Esponjas de sol – XXVII

  1. Sexo sem amor é como sabor sem nutrição: você mastiga (você come), mas não se alimenta. A língua se extasia no paladar endorfínico, mas o corpo não recebe as proteínas, os nutrientes e as vitaminas. Não é outro o motivo causador dessas multidões de anêmicos (de carentes) ambulantes, que procuram diariamente nos buffets palacianos aquilo que apenas os pratos da rotina serena podem propiciar. No pensamento, o pessoal não quer amar e se casar no altar e então ter filhos (porque isto, afinal, inibe certos cardápios de prazer); mas no sentimento, deseja ainda a praxe encantada e pragmática do semanal amor romântico à moda arroz-com-feijão-e-ovo-frito-e-bife na mesa larga entre os tios e tias, primos e primas, irmãos e irmãos, pai e mãe, avôs e avós. As carências desta geração — dos homens e, principalmente, das mulheres — derivam disto: batata frita é coisa boa, mas dela você apenas tem os pluri-multi gostos das mil lanchonetes que frequenta, onde come todas as espécies de batatas fritas (das chips inglesas às bratkartoffel alemãs), mas onde também logo após as cospe anoréxicamente, fatia à fatia. Não crê que está hora de encontrar a “batata frita tradicional” de algum antigo fogão caseiro e, na mesma mesa por décadas a fio, mastigar, comer e se nutrir daquela que, entre todas, será definitivamente “a melhor batata frita do mundo”? Pense nisto.
  2. Dada a atual conjuntura das nações, a única forma de evitar uma guerra [definitiva?] entre Ocidente Cristão e Oriente Islâmico é a rendição incondicional do primeiro ao segundo. Caelum denique!
  3. A situação das nações ocidentais [cristãs] frente ao Globalismo ficará tão terrivelmente perigosa para suas soberanias que, para defenderem-se de um poder global centralizado, monarquias precisarão ser instauradas/restauradas e-ou “ditaduras” à moda romana (caveant consules!) deverão surgir para concentrar poder eficiente na luta contra o Anticristo.
  4. Os ingleses de outrora cantavam os versos de William Blake — Jerusalem — nas suas pelejas nacionais. Hoje em dia, sussurram Imagine e sopram bolhinhas de sabão.
  5. ONU? Anathema!
  6. Os sinceros são quase sempre ingênuos. Nós cremos que os outros depositam nas palavras que saem da boca a verdade que está lá dentro deles quando eles falam e dizem. Particularmente, talvez minha sorte consista em que, não obstante ser sentimentalmente ingênuo, não o seja intelectualmente. Aquilo que me abala o coração pouquíssimo comove meu cérebro — forte com a alma que o envolve. Afinal, quando se está de fato interessado no conhecimento “das coisas visíveis e invisíveis”, não se é pego de supetão no pensamento e aquilo que pega de surpresa no sentimento logo é simbioticamente aderido à razão e apenas vem servir como mera e posterior comprovação prática da realidade teórica anteriormente sabida. Deus julgará a História da Humanidade e as histórias e as estórias de cada um dos homens e, então, sinceros ou dissimulados, ingênuos ou velhacos, o tudo de todos virá à luz. Alegremo-nos quando o Senhor resolve aluminar um poucochinho das coisas encobertas no dia-a-dia, gotejando homeopaticamente a verdade com o conta-gotas do Espírito Santo.
  7. Nossa consciência diante de Deus vale mais que o mundo inteiro. Todo o resto é dispensável como o são aqueles pequenos pontinhos amarronzados que encontramos nas fechaduras dos banheiros públicos: é dispensável como são dispensáveis as fezes de um mosquito.
  8. A biografia de Henrique VIII é um denso líbelo contra o adultério e pecados conexos. Ana Bolena foi amante do rei enquanto este era casado com Catarina de Aragão (excelente esposa, acabou seus dias piamente depois do divórcio década depois) e, quando esposa, acabou decapitada a mando dele sob a acusação de adultério. Joana Seymour foi amante do rei enquanto este era casado com Bolena e, depois enquanto esposa, morreu sofrendo num parto difícil. Catarina Howard foi amante do rei enquanto este era casado com Ana de Cléves (que não foi amante de ninguém, por isso também sobreviveu década ao divórcio) e, já esposa, foi decapitada a mando dele sob acusação de adultério. Ele se casou ainda uma sexta vez com Catarina Parr, que sem frequentar as alcovas indecentes do rei antes de ir com ele ao altar, morreu velha e em muito sobreviveu ao marido. E o luxurioso rei Henrique, que a todas estas traiu regular e concomitantemente? Sifílico, enlouquecia ano a ano; carregado de dores lancinantes nas juntas, nos ossos, nos órgãos, no espírito. Basta dizer que seu corpo morto, cheio de putrefação gerada em vida, explodiu no caixão. Pouco, para aquele que ainda martirizou tantos e tantos e também martirizou a Thomas More. “O salário do pecado é a morte”, diz lá o Evangelho.
  9. Os príncipes Ricardo e Eduardo, os “Príncipes da Torre”, creio que foram mortos por Henrique VII (também assassino doutros tantos pretendentes à coroa). O quanto padeceu existencialmente a descendência do Rei Tudor interpreta “constelacionalmente” todo o caso.
  10. Não me agrada em absoluto a idéia de uma dinastia estrangeira governar um povo no qual não está imantando seu espírito e sua alma e seu corpo. Podem passar séculos, mas o assento do trono sempre está aquecido.
  11. A Sinfonia n.o 1 de Rachmaninoff: densamente bela, como o último (e consciente) gole de vinho de um bêbado antes da conversão — a conversão que lhe permitirá cear o “sangue”. Visceralmente escatológica, profundamente augúrica.
