Cinco nanocontos — II

Calçou sua meia de lã. O pé encontrou algo duro no fundo: era um ninho de mafagafos.

Um tiro para o alto. E a bala, voltou, três anos depois, com um ET muito irritado incrustrado nela.

A dançarina de flamenco não tinha castanholas. Correu ao museu e cortou os cascos do cavalo empalhado de Napoleão.

O cardeal, que ouvia a partida pelo iPhone, esqueceu-se do Pai-Nosso durante a Solenidade de Guadalupe e gritou: ¡Gol! ¡Hala Madrid y nada más!

Jurou que não trairia a esposa enquanto porcos não voassem. No dia seguinte, comprou uma vara e um manual de Engenharia Aeronáutica.

Poesia-proseada V

Querer quieto o dia como é quieta a noite, ansiar por nuvens acinzentadas sob o sol. Esperar pela morte diária do globo de luz, porque a cor de prata para a lua foi feita e em meio às trevas sequer a vela desejo. Escuridão ampla, integrada à toda canção, organicamente presa à partitura escolhida. Tocar para Helena este Adágio de Albinoni e tocar em seguida a Fantasia de Vaughan. Querer quieto o lar ao crepitar da madeira, que o dourado consome em paz na lareira: o fogo, antiga fagulha da tocha do Olimpo, aquecerá apenas os pés que se irão à cama, porque estes dois corpos, de Adão e sua Eva, serão duas brasas salvas do antigo e frio altar, do antigo, frio e apagado altar da melancolia.

Diário em Midgard — XV

Não encontro mais papel. Nem que o encontrasse poderia escrever. O último carteiro, que acaba de se aposentar, entregou-me sua última carta. A última que ele entregou e a primeira que eu recebi, como resposta das tantas que enviei. Mais, ainda: foi esta a última carta que chegou, pelas mãos do capitão-general dos Tércios de Ir-Rakia, na estação dos correios da aldeia. “A estação dos correios cederá lugar a um jardim suspenso”, disse-me. A fabricação de papel (fiquei sabendo no último minuto da 11ª hora) foi encerrada por ordem da primeira deliberação universal tomada pelo Conselho, há pouco mais de dois milênios.

Deixei para abrir a correspondência depois do almoço. Pego a pequena lâmina de prata dourada e ponho minhas luvas de caçador; afinal, será esta a última vez que um envelope — e trata-se de um grande envelope — será aberto e que um selo será cerimonialmente quebrado. Corto o espesso papel do envelope. Quebro com os polegares, bem ao centro, o selo vermelho cujo desenho é uma cruz semeada de doze estrelas. Jogo a cera às brasas que cozem o permanente ensopado de favas vermelhas, primeiro prato em todo jantar meu. Puxo para fora a folha única que saiu do envelope. Ora, é uma folha limpa. Nada vem nela escrito. Mais branca que a sétima neve do inverno.

Que digo? Olho fixamente para o papel. Viro-o pelos quatro cantos e pelos dois lados. Levanto-o em direção à luz. Talvez ao alto, mais próximo de Lá, ele me diga o que agora não diz. Sim. E diz! Ele diz. Eu vejo, vejo e leio o escrito: “Alpha et Omega”. Letras desenhadas em traços austeros (algo entre runas e caracteres romanos, mas como que sulcadas à moda cuneiforme — mesmo que tenham sido pena e tinta que as tenham deslizado no papel), que se esvaem, que estão se esvaindo, que desaparecem, que se consumiram etereamente. Olho ainda fixamente para o papel, agora limpo de qualquer texto na sua textura física mais gradualmente oculta. Aproximo-o da lâmpada. Nada.

Tomo, nas mãos, a idéia que há muito intuo: o Senhor está separando esta terra de todas as porções vivas do Universo. Não uma separação física em que matéria se aliena de matéria, uma dissenção meramente concreta que empurra todo o resto ainda mais para fora. A aldeia, gigante galáxia no mapa estelar, não ganhou suas próprias muralhas espessas como tinham as outras terras. A separação ocorre, agora, porque todo o mais já não é. Tudo se fez novo. A idéia, esta idéia da aldeia, eu a depositei em versos na primeira página de minha primeira carta. Sei que aquela página é um dos lados desta folha. Afinal, para que precisamos de papéis, de folhas, de pergaminhos, de livros, de registros, de diários, de lugar onde por palavras quando aqui, tudo, está na Palavra?

