos Divino frutifica-se em nós “pontos de referência” lingüísticos (verdadeiras bússolas do Verbo) para nos encaminhar o espírito à certas searas de mistério e conhecimento.

643. Deus confidencia mistérios à tardinha.

644. De lavagem das mãos em lavagem das mãos, as palmas e os dedos se descarnarão até os ossos. O hábito de Pilatos é, de longe, um dos maiores fazedores de caveiras espirituais.

645. A vocação cristã não é propriamente vocação no sentido de constituir-se num chamado específico, enfim, num chamamento à uma missão sui generis a ser desempenhada em função do ser humano para o Reino de Deus. O chamado específico existe, certamente, mas ele é a senda de homens e mulheres especialmente convocados a desempenhar ministérios e carismas “espargentes.” A vocação cristã, então, é o grandioso chamado a viver a vida que Adão e Eva deveriam ter vivido no Éden, é o chamado à existência-com-significado, é o chamado à integralidade do calendário, é o chamado ao ordinário das 24 horas, dos 365 dias, enfim, à liberdade de entrosar-se organicamente na “faixa etária” dos comuns em comunidade.

646. “Qual é a tua vocação?” Esta é a pergunta que procede ao “Conhece-te a ti mesmo” da filosofia, porque dela deriva imediatamente. A Vida nos chama a cumprir com a nossa vida um propósito que, ao mesmo tempo em que individualmente nos sacia o espírito e o enche de satisfação existencial, também afeta beneficamente o corpo social no qual nos movimentamos organicamente. E como encontrar a própria vocação e ter certeza da veracidade (e, então, da validade) dela? Recorda os teus sonhos e os teus pesadelos conscientes aos cinco anos de idade. O que tu eras essencialmente para ti mesmo, para o mundo e para Deus naquela fase inocente da vida, é o que deverás ser até a morte. Que idéia e que ideal te movimentavam o ser? Que beleza humana ou divina te fazia brilhar os olhos? Que atividade (ou hobby) desejarias perpetuar pelos séculos dos séculos? — aquela que faz valer a Lei da Relatividade einsteiniana: 1 hora disto, é 1 minuto fugaz de grande alegria; 1 hora daquilo, é um dia todo chato e maçante. Então, a primeira coisa a fazer é despir-te das carapaças, dos “jugos”e dos “fardos” no dizer do Cristo, e, então, recomeçar com serenidade a especializar-te na tua obra, que é construtora da Obra.

647. É comum vermos/ouvirmos/lermos muitas pessoas se gabando de serem “sinceras”, atribuindo-se uma virtude que, em verdade, não lhes pertence de modo algum. Sinceridade é uma postura que exige essencial consonância com a Verdade e com o Bem, de modo que grosseria, boca-grande e língua pesada, histerismo e toda sorte de chulismo comportamental nada têm que ver com sinceridade. Trata-se apenas de má criação, de despudor, de descaramento, de desbocamento cru, nu e bruto. A Sinceridade verdadeira é aquela que expõe a Realidade de modo a construir uma Realidade intensamente melhor; para tanto, exige moderação: exige a capacidade de tratar dos assuntos mais duros e espinhosos com tato, elegância e, sobretudo, com educação. É por isso, e só por isso, que com freqüência estas pessoas “sinceríssimas” não são levadas a sério nem sequer por aqueles que lhes aplaudem. Quem grita e berra sem parar não é capaz de agremiar respeito. Sinceridade, quando dura, deve ser medida: e é esta aquela que causa tremores, temores e terrores na Realidade e angaria respeitabilidade pública e privada.

648. Nas democracias pós-modernas, a articulação do poder acontece predominantemente através da desarticulação da sociedade. “Divide et impera”, sentenciava premonitoriamente Júlio César. Portanto, não há nada que estranhar, em termos de resultados eleitorais, a vitória de Donald Trump. As esquerdas elitistas, movidas por sua hidrofobia marxista, dividem: instauram e fazem a “guerra de classes”. Nos EUA, Bill Clinton começou a cisão da sociedade americana e Obama completou-a com cerejinha no bolo e tudo o mais. Então, a direita populista reúne (não une) seus pedaços desconectados e, por eles e neles — afinal, a democracia eleitoral representa a supremacia do número –, triunfa. Este é o terrível e entrópico mecanismo das pelejas eleitorais da década anterior e pelo menos das cinco ou seis décadas futuras, cuja astúcia ultrapassou até mesmo as previsões do canalhíssimo Nicolau Maquiavel, afinal, ele não contava com cédulas e urnas eletrônicas. It’s the realpolitik, stupid!

649. 10 mandamentos da política-de-sempre para progressistas e esquerdistas:
I.             Apenas o povo entende integralmente o povo.
II.           O povo desconfia do poder, dos políticos e dos partidos: do establishment, pois.
III.          Toda elite ideológica despreza o senso comum.
IV.         O senso comum é o motor do homem comum.
V.           O homem comum compõe majoritariamente o povo, d’oh!
VI.         O pensamento ideológico é anti-realidade, enfim, apenas idealmente pró-povo.
VII.        A realidade é anti-ideológica, logo, faticamente pró-povo.
VIII.      O povo aceita pronomes possessivos e o ritmo biológico do mundo.
IX.         Os ideólogos desprezam as bases desta mentalidade natural.
X.           Quem percebe isto, vence as eleições sob os aplausos do povo.