  12. O pessoal se esquece, recorrentemente, que o mesmo Deus que erigiu o Céu para os arrependidos também criou o Inferno para os impenitentes. E lá não é lugar “de pranto e ranger de dentes” apenas para demônios e teletubbies (que sequer têm dentes)…
  13. Quisera poder agarrar cada filho-da-puta e canalha libertino pelo pescoço e torce-los como se torcem na roça caipira os pescoços das galinhas para o caldo dos doentes. Quisera poder, diante de tanta malícia e leviandade, aos socos quebrar um a um os dentes dos velhacos labiosos. Quisera, com espada na mão, retalhar “pichações de ferimentos” nas costas e frontes dos cafetões que levam moças de bom coração para o mau caminho. Quisera açoitar cada destruidor de lar em praça pública, diante da assistência de outros tantos bons pais de família. Quisera capar cada depravado mal encaminhador de meninas ingênuas com a lâmina que deu cabo dos cães que mastigaram a carne de Jezabel. Quisera buscar pedras no topo do Ararat para lapidar o crânio de todo e qualquer malandro assaltante de inocências e fragilidades femininas. Quisera… Mas, olho para tua fronte, oh Cristo!, e já não quero… Quero, já agora, que tu enxugues toda lágrima e que céus e terra passem o mais rápido possível. Quero que sofram! Ah, isto ainda o quero. Mas já não o quero para vingar cóleras e iras. Mas já não o quero para fartar-me de justicismo visceral e impiedoso. Quero que sofram para que acordem desta profunda letargia, para que estas consciências cauterizadas te ouçam através do megafone do sofrimento e, então, parem de sofrer e de fazer os outros sofrerem. Quero — desejo e anseio — que cada um destes seja “entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.”
  14. Dignidade espiritual implica em estar livre o suficiente para, de si mesmo, contar as pequenas verdades inconvenientes com o mesmo ímpeto e glória com que se anuncia as grandes verdades lisonjeiras acerca de si mesmo. Nenhum verniz, nenhuma superficialidade de pseudo “bom tom” ou de “desculpinha para não pegar mal” é capaz de anular no homem que está se fundindo (sem se confundir com) em Deus a verdade de mostrar-se falho também nas coisinhas mais nânicas. Ora, tu xingas aqueles que te irritam com o barulho da mastigação? Tu tens medo de altura como aos cinco anos de idade tinhas medo de escuro? Tu és desastrado a ponto de quebrar copos e pratos toda santa semana? Pois é. Sou eu. Somos nós todos, com ou sem a indignidade de importar-se em deixar estar na reclusão das aparências da vida estas pequeninas falhinhas da nossa humanidadezinha.
  15. Quando crianças, nós temos todos os sonhos do mundo. Adultos, mas não menos sonhadores se conscientes da existência, a gente chega à conclusão de que o dourado celeste dos sonhos não vale tanto à pena quanto por as mãos no vermelho sujo da terra: a terra que é a perpétua memória presente e constante da [nossa] realidade. A realidade — nua, dura e crua — é um sonho que se escolhe sonhar se nós nos despimos daquilo que São Paulo chama “coisas de menino” e, então, resolvemos construir os abrinquedados castelos de areia com o barro conspurcado do mundo.
  16. Com meu pai, aprendi como se deve tratar uma mulher. Com minha mãe, aprendi com quais tipos de mulher não devo tratar. Com meu pai aprendi quais tipos de homem não devo ser: não ser, sobretudo, um abutre “secando” a presa desavisada no alto calor do deserto para comer-lhe as carnes e depois jogar a carcaça numa montanha de ossos. Com minha mãe aprendi quais tipos de “mulher” aceitam ser destratadas por aqueles tipos de “homem”: aceitam ser uma bisteca suculenta pendurada no gancho de aço do açougue a espera da gula sem paladar dalgum filho-da-puta ruminador de corações. Em suma, aprendi a não ser um bostinha obsessivamente materialista. Com meu pai aprendi a ser homem integral como ele o é — varão cristão, todo honrado, plenamente bom. Com minha mãe aprendi a valorizar e querer sumamente bem a uma mulher integral como ela o é — varoa cristã, toda elevação, plenamente bondosa. Com meu pai e com minha mãe aprendi (e eles aprenderam dos pais e mães deles) que certos valores fundamentais — eternos e permanentes num mundo fugaz e passageiro — não se transigem de jeito maneira. Aprendi que as coisas boas não são fáceis como o Facebook, não são baratas como o Instagram, não são veniais como o WhatsApp. Aprendi que a vida boa não é superficial e que um casal a sério só se forma a sério e só permanece formado a sério com valores sérios. Não há coisa mais séria que o Amor. Não há valor mais elevado que o Amor. O ordinário das baladinhas suadas e alcoólicas que acabam atrás do banheiro químico não me interessa. O ordinário com o qual os neanderthais raveanos pós-modernos estão acostumados não me interessa. Podem me chamar de reacionário, de conservador, de quadrado, de antiquado. Eu sou das antigas mesmo. E é isto. E Feliz [resto de] Dia dos Namorados pros cêis.
  17. O auge da maturidade é saber escolher conscientemente entre dois (ou entre vários) caminhos; é ter a capacidade de agir livremente ao apontar para as rotas de existência e dizer “quero isto!” e “não quero isto!”; é ter senso de proporção qualitativa para com suas possibilidades de vida no Mundo e, a partir dos critérios para si e por si em Deus estipulados, o indivíduo dizer acerca de sua atuação na Realidade justamente aquilo que nos diz, exortando, o célebre poema de Henley (Invictus): “Eu sou o mestre de meu destino: eu sou o capitão de minha alma.” Só é maduro o suficiente para ser feliz quem é capaz de deslizar por entre os poderes construídos na própria alma pela Queda. É maduro quem derruba estes poderes. E é maduro quem se levanta por sobre os escombros da “arquitetura do desejo” que o Contexto erigiu em seu próprio espírito e, desde o quase nada, recomeça as obras de “engenharia da vontade” que farão de si mesmo esta Obra: ser um Ser que é imagem e semelhança Daquele que É.
