Cartas a uma moça relutante em amar — I

Minha cara,

Ser-te-ei como sempre fui contigo: verdadeiro. E, por isto, vou já à coronária questão: a questão do teu coração. Começo pelo fim…

Quem te fará companhia quando a doença final, a última dor, tomar teu corpo? Quem assistirá teu fim com afagos, canja e conselhos imortais? Quem por ti derramará lágrimas quando o sacerdote oficiar o sermão fúnebre, na possibilidade de que ainda te rendas à Fé na eminência do momento supremo? Algum lenço noturno tomará para si como relíquia a fina camada do óleo santo sobre tua fronte deitado? Quem caminhará pesaroso ao lado do teu caixão, quando tua carne friamente estirada estiver a caminho do sepulcro? Quem poderá te escrever um digno epitáfio, derradeira carta de amor? Quem? Sabes e te recordas que morrerás? Sabes que as forças da tua mocidade um dia se dissolverão? Quem te amará quando tua pele já não for firme, cheia da queratina juvenil, e os teus olhos se parecerem com aquelas estrelas que explodem num último fôlego de luz? Só te beijará na velhice por amor quem hoje te beija por amor: porquê o sexo a partir de certa idade só se mantem, constante e verdadeiramente, quando as almas se gostam em seus corpos.

Tu agora plantas solidão. Ainda há tempo favorável para evitar que ela germine; porém, se te demorares muito, suas sementes logo haverão de brotar e se espraiarão nutrindo-se da tua fenecente aura; e quando crescerem — e elas crescerão ao teu redor — te encontrarás no centro de uma selva escura, a selva da qual fostes a culpada jardineira. A selva da oquidão: sem esposo, sem filhos, sem netos, sem bisnetos, sem o teu eu original pensado por Deus. Quem te dará o banho quente e confortável, quando ao menos da tua primeira cirurgia? (todos os velhos passam por cirurgias). Quem organizará a festa dos teus 83 anos? Quem te comprará flores em dias normais ou mesmo as recolherá do jardinzinho encostado na parede da garagem? Quem te fará chá fraquinho e açucarado aos sábados e café forte aos domingos? Não se trata, escuta-me, de ter apenas alguém que te sirva de babá para a senilidade corporal. Não, até porque tu também deverias (deverás, digo) sê-la. Trata-se da companhia querida e livre de quem tu amas e por quem tu és amada.

Quando hoje recusas um amor seguro e tranquilo, porquê preferes as paixões inconsequentes e tempestuosas, sabe, porém, que já recusas alegria em todos os teus anos a partir de amanhã. Preferirás que um estranho a quem pagues preço elevado te limpe as vergonhas? Que um desconhecido abra, por recomendação médica (e não para que tu vejas o brilho quente e amarelo do sol e respires o ar fresco da manhãzinha que traz os aromas da rua) a janela do teu asséptico quarto de hospital? Como te sentirás quando descobrires que todos os auxílios tidos serão feitos com indiferença rotineira por quem eventualmente te servir? Mais, ainda, pergunto-te: e quando teu coração te contar que todos não te devotam afeição alguma, mas que apenas cumprem (mesmo nos sorrisos cumprimentadores com seus sempre iguais bom dia, boa tarde e boa noite) com suas obrigações profissionais estabelecidas pelo Conselho de Medicina, pelas portarias regulatórias desta ou daquela categoria alinhadas com este ou com aquele estudo científico?

Repito, rumino: vê que de modo algum deves querer amar por conta destas coisas (o futuro solitário ou o futuro assistido); e sequer, e jamais, se ama por elas. Não se ama por estas coisas. Elas não geram amor — apenas produzem algum apego auto-centrado, egoísta. Na verdade, penso que o peso deste teu (por enquanto?) futuro necessário te sirva como “trauma” suficiente para fazer-te refletir sobre o amor. Não deves amar para ter qualquer dessas beatas benesses que relatei. Se amardes, tua as terás naturalmente. São consequências do amor tais gentis tratamentos, nunca causas. Do contrário, te apegarás ao bem-estar, e não a alguém que o trará porque necessariamente te ama. E nesta relação não serás sujeito de direitos, serás na mesma proporção — a inauferível mas conhecida proporção da eternidade — sujeito de deveres.

Medita. Receberás, no domingo próximo, a segunda carta.

Deste, que te quer bem.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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