650. A Realidade não é aquilo que suas conexões neurais — sua mente, pois — produzem. Está aqui um bom ponto de partida para analisar o mundo que existe de fato e, então, não confundir torcida (fantasia ideológica) com o conjunto dos fenômenos que agem sobre este “mundão véio sem portera” desde que Adão comeu a maçã e Judas perdeu as botas.  

651. Acata a decrepitude: aceita que tombarás na cripta.

652. Não se deve implementar reforma ou reformulação com intenção permanente naquilo que é impermanente.

653. Não se deve desconfigurar, reconfigurando, aquilo que é aprioristicamente configurado.

654. A desordem torna-se organizada (não ordem) quando à ela se estabelece determinada função sistemática.

655. Utopia. Abrir no mundo as próprias veredas, caminhar confiante durante a noite fria, devastar o deserto e aguar os mares, sussurrar o que gritaria ao meio-dia, impor liberdade ao próprio arbítrio, obedecer a Lei que nutre céu e terra. Então, a estrada e o atalho serão um só caminho.

656. Interpretar a própria vida é a atividade mais perigosa existencialmente. Por isso, os fatos devem se sobrepor às idéias que se têm acerca deles. E é preciso redobrar vigilância, afinal, muitos fatos não são originários (naturais, pois), enfim, eles provêm substantivamente das idéias (artificiais aderentes, portanto). Interpretar a própria vida é enviesá-la em termos de “caminhos-de-valores” no espírito, na alma e no corpo. Uma biografia é, portanto, a unidade de retas abstratas que se traçam a partir da diversidade de curvas concretas que acontecem, ou vice-versa: é um ouroboros psicológico.

657. O mundo fica melhor quando o campo “invade” a cidade, quando o rural conservador estapeia a elite urbana esnobe, quando o camponês proprietário vence e Wall Street chora as pitangas. É de lavar a alma ver o fazendeiro com as mãos cheias de calos esmurrando eleitoralmente os cancros purpurinados de Hollywood, aqueles que desprezam qualquer um que não lhes estenda tapete vermelho. A Civilização dos rústicos interioranos venceu a “civilidade” dos blasés metropolitanos. Nem aí pro Donald Trombeta, nem aí pra Hitllary Clinton. Dont tread on me!

658. Sinais dos tempos: antes do Nacional-Socialismo, as insígnias de hierarquia militar e as ombreiras dos exércitos Alemão e Austríaco (sobretudo este) eram especialmente coloridas, adornadas com cruzes, arabescos, estrelas, folhas, flores e frutos. A guerra, cujo resultado é a morte, tinha lá seu “couleur de vie.” Com o advento do Nazismo, tornaram-se integralmente geométricas, cheias de linhas retas, de figuras angulares, de “formas puras” e matemáticas eventualmente adornadas com punhais, caveiras e ossos. Eis a estética da ética. É o que Tolkien chamaria de “Efeito Mordor.”

659. Desde Babel, Satanás não desistiu de tentar ressuscitar Ninrode e de erigir sua torre meta-nacional — seu governo centralizadoramente mundial. Eis aí o Globalismo.

660. Primeiramente, o governo surge para ser a espada que protege a vida. É força física coletiva para proteger fraqueza física individual. Trata-se de uma relação material e concreta. A ideologia, abstrata e imaterial, surge apenas quando se pretende fundar um governo sob idéias e não sobre necessidades. 

Derradeira Vitória [letra de música]

para a melodia de “Lacrimosa”,
de Zbigniew Preisner

Escuta o silêncio que murmura,
Escuta porque aí vem a secura
E os regatos e bosques que vês
Serão deserto, vácuo e planura.
O galo cantará às falanges suas
E ás águias perderão as plumas!

Não ousas reconhecer esta voz
Que escreve lamentos em Sião?
Lembra-te outra vez que és pó
E que o granito já está talhado
E que a hera foi ontem semeada,
E que o tempo é finita imensidão.

O rebento do pardal quer voar,
Quer alcançar o mistério sideral
Sem ofegar, sem à sede ceder,
Sem deixar de ser pobre pardal.
Como é puro o canto dos anjos!
Ao paraíso eles me conduzirão?

Quem quaeritis in sepulchro? (bis 18x)

Het Fortunatus

A liberdade de estirar-se sobre a terra,
Como uma folha de carvalho emudecida
Pelas sombras dos ramos altos e verdes.
Dayher Giménez
Eu sou, de sangue visigodo,
Fiel à minha terra
Serei até a morte.
Um camponês de torre-forte
Eu sou, livre e sem medo.
O pavilhão da Liberdade
Eu sempre honrei.
A liberdade de derrotar o pó da terra,
Como uma montanha recém-nascida
Sobre o azul imenso do oceano celeste.
Meu escudo e minha confiança,
Sois vós, oh Deus meu Senhor,
Em vós eu me sustenho.
Nunca me deixes. 
Concede-me coragem sempre,
Sempre a vosso serviço.
E derrota a tirania
que me fere o coração. 