  18. Curioso. Os dias cinzas de frio tem qualquer coisa de proximidade afetiva e intelectual com o Eu e com Tempo. Preste atenção em como nossa rotina fica mais consciente, menos atrapalhada, mais retilínea, menos anárquica: como nossa rotina fica mais “entre-pautada” por nós mesmos — nos dá sensação de maior individualidade (talvez porque o calor mais próximo seja o nosso). A gente põe a cabeça pra fora das cobertas com uma sensação de que o mundo lá fora tem qualquer coisa que nos é estranha; coisa que, quando a temperatura é mais alta, nos faz mais do que nunca pertencentes ao mesmo mundo da grande massa material fundida e confundida. Os dias cinzas de frio nos afastam dos objetos e da matéria alheios aos nossos próprios objetos e matéria, meio que nos retro-catapultando para o calor telúrico primordial que habita nosso peito. Curioso em como, nestes dias cinzas de frio, o tempo se parece mais com algo que passa efetivamente (mas com destino fixo, com um fim mais conhecido). Curioso em como, nos dias quentes de calor, dias mais coloridos — ou mais amarelos, laranjas e vermelhos –, o tempo se parece mais com algo que não passa senão no calendário, um calendário que apenas marca a insignificância de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Em dias frios, o tempo é uma linha quilométrica e nós discernimos (porque nos ensimesmamos) seu começo e sentimos que caminhamos até seu fim. Em dias quentes, o tempo é um novelo quilométrico e nós mal sabemos (porque estamos diluídos nos coletivos existenciais) se há de fato começo, meio e fim e mesmo mal sabemos se há de fato um novelo. Curioso.
  19. Com o perdão da palavra, mas… em adultos (critério cronológico válido para homens e mulheres) rebeldia e porraloquismo é coisa de criança mal desmamada. Não há nada de transgressor em mostrar o dedo do meio para os pais em casa e para o mundo inteiro no Facebook e vomitar — entre cuspes vociferantes — suas opiniões birrentas “na cara da sociedade” como se elas constituíssem um novo decálogo para a salvação de nós outros. O tipo “rebelde sem causa” já era um saco em tempos mais ideológicos (aqueles que pariram hippies para Woodstock e pichadores para as paredes das catedrais parisienses em Maio de 68), mas, agora, em tempos de dissolvência digital, estes idealistas de dedo em riste são ainda mais chatos; mais chatos porque sequer têm, propriamente, qualquer coisa para chamar de “minha opinião”, por mais lesada que ela seja. Ô… fio, ô… fia: o dedo do meio significaria alguma coisa na mão de Winston Churchill (o qual, contudo, preferia o “V” armado pelos dedos indicador e médio) e na mão da Iron Lady Thatcher (que costumava apontar para seus amigos e inimigos com o indicador); mas, na sua mãozinha bem nutrida pelo trabalho dos pais que você despreza, isso é apenas um tosco sinal de falta de educação e de burrice caricaturalizada. Transgressão das boas, transgressão verdadeira, é postar-se diante de um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial, é dar sua vida nas florestas do Congo para pregar o nome de Cristo, é compor uma sinfonia à Shostakovich num meio musical que ainda aplaude minuetos afrescalhados, é… fazer, construir, erigir, levantar, criar… é ser densa e orgulhosamente humano quando já poucos têm coragem de abraçar a Realidade, mesmo que aos prantos. Mostrar o dedo do meio para as câmeras até um macaquinho mamando é capaz de mostrar, certo?
  20. Sobre a tal profecia contra Reuel Bernardino, apenas uma única palavra me interessou, dado o bradado “Homem, a tua capa vai cair!”: Quetzal. Em língua proto-nahua (asteca, vá lá), quetzal ou quetzalli significa “manto sagrado”. É o nome de um pássaro; nome que, em grego (pharo-machrus), significa “manto largo.” Curioso, não?
  21. Suposta carta que se encontrou no bolso direito da camisa de um soldado russo que, em luta, morreu agora a pouco no Iraque: “Glorioso Deus, para vós a escuridão nada significa. Para nós, é o breu que nos faz esquecer quem somos. Quando é tudo treva, mal sabemos de fato quem somos. O pânico nos desumaniza. Senhor, escutais o ricochetear dos tiros de fuzis do ISIS? Eles nos des-individualizam. Porque nossas armas são para a defesa de muitos eus; e as deles são para o extermínio dos nossos eus. Eles todos são um eu que não é um eu, são um conjunto de dados reto-raciocinantes que agem instintiva e matematicamente furiosos. Tu és um Eu; afinal, que medo terias? A escuridão é ser de carne e osso e existir como existem os olhos estalados do búfalo que se viu solitário diante do bando centeliar dos leões. O meu eu se amedronta diante dessa hoste. Todos os homens do meu batalhão pereceram. Todos. Fiquei eu. Fiquei eu só, aqui atrás da parede principal do trono dalgum príncipe mesopotâmico, adornado de leões que daqui a pouco aqueles frenéticos rugidores, que estão lá foram, implodirão com dinamite. Entendes este meu linguajar, certo? Não sou filósofo. Mal li Wittgenstein. É que meu vocabulário só consegue expressar estes pensamentos a Ti recorrendo a certos artifícios de linguagem… Glorioso Deus, para vós que significo? Porque vejo em meu peito o abismo negro do medo… Nós! Nós. Nós… Eu… Eu. Eu! Decidi-me: vou já para fora, porque sou luz do mundo. Urah!”