Eternidade etária

Quando eu for velho, continuarei antigo como agora. Mas à minha antiguidade que me persegue desde o ventre, Deus somará a alegria de criança de barba branca, de menino de pele sulcada e sem melanina, de moleque de chapéu e bengala. Quando eu for velho, serei um velho que ainda juntará suas pedras, um velho que terá escalado as pirâmides dos egípcios e dos maias, um velho que porá no embornal os seixos colhidos no Jordão. Quando eu for velho, serei novo talvez pela primeira vez: sábio e falsamente desentendido das equações do calendário, farei de conta que os feriados são eternos e que a aposentadoria é uma seroada de fim de expediente que apenas começou e que durará pelo menos sete floradas da Youtan Poluo. Quando eu for velho, beijarei minha velhinha-mocinha até que ela perca o fôlego e careça de respiração boca-a-boca, até que ela rodopie e rodopie como na noite em que uma valsa mal executada fez com que ela dançasse feliz como se tocassem Strauss, até que a lâmpada se acenda pelas noites e as cortinas sejam fechadas pelos dias. Quando eu for velho, ah!, quando eu for velho, serei o mesmo homem de sempre.

Poesia-proseada IV

Tu não viste ainda lágrimas a tornam-se sal, tu não enxugaste ainda pequeninos cristais dos olhos sofredores de santos esquecidos. Ah, velha criança, ide aos bairros marginais, ide ver o caixote onde jaz o humano animal, onde cada suspiro é o mais lúbrico martírio. Eu vi, onde o horizonte não é de terra e sol, onde a refração das cores é o cinza visceral. Eu vi que os lenços são retalhos do sudário, mas também vi que uma luz brilha e brilha. Eu vi a luz, meu filho, a luz que me iluminou! A luz das sarjetas pútridas, dos cegos no frio, a luz das trevosas canções dos párias caídos, a chaga, a lepra, o tumor, o cancro, a latrina. Tudo, tudo na lágrima maior que tua matilha, tudo na gota-água doce e salgada dum olhar.

Três trechos do conto “O Domingo Eterno”

(I) Deixa estar tudo o que não deve ser, como o barquinho de papel no mar. Sopra com teu fôlego puro e consciente esta nau de velas douradas — teu último poema.  Sopra dobrinhas na água para que se vá em silêncio e o papel se desmanche longe dos teus olhos. Deixa estar tudo o que não pode ser, como estas rimas tão preciosas, estas palavras tão bem arranjadas no papel que se umedece, que se rompe, que se desfaz.

(II) Helena me dizia que as maçãs-do-amor do parque eram as melhores, que elas tinham uma doçura equilibrada, um paladar harmonioso. Helena me dizia estas coisas, estas coisas de sabor e talvez de amor, enquanto se deliciava com a fruta macia guardada na casca de açúcar. Minha alegria nestes dias (que eram noites) era vê-la comendo-as. Helena me dizia que quando comia sozinha sentia-se sem apetite e mal, que todo o sabor dependia não da mão abençoada da cozinheira, mas da minha companhia e da alegria dos meus olhos em vê-la comendo.

(III) Tomei minhas duas filhas pelas mãos e girei-as no meio do jardim, onde ficava a fonte. Ester e Rebeca riam e sorriam e gargalhavam como se os céus tivessem concentrado toda a alegria do cosmos naqueles giros, como se o próprio Deus tivesse arrancado um poucochinho do girar dos astros e concedido às minhas mãos o ímpeto dos planetas, agora desacelerados. Girei-as leve e rapidamente, girei-as como se a gravidade estivesse suspensa e apenas as almas das minhas duas pequenas flutuassem sobre o canteiro de rosas de minha mãe, sua avó.  Agora, que lembro disto… Agora, olho fixamente para os olhos destas minhas duas já também avós e da outra que veio mais tarde e para os olhos de meus dois filhos que vieram ainda mais tarde, como que mirando as estrelas que ninguém mais viu depois que a espada passou a guardar não só a terra, mas também o céu delimitado pelos muros do Éden. Já posso ir em paz.