Diário em Midgard — IX

A noite cai esbranquiçada. O inverno reúne todas as cores — prisma invertido que é quando verte seus cristais sobre a terra — na placidez alva da neve. O vento não compete com os lobos. É tão suave o som do ar-avançando que faz supor que a maresia das águas orientais vaga nas campinas do vale.

Os chefes das famílias repicam os sinos nos jardins ao anúncio da meia-noite. O ancião-mor toca o galo de prata e corre à cerca da igreja para incomodar o galo dormente até que ele acorde e cante a plenos pulmões. O coral das crianças entoa, tão logo, uma composição dos tempos rúnicos.

Uma grande mesa é posta. Sentam-se apenas as crianças. Os adultos (seus pais e mães, seus avôs e avós), em jejum, servem-lhes azeitonas cozidas, suco de uva e pão quente com manteiga. Está comendo a última criança: quis mais pão e vinho. Toda a aldeia o espera em silêncio. Ele acaba de comer a última migalha e beber a última gota. Eis o novo pastor. Todos saúdam: Tu es sacerdos in Aerternum!

Durante as aulas de terça-feira

Amanheceu o mar na fragrância da luz de agosto, como o dourado lusco-fusco dos dobrões sepultados no Atlântico. Os pés na areia eram limpos das escamas do pó moribundo — a pele, da cor da lepra.

Ela não sabe mas sabe
Que a amo desamando,
E que ela a quem ama
Ama tanto e odiando.
Bom espanto e acalanto
É o olhar que mira desviando
Na fresta, na fechadura sem chave.
Rita, tão pura e impura:
Virgem de beijos de amor,
Com os lábios gastos no bolor
De contatos desalmados. 

Esponjas de sol – XXII

610. Nas artes visuais, a Beleza é um conjunto de afetos elevados cuja manifestação dá-se através de uma unidade estética apurada. Doutra forma, que se diria das pessoas notoriamente “feias” retratadas por Rembrandt, p.ex?

611. Enigma. Alva beatitude cantará douradas estrelas — fervorosas guardiãs, hirtas impassíveis — jejuando labaredas menores (neófitas!), orbitando pulcras questões sorridentes: tempestades uterinas vergando xistoso zênite. Which killjoy are you?

612. A Democracia é um cadáver pútrido que jorra sangue quente sem parar. É, ao mesmo tempo, vida e morte. Todas as demais alternativas são morte pela morte: um corpo social há milênios apodrecido, com sua seiva vital coagulada friamente em pó na ágora, na corte, no parlamento, no paço, nas arquibancadas políticas — verdadeiras poças de pó. A Democracia, contudo, banha de calorosa crueza humana a ágora, a corte, o parlamento, o paço, as arquibancadas políticas: o Poder das Gentes é morto enquanto possibilidade de existência acional plena (o fazer através do corpo), mas sua substância vital (o querer da alma) nunca conhecerá sepultura. 

613. O cristão não deve se acovardar diante das vicissitudes. Por isto, ele não quer estar no meio daqueles que correm dos grandes conflitos: o cristão corre desafiadoramente em direção aos conflitos. A coragem de enfrentar o mundo em nome do justo, do correto e da verdade é o penhor da vida de um homem digno da própria humanidade. Atanásio de Alexandria sem dúvida é para nós crentes o arquétipo superior do varão destemido — um amigo certa vez lhe disse: “Atanásio, o mundo está contra ti!”; ao que ele resolutamente respondeu: “Assim seja, Atanásio contra o mundo.” Dar a cara a tapa não é para homens em cujas veias corre urina em vez do sangue de Adão.

614. Ser consciente é compreender-se no mundo e é poder discernir com certa acuidade as causas e os efeitos dele em nós e nele mesmo. Só é consciente o homem que não é presa de si nem do mundo, que não tem o coração tangido pelos impulsos baixos da biologia nem mesmo pelos supostos quereres altos da ideologia. Só é consciente o homem que é escravo da realidade. Só é consciente o homem que é livre para submeter-se à verdade. Todos os outros guerreiam pelo conforto da caverna escura, pela satisfação frenética e entrópica da alienação, pelo ópio fugaz da diversão que anestesia a alma, pelos vícios em endorfinas existenciais, pela inconsciência que faz do homem um parente despenado do avestruz fujão.

615. Não se deve jamais perder o espírito de criança, mas é imperativo, uma vez que se chegue à “idade da razão”, perder a infantilidade nos afetos. É constrangedor perceber que muita gente adulta faz birra, bate o pé e grita descontroladamente aplicando às questões da existência adulta as emoções e o modus operandi do jardim da infância. Ter o espírito de criança é possuir as virtudes delas — inocência, candura, ingenuidade, alegria multiforme, etc — e não os vícios inerentes à raça humana quando ela ainda chupa chupeta e bebe leite morno açucarado na mamadeira. 