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 3 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

VII. Sobre a alma de uma mulher. Já percebestes, nas manhãs frias, como embaça o espelho quando o calor mais-ou-menos do chuveiro atinge sua superfície de prata e, por mais que o material seja por si mesmo intrinsicamente apto a refletir tua imagem, ele não a mostra e mesmo só a demonstra quando passas as mãos sobre o vidro dando cabo da fina penugem cinzo-aquosa que o recobre? A mulher que amas é um espelho em embaçamento. O calor: é o relacionamento. É aquilo que está entre tu e ela mas não é tu ou ela: é o meio, é o caminho, é o que vem e o que vai entre tu e ela fundindo-os sem confundi-los. O calor deve ser forte o suficiente. Quando as coisas embaçarem, embaçarão porque o calor é pouco. Quando a temperatura da água não supera a temperatura do ambiente, tudo se nivela em anuviamento vaporoso. Então, quando já nos olhos dela não mais distinguires a ti mesmo e sobrar apenas um pouco discernível vulto de sombras irreflexas, é hora de acaricia-la não só com tuas mãos (coisa importante, anota); é momento de acaricia-la com o teu ser completo, de passar as mãos nela — naquela alma — com aquilo que em ti (ou seja, tu integralmente sendo o que és) fez com que ela te refletisse por completo. O amor feminino reside nesta constância: sempre que tu não te veres nela, na tua mulher, não é porque o espelho não funciona. É porque o teu calor mediocremente não superou o frio do lugar e, morno, apagou-te no espelho.

VIII. Nunca deixes chorar sozinha a mulher que amas. Por que tu permitirias que qualquer coisa arrancasse dela lágrimas em solidão? Se o mundo cai em trevas, é teu dever proteger (com o preço da tua vida) a única chama — a pequenina chaminha — que permanece acesa. Ela é a tua candeia. Aprende a enxugar lagrimas com Bob Marley: “No woman, no cry…” Seja o choro de tristeza ou de alegria, de ira ou de ternura sentimental ou mesmo motivado por qualquer outra emoção capaz de fazer nela aflorar estas gotas salgadas que põem o teu coração na mão, esteja por perto. Esteja ali, pertinho. Não, não te é necessário discursar palavras sensatas, conselhos de ocasião ou amenidades complacentes. Não, não te é necessário abrir a boca para demonstrar a ela e ao mundo que o dom da fala acompanha tua língua. Se possível, nada dize. Senta próximo, a um canto, e mira-a com aquela mesma atenção que tinhas quando miravas a bicicleta desejada na vitrine da loja da cidade grande. Mais: mira-a como se, outra vez, pela primeira vez a tivesses visto. Mira-a, dizendo sem falar, que não chore… O choro daquela que amas, meu caro aprendiz, tem a potência do choro que chorou Eva e do choro que chorou a Virgem Maria: ele comove a natureza animália (já vistes os cachorrinhos domésticos como ficam quando veem a pessoa querida aos prantos?), comove a natureza divina (lembras de como as lágrimas de Ana refizeram a interpretação do espírito profético de Eli?) e poderosamente comove a natureza humana (todos poderão parar para enxergar a tua mulher que chora, mas apenas tu és capaz de limpar-lhe os olhos).

IX. Deves saber “cair fora” — desistir e não insistir. Do não acatamento deste conselho procedem toda sorte de desilusões incuradas, traumas crônicos e obsessões capazes de fazer da tua existência amorosa um inferno terreno. Sebo nas canelas!, se são incompatíveis os valores, os projetos, os futuros e, sobretudo, os quereres acerca dos valores, dos projetos e dos futuros. Há, como diria São Paulo, um “jugo desigual” a desnivelar-vos — tu e ela? Pernas pra que te quero! Na mesma medida: quando uma mulher não quer, ela não quer. Se ela sutilmente finge que não quer, ela apenas diz de boca que não e, de certa forma, diz que quer mas diz que antes de consumar o querer tu deves pontualmente se “adequar” nisto ou naquilo. Por isso, se ela realmente finge que não quer, ela certamente dissimulará o “não” que sai da boca com um olhar mais languido, com um sorriso mais acanhado entre os dentes, com um tom de voz que paira entre a ironia e o dengo. Trata-se de um “sim” falsamente tímido, via de regra. Entretanto, quando uma mulher efetivamente não quer, desde logo tal decisão fica clara como água de fonte polar: uma mulher quando não quer, não quer totalmente; não há frestas na muralha dos seus olhos, não há fenda na armadura da sua boca, não há vácuo no silêncio da sua voz. Vai-te embora, oh rapaz! Poupa-te de vergonha e vexação, de tristeza à toa, de choramingos inférteis. Sê homem e admite logo que — por incompatibilidade ou por rejeição — o caso é um caso perdido.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 2 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

