Cartas a uma moça relutante em amar — III

Minha cara,

É já o terceiro domingo e é já a terceira carta, a última carta. Nada mais te direi além do que hoje, nas linhas adiante, te direi. A palavra será tua, então. Tu é que me dirás qualquer coisa, se quiseres dizer. Não consiste em persuasão e retórica meus parágrafos contigo argumentando. São conselhos bem testemunhados pela sinceridade. Agora, findemos pelo começo. Foi-se o fim invernal da velhice e a meia idade de veraneio outonal. Falo-te já na primavera: dos inícios do amor na juventude. Falo-te destes dias que ainda correm: quando te dizem que estás na “flor da idade”, é isto que, em parte, significa.

Tua beleza está ainda nova no tempo. Ela rebrilha a potência do teu corpo e o dínamo da tua alma, como se um pequeno sol aí no teu peito — e não um coração — bombeasse sangue pelo teu organismo. Tu estás forte como o caule do lírio em primeira florada. Ousará qualquer profanador arrancar-te do canteiro para, em leito estranho, coroar a morte do teu espírito? Eles te fazem isto, e tu pouco ou nada percebes: ceifam-te, pétala à pétala, para misturar-te com as flores de plástico que artificialmente fingem adornar os ambientes insalubres do planeta. Te digo simplesmente que tua beleza não foi criada pelo jardineiro para contaminar-se, sequer esteticamente, com o mundo. Tu eticamente foste feita para que apenas um conhecedor de fragrâncias raras se contentasse com um só (o teu) perfume; para que apenas um conhecedor de sutilezas acetinadas da pele se contentasse com uma só e específica (a tua) delicadeza ao tato; para que apenas um olhar conhecedor das belezas e harmonias das formas para sempre se contentasse com uma só (a tua) mirada. Percebes teu valor, menina? Um poeta, já não me lembro qual, ensinou que “As flores não deixam o mal ir adiante.”

Tu serias feliz, em verdade, se permitisses que os mistérios serenos, as idas e vindas mais bruscas, os olhares furtivos e os silêncios entrecortados do amor juvenil te contentassem os dias. Quanto mais apaziguado teu espírito estaria sem o frenesi biológico destas conquistas que não são conquista — que são saques físicos e nada mais senão qualquer atividade próxima de pilhagem sentimental. Tu ainda não sabes o que é um balcão, o que é estares neste balcão e o que é uma serenata para ti debaixo do balcão. Tu ainda não sabes o que são bilhetinhos espalhados pela semana. O WhatsApp é incapaz de prover-te das incertezas da caligrafia dos poemas meditados, da letra vacilante de quem depõe no papel a própria alma. Tu serias feliz se alguém detivesse tua companhia nos teus dias trigueiros de mocidade. A primavera é para o cantar dos pássaros acasalados, não para orgias de urubus e abutres, por mais jovens e fogosos que eles sejam… A primavera, a tua juventude, é para o colorido dos dias e não para o acinzentar das madrugadas sem sereno.

Te lembras quando teu estômago parecia guardar não uma borboleta acrobata, mas um panapaná inteiro de borboletas saltimbancas? Te lembras quando as mãos suavam frio como se tivessem tocado o glacial zero absoluto? Te lembras quando passavas horas esperando na porta da escola para que teus olhos de repente, num milésimo de segundo calculadíssimo, olhassem e logo se desviassem para o lado? Não queres mais isto? Como é bom este jogo-luta da conquista, quando duas solidões se encontram na órbita do tempo e vão fazer dos seus particulares vácuos unidos um altar de significado compartilhado. Como é bom amar e abandonar como resto e porcaria tudo aquilo que até o instante anterior parecia ser a máxima fonte de sentido para a existência! Te lembras quando coravas e tuas bochechas, quentes, ficavam mais vermelhas que os teus lábios escarlates? Te lembras quando dormias e acordavas com pensamentos fixos mas reconfortantes? A lembrar, depois recorda-te e mais luz te iluminará.

Quem fruirá do melhor da tua juventude e de quem tu fruirás, igualmente, o melhor do viço dos anos? Quem terá o teu perfume impregnado na alma, quando os passos te fizerem mais distante, recordando-se até donde em ti a fresta física encontra a fenda do transcendente? Quem te será leal quando no varejo e no atacado mundano a oferta de corpos e sexo é tão livre e barata quanto variável? Quem compartilhará contigo teus melhores anos de pujança corporal e sentimental, quando em cada ação e pensamento parecem residir toda a energia do cosmos? Tu renuncias à tanta alegria quando permites que seja puramente material o encontro de dois corpos: um êxtase químico e biológico, que nada desprende para o teu ser senão os pruridos comuns à classe mamífera. Apalpar não é acariciar, farejar não é cheirar, roçar não é tocar, labiar não é beijar, ver não é olhar, falar não é dizer. Quem? Uma vez perdidos e gastos estes dias, não haverá mais volta completa: a semente que perde a umidade do orvalho durante sucessivas manhãs será, se crescer, para sempre uma árvore mais anêmica e certamente menos frondosa do que poderia ser. O ápice da fertilidade corporal é também o ápice da fertilidade para o amor verdadeiro. És, por enquanto, terra por ti mesma adubada. Guarda-te.