616. Quando as Sagradas Escrituras nos dizem que os “tímidos” ficarão de fora do Reino de Deus, elas não se referem à timidez psico-afetiva, enfim, à timidez daquelas pessoas que sentem-se introspectivamente bloqueadas pelo mundo e não conseguem reagir apropriadamente à determinadas situações psico-sociais. A timidez da qual fala a Bíblia é a mesmíssima covardia omissiva que fez Dante Alighieri duramente afirmar que “Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempo de grandes crises, mantêm-se neutros.”

617. O ateu que passou do primarismo filosófico já não se pergunta se Deus existe ou não. Ele sabe que é impossível provar a inexistência na mesma medida em que é “empiricamente” impossível provar a existência dEle. O ateu sincero é aquele que agora já se pergunta: “Por que deveria ou não existir?” Quem chegou a este ponto (ontológico) está a um passo de abraçar Deus na próxima esquina da Razão, porque passou da lógica materialista songamonga para a intuição espiritual.

618. O conhecimento é um grão de areia (democraticamente encontrável em todos os lugares), a inteligência é uma pedra (menos plural na forma mas igual no conteúdo, tem certa abundância), a sabedoria é uma rocha (só se topa com ela nas jornadas que nos levam para longe do conforto do lar-planície), a humildade é uma montanha (para além do horizonte, só se alcança pela escalada). O grão-de-areia, pisa-se com os pés. A pedra incomoda os pés. A rocha obriga a desviar os pés. Porém, a montanha pisa-se com os pés, incomoda os pés e obriga a desviar os pés; afinal, ela é um todo que agrega as contradições do caminhar humano. Assim é também com o intelecto: apenas a humildade é capaz de congregar saudavelmente as divergências (e diferenças) funcionais da mente sem, contudo, desordenar nossos afetos. A humildade faz do homem um ser conhecedor, inteligente e sábio sem torná-lo vaidoso, orgulhoso e soberbo. É facílimo deter conhecimento, é fácil nascer inteligente, é difícil atingir a sabedoria, mas é dificílimo (uma vez dotado na cognição de certos conteúdos acerca das “coisas visíveis e invisíveis” — a Realidade) ser humilde.

619. Simplicidade é virtude. Humildade, idem. Simples é o homem “bruto” natural, é a pessoa mais próxima da sua espécie. Humilde é o homem que discerne o seu ser como ele é, sem dourados e vernizes. Ambos os estados nada têm a ver com ignorância ou poucas possibilidades financeiras. Quanto à ignorância, ela só é reprovável naquelas pessoas que não são simples nem humildes, enfim, não são conscientes daquilo que não sabem e por isso supõem saber. Maldito (e perigoso) é o ignorante orgulhoso — o sujeito que não conhece mas ousa crer sincera e vaidosamente que conhece. Este deve ser combatido, porque é um perigo para os simples e para os humildes, para os sábios e para os conhecedores: é inimigo da atividade do Logos na sociedade.

620. A Pindorama-mirim e a grã-Pindorama nacional só serão desenvolvidas quando Língua, Religião e Alta Cultura forem a base sólida sobre a qual os indivíduos escolherem edificar suas vidas. Língua: além de mera comunicação, instrumento de civilização espiritual e intelectual. Religião: os valores atemporais que nos ensinam que o tempo cessa com a eternidade e que toda ação material tem efeito metafísico — porque a Salvação vem de Deus. Alta Cultura: vida interior repleta de beleza (e arte), capaz de abastecer plenamente a alma humana de alegria e serenidade.

621. A coisa mais artificial no Éden seria uma biblioteca. Para que livros quando se convivia com Ele? Para que palavra escrita quando se tinha junto de si, pessoalmente, o Verbo? Adão consultaria a Barsa para descobrir se determinado cogumelo o envenenaria e Eva viraria página após página dalgum livro de melancólicas poesias românticas? Para que letra desenhada com o suco das amoras e a pena de um gavião? A necessidade de re-conhecer o mundo provém do pecado. Pecando o homem, do lenho da Árvore do Conhecimento extraímos a celulose para os papiros, para os pergaminhos, para os tomos de papel dos quais necessitamos para chegar à definitiva conclusão: “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne.”(Eclesiastes 12:12).

622. A música cristã ortodoxa é cheia de filigranas vocais; cada uma delas carrega o peso do mundo.
623. O átomo está estruturado conforme os quatro pontos cardeais.

624. O indivíduo está para a Humanidade como a caligrafia particular de cada homem está para as padronizadas letras de forma que a ele e à sua classe foram ensinadas no Início, na [proto-]alfabetização.  

625. A noite: metafísica. O dia: físico, materialista. A escuridão das 12 horas sem sol remete à nossa incapacidade de ir além nas veredas da razão, porque a todo período de discernimento alumiador acerca de determinada questão segue-se, sobre o mesmo plateau consciencial, o ensombrecimento das idéias de quando se acorda por outras idéias mais espessas (intuídas) de quando se espera o sono imaginativo — idéias que repelem qualquer completa coerência das anteriores. A noite subsiste no mesmo terreno em que reina o dia; e como é outra a atuação dos homens, da fauna e até da flora, de todo o mundo, morto ou vivo, neste mesmíssimo ambiente quando as trevas irrompem no horizonte! O observador diurno só pelo dia mede os homens. O observador noturno, idem. Porém, apenas a Revelação concilia empirismo evidente (explícito) à realidade inevidente (implícita) e demonstra a razão de ser das Vinte e Quatro Horas.