IV. Quando te atraíres por uma mulher a ponto de tua pulsação voltar aos batimentos do primário ou dalguma taquicardia anterior, segura-te imediatamente no chão! Gasta pelo menos duas ou três semanas (ou um mês ou muito mais se necessário) a observá-la antes de propores seriedades. Mira os gestos e os gostos, as falas e os dizeres e, principalmente, com o que ela sorri, com o que ela ri, com o que ela gargalha. No humor da mulher reside densa parcela da sua alma. Observa-a e anota-a nos teus pensamentos. Aquieta os sentimentos, então. Observa de perto e de longe, como os ornitólogos põem os olhos nas aves raras do Tibet: com reverência profundamente religiosa e ao mesmo tempo com habilidosa curiosidade científica — com coração e cérebro calibrados. Se ires logo “pra cima”, não verás o que necessitas imperiosamente ver: ela como é na rotina, no dia-a-dia, na normalidade do tempo ordinário. Quando uma mulher sabe que tu a cativas, enfim, quando tu demonstras explicitamente tua atenção e intenção, ela assume outros ares — os ares da amante deliciosa e da amorosa penitente. Espia calmamente, porque nenhuma mulher é assim tão “mobile qual piuma al vento.”

V. Não é assim tão indispensável recordar datas se tanto amares a ponto de constantemente surgirem novas datas, que no calendário do amor efetivo acabarão sendo uma só coisa: o fato de que se ama no tempo. O “primeiro isto”, o “primeiro isso” e o “primeiro aquilo” só muito ficarão marcados na afetividade relacional de uma mulher se tu não te esforçares para sobrepujares cada acontecimento com outro de intensidade tão elevada quanto. Por que a primeira música do encontro deveria ser assim tão superior em importância à música que se ouviu (e comoveu) na rádio chiada do interior durante uma viagem na madrugada domingueira ou tão superior a música que vier embalar as idosas Bodas de Diamante? Apenas há tal hierarquia de datas importantes quando a relação vive de recordações e lembranças memoráveis do passado que não conseguem se manter no presente. A medíocre necessidade de decorares dias, meses e anos sob as naturais exigências (sim, a mulher detém este direito) dela, demonstra que tu não conseguiste fazê-la tão plena de datas que ela mesma não teria memória para guarda-las todas.

VI. Presentes são quase nada. Presença é quase tudo. Porque, nota bem, a presença implica em livremente presentear. Não: nada que ver com por sempre a mão na carteira e dispender somas vultosas com coisas caras e capazes de levares à falência até tuas miseras moedinhas engavetadas. Caro, para uma mulher, é o carinho. São singelos os presentes capazes de encantar uma mulher. E é o encantamento dela teu alvo. Mulher não é cara. Mulher é valorosa. Já experimentaste escrever-lhe versinhos nem que à moda “batatinha quando nasce”? Valem mais que sapatos, experimenta! Já roubaste no roseiral da vizinhança a mais vistosa flor e arrancando cada espinho com teus dedos (feridos, of course, mas que ditosos ferimentos!)? Valem sentimentalmente mais que os diamantes azulados vendidos pela Graff londrina. Estar ao lado dela dando o que se pode dar, dando o que se quer efetivamente dar, sendo a si mesmo o melhor que se pode dar é o ápice da conjugação do verbo presentear num namoro, num noivado, num casamento. A tua letra no papel e os teus versos bestas no papel valem mais que um soneto de Shakespeare; não porque sejam os teus rabiscos literários mais valiosos que as rimas preciosas do bardo, mas porque são teus para ela. A flor irisada do jardim de Dona Manuela vale mais que um estojo aveludado recém-saído do cofre; não porque os quilates custem na bolsa de valores menos que aquelas vistosas pétalas que em um dia já murcham, mas porque são tuas para ela.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 1 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

I. Quando amares uma mulher, tu não deves apenas amá-la com seu presente e (suporta esta realidade com varonilidade!) não deves amá-la no presente se o futuro estiver comprometido pelo presente. Tu certamente sofrerias em vão e estragarias uma existência mais prazerosa à ela e a ti mesmo. Não sejas sadomasoquista. Quando amares uma mulher, tu deves amar também aquilo que no coração dela brotará no porvir — porque hoje é já semeado: os desejos, os valores, os projetos, enfim, os movimentos todos em direção à comunhão de corpos, de espíritos e de almas que é um casamento. É preciso que saibas discernir o quanto o “hoje-fazendo” abalará o “amanhã-a-fazer” que será o “ontem-feito”. Tua paixão atual será tua desilusão vindoura se não souberes conter o ardor dos teus sentimentos com o “balde d’água fria” dos teus pensamentos.

II. Não escrevas poesia em bilhetes, nem em e-mails e muito menos em mensagens de WhatsApp. Escreve, como o Michel Temer, cartas; escreve os poemas que dedicares a ela em cartas bem feitas. Afinal, cartas são coisas que não se consomem nos bolsos com os outros papeizinhos e tickets, nem que com um “delet” vão à lixeira ou com uma passada no “touch” do celular se consomem no nimbo virtual. Escreve em cartas e escreve com teu mais refinado esmero para que, à primeira briga, ela olhe para aquele pedaço de papel (tão cheio de ti e tão cheio dela) e perceba que, se o rasgar em mil pedacinhos como ela quer, estará rasgando carne sanguinolenta, a carne sanguinolenta e humana dos dois corações ora brigões. Até porque (e há nisto uma pontinha de orgulho literário e moral), tu quererás certamente que teus filhos e netos e bisnetos e teus descendentes todos ponham os olhos naquilo e digam “é assim que tem que ser!”