Recordo-te que amar é primeiro deter o espírito do outro. Quem te ama, antes te amará pelas filigranas da tua personalidade, pelas nuances da tua individualidade, pelas pequeninas essências incrustadas na tua totalidade de ser. Quem te ama, sobretudo, te amará a ponto de querer-te por perto como se lhe estivesse amputado todo o ser, feito tronco desligado do contato nutridor com a terra. Isto que te escrevo não toca suficientemente teu coração a ponto de perceberes que amor é detenção da totalidade (o vôo) nas partes, enfim, que não existe amor naquilo que não amalgama-te à alguém como a pena à asa? Quem, hoje, por qualquer valor teu te admira? Dize-me quem em consideração leva teus talentos encubados, teus dons potenciais e tuas possibilidades elevadas para a vida quando te puxa pela cintura? Quem, quando se deita sob teus cabelos, encontra conforto para as agruras dum dia-a-dia implacável com os honestos? Quem discerne as expressões da tua face como apenas o próprio artista poderia desvendar o carinhoso mistério nas linhas do rosto da musa retratada?

Qual besta masculina tu podes dizer que um dia te amou? Sê contigo mesmo sincera e passa em revista por cada um daqueles que já te beijaram. Nenhum? Algum? Eu bem o sei; e assim sei porquê em ti percebo as ânsias aceleradas da carência, os frêmitos desesperados da alma com sede. Ouça-me. Se mais perguntas eu te fizer, se mais questões eu te propor, se mais dúvidas eu te levantar, nada além do que até agora angariei de ti acrescentaria às tuas idéias. Não te falarei sequer de namoro, de noivado ou mesmo de casamento. Não é necessário, pois. Todo o já escrito é caminho para estas fases que antecedem à feitura duma família. Todo o já escrito é via única para minha proposta inicial, a proposta que comissionei a mim zelosamente revelar-te: tu não queres amar porquê ainda não amaste efetivamente. Segue em silêncio por algum tempo. Cala-te durante as voltas do relógio necessárias para teu amadurecimento. Depois, vem a mim e dize-me se nalguma coisa te fraudei. A verdade, saberás, foi bem dita. E a verdade, disse-nos o Senhor, liberta.

Deste, que te quer bem porquê te ama.

Cartas a uma moça relutante em amar — II

Minha cara,

Espero que tenhas refletido e que, ao menos, estejas com os sentimentos mais acessíveis àquela questão. Continuo, agora, pelo meio do caminho. O meio do caminho são os anos firmes e maduros, os anos que vão dos trinta aos sessenta e poucos. Os anos nos quais em ti se deveriam integrar, meio a meio, idéias acerca dos sentimentos e sentimentos acerca das idéias. Os anos do verão e os do outono feitos uma só estação: abrasamento entrosado a cálido frescor, para os que amam; e decomposição ao sol e apodrecimento à sombra, para os que não amam. O inverno ficou para trás, na primeira carta de letras mais frias, a perguntar: lareira farta de lenha em casa confortável ou esfregação de mãos geladas na caverna úmida? Sei que entendes e compreendes minhas metáforas.

Vês a rotina dos teus pais? Vives a rotina dos teus pais? Viveste a rotina dos teus pais, entre eles e contigo? Queres coisa semelhante ou muito diversa ou um rígido meio termo ou mesmo queres talvez temperar tudo com novidades e tradições à tua maneira? Pois está aqui, neste período, a possibilidade de um relacionamento realista entre homem e mulher, de receita antiga: erotismo e companheirismo rotineiros, assentados no tempo ordinário. A rotina sobrevém a todos nós, menina. Ela é o tempero do inédito, do incomum, do extraordinário, do “de vez em quando” que surpreende. Ninguém pode sobreviver espiritual e fisicamente sem viver um dia após o outro compartilhando, de segunda à sexta-feira, uma rotina mais ou menos definida de pequenos e médios prazeres que desembocam nos sábados e domingos dos grandes prazeres. Ninguém pode sobreviver mastigando buffets de segunda à segunda-feira; por isto, arroz e feijão doméstico devem temperar a semana para propiciar a mesa “exótica” do fim de semana. Outro dia, eu já te dizia que a rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos. Por que te disse e te digo isto? Porquê o amor se prova pelo tempo passando: ele perpassa as idas e vindas dos dias, com suas ações medíocres e sublimes, como uma mesma água escorrendo sobre a areia (desde que com força suficiente para nela não se infiltrar) e sobre a rocha. Estes anos de vida adulta, de meia-idade, como dizem, são os anos do comum, os anos do sempre semelhante mas do sempre renovado. Estes anos sãos os anos em que se provam a consistência dos nossos sentimentos através da dissolvência do calendário. Se a rotina for restauradora e não corroedora, o amor sairá mais fortalecido e os beijos mais queridos que nos tempos da mocidade. Se não amares, anota: não terás estas coisas e passarás teus dias frustrada por dentro e encolhida por fora, tentando infertilmente reviver a juventude (duas vezes) perdida.

Considera o quê te pergunto. Quem te completará de significado nestes dias em que tua particular humanidade, adulta, estará no cume das forças do espírito mas também suscetível ao abismo das fraquezas da carne e, então, precisares de alento para não ceder às tolices da existência? Quem dançará contigo nas tantas festas de batizados, casamentos, aniversários e nas comemorações quaisquer que de ti exigirem um par especialmente conhecedor dos teus pés para os bailados? Mesmo sem música e platéia: quem dançará contigo na cozinha, quando a eletricidade faltar e tudo ficar iluminado por velas, até que tu possas voltar à sobremesa no forno e ele à churrasqueira no jardim? Quem te acordará com abraços seguros e sossegadores, quando um pesadelo noturno te fizer chorar como quando, ainda menina, acordastes perguntando por tua mãe? Quem rirá das tuas piadas sem graça, não fingindo que é boa a piada, mas rindo porquê é bom teu ânimo e é contagiante teu bom-humor? Quem te limpará o canto da boca quando, na mordida faminta, o molho te lambuzar os lábios? Quem soprará o ardido cisco do teu olho, depois da caminhada com pó e ventania na fazenda? Quem aguentará, com afagos e chocolates, teus acessos de cólera e cólica quando a TPM te transformar numa medusa mitológica? Tu realmente não almejas alguém “para sempre e sempre, aleluia”? Tu até podes não acreditar que existiram aquele homem e aquela mulher primordiais por Deus aninhados no Éden; mas, deverias viver (viverás?) como viveriam Adão e sua Eva…