626. Para gravar no umbral de toda universidade — Defende as tuas fronteiras, guarda o trigo mal crescido: porque aí vêm os bárbaros, os midianitas e os hunos. Corre à meia noite pelo campo, tu, escudeiro do grande Leão, e cava fossos sobre o pasto. Incendeia a cabana e a lama, desvia o curso do regato; bebe, soldado de Gideão, e vai comer a carne crua do último gado flechado.

627. Antigamente, toda a energia animal humana era depositada na guerra: o sujeito liberava as tensões biológicas da auto-preservação no enfrentamento direto e massivo contra outros sujeitos. Espada contra espada e as pessoas eram menos violentas no dia-a-dia justamente porque expurgavam sua libido grosseira nos campos de batalha. Hoje, ausentes as pelejas bélicas, os indivíduos mais selvagens (portanto, mais necessitados de briga) descobriram o Facebook e brincam de espadachins uns com os outros gritando “touché!” a cada post imbecil que alcança a incrível marca de meia dúzia de curtidas entre a molecada de meia-idade do “partido político” do MiMiMi.

628. O covarde sempre põe a culpa no outro: “Não fiz, porque fulaninho não deixou!” / “Não agi, porque fui impedido por ciclanildo!” /“Não pude, porque beltranejo fez cara feia!” Um homem digno da própria hombridade não foge ao primeiro “boo!” fantasmagórico que lhe dão na cara. Por a culpa no outro é expediente indigno, sobretudo para aqueles que pretendem assumir qualquer posto de liderança; liderança que é qualidade pespegada à intrepidez, à audácia, à coragem de enfrentar e fazer valer suas prerrogativas. Quem se submete quando deveria se insurgir, sempre que melar as calças (porque sempre as melará) porá a culpa não na própria fricção intestinal intimamente associada ao seu caráter gelatinoso, mas a porá no outro, a porá nos outros. Na vida privada, o covarde é um tolo tolerado pelos que lhe circundam (e protegem, via de regra). Na vida pública, é um perigo para a prosperidade social.

629. O amor consiste também na suprema exaltação da amada, individualizando-a a tal ponto que a universaliza. A particular mulher que se ama torna-se a única e superior mulher entre todas as outras no mundo, torna-se Eva para um filho de Adão. Salomão dá o exemplo ao escrever no seu livro dos Cânticos — capítulo sexto, versículos 9 e 10: “Porém uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais querida daquela que a deu à luz; viram-na as filhas e chamaram-na bem-aventurada, as rainhas e as concubinas louvaram-na. Quem é esta que aparece com a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?” Cantada bíblica, of course.

630. Shakespeare escreveu, no seu Macbeth, que “A vida é uma simples sombra que passa.” Poético e forte em termos de impressão no senso comum, mas errôneo como chamar biscoito de bolacha e vice e versa. A vida é simples, sem dúvida. Mas, não é uma sombra. Ela passa, mas não empurrada pelo espirro de um qualquer agente físico. “A vida é uma simples luz que permanece”, se diria com maior verdade. É luz porque foi criada pelo que habita na Luz Inacessível. E permanece não porque não transite de lugar para lugar, de ambiente para ambiente, de condição para condição. Permanece porque nunca será outra coisa e jamais terá outra essência de ser que não luz, luz que condiciona a própria sombra.

Esponjas de sol – XXI

591. Como se manter coerente diante da incoerência sistêmica? Como se manter racional diante da irracionalidade generalizada? Como se manter lógico diante do ilógico ideologizado? Apenas a fé em Deus e na superioridade da consciência sobre a inconsciência é capaz de nos apaziguar o espírito quando a loucura reina.

592. O poder financeiro tem seu limite em si mesmo, ou seja, o dinheiro bloqueia o dinheiro e, por isso, após comprar “tudo e todos”, ele se autodestrói e dialeticamente fortalece justamente a causa oposta e adversa. 

593. A crença em Deus não é propriamente crença. Não é crendice ou crentice ou cretinice ou crentinice. A crença em Deus é uma cegueira profunda causada por um grande choque de luz — da mais potente luz, a luz que contrai as pupilas e arranca a prata do cognitivo espelho ocular, a luz que Paulo chamou “inacessível”. Nós, crentes, apesar de não vermos aquele a quem chamamos Pai, nem por isso deixamos de tocá-lo, assim como um cego toca tateando as faces da pessoa amada. E como o cego serve-se do bastão-guia para trilhar seu caminho cambaleante mas certo, nós temos em nossas mãos trémulas um livro-guia que nos avisa a respeito dos obstáculos da vida — a Vida que está no Caminho que é Verdade. “A crença em Deus”, dizia outro dia um ateu, “é cegueira!” E não é que nós concordamos? Estamos cegos diante do Ignoto e do Abscôndito. Mas, se sabemos que é Desconhecido e que está algo Escondido, já não também sabemos que é Conhecido e Revelado? Deus seja sempre louvado!