III. Seja gentil e cala a boca diante da brabeza dela. Mas, seja tão gentil a ponto de tudo dizer apenas… calando a boca. A mulher quando irada/raivosa/revoltada/furiosa/encolerizada/ fala muito e compulsivamente querendo atrair não a reação adequada ou inadequada das tuas palavras, como que convidando a um diálogo (coisa para dois, sabes disso, não é?). Ela quer, a valer, é a tua atenção: atenção que concorde ou discorde através do teu olhar aprovante ou desaprovante, mas atenção sincera, atenção que não seja um mudo “piloto automático” de inércia física e metafísica, atenção refletida e silenciosa que atenda à necessidade dela de desabafar o que bem entender na tua cara. Se quiseres argumentar e “discutir a relação”, perderás a oportunidade mais do que gostosa de admirar o movimento ensandecido dos lábios de uma mulher quando ela demonstra amor fingindo ódio. Cala a boca, energúmeno!

Esponjas de sol – XXVI

772. A inteligência humana se limita a si mesma quando as certezas — positivas ou negativas — são demasiada e abarcantemente obsessivas. Quem muito (e em quase tudo) crê, pouco sabe. Quem pouco (e em quase nada) crê, pouco sabe.

773. O que na vida vale à pena, diziam nossos avós, passa por nós como oportunidade uma só vez: é o “cavalo encilhado” que não passa duas vezes. Se não pulamos sobre o corcel e o cavalgamos com energia, passam logo atrás seus potros e pangarés degenerados de mesmo caminho-e-linha; e nalgum deles nós tomamos destino: surge a oportunidade de ser rei dalgum estado nacional nascente e, se não tomares para ti a coroa, acabarás chefe de medíocre partido interiorano ou mesmo o “rei do frango frito” de Pitangueiras. Está ali, porém, o mesmo “destino equídeo”: governar sobre alguma coisa — nobre, insonsa ou vil. Surge a oportunidade de amares a mais elevada e importante (ao menos certamente para ti) mulher entre as mulheres: se não a amares, acabarás amando a mais esperta trigueirinha de toda a paróquia ou a amante do amante da amante do senador fulano-de-tal. Surge a oportunidade de, tendo talento para a pintura, te matriculares na mais prestigiosa academia de artes dalguma capital europeia: se não vais tomar lições com os mestres consagrados, tornar-te-ás retratista nalgum gueto suburbano asiático ou pintarás com desvelo os rodapés dalgum burguês abastado quando este quiser reproduzir no seu triplex soteropolitano o teto da Capela Sistina. O que na vida vale à pela, digo para ser também avô, passa como oportunidade uma só vez.

774. O que quero e desejo, respectivamente, é entender a compreensão e compreender o entendimento. Tal é o meu “sagrado graal” em matéria de Cognição.

775. Se um medo te atormenta, cuida para que ele não povoe teus sonhos. O medo nada é senão teu pavor; um pavor que pode abastecer de narrações as tuas noites. Mas se tu enredas fortemente tal temor no teu espírito, mas se tu o energizas com a potência criadora dos teus sonhos (e pesadelos…), há sempre a possibilidade de estares ou profetizando teu futuro viandante ou, à força da tua capacidade mental, recriando realmente o medo abstrato no theátron do mundo concreto.

776. Quando o mundo acabar, não acabará. / Não pode ter fim se não teve começo, / Não pode findar se não pôde respirar. / O mundo que acabará é só a semente / Que apodrecerá para a árvore brotar.

777. Quem mais chega a compreender uma língua, aproximando-se do Verbo por detrás dos verbos, é também aquele que mais percebe o quão pouco o significado verdadeiro das palavras tem a ver com o pseudo-significado venial e ordinário do dia-a-dia. A linguagem é a base da vida mística.

778. Saul e Saulo — benjamitas: o primeiro, odiou Davi e morreu[-se] em seu ódio; o segundo, odiou o Filho de Davi e renasceu em Seu amor.

779. Para um gênio (ou um sábio-fazedor), a vida é uma caminhada de fim de tarde na aldeia que se faz com a força despendida numa maratona metropolitana. É uma “blitzglatt” — um relâmpago suave. É como se o tempo fosse outro: um gêiser escoando para cima como um fio d’água de goteira para baixo.

780. O coração do homem sincero se encontra sempre entre o céu e a terra, entre a santidade e o pecado, entre a luz e a escuridão, entre Deus e o eu (não o diabo, que é um “atravessador existencial”). Há uma dialética tremenda puxando a alma do homem consciente ora para o pico da montanha ora para o fundo do abismo. É como estar, ao mesmo tempo, amando uma mulher e apaixonado por outra. Trata-se de uma duplicidade inerente à constituição mesma da nossa natureza, que nos alinha a pensamentos e sentimentos auto-dúplices de mesmo fulgor atrativo, de mesmo fervor passional e de mesmo penhor desejante. Perguntaram-me o que é tentação na vida cristã. É isto.