Poesia-proseada II

Tua mente que não minta para ti quando indolente a bela menina insinuar amor onde habita paixão. Porque este fogo que logo s’esvai, esta chama que a labareda mata, não pode cozer tua antiga receita. O inflamado vermelho ela cultiva para queimar teu corpo e o tostar, para calcinar tua carne em torrão. O amor, esta brasa permanente, é o calor são que mantém a vida e alimenta quem põe anel na mão.

“[…] vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.”

Estava assistindo a um vídeo no Youtube. Josemaría Escrivá fazendo uma bonita preleção. Calhou de ele citar Colossenses 3:3 em latim. Vamos lá. As nuances semânticas do texto latino são muito mais ricas que as traduções portuguesas e, graças à erudição de Jerônimo de Estridão, elas captam integralmente o grego koiné autorial. Em português, a totalidade de significados do texto quer dizer isto: “A vida real-e-verdadeira de vocês está seguramente escondida [e custodiada: guardada com zelo] com Cristo-em-Deus.” Vejam que precisamos nos valer de muito mais palavras para expressar o significado que o texto paulino latinizado revela com apenas oito. Adiante. Fala-se de vida como consciência agente e qualificada diante da Realidade. A conotação é de privacidade e segredo, como que falando da vida do cristão em similitude com um jardim fechado (logo, trata-se de uma vida interior), fazendo desta um “Éden” particularíssimo onde Deus vem passear às tardinhas e onde acontecem diálogos diretos circunscritos apenas a Ele e ao fiel. Diá-logos, em verdade, que nossa consciência pode receber como brados altissonantes ou sussurros, mas que recebe advindos deste cenáculo íntimo — por isto, trata-se efetivamente de vida intra-muros. Esta vida escondida (sem conotações de refúgio, note-se) revela uma suspensão de si-no-mundo através de uma elevação dual (de consciência, primeiramente, e ação, secundariamente) de si-em-si-mesmo. Esta vida escondida é o “eu essencial” em comunicação permanente conosco-no-dia-a-dia porque em comunicação constante com-Deus-o-tempo-todo, é a dinâmica do que se é sendo verdadeiramente um “eu” — o eu profundo com o qual Deus dialoga tête-à-tête e que, vedado o acesso do Mundo, só pode única e efetivamente comunicar-se com Ele. Nada que ver, portanto, com oração, que é um processo mais superficial e cuja autoria iniciadora é humana.  Este “jardim” (que é a “vita abscondita”; chamemo-la, pois, assim de jardim), pode ou não ser ocupado pelo homem e por Deus: (I) quando o homem solitariamente o ocupa, há o vazio (vacuum); (II) quando nem homem e nem Deus o ocupam, há o nada (nihil). O primeiro é, mais gravemente, um estado intelectual e sentimental no qual o homem se instala como seu próprio anthropo-theos, como seu deus humano que apenas consigo mesmo conversa, mas donde retira significação (falsa); o segundo, é estado mental e emocional derivado de completo distanciamento de significados, é a oquidão na qual o próprio ser humano deixa de ser para si um interlocutor ontológico, sequer capaz de fala cognoscível auto-denotativa. Para o cristão salvo, contudo, este jardim está sempre por si e pelo Senhor ocupado. E é nesta “pequena ágora de dois” (quero com isto dizer que há um processo dialético promovido em nosso espírito pelo Senhor) que nossa vida de bonanças e desassossegos espirituais flui sob as intervenções dEle, a fim de produzir a metanoia do novo homem, do homem nascido de novo. Colossenses 3:3 é, neste sentido, complementado pelo versículo 21 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas: “Eis que o Reino de Deus está dentro de vós”[…] ecce enim regnum Dei intra vos est.” Belo, não? Tudo isto para dizer o seguinte: devemos permitir a fluência desde diálogo com Deus desde o âmago de nosso ser, porque rios de águas vivas correm da fonte que refresca o centro deste jardim, donde o Senhor concede ouvir Seus mistérios. Bom domingo e abençoada semana a todos!

