Versos livres — I: Sansão e Dalila

O teu sorriso era [já não é] uma espiral de docidão,
Como se de uma linha à outra nos lábios repousassem
As curvas das galáxias, feitas da cera e do mel da primeira colmeia.
Então meu paladar se aguçava,
Então o cálice da ceia dos amantes
Se contentava com a água fresca da mina da roça.
O teu sorriso que me abalava o âmago e os ossos,
Que me alterava a temperatura como se febril no Saara eu sonhasse,
Que me acometia de risos e gargalhadas de expectação divina e infantil…
O teu sorriso deixou de ser, como as nuvens abandonam a pareidolia
Quando o vento vândalo e realista é mais forte que a brisa artista.
O teu sorriso era para mim um chamado ao silêncio devocional,
Uma convocação do arauto das alegrias amenas,
Um toque de clarim real ouvido apenas pelo espantalho do milharal.
Então, as formigas vieram e carregaram cada gota de mel
E as vespas desfizeram os favos hexagonais de luz e carne.
Então, cá eu contemplo a linha reta de tua expressão:
Inerte e muda, inerte e muda como uma estátua de sal.

Soneto VII

Se a brisa descer em tempo de inverno
Ou maresia de repente vier do deserto,
Escuta a cantiga que o amor expressa,
Porquê fora de estação surge a paixão.

Se uma pétala de rosa fresca cair morta
E for primavera colorindo a vida à porta,
Silencia diante duma provável traição,
Porquê na estação mais fecunda a ilusão.

Se o Senhor, porém, dois quiser no altar,
Se unir Ele desejar para sempre um casal,
A Calenda se desfará na chama eternal.

Se o Senhor deitar sobre estes dois dedos
O leve fardo e o suave jugo duma aliança,
Um a um o tempo desfará os idos medos.

Inquietud

El sonido de mis sueños
Por la noche se calla.
Sin mi coche, camino a pie
Sólo com Dios, sin baño.
Voy encontrando el tiempo
Como quien, por primera vez,
Encuentra su propia cara
En el espejo.
El sonido ahora es himno,
Alabanza al Significado.
Soy yo mismo,
Ante el tiempo desesperado.
El silencio compone la esperanza
Y la melodía aparece en la partitura
Como las letras en la pared figuran.

Dante a Beatriz, no século XXI

Um dia serás velhinha e o mundo te será, finalmente, real.
Mas da realidade do mundo, Beatriz, tu terás apenas o cinza.
Bela tola, tu serás tão feia quanto a santa Mãe de Whistler,
Mas não terás o calor da lareira familiar, do pincel familiar
Que te arranjaria em verde e amarelo a uma futura geração.
Preferiste a vergonha dos pixels anônimos e do mundo fácil,
Escolheste o fugaz que fraciona tua alma como a carne moída
Da ração dos cães que ficam no meio do caminho da reação.
Quando fores velhinha recordarás dos meus poemas gentis
E chorarás pela vida que poderia ter sido e não foi jamais.
Um dia, um dia o mundo te cobrará minha lágrima nas tuas.

Soneto VI

Tu te mirarás, um dia, velho ao espelho
E perguntarás se valeu à pena caminhar
Por cada terra atrás daquele livro velho,
Atrás das pegadas que indicavam o Lar.

Então, um anjo invisível te fará dormir
E de olhos cerrados verás a Jerusalém,
E, no dourado sonho, em pé acordado,
Verás tudo o que o profeta viu no véu.

Tu acordarás mais cedinho para vê-los:
Tua mulher, dormindo em paz amada,
Ao lado dos retratos dos filhos e netos.

Tu dormirás, na tardinha, para te veres:
Sonharás que estás diante dum espelho
E, refletido em prata, criança tu te verás.

Soneto V

Não te escreverei linha alguma nunca mais.
Este trabalho suadouro de rimas garimpar,
De fundir o metal dos versos e vogais limar,
Nunca mais, nunca mais sob estes meus ais.

Poesia que verte assim toda minha agrura
E que sob o manto do lirismo é tua tortura,
Nunca mais, nunca mais haverá de pagar
Com arte e louvação o desdém do teu ar.

Apenas as ricas frases para outras salvar,
Porque o elevado é anel para toda mulher
Cuja mão o coração do poeta sabe guardar.