781. O artificial só auxilia a beleza quando “anima” aquilo que é natural. Mulheres cá das plagas facebookeanas, escutem-me: a opinião que vocês fazem comumente do nosso gosto (o gosto masculino) acerca de vocês mesmas é excepcionalmente distorcida e quase sempre não corresponde à realidade. A gente prefere as coisas como são (sem muitos rebocos da cosmética e plástisquismos). Vocês podem e até devem se adornar, mas o adorno — de quaisquer ordens estéticas — é e sempre será subsidiário, no máximo “micro-auxiliar”. Vocês é que nos agradam, nãos o barangandãs que vocês põem sob ou sobre a carne.

782. A nossa triste geração é aquela que consegue passar horas a fio no WhatsApp, mas que é incapaz de orar um singelo Pai-Nosso à hora de deitar-se porque já “está muito cansada”. Vai tudo muito mal…

783. A inteligência engessa a ciência quando é ingênua perante a ligeireza da intuição.

784. O que é, nesta vida, um mal entendido? Talvez mastigar isopor como  se pipoca sem sal fosse? Eu me engano quando chamo um urubu de “meu lôro” ou quando não distinguo o canto do canário do canto do curió? É mal entendido ouvir um “não, nunca!” na medida de um [meu] inconsciente  “não nunca!”?

785. No centro da clareira a fogueira ilumina mais?

786. Quem percebe um grão de sal na sobremesa e um grão de açúcar no prato principal? Só na receita…

787. Mestre, que é um homem errante?
É um homem que erra, aprendiz.

788. Grande crueldade: chamar de vagabundo a um homem cansado.

789. Com o coração numa mão, que se pode fazer com a outra? Libertá-la jogando seu carregamento no mar ou afagar este seu precioso depósito?

Chamado à Contemplação — I

  1. Aquilo que tu crês que te farias louco se te pusesses a completamente investigá-lo: esta aí o caminho da tua sanidade. O novelo confuso da Eternidade tu desenrolarás quando puxares o primeiro fio quilométrico e não desistires té que o caminho do Início finalmente encontres.
  2. Olhar para o céu faz parte da rotina de quem não se deixou perder na rotina. Quem ainda levanta, segundinhos a fio, os olhos para o azul clarinho raiado dum amarelo serenado da manhã; quem ainda olha para o alto ricocheteando água gelada nos dias e noites de tempestade e encara sem temor o céu acinzentado; quem olha para o céu não perdeu a esperança de “num abrir e fechar de olhos”, quando Ele permitir, rasgar com braços de carne refulgente os ares e os ares anuviados que guardam a entrada invisível daqueloutro Céu.
  3. Nos olhos da tua amada, homem fiel, tu verás o assombro de Maria quando Gabriel lhe cantou “Ave, agraciada”. Diga à pombinha de tu’alma, diga à amante que dorme no teu coração aninhada: Eu te amo!

As três fases etárias do Amor

[Rascunho escrito há dois anos e reencontrado há dois minutos]

Somos crianças lançadas no mundo. Espécies de anjos com biologia semi-latente. De repente, nós vemos uma alma de carne-e-osso, de vestidinho azul e laço da mesma cor aliançando cabelos mais negros que os olhos do cosmos, mais negros que a malva, mais negros que aqueles “cabelos mais negros que a asa da graúna” de Iracema. Nós vemos o leite acanelado que lhe serve de pele e o sorriso de serafim mais ou menos acordado ao meio-dia. Eis uma menina! A gente cai prostrado como um búfalo do Serengeti que teve o coração atravessado pela lança prateada do cupido. Há nisso veneração a ideais: conhecemos Platão antes de lê-lo quando, crianças, nós nos apaixonamos pela amiguinha no Primário ou pela neta da vizinha. O amor é platônico porque não vai além dos rudimentos do próprio pensamento: Adãozinho encontrou metafisicamente Evinha. Nós somos menino e ela é menina. O corpo age porque o espírito o incita. O amor é nesta idade altamente simbólico e liricamente poético para o corpo: “borboletas no estômago”, “calafrios na espinha”, “mãos suando bicas”, “pés sapateando sem parar”…  Quase tudo é espírito dos 5 aos 10 anos. Duo des fleurs! Este estado acaba. Acaba e não volta mais, felizmente (porque incompleto e, por isso, menos perfeito). Idéias celestialmente sentidas.

O corpo se esparrama com força, se “espicha”. Nossos membros e nossos órgãos crescem em direção ao mundo físico para efetivamente poderem tocar no Mundo e nele laborarem a obra humana. Nós somos moleques e elas são garotas e pouco depois nós somos moços e elas são moças: somos adolescentes e jovens. Reúno as duas fases num mesmo “movimento” porque, salvo nas pessoas mais conscientes, é difícil perceber a passagem de uma etapa para outra (que, sim, não são ficções etário-psicológicas). Não tão de repente, a gente repara que o cabelo escuro é agora um cabelão preto e que a pele menos branca é na verdade morena. O vocabulário, perceberam?, muda quando tentamos definir aquela que nos atrai, afinal, já não é a beleza em si que atrai, mas a beleza que está depositada nela (na moça) e é nela e com ela uma coisa só. O macho encontra fisicamente a fêmea. Quase tudo é movido pela potência física dos 10 aos 20 anos. Na moça nós discernimos mais os traços, mais as curvas, mais a carne que a envolve — nós arrancamos o laço dos cabelos e queremos que o vestido encurte. Até no sorriso delas nós enxergamos um je ne sais quoi sexual: o apelo do nosso ser é sobrepujantemente afeito ao esplendor da matéria. O corpo age porque ele mesmo se excita. Emoções terrenamente experimentadas com um pouquinho de idéias celestialmente sentidas (o erótico fareja em si mesmo a ramela permanente de ideal). Para a maioria, a coisa estaciona aqui: estão misturados no coração a testosterona que nos chacoalha e o pensamento que nos aquieta.

