Soneto V

Não te escreverei linha alguma nunca mais.
Este trabalho suadouro de rimas garimpar,
De fundir o metal dos versos e vogais limar,
Nunca mais, nunca mais sob estes meus ais.

Poesia que verte assim toda minha agrura
E que sob o manto do lirismo é tua tortura,
Nunca mais, nunca mais haverá de pagar
Com arte e louvação o desdém do teu ar.

Apenas as ricas frases para outras salvar,
Porque o elevado é anel para toda mulher
Cuja mão o coração do poeta sabe guardar.

Nunca mais, então, nunca mais o versejar.
Nunca mais o fino doce em dourada colher.
Nunca mais terás o quê às amigas mostrar.

Cinco nanocontos — II

Calçou sua meia de lã. O pé encontrou algo duro no fundo: era um ninho de mafagafos.

Um tiro para o alto. E a bala, voltou, três anos depois, com um ET muito irritado incrustrado nela.

A dançarina de flamenco não tinha castanholas. Correu ao museu e cortou os cascos do cavalo empalhado de Napoleão.

O cardeal, que ouvia a partida pelo iPhone, esqueceu-se do Pai-Nosso durante a Solenidade de Guadalupe e gritou: ¡Gol! ¡Hala Madrid y nada más!

Jurou que não trairia a esposa enquanto porcos não voassem. No dia seguinte, comprou uma vara e um manual de Engenharia Aeronáutica.