Sexo após transa não é amor coisa nenhuma. É biologia afobada movida por coração desesperado e ansioso. É espirro de prazer que deseja e acredita ser ciclone de gozo. As imagens que uso para te ensinar estas coisas podem parecer-te algo “altissonantes”, mas são as melhores em didática que hoje sou capaz de arranjar. A balada te abala o espírito e o racha como a terra seca do sertão sem chuva. Não percebes que te aniquilas semanalmente e, ao cabo, persiste no teu coração o desejo ardente de andar pelo mundo de mãos dadas até o fim do horizonte de sol poente? Sei bem que bem sabes que apenas mal te faz esta existência entre os maus. Nenhum homem que contigo passa uma ou mesmo algumas noites poderá dar-te quaisquer destes regalos, porquê não pode dar-te amor. Nenhum. Eles às vezes te ofertam o quê não têm para, iludindo-te (como a um burro atrelado à cenoura que o obriga a trotar), te aproveitarem como a um pedacinho de toucinho salgado num infindo banquete de carnes suculentas. Tu queres, a valer, ser apenas este insignificante aperitivo no menu inacabável dos canalhas glutões, um ossinho de cálcio poeirento jogado ao ossuário das rezes passada e futuramente abatidas, cujo fim orgânico é também o vaso sanitário?

Escolhe ser uma só carne com alguém ou serás apenas uma peça à exposição no homicida açougue social, até que deste teu corte o mundo enjoe e acabes, feito Jezabel, comida de cães pelas ruas marginais da cidade. Para isto, deves amar antes a Deus. Se tu amares mais a Deus que a qualquer homem, tu terás apenas um para ti e, então, tu jamais o abandonarás. E se ele amar mais a Deus que a ti, ele jamais te deixará, porquê não poderá exilar-se da mulher que o santifica, que o faz homem eterno. O último imperador da Áustria, aquele país musical de valsas românticas e altares barrocos, sussurrou à sua esposa no leito de núpcias: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu.” Que alguém também isto te diga.

Quem te dará a mão quando a multidão apontar teus pecados esquecidos? Quem acalentará teus medos incrédulos quando a razão natural descrer do óbvio sobrenatural? Quem te encomendará à grandeza de uma vida dedicada a ladrilhar com pedras bem talhadas o lamaçal da existência venial? Quem não te esconderá do mundo e, feito Justiniano, far-te-á sua Teodora? Quem te dará filhos e filhas para crescer e multiplicar o Céu na Terra? Quem te limpará dos olhos toda lágrima — aquelas provindas da cebola mal cortada e aquelas vindas do âmago ferido? Quem não se irritará com tuas manias quando a convivência revelar as bobas e sérias idiossincrasias? Quem não procurará nas esquinas o corpo mais sarado quando tua pele se estriar e quando o cansaço numa cansativa quarta-feira não permitir sexo-de-subir-nas-paredes? Quem será homem-varão na tua vida, e não macho de fácil cio, quando a indecência alheia vier ferir tua dignidade com assovios e leviandade, quando ameaças físicas e metafísicas te fizerem frágil e impotente?

Medita. Espera mais uma semana e a correspondência terminará; e terminará também, queira Deus, com tuas sandices, com teus medos e… com tua relutância.

Deste, que te quer bem e que te diz: “If you intend thus to disdain, / It does the more enrapture me, / And even so, I still remain / A lover in captivity.”

Cartas a uma moça relutante em amar — I

Minha cara,

Ser-te-ei como sempre fui contigo: verdadeiro. E, por isto, vou já à coronária questão: a questão do teu coração. Começo pelo fim…

Quem te fará companhia quando a doença final, a última dor, tomar teu corpo? Quem assistirá teu fim com afagos, canja e conselhos imortais? Quem por ti derramará lágrimas quando o sacerdote oficiar o sermão fúnebre, na possibilidade de que ainda te rendas à Fé na eminência do momento supremo? Algum lenço noturno tomará para si como relíquia a fina camada do óleo santo sobre tua fronte deitado? Quem caminhará pesaroso ao lado do teu caixão, quando tua carne friamente estirada estiver a caminho do sepulcro? Quem poderá te escrever um digno epitáfio, derradeira carta de amor? Quem? Sabes e te recordas que morrerás? Sabes que as forças da tua mocidade um dia se dissolverão? Quem te amará quando tua pele já não for firme, cheia da queratina juvenil, e os teus olhos se parecerem com aquelas estrelas que explodem num último fôlego de luz? Só te beijará na velhice por amor quem hoje te beija por amor: porquê o sexo a partir de certa idade só se mantem, constante e verdadeiramente, quando as almas se gostam em seus corpos.