O equilíbrio chega depois dos 20 anos. Quando se tem um cérebro em razoável funcionamento qualitativo, a alma põe-se nesta fase (a última) a harmonizar corpo a espírito. O fulgor do espírito faz-se um com o calor do corpo. O sentimento fruente de beleza funde-se ao pensamento entendente da beleza: “ela é linda como um serafim quando sorri, ah, quero beijá-la para sempre!”; “seus cabelos… seus cabelos negros feito carvão, ah, quero passar minhas noites debaixo deles!”; “sua pele de ninfa cheira a rosa, ah, quero tocá-la e respirá-la toda!” O homem finalmente encontra a mulher. A razão, enfim, ordena as coisas. Nós estamos, outra vez, no Éden, sentindo a vacuidade que Adão sentia antes de Eva; mas, nós a sanamos fazendo justamente o que fazia Adão com Eva depois que se descobriram nus, um para o outro, no planeta pós-pecado.  A nossa totalidade espírito-alma-e-corpo (a unidade, a pessoa, o sujeito) vai se completar com a totalidade dela. É a época do “Siempre que te pregunto / Que, cuándo, cómo y donde / Tú siempre me respondes / Quizás, Quizás, Quizás.” É o tempo venturoso em que há “jogos de amor”, jogos em que o que de jovem há em nós usufrui o que de criança há em nós: somos adultos, pois. O mistério e o transcendente estão entrelaçados com o evidente e o imanente: o céu e a terra estão unidos “até que a morte os separe.” Para uma pequena minoria, o deleite (o prazer de cima e o prazer de baixo) apenas começou.

O aguilhão enferrujou-se no Sangue…

O bebêzinho, filho de Mariinha e Seu Zé,  já nasceu chagado: no útero, já estavam pregadas as mãozinhas e os pesinhos, já estavam lacerados o dorsinho e as costinhas, já estavam feridas a testinha e a moleirinha, já estava cortado o ladinho com o pulmãozinho vertendo água pura. Deus foi concebido e nasceu morrendo entre os homens: sofreu até no sorriso mais cândido de criança. Tudo isto para nos libertar da “virose” da Morte. Tudo isto para nos por no reto caminho da eternidade que se espreguiça diante do relógio. Tudo isto para nossa alegria sem fim aqui e agora (na resignação santa diante dos infortúnios) e para nossa felicidade sem fim no porvir permanente dos olhos enxugados. Esta é a mensagem da Páscoa: a morte que parece vencer por algum tempinho, mas que logo fugitivamente se escandaliza com o fulgor dos mil sóis da Ressurreição. Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!

Três definições

Dança Folclórica Armênia: Organismo de lírica pulsão levitatória, fileira de densa suavidade marcial, tamborins abuzinados ao amanhecer com cântico ósseo-espiritual, pés que assumem a assunção do espírito, colorida primavera de passos sob o Ararat, Ocidente e Oriente feitos uma só carne ondulante sobre a relva. Pés, calcanhares, pernas e joelhos que “vêm” como as cabras montesas. 

Hino da Índia: Cinco milênios de silêncio desencantados do vazio que resolveram assoviar uma marcha militar, castas de notas sobrepostas à si mesmas quando o cadáver sinfônico de um deus persiste vivendo nas árias, qualquer coisa entre a gana de jejuar consoantes imanentes e a mania de assoprar vogais transcendentes. 

Pinturas Rupestres: Cuspes acatarrados da mais pura tintura jamais feita por mãos humanas quando primevamente o cérebro vislumbrou dentro de si versões do que é e está fora de si, digitais riscando linhas adedadas de simulação da realidade pouco depois de geneticamente a imagem se borrar com suas próprias semelhanças. 

Resumo da semana

Domingo: churrasco em família e culto.

Segunda-feira: Não queiras com teu cérebro florescer no Céu. Nada há nos teus chispados neurônios senão véu. O Jardineiro colherá o que plantou na luz do breu. É mistério, toma-o com o desjejum de todo dia; é mistério — aproveita dele o sabor de café e alegria.

Terça-feira: As teclas do piano que dedilhou Chopin ainda menino eram feitas do marfim de um elefante que ouvia o piar da coruja e fechava os olhos, que ouvia o balançar noturno das folhas da amarula e dormia melhor, que ouvia o efeito da lua sobre a selva e aquietava-se ante o predador, que ouvia o choro e o lamento dos elefantes diante do cadáver real e marchava até o rio.

Quarta-feira: A heráldica japonesa, ultra-simbólica há milênios, regurgita uma densa elegância e simples complexidade de tal forma eterno-minimalista, que o nosso design ocidental apenas começou a chegar-lhe aos escabelos do tracejado na década de 30 do século passado.

Quinta-feira: Melhor uma devassa Madalena enjoada do trigo gorduroso de Jericó que uma destas pudicas Bovarys panificando os biscoitos litúrgicos do Primo Basílio.

Sexta-feira: Era exatamente meio-dia e um quarto quando um carcará passou rasando pouco acima do para-brisa do carro. Carregava um pobre pardal entre as garras. Ouvi o piado-gemido do coitado. All Creatures of Our God and King!

Sábado: trabalho, filmes e caminhada.