Esponjas de sol — XXX

  1. Nunca contei minutos para nada. De que serviria isto? Fazer contas constantes com o tempo, com seus números e vácuo, de nada serve para quem decide correr o “terrível risco” de entregar-se à vida para fazer frente ao tempo fátuo. O tempo é uma palha no agulhal, uma reserva de nada, um rabisco de escuridão enraizada na nuvem, um nada. Vive em Deus, apenas. É preciso que te importes com tua vida, mas cronometrá-la, sendo tu um filho dEle, que É Eterno, é fardo à toda, é imbecilidade, é matemática insubstancial, é nada!
  2. Se tu amas a Deus e tens com Ele uma vida em “jardim”, uma vida interior em que apenas tu e o Senhor dialogam (e da qual, então, está excluído o falatório mundano), a tua alma viverá em paz perfeita e constante. O Mundo desabará em sua própria loucura e ranger de dentes, mas tua alma estará de pé diante da tempestade, toda cheia de consciência e serenidade ensolaradas. Se tu amas a Deus, teu silêncio externo testemunhará este teu diálogo interno e, consequentemente (como é consequente que a água faça brotar a semente), levará consciência aos que te rodeiam e aos que te odeiam, aos que te circundam e aos que te circulam, aos que te escutam e aos que de ti se ocultam.
  3. Pode parecer besta como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, mas é isto mesmo: o sentido da vida é existir e o sentido da existência é viver. O teu desempenho metafísico tem valor à partir do fato de que és fato físico e o fato físico de que és ente tem valor à partir do teu desempenho enquanto ser.
  4. As branquíssimas luvas de arminho de Sua Majestade Graciosíssima estão manchadas com o sangue do pequeno Charlie Gard. Sangue carmesim. God save Charlie!
  5. Não é difícil reconhecer uma pessoa insubstancial. Quero dizer: uma pessoa de alma flácida, malemolente, espiritualmente desnutrida, superficial como verniz fino em tronco podre. Basta prestar atenção em como ela gasta o próprio tempo. É batata! E a tempo gasto com qualidade de modo algum refiro-me a “desportos intelectuais” (como leitura e demais modalidades olímpicas da Alta Cultura). Tempo bem gasto é tempo em que a pessoa faz bem verdadeiro a si e aos outros — de dormir corretamente a obedecer conscienciosamente à Lei de Deus, de trocar de canal ou desligar o celular quando baixarias de qualquer tipo vêm tomar atenção a dar um copo de água bem cheio e fresco a um mendigo, de não comer porcaria antes do almoço a não passar os finais de semana mergulhado na lama baladístico-rivotrilizada do mundo. Uma pessoa substancial em si condensa, ao mesmo tempo, autodomínio e destemor, serenidade e galhardia, profundidade e bom humor. Uma pessoa substancial empenha sua vida em ser melhor segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia…
  6. O orgulho das próprias misérias é, de longe, o maior sinal de degeneração espiritual. A pessoa vive irritada e cheia de inquietude, com a alma cuspindo sangue e pneuma, não tem paz consigo e com os outros e, transbordando a própria concupiscência, ainda é iniquamente capaz de rir da retidão e da santidade, debochando [petulante e acidamente] contra a Lei de Deus e Seu Sumo Bem e ostentando soberbamente seus pecados como se estes fossem douradas medalhas de honra ao mérito. Pois é… O Senhor mesmo deu a dica: “pelos frutos os conhecereis.” Mais ainda, disse o Cristo: “Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” (Lucas 6:25)
  7. Quanto mais tu entregas tua vida a Deus, mais tua vida a ti mesmo pertence. Quanto mais tu te submetes aos desígnios do Senhor, mais teus próprios desígnios te fazem livre. Glorioso paradoxo!
  8. A Fé em Deus é a gotícula d’água que me inunda, e que por imersão me batiza o tempo todo.
  9. De decepção em decepção, bom Mestre, ensinaste-me a distinguir no firme a ilusão e na mais concreta rocha o núcleo de dispersão.
  10. Entre as visões dos olhares, entre os sorrisos das bocas, entre as coisas sãs e loucas, entre os deuses e os versos, entre qualquer coisa e nada, entre o espírito o os nervos, entre a alma e os intestinos, entre os lírios e as daninhas, entre a janela e o sétimo céu, entre o cérebro e o sanitário, entre tudo e todas as coisas, uma voz meiga vocifera: eu.
  11. O homem que, quando menino, nunca sonhou-se senhor dum castelo, talvez nunca será, adulto, senhor da própria alma. Na infância, enquanto cavava meu fosso e erguia minhas muralhas e torreões à partir da terra molhada retirada no fundo do quintal, eu marcava meu espírito com estas idéias de soberania e liberdade, de valentia e consciência, de luta e paz, de tempo e eternidade. O homem que, quando menino, nunca foi senhor dum castelo, nunca será, adulto, senhor da própria alma.
  12. Um flautim tocou solitário ao meio dia. / Se fosse à meia-noite, haveria contexto. / Mas, não: escolheu o pico do sol e soou. / Soou para anunciar o toque da trombeta.
  13. Sem Deus, nada que é humano pode por si mesmo se sustentar. Do ritmo pulsador do coração aos sentimentos do coração, tudo vira poeira ou cimento (quer dizer, esvai-se para além da própria natureza nas suas opostas possibilidades de ser) se não está lá o Senhor para harmonizar em unidade orgânica e fecunda o espírito à alma e ao corpo. Por isto, bem-aventurado é o homem que “constrói sua casa [sua unidade de consciência] sobre a rocha” (Mateus 7:24) e que é “árvore plantada junto às águas [que bebe da água da vida constante e permanentemente, quer dizer: que se nutre da Alma Divina], que estende as suas raízes para o ribeiro” (Jeremias 17:8). Não à toa, está escrito: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:15). Sem Deus, tudo que é humano não pode por si mesmo se sustentar.
  14. Escolhe Deus, e a boa dúvida carcomerá todas as tuas falsas crenças — exceto a Fé, real e racional como o teu eu. Escolhe a Esperança, e o pessimismo que mórbido espera o Fim e o teu fim se desfará ao mínimo sinal do sol particular do teu coração quando ele vier abrasar teu ser. Escolhe o Amor e, então, as afeições egoístas e os afetos desordenados e as proporções plúmbeas da tua alma se desfarão em justo sentimento espiritual. Escolhe o Céu, e a Terra perseguirá teus rastros, farejando a vida que escapará de cada existente pegada que caminhardes rumo à Sião. Ora, assim, ao Pai: teus olhos volvei nos meus, Senhor, porque eles despregam as escamas de Treva — estas armaduras de ceticismo! — que me impedem de ver, de olhar, de reconhecer o Invisível.
  15. Alguém disse: “Niilismo é coisa para crianças.” CARAMBA!!! Niilismo é coisa para adultos. Que miserável, desgraçada e infeliz criança já concatenou a densidade oca de um “Assim falou Zaratustra”? A negação do soninho primordial às 15h, o ódio racionalista ao vácuo da Ruffles no recreio, a dúvida pós-cartesiana do “amigo invisível”, a dubiedade entre as versões de mamãe e vovó acerca da natureza metafísica do bicho-papão à hora da cantiga de ninar, enfim, a incerteza de comer papinha sem saber da molecada somaliana, de dormir pra caramba sem saber o que é ansiolítico, de brincar com soldadinhos de chumbo sem saber de Auschwitz e Treblinka? Não. Niilismo é coisa de criança que nasceu adulta e que, por isso, precisa ser mais criança. O Niilismo, filosoficamente, é uma desgraça existencial (uma desgraça muito mentirosa, não obstante a atratividade que exerça sobre espíritos menos ontológicos e mais suspensos). Mas, é coisa de adultos.
  16. Os heróis são estátuas vivas. Apesar de todos os movimentos do corpo e da alma, neles predomina a pausada segurança da Eternidade: parecem estar postados e parados diante dos mares humanos e das tempestades divinas, mas apenas parecem estar postados e parados. Imagem de resolução e sabedoria estáticas, eles vibram tão rapidamente de um ponto a outro [ida-e-vinda do ser-no-ente] do próprio espírito que parecem estar centralizados altaneiramente sobre o globo, plantados e enraizados na terra. É “ilusão de ótica”: eles estão estatuados porque estão, a todo instante, se auto-esculpindo num velocíssimo ziguezague imperceptível. O herói não estagna, temeroso, diante do desafio. Este é o proceder do estúpido que faz-se inerte diante do colosso inimigo. O herói, valoroso, conscientemente escolhe fazer frente a quem e àquilo a que se lhe opõe. Os heróis são estátuas vivas que, mortas, tornam-se estátuas (em bronze, em granito) da vida e… por isto também se movem.
  17. A suavidade das lânguidas mãos da amada