594. Não se deve refletir a vida inteira. Há um momento em que a reflexão naturalmente se encaminha para uma ação racionalizada de caráter perpétuo. Deve-se sim pensar durante toda a vida. A todo homem consciente chega o dia em que o perscrutamento das “coisas visíveis e invisíveis” cede lugar à labuta nas coisas “visíveis e invisíveis”. As milhares de perguntas arrefecem e são submergidas por algumas poucas mas densas respostas.

595. A Literatura Universal é a mais sólida e vasta reserva de Humanidade. Desconhecê-la e propor-se a ser “ponta de lança” em termos de influência sócio-cultural (e política) é se auto-abortar intelectualmente. Não sai da linha de largada o sujeito que tem idéias e não sabe/consegue ver (e então revelar) nelas a Idéia. Quem não leu Dom Quixote não sabe o que é o Idealismo que moveu cavaleiros andantes e move jovens de bicicleta na Avenida Paulista. Quem não leu Dostoiévski não sabe o que é o Realismo que moveu filósofos no século XIX e move velhos ranhetas que assistem ao Datena. Quem não leu Homero não sabe o que é o Ceticismo que moveu Descartes e move alas conservadoras e liberais em Pindorama, em São Paulo, em Brasília e nos confins da terra. Suma de tudo: quem não lê adequadamente jamais poderá alavancar a Realidade; desperdiçará energia por todos os lados sem jamais mover-se um mísero yoctômetro para além do próprio eu-lugar.

596. Em política, sem sobriedade e certo “accountability”, num instante a poça torna-se abismo. Quem não se pautar por idéias e descer o nível (o nível, que é emanação do caráter) vai amargar merecida derrota. O povo é inteligente e sabe discernir gente séria de gente histérica.

597. A obrigação número 1 de quem tem um cérebro é pensar. A obrigação número 2 é impedir que espertalhões pensem por você. A obrigação número 3 é desmascarar estes espertalhões.

598. A verdade é sempre uma e una: “esta caneta bic é azul”, portanto. Mas, a mentira é múltipla e polivalente: “a caneta não é azul, é preta”; “não, é amarela”; “é cinza”; “é incolor”; “é da cor do cavalo de Napoleão”; “é azul, mas é Montblanc”; etc, etc, etc, até uma “isto não é uma caneta, é um meteoro de Júpiter”. Entenderam? Ou o Cristianismo é a Verdade ou não é nada além de tagarelice de religiosos abestados e medrosos. Ou Jesus Cristo era Deus ou ele era um charlatão ou Elvis Presley ou um curandeiro palestino que tomava o chá do santo-daime ou um alienígena da Galáxia GN-z11 ou qualquer outra coisa que não Deus.

599. Ninguém terá vida enquanto Ele não conceder vida. O homem sem Deus é um zumbi existencial, é um arremedo de átomos organicamente energizados, é um boneco de ventríloquo cuja voz é o eco do urro do Adão caído. Só vive quem é consciente. Só está realmente vivo quem foi despertado para a Realidade. Só detém vida quem foi batizado na Vida. Quão fácil é a idiotia de estar no mundo sem saber o que é o mundo e para onde se vai arrastado com o mundo. Quão fluidamente indolor (e tolo!) é atirar-se para o abismo com a manada que insiste em dizer que alguém falou que o caminho da libertação é “ali”; ali para onde todos os cascos marcham morbidamente acelerados. Ninguém vive se não bebe da água da vida e nela não lava os olhos. Enquanto as escamas não caírem, você será apenas mais um número de RG e CPF à espera da certidão de óbito. Decida-se por Deus e tudo ganhará a cor exata, o significado exato, a luz exata. Você viverá como ser que sabe das “coisas visíveis e invisíveis” e não mais como ente que mal suspeita da própria grandeza.

600. O ser humano vicia-se na medida em que não usufrui de prazeres verdadeiros. Então, não tendo alegria e felicidade puras (que são coisas do espírito), ele se apega às poucas e falsas “delícias” que a carne pode temporariamente fornecer, alienando a alma. O problema é que a matéria não consegue fornecer entretenimento corporal por muito tempo. Chega uma hora em que, para conseguir o mesmo efeito, aumenta-se a dose do álcool, aumenta-se a dose do pó, aumenta-se a dose do sexo, etc. Porém, chega ainda uma outra e já derradeira hora: a hora em que, por mais que sejam gigantescas as doses, elas deixam de produzir o efeito almejado. Então, o prazer acaba e fenece juntamente com os litros de álcool, com os quilos de cocaína, com as perversões todas. Sobra apenas o vício frenético e suas decorrentes loucuras. Por isso, quando o Cristianismo ensina e diz que isto ou aquilo é pecado, ele não o faz porque quer nos arrancar um prazer; antes, o faz porque nos quer conservar sentindo prazeres verdadeiros e perenes (cheios de “potência existencial”), alegria e felicidade que fruem do interior imaterial para o mundo material. A virtude da santidade, ao contrário dos vícios da iniquidade, nos permitem usufruir de todos os prazeres com harmonia e funcionalidade. Quem peca, anula todos os demais prazeres em nome de um que aos demais rapidamente consome e, feito um buraco negro, logo se auto-consome. Sobra o vácuo do insignificado — da depressão que suspende o sujeito do mundo e o faz provar o inferno ainda na terra.