Nunca mais, então, nunca mais o versejar.
Nunca mais o fino doce em dourada colher.
Nunca mais terás o quê às amigas mostrar.

Qui ne fait châteaux en Espagne?

Construir aqueles castelos de areia com granito não queres?
Pois vê, estas idealizações de menino são agora realidade
E outra coisa não quero, não desejo, senão vibrá-las na terra.
Pois se cada sonho e ilusão têm que ficar lá atrás, no passado,
De que me serve perpassar (e passar) o tempo discutindo-os
Como paradigmas e símbolos e metáforas para a vida adulta?
Não, recuso-me a tomar parte nesta conspiração de niilistas,
Nesta rebelião de monocromáticos acinzentadores da vida,
Neste motim de ateus passivos contra o Deus da Atividade.
Construir aqueles castelos de granito que eu fazia com areia!
Construir com pedra talhada na Montanha do Rei; cada bloco
Para as muralhas e para as torres e para a vida e meu quarto.
Pois revê em ti, então, o motivo deste desdourar das fantasias.
Quando vier o Rei, achará fé em ti? Tu que também és… terra!

Evocação

Para a lua eu volto não os olhos, mas a mente quieta,
Quando a noite chega negra e de nuvens enraizada.
Nego à minha visão a imagem que a íris dela recorda.
Então no pensamento que imagina e que tudo recria,
Outra vez Helena vem cear comigo o queijo, as uvas,
O carneiro, os pêssegos, o desejo de estar ali e só ali.
Esta escuridão de ônix nestes finos veios de incenso,
Aqueles olhos de odalisca sarracena vibrando a vida.
A filosofia, pia fecalidade, que era diante de Helena?
A poesia, a música, qualquer arte grega e babilônica,
Que era quando com a mão ela suspendia o tempo?
E tu, lua bravia que me agulhas ferrenha o coração,
Por que te mostras, outra vez, como naquele Natal?
Inquieta, evocação tal me torna um cego ao relento,
No meu próprio relento de amar uma antiga bruma…

Soneto IV

Para ti, minha senhora, apenas para ti, este poema.
Não perderia tempo em escrevinhar versos a outra.
Tenho mais que fazer, senhora, porque o tempo vai
E em estrofes gasta-se um pouco da nossa realidade.

Por isto, aqui vai todo meu lirismo a ti condensado:
Eu te amo, eu te amo e te amo, te amo e amo, amo.
Está bem assim? É suficiente ou queres preciosismo
Que agora, sinceramente, não serei capaz de versar?

Mais que arranjo de palavras com estética apurada,
Mais que musicalidade em métrica lavrada e elevada,
Mais que toda beleza edulcorando a nossa realidade,

Mais que a senhora toda airosa e suspirante no balcão
E que este tolo trovador com violão na mão lá embaixo;
Mais que tudo, para ti é este o poema: é teu o meu ai.

Soneto III

Cheguei ao mundo banguela e sem rimas,
Claudicando das pernas e do Teu símbolo.
Cheguei pensando porque é que eu penso,
Porque é que daqui de dentro sai palavra.

Esta cabeça, grande e cheia, é a Tua lavra?
Que gema assim põe o espírito suspenso?
Esta cabeça, arena de Ti, é o alto êmbolo
Em que comprimes verdade em lágrimas.

As casinhas velhas pelo caminho saúdam
Meu caminhar que de passos sossegados
Faz seu discurso em favor da Antiga Idéia.

Sou trovador para os dementes da aldeia,
Sou contador de estórias para os mudos,
E sou qualquer coisa para os que odeiam.

Os Sete Pecados Capitais [poeminha catequético]

Gula
A meia-noite é um meio-dia.
Almoçar e jantar, que alegria!
Mesa farta e um’alargada pia
Me empanzinam de sal & cia.

Avareza
Contando cada cobre e lata
Para trocar por níquel novo.
Café sem mingau nem ovo
Para não fazer pedir o povo.

Luxúria
Ai, a donzela que nada no lago
Vai pra sempre me tirar o sono!
E se nada assim a ver-se, corno
Acabo antes já do fim do ano.

Ira
Fogo pelos olhos e pela língua.
Acúleo de boca e pensamento.
O fígado pinga ácido ferimento
Té matar no espírito o lamento.

Inveja
O gordo olho do velho magro
Examina todo o porco assado.
A íris é boca que mastiga tudo:
O alho, o ouro, o verde prado.