Tu agora plantas solidão. Ainda há tempo favorável para evitar que ela germine; porém, se te demorares muito, suas sementes logo haverão de brotar e se espraiarão nutrindo-se da tua fenecente aura; e quando crescerem — e elas crescerão ao teu redor — te encontrarás no centro de uma selva escura, a selva da qual fostes a culpada jardineira. A selva da oquidão: sem esposo, sem filhos, sem netos, sem bisnetos, sem o teu eu original pensado por Deus. Quem te dará o banho quente e confortável, quando ao menos da tua primeira cirurgia? (todos os velhos passam por cirurgias). Quem organizará a festa dos teus 83 anos? Quem te comprará flores em dias normais ou mesmo as recolherá do jardinzinho encostado na parede da garagem? Quem te fará chá fraquinho e açucarado aos sábados e café forte aos domingos? Não se trata, escuta-me, de ter apenas alguém que te sirva de babá para a senilidade corporal. Não, até porque tu também deverias (deverás, digo) sê-la. Trata-se da companhia querida e livre de quem tu amas e por quem tu és amada.

Quando hoje recusas um amor seguro e tranquilo, porquê preferes as paixões inconsequentes e tempestuosas, sabe, porém, que já recusas alegria em todos os teus anos a partir de amanhã. Preferirás que um estranho a quem pagues preço elevado te limpe as vergonhas? Que um desconhecido abra, por recomendação médica (e não para que tu vejas o brilho quente e amarelo do sol e respires o ar fresco da manhãzinha que traz os aromas da rua) a janela do teu asséptico quarto de hospital? Como te sentirás quando descobrires que todos os auxílios tidos serão feitos com indiferença rotineira por quem eventualmente te servir? Mais, ainda, pergunto-te: e quando teu coração te contar que todos não te devotam afeição alguma, mas que apenas cumprem (mesmo nos sorrisos cumprimentadores com seus sempre iguais bom dia, boa tarde e boa noite) com suas obrigações profissionais estabelecidas pelo Conselho de Medicina, pelas portarias regulatórias desta ou daquela categoria alinhadas com este ou com aquele estudo científico?

Repito, rumino: vê que de modo algum deves querer amar por conta destas coisas (o futuro solitário ou o futuro assistido); e sequer, e jamais, se ama por elas. Não se ama por estas coisas. Elas não geram amor — apenas produzem algum apego auto-centrado, egoísta. Na verdade, penso que o peso deste teu (por enquanto?) futuro necessário te sirva como “trauma” suficiente para fazer-te refletir sobre o amor. Não deves amar para ter qualquer dessas beatas benesses que relatei. Se amardes, tua as terás naturalmente. São consequências do amor tais gentis tratamentos, nunca causas. Do contrário, te apegarás ao bem-estar, e não a alguém que o trará porque necessariamente te ama. E nesta relação não serás sujeito de direitos, serás na mesma proporção — a inauferível mas conhecida proporção da eternidade — sujeito de deveres.

Medita. Receberás, no domingo próximo, a segunda carta.

Deste, que te quer bem.

Trecho do conto “A Carta Que Se Perdeu” [13.9.2007]

Não te entenderão quando amares. Os tempos são maus para quem ama. Eles entendem a paixão, porquê ela é patológica, é passional como uma hiena ferida que não morre e que, sedenta, suplica incessantemente por vinho impuro pela morfina. Não entendem o amor, porquê ele é são, é sadio como um leão dormindo e sonhando às margens silenciosas de fonte fresca. E se tu amares a quem apenas por ti puder se apaixonar? Tu te adoentarás e compartilharás — sem dela provares diretamente — dos efeitos deste mal: melancolia densa e desesperada, silêncios seguidos de gritarias, apego que arranha friamente e carícias que queimam feito saraiva, lágrimas secas engolidas por um estômago jejuante. E se tu amares a quem não te ama e pelo mundo todo se apaixona? Tu te adoentarás e compartilharás, provando indiretamente deste mal, dos efeitos da solidão desértica de olhar para olhos que não veem os teus, para órbitas de vazio cintilando desejo pela terra, menos pelo pó da terrinha que vivifica aí o teu peito e nele a eternidade palpita. Tu te sentirás desprezado, mas sabe disto: aqueles olhos não te veem porquê estão cegos, e o teu colírio faz arder antes de curar. Quem quer, paciente, provar da dor libertadora que traz visão ao espírito e que tanto alumia a íris da alma? E se tu amares a quem te ama? Por acaso escolhe-se a quem amar? Não. Escolhe-se por quem se apaixonar, porquê a paixão é pródiga com os defeitos: a paixão ama pacientemente no outro todos os erros, que atraem e arrastam como os olhos da Medusa e o canto das sereias; olhos e canto que, encantando, fazem do apaixonado um cadáver livre para, a qualquer momento, trocar de sepulcro, de cemitério e de coveiro. O amor, zeloso das qualidades, é que se apaixona ardentemente pelas virtudes. O amor se apaixona pelas virtudes; até pelas mínimas, até pelas ínfimas, até pelas diminutas e escondidas no mais imperceptível reduto vermelho dum coração repleto de negror. Então, o amor faz-te amar a quem não te ama e que, por isto, não merece amor. Eis o fato que é contradição, eis a realidade que excrucia. Medita nestas coisas. A paixão aliena: chama ao bem mal e ao mal bem. O amor tudo discerne: chama ao bem, bem; e ao mal, mal. E se tu te apaixonares, assim loucamente? Não! Enquanto mantiveres bem guardado este teu coração, não te apaixonarás em perdição. Se te apaixonasses, menos sofrerias, é verdade. Se fosses hiena, ririas facilmente ante qualquer facilidade. Mas, tu és leão: teu sorriso também ruge, e rugindo o mundo sorri. Tu verdadeiramente amas. E quem ama sofre no presente a medida suficiente da alegria que lhe cabe no futuro. Não te entendem, porquê amas. Tu, porém, vais além da mera cognição natural: tu tudo compreendes, e por isto amas. Amarás um dia aquela que te amar e este amor se levantará sobre os escombros dos afetos mundanos para organizar a reconstrução do mundo; e o teu amor será para os filhos de Adão e Eva o símbolo da mútua redenção entre homem e mulher, um memorial da boa parte da natureza humana. Lembra-te do sonho, lembra-te do sonho!