601. Pode o cristão amedrontar-se diante da morte? Não há, no computo geral da Realidade, verdadeiros motivos para tal, não obstante seja um sentimento do homem natural o encher-se de pavor diante da própria finitude terrena. Mas, cheios de medo ou plenos de serenidade, eis diante de nós o irremediável fato supremo: toda carne, nua como veio, retornará ao pó. É bíblico e histórico: o fruto do Éden em nós frutificou destruição corporal. Contudo, da cruz fúnebre ao sepulcro vazio, eis o Senhor vencendo a morte, aniquilando-a e, por fim, destruindo-a através da ressurreição. Podemos chorar. Devemos chorar. Todavia, Ele nos pacifica o espírito e amorosamente limpa dos nossos olhos toda lágrima. A Vida venceu. Um cristão, portanto, não precisa temer a morte. Ela já não existe, propriamente; trata-se simplesmente do segundo e final parto — o parto para a Eternidade.

602. A leitura dos clássicos é indispensável tanto para o político quanto para o povo que gera o político. Se todo efeito deriva de uma causa, ao menos no plano físico, tal lei não se aplica rigorosamente às relações sociais — que vivem de altos e baixos, de sístoles e diástoles psicológicas. Então, consumir a boa literatura ocidental e oriental dos últimos três milênios é um meio razoável para que se compreenda a natureza do poder e o porque dele ser o “doce mel” a que aspiram as gentes. Compreendendo o mecanismo, compreende-se facilmente toda a sistemática política, seja ela democrática (hoje, eleitoral), monárquica (hoje, constitucional e parlamentar) ou aristocrática (quase extinta). Os clássicos são o resumo adensado da alma humana. Sem prestar atenção à esta sábia produção intelectual, tanto povo quanto político se auto-enganam; daí, nascem as aberrações.

603. Um cristão não fica feliz, não rejubila, não exulta com o pecado do seu próximo. Um cristão não sorri, não ri, não gargalha com a queda de quem quer que seja. Um cristão não sente orgulho de qualquer suposta virtude sua, afinal, isto é coisa de fariseus auto-justificadores, de pagãos orgulhosos, de escribas legalistas. Um cristão quer saquear o inferno e não, com o dedo em riste, tomar o lugar de Satã e condenar os homens às chamas eternas. Um cristão deve se parecer com Deus e não com o diabo…

604. Lei inexorável: em qualquer contexto humano, a inteligência virtuosamente utilizada e o preparo mental sempre vencerão a ignorância e a desorganização intelectual dos indolentes. Há um momento em que toda retórica iníqua (sobretudo a do dinheiro) não avança e por si mesma é freada. É aí que, no dizer de Provérbios 21:22, “O sábio escala a cidade do poderoso e derruba a força da sua confiança.”

605. Não se pode julgar a qualidade de um vinho pela sujeira do cálice que o acolhe. Semelhantemente, não se pode julgar a qualidade e a veracidade de uma idéia simplesmente pondo os olhos na má conduta de quem a defende. O homem sábio é aquele que sabe discernir a ideologia do ideólogo e o ideal do idealista. Portanto, o Cristianismo não pode ser julgado tomando-se como parâmetro o péssimo exemplo de muitos “cristãos.” Que tem o Cristo a ver com os cafetões da Fé que fazem do templo de Deus covil de ladrões e salteadores? Que tem o Pobrezinho de Nazaré a ver com aqueles que iludem corações susceptíveis a ilusionismo simoníaco? Que tem o Deus Crucificado a ver com toda sorte de canalhas que falam em seu nome? Por isso, é indispensável a leitura da Bíblia Sagrada: nela encontramos Ele — que é Caminho, Verdade e Vida.

606. É mais do que importante: é necessário freqüentar uma boa igreja. O Cristianismo distingue-se das demais religiões justamente por pregar uma vida comunitária — de comunidade, “de dois ou três reunidos” em Seu Nome. A palavra igreja, aliás, evoca vida organicamente coletiva. Igreja vem do grego ekklesía, cujo significado é “povo”. É na igreja que o indivíduo torna-se parte de uma família e, nela, recebe os sacramentos da vida integral. Um cristão não é apenas um batizado que crê em Jesus Cristo. O cristão é aquele que recebe e cultua o Senhor em espírito e em verdade num culto racional e institucionalmente estabelecido. Vá à igreja. Nela reúnem-se os filhos de Deus, os salvos, aqueles que na terra anseiam pelo Reino dos Céus.

