Soneto III

Cheguei ao mundo banguela e sem rimas,
Claudicando das pernas e do Teu símbolo.
Cheguei pensando porque é que eu penso,
Porque é que daqui de dentro sai palavra.

Esta cabeça, grande e cheia, é a Tua lavra?
Que gema assim põe o espírito suspenso?
Esta cabeça, arena de Ti, é o alto êmbolo
Em que comprimes verdade em lágrimas.

As casinhas velhas pelo caminho saúdam
Meu caminhar que de passos sossegados
Faz seu discurso em favor da Antiga Idéia.

Sou trovador para os dementes da aldeia,
Sou contador de estórias para os mudos,
E sou qualquer coisa para os que odeiam.

Os Sete Pecados Capitais [poeminha catequético]

Gula
A meia-noite é um meio-dia.
Almoçar e jantar, que alegria!
Mesa farta e um’alargada pia
Me empanzinam de sal & cia.

Avareza
Contando cada cobre e lata
Para trocar por níquel novo.
Café sem mingau nem ovo
Para não fazer pedir o povo.

Luxúria
Ai, a donzela que nada no lago
Vai pra sempre me tirar o sono!
E se nada assim a ver-se, corno
Acabo antes já do fim do ano.

Ira
Fogo pelos olhos e pela língua.
Acúleo de boca e pensamento.
O fígado pinga ácido ferimento
Té matar no espírito o lamento.

Inveja
O gordo olho do velho magro
Examina todo o porco assado.
A íris é boca que mastiga tudo:
O alho, o ouro, o verde prado.

Preguiça
Está tão molhada esta chuva
E tão seco este sol caloroso,
Que o leito é… mais deleitoso
E o capinar proceder ruinoso.

Soberba
Eu é que sou tudo e vós sois nada!
Não notastes esta superioridade,
Tão óbvia quanto a notoriedade
Da fama sobre a anônima verdade?

A Realidade

Está aí o mundo, doloroso como a lágrima do mendigo,
Prostrado diante do balde em que vomitam os demônios.
A realidade plausível dos alardes e dos moribundos acena
Para a criança parida agora a pouco aos pés da prostituta.
Que me direis quando algum profeta falar em esperança?

Está aí o mundo, venturoso como a lágrima do amante,
Em pé, altivo em sua dignidade, diante do cálice dos anjos.
A realidade caminhante dos clarins e dos viventes saúda
O menino nascido agora a pouco no seio de uma virgem.
Que me direis quando o próprio Deus falar em esperança?

Soneto II

Invoca o farfalhar das folhas no inverno
Como quem escuta a sinfonia inacabada.
Alinha-te para ser visto na alta mansarda,
Alinha-te para que tenha sentido o terno.

O fraque, os leques, as mesas arrotadas,
O tabaco, os cristais, os cochichos mudos,
O pote de doce, os garfos, as facas afiadas,
O vinho do porto, os canapés, os carteados.

Está tudo ali, nas mesas da festa mundana:
O mundo feito mapa, em carne desenhado.
Melhor seria voltar ao campo e caminhar!

Melhor seria — porque é inverno — dormir;
Dormir e sonhar com as folhas que caíam
Quando Adão e Eva sonhavam-se no jardim.

O Caminho Antigo

Um caminho antigo
Cortou a velha rodovia moderna de concreto.
Paralelepípedos caíram do céu:
Reta estrada de semi-lapidada pedra.
O sol derreteu todo o piche
E sob a erosão do tempo futuro
Deixou terra nua o lastro da via.
O caminho antigo,
Venerado comum pelos antigos caminhantes,
Arqueologia moral para os corredores
Do atalho moderno.
Apenas o caminho é radicular,
Porque ao seu largo as árvores respiram.
Apenas o caminho é frondoso,
Porque ao seu largo a sombra refresca.
Apenas o caminho alimenta,
Porque o pomo de ouro cai pelo caminho.

Se mai continga che ‘l poema sacro

Se nós fôssemos as pedras que se escondem no lago,
A profundidade das poças humanas não nos afligiria.
Um grão de areia no fundo do oceano talvez eu seja,
Um grão da Atlântida entre a poeira dos dinossauros.
Nada além dos suspiros antigos,
Nada aquém dos espirros novos.
Alguns homens tornam-se granito quando lhes vêem
As multidões — cheias da febre-idolatria de fazer deus.
Outros, como eu, preferem na sanguinolência do ser
Tornar o espírito risonho como aquela estátua alada,
A estátua que ainda respira novidade,
A estátua que ainda inspira antiguidade.

Soneto I

Às posses vis do ouro e da prata
Oponho a guarda da ciência vital.
Vós não sabeis que mais refulge
O conhecimento que o vil metal?

As Trinta Moedas que hoje são?
Sequer pó de argêntea feição…
Entesoura antes a vida urgente,
Cada segundo em ti esvaente.

Todo o bem do mundo enfermo
Presto abandona o rico túmulo:
À campa fria vai o verme glutão.

Toda riqueza inscrita em cara ata
Tem por companhia relés ladrão.
Vês o pergaminho e o livro? Efatá!

Enfrentamento

Quando a dor em ti implantar a ilusão da fuga,
Quando o piccolo soar o hino preferido de vovô,
[Tu talvez te perderás na encruzilhada da noite]
Quando o silêncio absoluto sussurrar “É Deus!”

Não te deixes enganar pelo clarão do anjo mal,
Porque as estrelas mais brancas caem na noite
Sob o movimentar delicado dos dedos do Filho.

Não percebes que o percurso da fuga é torto
Como aquelas linhas desenhadas pelos índios?
Rasgarás então as vestes da mulher de Potifar?

Quando os lírios mais velhos caírem mortos
E toda a justiça sucumbir à faca do ditador,
[Tu talvez te encontrarás entre os soldados],
Nada restará senão a dor do amor de Deus…

As Quatro Estações com ela

Vuelvo a saber en ti cómo germino…
O olivastro da pele e o castanho dos olhos,
Se querem florescer, floresçam nestes olhos.
Seda para os lençóis, miragem para a alma.
O lírio desabrochado é o ninho do lenhador.

Omnia sol temperat purus et subtilis…
Os negros cabelos de odalisca faiscando,
Se querem refrescar, refresquem esta pele.
Veludo para as noites, véu para os dias.
O trigal cor de carvão é o sol do minerador.

Apegada a mis brazos como una enredadera…
Os lábios vermelhos de delícias adocicadas,
Se querem frutificar, frutifiquem nesta boca.
Folhas de relva madura, sábia temperatura.
A romã farta de paz é o banquete do caçador.

Si puer cum puellula moraretur in cellula…
O corpo puro e nu entre lãs e peles aquecido,
Se quer repousar, repouse neste corpo agora.
Alcova de carne quente, sono impermanente.
A cornucópia de Vênus é o alvo do governador.

Aos passos, aos passos

“…sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.”

O perdão que o mortal dá ao mortal
É aquele copo de água fresca e pura
Que em forma de oásis
O deserto a si mesmo oferece:
é o gole que cura.
Não sabes, tu que és morrente,
Que refrescas os lábios do sedento
E que a alma ferida de tudo se alivia
Quando tu a fazes verter doçura?
Põe tua mão sobre a fronte inimiga,
Roga aos céus por sua conversão.
Espera, espera e gotejará a oração.