Poesia-proseada VI

Não querer ter te conhecido, não querer ter em ti me reconhecido, não querer ter em ti um pouco de mim. É por isso que estou aborrecido, é por isso que o coração está arrefecido, é por isso que qualquer não é um sim. Nada que eu diga para a mente soará desde agora coerente. Nada que eu recite ao coração parecerá razão neste instante. O cansaço de caminhar na tua direção e a direção pela piscadela mudar. O cansaço de correr no caminho oposto e o rumo pela cara fechada se alterar. Não sei, juro pelos céus, se o teu enigma é querer de adulto ou desejo de criança. Não sei, juro novamente, se o teu dizer é o que é ou é o que dizem as contradições. Confusão de olhares, fusão de não sei o quê, ilusão de procederes, alienação de consciências. Tu me machucas e num segundo me curas, tu me espancas e num segundo me medicas, tu me aniquilas e num segundo me ressuscitas, tu me aguilhoas e num segundo és a própria liberdade. É loucura ou qualquer variante de folia? É razão ao extremo ou qualquer espécie de melancolia? Dize logo a tua realidade, dize logo o que é verdade, dize logo o que é saudade… Não sei se teu cumprimento é doce nos olhos ou amargo na boca, não sei se teu aceno toca a mim quando passo ou é batida de mãos para a mosca que fica, não sei como decifrar, não sei como decodificar. Menina, pára com isto. Pára enquanto eu vivo de amores por ti, enquanto os amores e os dissabores são uma mesma coisa. Até quando, eu te pergunto, até quando ficaremos os dois assim?

Dois trechos de dois contos [que não serão terminados]

O CAMINHO DA ALVORADA

Deixei que a lenha queimasse o fundo da grande panela, que o alumínio escovado perdesse de si qualquer vestígio de semelhança com a prata. Deixei mais: deixei que o cozido de carneiro fervesse até que o líquido vermelho se recolhesse ao teto da cozinha em forma de fumaça branca e até que aquilo que de massal restasse da carne e das batatas se reduzisse à cinzas da cor e do peso do borralho deitado aos pés da lenha. Deixei que os estampidos da madeira queimando se confundissem com o farfalhar do zimbreiro: o violino foi fazer companhia à lenha. O abeto, o bordo, o salgueiro e o ébano dum Stradivarius, quanto à potência para ser combustível, em nada diferem da madeira frouxa dos pequenos pinheiros. Deixei não porquê quis conscientemente deixar. Deixei porque a fúria tomou-me; a fúria com a qual me tomei de mim mesmo. Não tive fome de comida e sequer me lembrei dos seus apetrechos então já em uso na casa. Três dias nada coloquei na boca. Não tive fome de música e sequer percebi que três semanas antes, pouco depois de o sino do correio me ter interrompido a courante da Partita n.o 2 de Bach, lida a carta, eu tinha lançado o caro instrumento às chamas. Três meses se contaram até que voltei a cozinhar (ao quarto dia, passei a comer na taverna). Três calendários completos se passaram silentes até que voltei a tocar. Tu não sabes, Beatriz, o mal que me fizeste. Tua carta está, sobrevivente, comigo. No verso — bom e limpo papel usaste — compus um Agnus Dei para minhas bodas com Helena.

 

SALVAÇÃO

O pouco dinheiro que o capitão trazia no bolso era insuficiente para comprar a mais fina aliança de casamento que algum aprendiz de ourives pobretão ousasse fabricar com as sobras esfareladas de ouro que lhe caíssem da lima. Tinha apenas meia dúzia de cobres e níqueis leves, que mal davam para uma semana de sopa rala de repolho na estalagem d’Os Três Patos. Como voltar para casa sem a jóia fundamental de qualquer matrimônio? Sem a aliança, não casaria. Havia prometido à ela que voltaria herói de guerra, condecorado, e que consigo e para si traria recuperada alguma suficiente parte do ouro das igrejas do Leste que os turcos haviam pilhado quatro séculos antes. “Ah, besta quadrada de alma redonda! Eu! Por que não casaste logo com a filha loira da tua lavadeira? Foste te enamorar logo da filha trigueirinha do Senhor de Allerheiligen! Ah, besta redonda de espírito quadrado! Ela! Como darás à donzela anel competente se as tuas terras confiscaram os franceses e a grã-cruz empenhoraste para dar de comer ao cavalo?” Sentou-se à beirada do rio que os aldeões chamavam d’Os Cisnes, bem embaixo duma macieira carregada de frutos ainda verdes. Comeu três inteirinhas, em fatias, adoçando-as com o açúcar amarronzado que lhe dera em salário a idosa viúva do general seu padrinho. Dormiu a tarde toda. Sonhou que era noite e que a lua estava apenas a 91,5 metros de si (em jardas, medida antiga, quanto dá?); e que na lua, sua noiva plantava e colhia as flores preferidas num jardim cuja forma geométrica resolvia o antigo problema da quadratura do círculo. Acordou risonho. Era já noite e a lua estava bem incrustada no céu. Pensou, gritando seu eureka: “Prata, prata, prata!” Meteu a mão no alforje e dele arrancou a relíquia — uma gota do sangue do Senhor. Já à manhãzinha do domingo, derreteu o metal e, por horas a fio, porquê era prata densa e forte como o aço, deu-lhe a forma de uma aliança. Quanto à gota, guardou-a num pequeno frasco de perfume. Iria diluí-la no cálice da comunhão, sem que o ministro notasse, pouco antes da marcha nupcial.