607. Saibamos prestar atenção às mensagens de Deus. Ele fala o tempo todo — seja com silêncio amoroso ou através do megafone do sofrimento. Deus sussurra ao pé do ouvido e brada severamente na alma. Não passa um dia sem que o Senhor nos diga algo, sem que nos mande bilhetes, sem que nos ponha em contato direto com o Céu. Não diga que Deus não fala com você. Você é que é insensível — surdo, cego e mudo — à conversa que Ele quer ter contigo ontem, hoje e eternamente.

608. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança” dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

609. Tenho a impressão de que poucos cristãos olham para o céu — este alto e azulado céu atmosférico — e ainda se vêem cortando os ares, singrando as nuvens, saltando depois pelas galáxias iluminados por supernovas e anjos com tochas eternas, e enfim chegando ao Terceiro Céu, às portas de Sião, aos braços de Deus. Maranata!, a despeito da incredulidade dos crentes. Maranata!, ainda que os púlpitos não esperancem as almas com vislumbres da Nova Jerusalém. Maranata!, mesmo que o Arrebatamento já não passe de metáfora mística para teólogos ateus.

Esponjas de sol – XX

584. Senhor, a tua face ensangüentada eu busco. Por que estaria limpo o meu rosto? Faz da lágrima humana gota de suor divino. Por que é salgado o choro e o trabalho? Senhor, este teu silêncio me amedronta. O teu silêncio me angustia até a medula, me faz desesperar o espírito em dores de morte. Tu, Oleiro, sabes que mais que pó eu sou caco — caco de um vaso pelo Mundo quebrado, caco esmigalhado pelas pedras do Inimigo furioso. Por que silencias? Senhor, se tu te ausentas da minha visão carnal, se tu te escondes destes meus olhos materiais, inda assim tua presença é notada. És permanente Ser-e-Estar. Na penha da alma eu te vi pelas costas. Não saiu de ti virtude? Tu és Pai — tu que arrancastes as rodinhas da minha bicicleta e, mudo ao lançar-me no reino terreno, disseste-me: “Vai, filho! Vai pedalar no meu Caminho. Vai, filho! Vai ser livre na minha Verdade. Vai filho! Vai existir na minha Vida.”

585. O arco dispara sem flecha quando o ardil é injusto. / Confusa é toda queixa lançada contra o justo.

586. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança”dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

587. “Por que desejo ser um escritor?” Quero ser escritor porque quero ser íntimo do Logos, porque quero deitar a cabeça no peito da Palavra e ouvir sua respiração, e ouvir sua pulsação — a substantiva Pneuma divina, a adjetiva sístole e diástole Verbal. Quero escrever porque Deus escreve. 

588. Ouço Bob Marley e sou contrário à liberação da maconha. Leio Nietzsche e não sou ateu. Canto a Marselhesa e sou monarquista. Recito o Kol Nidre e não sou judeu. Dialogo com todas as pessoas, bem como com todas as suas idéias e pensamentos. Porém, sempre tendo a racionalíssima verdade do Cristianismo como crivo inerrante, como pedra de toque. Como o apóstolo Paulo, examino tudo e retenho o bem.

589. Da caverna branca poderá sair escuridão? A não ser que o dia se rebele contra o sol e a lua se amotine contra a noite, jamais brotará treva do interior iluminado por Deus.

590. Ajoelha-te, homem! Pede chuva ao teu Deus. / Pede que água desça do céu e ágüe o sertão. / A temporã e a serôdia pede de mãos ao alto. / Que sejam regados todos os canteiros teus. 

Triste pueblo sin ventura

Carpirás o mato dos túmulos vazios?
A enxada enferrujou no poço de lágrimas.
A lima? Perdeu-se no meio do laranjal.
Conta aos mundos a épica falsidade
Dos versos aos tiranos dedicados.
Conta aos mundos e aos três céus
Que rimas adornaram cadafalsos
E que redondilhas douraram prisões.
Chora antes pelo corpo dilacerado
Do ladrão não pranteado,
Do pobre envergonhado e aguilhoado.
Chora pelos criminosos sem réquiens.
Deixa aos menestréis do poder
A ode fúnebre nas catedrais. 
Uma marcha para Maria a Sanguinária! 
Um discurso para a pira de César Augusto!
Vou ali no canto, preparar a foice.
Vou ali no campo, decepar o trigo.
Quem o suor sempre bebeu,
Nunca ouvirá o conselho de Aitofel.

Diário em Midgard — VIII

As cerejeiras não querem florescer enquanto o vinho não acabar no banquete. As taças espumam e os cálices transbordam. Bebedeira? Nenhuma. Embriaguez? Que é isto, afinal? O sábio Khayyām está escandalizado: quer correr ao lagar e comer o mosto das cólicas do espírito.

Ensinaram os prussianos a empunhar pincéis orientais? Ensinaram-nos a carpir os campos de batalha e chorar longe dos jardins? Os reis são estalajadeiros e os nobres servem pães de cevada aos camponeses. O 777º barão de Shim’on é um dos melhores jardineiros da aldeia.

Os cães comem grandes bocados de pão-de-ló e os gatos lambem o mel que escorre da colmeia do nonagenário Napoleone. As cerejas estão maduras e cozidas no vinho dos vales altos? Mas… onde estão as flores?  Comamo-las antes que se tornem sementes-em-broto.