Preguiça
Está tão molhada esta chuva
E tão seco este sol caloroso,
Que o leito é… mais deleitoso
E o capinar proceder ruinoso.

Soberba
Eu é que sou tudo e vós sois nada!
Não notastes esta superioridade,
Tão óbvia quanto a notoriedade
Da fama sobre a anônima verdade?

A Realidade

Está aí o mundo, doloroso como a lágrima do mendigo,
Prostrado diante do balde em que vomitam os demônios.
A realidade plausível dos alardes e dos moribundos acena
Para a criança parida agora a pouco aos pés da prostituta.
Que me direis quando algum profeta falar em esperança?

Está aí o mundo, venturoso como a lágrima do amante,
Em pé, altivo em sua dignidade, diante do cálice dos anjos.
A realidade caminhante dos clarins e dos viventes saúda
O menino nascido agora a pouco no seio de uma virgem.
Que me direis quando o próprio Deus falar em esperança?

Soneto II

Invoca o farfalhar das folhas no inverno
Como quem escuta a sinfonia inacabada.
Alinha-te para ser visto na alta mansarda,
Alinha-te para que tenha sentido o terno.

O fraque, os leques, as mesas arrotadas,
O tabaco, os cristais, os cochichos mudos,
O pote de doce, os garfos, as facas afiadas,
O vinho do porto, os canapés, os carteados.

Está tudo ali, nas mesas da festa mundana:
O mundo feito mapa, em carne desenhado.
Melhor seria voltar ao campo e caminhar!

Melhor seria — porque é inverno — dormir;
Dormir e sonhar com as folhas que caíam
Quando Adão e Eva sonhavam-se no jardim.

O Caminho Antigo

Um caminho antigo
Cortou a velha rodovia moderna de concreto.
Paralelepípedos caíram do céu:
Reta estrada de semi-lapidada pedra.
O sol derreteu todo o piche
E sob a erosão do tempo futuro
Deixou terra nua o lastro da via.
O caminho antigo,
Venerado comum pelos antigos caminhantes,
Arqueologia moral para os corredores
Do atalho moderno.
Apenas o caminho é radicular,
Porque ao seu largo as árvores respiram.
Apenas o caminho é frondoso,
Porque ao seu largo a sombra refresca.
Apenas o caminho alimenta,
Porque o pomo de ouro cai pelo caminho.

Se mai continga che ‘l poema sacro

Se nós fôssemos as pedras que se escondem no lago,
A profundidade das poças humanas não nos afligiria.
Um grão de areia no fundo do oceano talvez eu seja,
Um grão da Atlântida entre a poeira dos dinossauros.
Nada além dos suspiros antigos,
Nada aquém dos espirros novos.
Alguns homens tornam-se granito quando lhes vêem
As multidões — cheias da febre-idolatria de fazer deus.
Outros, como eu, preferem na sanguinolência do ser
Tornar o espírito risonho como aquela estátua alada,
A estátua que ainda respira novidade,
A estátua que ainda inspira antiguidade.

Soneto I

Às posses vis do ouro e da prata
Oponho a guarda da ciência vital.
Vós não sabeis que mais refulge
O conhecimento que o vil metal?

As Trinta Moedas que hoje são?
Sequer pó de argêntea feição…
Entesoura antes a vida urgente,
Cada segundo em ti esvaente.

Todo o bem do mundo enfermo
Presto abandona o rico túmulo:
À campa fria vai o verme glutão.

Toda riqueza inscrita em cara ata
Tem por companhia relés ladrão.
Vês o pergaminho e o livro? Efatá!

Enfrentamento

Quando a dor em ti implantar a ilusão da fuga,
Quando o piccolo soar o hino preferido de vovô,
[Tu talvez te perderás na encruzilhada da noite]
Quando o silêncio absoluto sussurrar “É Deus!”

Não te deixes enganar pelo clarão do anjo mal,
Porque as estrelas mais brancas caem na noite
Sob o movimentar delicado dos dedos do Filho.

Não percebes que o percurso da fuga é torto
Como aquelas linhas desenhadas pelos índios?
Rasgarás então as vestes da mulher de Potifar?