Cinco nanocontos — II

Calçou sua meia de lã. O pé encontrou algo duro no fundo: era um ninho de mafagafos.

Um tiro para o alto. E a bala, voltou, três anos depois, com um ET muito irritado incrustrado nela.

A dançarina de flamenco não tinha castanholas. Correu ao museu e cortou os cascos do cavalo empalhado de Napoleão.

O cardeal, que ouvia a partida pelo iPhone, esqueceu-se do Pai-Nosso durante a Solenidade de Guadalupe e gritou: ¡Gol! ¡Hala Madrid y nada más!

Jurou que não trairia a esposa enquanto porcos não voassem. No dia seguinte, comprou uma vara e um manual de Engenharia Aeronáutica.

Poesia-proseada V

Querer quieto o dia como é quieta a noite, ansiar por nuvens acinzentadas sob o sol. Esperar pela morte diária do globo de luz, porque a cor de prata para a lua foi feita e em meio às trevas sequer a vela desejo. Escuridão ampla, integrada à toda canção, organicamente presa à partitura escolhida. Tocar para Helena este Adágio de Albinoni e tocar em seguida a Fantasia de Vaughan. Querer quieto o lar ao crepitar da madeira, que o dourado consome em paz na lareira: o fogo, antiga fagulha da tocha do Olimpo, aquecerá apenas os pés que se irão à cama, porque estes dois corpos, de Adão e sua Eva, serão duas brasas salvas do antigo e frio altar, do antigo, frio e apagado altar da melancolia.

Diário em Midgard — XV

Não encontro mais papel. Nem que o encontrasse poderia escrever. O último carteiro, que acaba de se aposentar, entregou-me sua última carta. A última que ele entregou e a primeira que eu recebi, como resposta das tantas que enviei. Mais, ainda: foi esta a última carta que chegou, pelas mãos do capitão-general dos Tércios de Ir-Rakia, na estação dos correios da aldeia. “A estação dos correios cederá lugar a um jardim suspenso”, disse-me. A fabricação de papel (fiquei sabendo no último minuto da 11ª hora) foi encerrada por ordem da primeira deliberação universal tomada pelo Conselho, há pouco mais de dois milênios.

Deixei para abrir a correspondência depois do almoço. Pego a pequena lâmina de prata dourada e ponho minhas luvas de caçador; afinal, será esta a última vez que um envelope — e trata-se de um grande envelope — será aberto e que um selo será cerimonialmente quebrado. Corto o espesso papel do envelope. Quebro com os polegares, bem ao centro, o selo vermelho cujo desenho é uma cruz semeada de doze estrelas. Jogo a cera às brasas que cozem o permanente ensopado de favas vermelhas, primeiro prato em todo jantar meu. Puxo para fora a folha única que saiu do envelope. Ora, é uma folha limpa. Nada vem nela escrito. Mais branca que a sétima neve do inverno.

Que digo? Olho fixamente para o papel. Viro-o pelos quatro cantos e pelos dois lados. Levanto-o em direção à luz. Talvez ao alto, mais próximo de Lá, ele me diga o que agora não diz. Sim. E diz! Ele diz. Eu vejo, vejo e leio o escrito: “Alpha et Omega”. Letras desenhadas em traços austeros (algo entre runas e caracteres romanos, mas como que sulcadas à moda cuneiforme — mesmo que tenham sido pena e tinta que as tenham deslizado no papel), que se esvaem, que estão se esvaindo, que desaparecem, que se consumiram etereamente. Olho ainda fixamente para o papel, agora limpo de qualquer texto na sua textura física mais gradualmente oculta. Aproximo-o da lâmpada. Nada.

Tomo, nas mãos, a idéia que há muito intuo: o Senhor está separando esta terra de todas as porções vivas do Universo. Não uma separação física em que matéria se aliena de matéria, uma dissenção meramente concreta que empurra todo o resto ainda mais para fora. A aldeia, gigante galáxia no mapa estelar, não ganhou suas próprias muralhas espessas como tinham as outras terras. A separação ocorre, agora, porque todo o mais já não é. Tudo se fez novo. A idéia, esta idéia da aldeia, eu a depositei em versos na primeira página de minha primeira carta. Sei que aquela página é um dos lados desta folha. Afinal, para que precisamos de papéis, de folhas, de pergaminhos, de livros, de registros, de diários, de lugar onde por palavras quando aqui, tudo, está na Palavra?

Eternidade etária

Quando eu for velho, continuarei antigo como agora. Mas à minha antiguidade que me persegue desde o ventre, Deus somará a alegria de criança de barba branca, de menino de pele sulcada e sem melanina, de moleque de chapéu e bengala. Quando eu for velho, serei um velho que ainda juntará suas pedras, um velho que terá escalado as pirâmides dos egípcios e dos maias, um velho que porá no embornal os seixos colhidos no Jordão. Quando eu for velho, serei novo talvez pela primeira vez: sábio e falsamente desentendido das equações do calendário, farei de conta que os feriados são eternos e que a aposentadoria é uma seroada de fim de expediente que apenas começou e que durará pelo menos sete floradas da Youtan Poluo. Quando eu for velho, beijarei minha velhinha-mocinha até que ela perca o fôlego e careça de respiração boca-a-boca, até que ela rodopie e rodopie como na noite em que uma valsa mal executada fez com que ela dançasse feliz como se tocassem Strauss, até que a lâmpada se acenda pelas noites e as cortinas sejam fechadas pelos dias. Quando eu for velho, ah!, quando eu for velho, serei o mesmo homem de sempre.

