Fragmento

Trecho do conto “O Eu que não foi”, que não tenho tempo para começar nem para terminar de escrever:

O ambiente cinza e branco contrastava com seus olhos avermelhados e chorosos. Era o frio que irrigava com sangue quente a feição desesperada daquela semente mal brotada de humanidade. A neve fazia-lhe termicamente insensível, porque a agitação daquilo que sentia no alto-por-dentro de si, dentro da cabeça na qual dava de três em três segundos soquinhos ritmados, impedia-lhe de sentir o que quer que agitasse fisicamente o lado de fora, o mundo de fora. O mundo de dentro, incompreensível para si porque era si mesmo como um eco inverso-e-interno da própria voz, apocalipsava seu ser desfragmentado. Decidido a não mais sofrer com esta fala que era sua mas que também não era sua, decidido a não ter dentro de si os grunhidos organizados que entendiam o mundo mas que não existiam na lista de grunhidos padronizados da tribo, tomou fôlego, andou algumas dezenas de passos para trás e, tomando ainda um gole final de ar, virou-se brusca e rapidamente e correu reto feito o lobo que admirava, mas despencou letárgico como o falcão que odiava; correu e pulando para o alto e — como não tinha asas e como não queria ter asas — caiu para baixo. Sua última memória com fala-altissonante-para-dentro-e-silenciosa-para-fora foi para a fêmea de olhos claros como o céu da noitinha, aquela que jogara nas brasas a carne do primeiro urso que abatera quando sua barba ainda não tinha fios cor de gelo batido. Era um neanderthal. Suicidara-se o primeiro e o último indivíduo daquela espécie. Se as chamas da fogueira o impeliram para o fora e o além da caverna, as sombras horizontais do sol o impeliram para o aquém de um abismo vertical. A existência morreu quando deu de cara com a vida.

Moisés e a Sarça

No campo branco as estrelas não têm brilho. São solzinhos como as fagulhas de pele que vemos suspensas quando a luz serenada da manhã rompe através das frestas da tenda. E eu aqui, diante do fogaréu que arde sem consumir o manázeiro, mesmo que seja a hora das trevas mais densas, pareço estar no lugar do escaravelho dorminhoco que acordou com o clarão da fogueira que construíram sobre sua toca.

Está ali em algum lugar, entre a labareda azul e a chama amarela, entre a flama vermelha e a língua violeta; está ali o ponto de branco puro, de branco que não é branco porque transcende o branco. Está ali aquela pedra intangível, aquela gema não física, aquela inlapidada rocha de eternidade. Ou não? Não, não é mineral. Brilha como o cristal do cetro do príncipe meu primo; contudo, é jóia para fulgurar na fronte de algum deus. É uma Voz Consciente.

El chama dentre as chamas. Arde o Eu no coração. Escutei, levantei o cajado e feri as folhas e os galhos: brotou óleo. Os deuses todos são apenas um? Um para terra, amor, céu, estrelas, árvores, animais, vinho, festas, guerra e tudo e o todo? O plural é um… O plural que é três — porque é alto de espírito, porque é profundo de alma, porque é largo sem corpo — é uno. Do centro da queima, as palavras dizem-me que é, que existe, que se torna, que se mostra.

Deitei no campo branco. A escuridão da mente embaçada pela poesia que estalava no lume cedeu lugar à visão de três grandes triângulos de pedra moendo doze feixes de trigo. O som do fazimento de farinha em meio ao deserto de areia lívia, o cântico chiado da arrastação de cubos de granito por esqueletos empoeirados. Choveu óleo sobre minha cabeça. Tenho que descer à terra onde os pastores são odiados, para libertar as ovelhas de Quem planeja ser o que somos!