Quando os lírios mais velhos caírem mortos
E toda a justiça sucumbir à faca do ditador,
[Tu talvez te encontrarás entre os soldados],
Nada restará senão a dor do amor de Deus…

As Quatro Estações com ela

Vuelvo a saber en ti cómo germino…
O olivastro da pele e o castanho dos olhos,
Se querem florescer, floresçam nestes olhos.
Seda para os lençóis, miragem para a alma.
O lírio desabrochado é o ninho do lenhador.

Omnia sol temperat purus et subtilis…
Os negros cabelos de odalisca faiscando,
Se querem refrescar, refresquem esta pele.
Veludo para as noites, véu para os dias.
O trigal cor de carvão é o sol do minerador.

Apegada a mis brazos como una enredadera…
Os lábios vermelhos de delícias adocicadas,
Se querem frutificar, frutifiquem nesta boca.
Folhas de relva madura, sábia temperatura.
A romã farta de paz é o banquete do caçador.

Si puer cum puellula moraretur in cellula…
O corpo puro e nu entre lãs e peles aquecido,
Se quer repousar, repouse neste corpo agora.
Alcova de carne quente, sono impermanente.
A cornucópia de Vênus é o alvo do governador.

Aos passos, aos passos

“…sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.”

O perdão que o mortal dá ao mortal
É aquele copo de água fresca e pura
Que em forma de oásis
O deserto a si mesmo oferece:
é o gole que cura.
Não sabes, tu que és morrente,
Que refrescas os lábios do sedento
E que a alma ferida de tudo se alivia
Quando tu a fazes verter doçura?
Põe tua mão sobre a fronte inimiga,
Roga aos céus por sua conversão.
Espera, espera e gotejará a oração.

Teologia de um menino de cinco anos

Esconde o mundo
no sótão celeste,
onde a abóbada resplandecente
custodia o reflexo do sem fundo
no baú da avozinha,
na mala do avozinho.

“Poets do not go mad;
but chess-players do.”

A graça final está
em que o sangue vertido
suave volverá
ao imolado sacrifício,
gota a gota, gota a gota:
luz após carmesim.

התפוח לא נופל רחוק מהעץ

Israel, trigo dourado que colhido satisfará o amansado leão.
Vinho cujo sabor mistura no escarlate o carneiro e o Jordão.

Pensa, Esther, querida, que no horizonte do teu reto jejum
se aquecem os recém-nascidos filhos de Raquel sorridente.
Pensa, Jacó, meu pai, que no teu manquejar de imprudente
jovem se eleva, em fundação altiva, o torreão de Jerusum.

A listra de alva cor que o sacerdote embandeirou no alto,
a faixa de nuvem diurna que pela manhã adornou a estrela:
Jerusalém, terra de meus pais esquecidos, no céu a janela
que o profeta em sonhos contou transforma o sol em vulto.

Israel, oliveira que da raiz enterrada goteja o óleo de Arão.
Mel das montanhas inacessíveis no cálice do leite de Sião.

Lenta Alegria [letra de música]

Para a melodia adaptada de “Printre Miei”

Não se aquece o louco que Te encara.
Está sem nada, sequer um nome tem;
um enfigurado de Tua face.
Falta calor e leite.
Está com desejo de um outro parto.
Mas nesta vida está o deserto que mana
esperança na escuridão da miséria.
Te encontro, oh Rei que alumia o breu.
Me entreguei à tua tocha, fogo de paz.
No palato não há palavra que extrai verdade;
Nua está a língua decepada diante de Ti.
Tanto esperei à sombra da tua Cruz
que me escorei na vida enfim.

Me levanto, oh Criador,
rendendo-te o hino:
há um cálice de vinho aqui! (3 bis)

Sonho místico

“It is something to have smelt the mystic rose,
Although it break and leave the thorny rods,
It is something to have hungered once as those
Must hunger who have ate the bread of gods.”
~ Chesterton

Há um lírio no alto pasto,
ele balança sofrendo quieto.
Há um lírio sofrendo no pasto,
ele balança no alto quieto.

Toca a palavra com ardor,
antes que o mundo a consuma.
Toca a palavra com tua alma,
toca com o sereno do amor.

Não sabes para onde correr
porque trevoa cinza o céu?
Com mão limpa cerra o véu
e anota-te quando escurecer.

Presta atenção ao teu sonho:
dentro de ti ele mesmo sonha.
A montanha não será enfadonha
e o sol será um fusco risonho.

Há um leão bebendo água pura,
ele sorve o leito do Jordão.
A carcaça do abutre é algodão
branco como a neura armadura.