Poesia-proseada IV

Tu não viste ainda lágrimas a tornam-se sal, tu não enxugaste ainda pequeninos cristais dos olhos sofredores de santos esquecidos. Ah, velha criança, ide aos bairros marginais, ide ver o caixote onde jaz o humano animal, onde cada suspiro é o mais lúbrico martírio. Eu vi, onde o horizonte não é de terra e sol, onde a refração das cores é o cinza visceral. Eu vi que os lenços são retalhos do sudário, mas também vi que uma luz brilha e brilha. Eu vi a luz, meu filho, a luz que me iluminou! A luz das sarjetas pútridas, dos cegos no frio, a luz das trevosas canções dos párias caídos, a chaga, a lepra, o tumor, o cancro, a latrina. Tudo, tudo na lágrima maior que tua matilha, tudo na gota-água doce e salgada dum olhar.

Três trechos do conto “O Domingo Eterno”

(I) Deixa estar tudo o que não deve ser, como o barquinho de papel no mar. Sopra com teu fôlego puro e consciente esta nau de velas douradas — teu último poema.  Sopra dobrinhas na água para que se vá em silêncio e o papel se desmanche longe dos teus olhos. Deixa estar tudo o que não pode ser, como estas rimas tão preciosas, estas palavras tão bem arranjadas no papel que se umedece, que se rompe, que se desfaz.

(II) Helena me dizia que as maçãs-do-amor do parque eram as melhores, que elas tinham uma doçura equilibrada, um paladar harmonioso. Helena me dizia estas coisas, estas coisas de sabor e talvez de amor, enquanto se deliciava com a fruta macia guardada na casca de açúcar. Minha alegria nestes dias (que eram noites) era vê-la comendo-as. Helena me dizia que quando comia sozinha sentia-se sem apetite e mal, que todo o sabor dependia não da mão abençoada da cozinheira, mas da minha companhia e da alegria dos meus olhos em vê-la comendo.

(III) Tomei minhas duas filhas pelas mãos e girei-as no meio do jardim, onde ficava a fonte. Ester e Rebeca riam e sorriam e gargalhavam como se os céus tivessem concentrado toda a alegria do cosmos naqueles giros, como se o próprio Deus tivesse arrancado um poucochinho do girar dos astros e concedido às minhas mãos o ímpeto dos planetas, agora desacelerados. Girei-as leve e rapidamente, girei-as como se a gravidade estivesse suspensa e apenas as almas das minhas duas pequenas flutuassem sobre o canteiro de rosas de minha mãe, sua avó.  Agora, que lembro disto… Agora, olho fixamente para os olhos destas minhas duas já também avós e da outra que veio mais tarde e para os olhos de meus dois filhos que vieram ainda mais tarde, como que mirando as estrelas que ninguém mais viu depois que a espada passou a guardar não só a terra, mas também o céu delimitado pelos muros do Éden. Já posso ir em paz.

Poesia-proseada II

Tua mente que não minta para ti quando indolente a bela menina insinuar amor onde habita paixão. Porque este fogo que logo s’esvai, esta chama que a labareda mata, não pode cozer tua antiga receita. O inflamado vermelho ela cultiva para queimar teu corpo e o tostar, para calcinar tua carne em torrão. O amor, esta brasa permanente, é o calor são que mantém a vida e alimenta quem põe anel na mão.

“[…] vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.”

Estava assistindo a um vídeo no Youtube. Josemaría Escrivá fazendo uma bonita preleção. Calhou de ele citar Colossenses 3:3 em latim. Vamos lá. As nuances semânticas do texto latino são muito mais ricas que as traduções portuguesas e, graças à erudição de Jerônimo de Estridão, elas captam integralmente o grego koiné autorial. Em português, a totalidade de significados do texto quer dizer isto: “A vida real-e-verdadeira de vocês está seguramente escondida [e custodiada: guardada com zelo] com Cristo-em-Deus.” Vejam que precisamos nos valer de muito mais palavras para expressar o significado que o texto paulino latinizado revela com apenas oito. Adiante. Fala-se de vida como consciência agente e qualificada diante da Realidade. A conotação é de privacidade e segredo, como que falando da vida do cristão em similitude com um jardim fechado (logo, trata-se de uma vida interior), fazendo desta um “Éden” particularíssimo onde Deus vem passear às tardinhas e onde acontecem diálogos diretos circunscritos apenas a Ele e ao fiel. Diá-logos, em verdade, que nossa consciência pode receber como brados altissonantes ou sussurros, mas que recebe advindos deste cenáculo íntimo — por isto, trata-se efetivamente de vida intra-muros. Esta vida escondida (sem conotações de refúgio, note-se) revela uma suspensão de si-no-mundo através de uma elevação dual (de consciência, primeiramente, e ação, secundariamente) de si-em-si-mesmo. Esta vida escondida é o “eu essencial” em comunicação permanente conosco-no-dia-a-dia porque em comunicação constante com-Deus-o-tempo-todo, é a dinâmica do que se é sendo verdadeiramente um “eu” — o eu profundo com o qual Deus dialoga tête-à-tête e que, vedado o acesso do Mundo, só pode única e efetivamente comunicar-se com Ele. Nada que ver, portanto, com oração, que é um processo mais superficial e cuja autoria iniciadora é humana.  Este “jardim” (que é a “vita abscondita”; chamemo-la, pois, assim de jardim), pode ou não ser ocupado pelo homem e por Deus: (I) quando o homem solitariamente o ocupa, há o vazio (vacuum); (II) quando nem homem e nem Deus o ocupam, há o nada (nihil). O primeiro é, mais gravemente, um estado intelectual e sentimental no qual o homem se instala como seu próprio anthropo-theos, como seu deus humano que apenas consigo mesmo conversa, mas donde retira significação (falsa); o segundo, é estado mental e emocional derivado de completo distanciamento de significados, é a oquidão na qual o próprio ser humano deixa de ser para si um interlocutor ontológico, sequer capaz de fala cognoscível auto-denotativa. Para o cristão salvo, contudo, este jardim está sempre por si e pelo Senhor ocupado. E é nesta “pequena ágora de dois” (quero com isto dizer que há um processo dialético promovido em nosso espírito pelo Senhor) que nossa vida de bonanças e desassossegos espirituais flui sob as intervenções dEle, a fim de produzir a metanoia do novo homem, do homem nascido de novo. Colossenses 3:3 é, neste sentido, complementado pelo versículo 21 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas: “Eis que o Reino de Deus está dentro de vós”[…] ecce enim regnum Dei intra vos est.” Belo, não? Tudo isto para dizer o seguinte: devemos permitir a fluência desde diálogo com Deus desde o âmago de nosso ser, porque rios de águas vivas correm da fonte que refresca o centro deste jardim, donde o Senhor concede ouvir Seus mistérios. Bom domingo e abençoada semana a todos!