Poesia-proseada I

No árido cérebro, um oásis. No coração, um campo de fartura. Amo tanto aquela trigueirinha, mas tanto não sei se devo, que na mente me cai um pensamento tão cético e duro, enquanto no peito sinto a alegria e o otimismo do triunfo. Santo Deus, que faço deste caso indecifrável, desta dúvida cruel como o fio cego do machado do pregador carrasco? O oásis no cérebro, explico, é o pontículo das esperanças; é o terreno de nuvens onde mantenho alimentado o eu que leu a história de Josué e Raabe, relato de redenção.

Fragmento

Trecho do conto “O Eu que não foi”, que não tenho tempo para começar nem para terminar de escrever:

O ambiente cinza e branco contrastava com seus olhos avermelhados e chorosos. Era o frio que irrigava com sangue quente a feição desesperada daquela semente mal brotada de humanidade. A neve fazia-lhe termicamente insensível, porque a agitação daquilo que sentia no alto-por-dentro de si, dentro da cabeça na qual dava de três em três segundos soquinhos ritmados, impedia-lhe de sentir o que quer que agitasse fisicamente o lado de fora, o mundo de fora. O mundo de dentro, incompreensível para si porque era si mesmo como um eco inverso-e-interno da própria voz, apocalipsava seu ser desfragmentado. Decidido a não mais sofrer com esta fala que era sua mas que também não era sua, decidido a não ter dentro de si os grunhidos organizados que entendiam o mundo mas que não existiam na lista de grunhidos padronizados da tribo, tomou fôlego, andou algumas dezenas de passos para trás e, tomando ainda um gole final de ar, virou-se brusca e rapidamente e correu reto feito o lobo que admirava, mas despencou letárgico como o falcão que odiava; correu e pulando para o alto e — como não tinha asas e como não queria ter asas — caiu para baixo. Sua última memória com fala-altissonante-para-dentro-e-silenciosa-para-fora foi para a fêmea de olhos claros como o céu da noitinha, aquela que jogara nas brasas a carne do primeiro urso que abatera quando sua barba ainda não tinha fios cor de gelo batido. Era um neanderthal. Suicidara-se o primeiro e o último indivíduo daquela espécie. Se as chamas da fogueira o impeliram para o fora e o além da caverna, as sombras horizontais do sol o impeliram para o aquém de um abismo vertical. A existência morreu quando deu de cara com a vida.

Moisés e a Sarça

No campo branco as estrelas não têm brilho. São solzinhos como as fagulhas de pele que vemos suspensas quando a luz serenada da manhã rompe através das frestas da tenda. E eu aqui, diante do fogaréu que arde sem consumir o manázeiro, mesmo que seja a hora das trevas mais densas, pareço estar no lugar do escaravelho dorminhoco que acordou com o clarão da fogueira que construíram sobre sua toca.

Está ali em algum lugar, entre a labareda azul e a chama amarela, entre a flama vermelha e a língua violeta; está ali o ponto de branco puro, de branco que não é branco porque transcende o branco. Está ali aquela pedra intangível, aquela gema não física, aquela inlapidada rocha de eternidade. Ou não? Não, não é mineral. Brilha como o cristal do cetro do príncipe meu primo; contudo, é jóia para fulgurar na fronte de algum deus. É uma Voz Consciente.

El chama dentre as chamas. Arde o Eu no coração. Escutei, levantei o cajado e feri as folhas e os galhos: brotou óleo. Os deuses todos são apenas um? Um para terra, amor, céu, estrelas, árvores, animais, vinho, festas, guerra e tudo e o todo? O plural é um… O plural que é três — porque é alto de espírito, porque é profundo de alma, porque é largo sem corpo — é uno. Do centro da queima, as palavras dizem-me que é, que existe, que se torna, que se mostra.

Deitei no campo branco. A escuridão da mente embaçada pela poesia que estalava no lume cedeu lugar à visão de três grandes triângulos de pedra moendo doze feixes de trigo. O som do fazimento de farinha em meio ao deserto de areia lívia, o cântico chiado da arrastação de cubos de granito por esqueletos empoeirados. Choveu óleo sobre minha cabeça. Tenho que descer à terra onde os pastores são odiados, para libertar as ovelhas de Quem planeja ser o que somos!