Poesia-proseada I

No árido cérebro, um oásis. No coração, um campo de fartura. Amo tanto aquela trigueirinha, mas tanto não sei se devo, que na mente me cai um pensamento tão cético e duro, enquanto no peito sinto a alegria e o otimismo do triunfo. Santo Deus, que faço deste caso indecifrável, desta dúvida cruel como o fio cego do machado do pregador carrasco? O oásis no cérebro, explico, é o pontículo das esperanças; é o terreno de nuvens onde mantenho alimentado o eu que leu a história de Josué e Raabe, relato de redenção.

Fragmento

Trecho do conto “O Eu que não foi”, que não tenho tempo para começar nem para terminar de escrever:

O ambiente cinza e branco contrastava com seus olhos avermelhados e chorosos. Era o frio que irrigava com sangue quente a feição desesperada daquela semente mal brotada de humanidade. A neve fazia-lhe termicamente insensível, porque a agitação daquilo que sentia no alto-por-dentro de si, dentro da cabeça na qual dava de três em três segundos soquinhos ritmados, impedia-lhe de sentir o que quer que agitasse fisicamente o lado de fora, o mundo de fora. O mundo de dentro, incompreensível para si porque era si mesmo como um eco inverso-e-interno da própria voz, apocalipsava seu ser desfragmentado. Decidido a não mais sofrer com esta fala que era sua mas que também não era sua, decidido a não ter dentro de si os grunhidos organizados que entendiam o mundo mas que não existiam na lista de grunhidos padronizados da tribo, tomou fôlego, andou algumas dezenas de passos para trás e, tomando ainda um gole final de ar, virou-se brusca e rapidamente e correu reto feito o lobo que admirava, mas despencou letárgico como o falcão que odiava; correu e pulando para o alto e — como não tinha asas e como não queria ter asas — caiu para baixo. Sua última memória com fala-altissonante-para-dentro-e-silenciosa-para-fora foi para a fêmea de olhos claros como o céu da noitinha, aquela que jogara nas brasas a carne do primeiro urso que abatera quando sua barba ainda não tinha fios cor de gelo batido. Era um neanderthal. Suicidara-se o primeiro e o último indivíduo daquela espécie. Se as chamas da fogueira o impeliram para o fora e o além da caverna, as sombras horizontais do sol o impeliram para o aquém de um abismo vertical. A existência morreu quando deu de cara com a vida.

Moisés e a Sarça

No campo branco as estrelas não têm brilho. São solzinhos como as fagulhas de pele que vemos suspensas quando a luz serenada da manhã rompe através das frestas da tenda. E eu aqui, diante do fogaréu que arde sem consumir o manázeiro, mesmo que seja a hora das trevas mais densas, pareço estar no lugar do escaravelho dorminhoco que acordou com o clarão da fogueira que construíram sobre sua toca.

Está ali em algum lugar, entre a labareda azul e a chama amarela, entre a flama vermelha e a língua violeta; está ali o ponto de branco puro, de branco que não é branco porque transcende o branco. Está ali aquela pedra intangível, aquela gema não física, aquela inlapidada rocha de eternidade. Ou não? Não, não é mineral. Brilha como o cristal do cetro do príncipe meu primo; contudo, é jóia para fulgurar na fronte de algum deus. É uma Voz Consciente.

El chama dentre as chamas. Arde o Eu no coração. Escutei, levantei o cajado e feri as folhas e os galhos: brotou óleo. Os deuses todos são apenas um? Um para terra, amor, céu, estrelas, árvores, animais, vinho, festas, guerra e tudo e o todo? O plural é um… O plural que é três — porque é alto de espírito, porque é profundo de alma, porque é largo sem corpo — é uno. Do centro da queima, as palavras dizem-me que é, que existe, que se torna, que se mostra.

Deitei no campo branco. A escuridão da mente embaçada pela poesia que estalava no lume cedeu lugar à visão de três grandes triângulos de pedra moendo doze feixes de trigo. O som do fazimento de farinha em meio ao deserto de areia lívia, o cântico chiado da arrastação de cubos de granito por esqueletos empoeirados. Choveu óleo sobre minha cabeça. Tenho que descer à terra onde os pastores são odiados, para libertar as ovelhas de Quem planeja ser o que somos!