Deixou do cálice dourado três gotas cair.

Titubeou té da borda reluzente se ir esvair.

Um’a terra absorveu. Outra da boda o altar

No alvo tecido sorveu — linho cor de marfim.

A terceira, lanceada, esta pousou em mim:

Na língua que o pão já havendo ceado ali,

Foi descansar do sangue a sua vera parte.

E aqui, nestes versos, celebro-a em arte.

Oh, doce gota do espinho em dor vertida,

De Adão a velha sede cessou no coração.

O eu que me destes é Tua maior adoração.

  1. Não há dúvidas de que, popular e culturalmente, o Nazismo cresceu sobretudo em solo protestante. Por que? Ainda não sei. Perda do místico diário? Talvez.
  2. Uma das coisas mais imbecis no “jogo do amor” atualmente dominante é o fato do interesse amoroso ser aguçado ou despotencializado com base, justamente, no grau positivo ou negativo de interesse do outro. Explico: se aparenta ter sido “fácil” a aderência à pessoa, esta desconfia do apego e o repudia empinando o narizinho com um ar do tipo “se gostou de mim, boa coisa não é”; porém, se se distrata e se desdenha com boas doses de desprezo (então, é-se “difícil”), ela imediatamente fica gamada e, com o rabo entre as pernas, se humilha e corre atrás porquê “se não gostou de mim, boa coisa é”. Esquisita necessidade de rejeitar quem aceita e de aceitar quem rejeita. Em suma, entre bestas quadradas, fazer-se de difícil ou parecer-se fácil afeta completamente o julgamento do outro — atraindo ou repelindo. É um julgamento irracional, que descarta por atacado sem crivos de realidade individual, como se o valor da possibilidade de relacionamento repousasse neste “cartão de ouro” cujo maior preço é o da mais bem teatralizada repulsa e cujo menor preço é o da abertura menos dificultosa ao amor (o da atração pura e simples). Balzac nos ensina: “Parler d’amour, c’est faire l’amour.” O que é, é: age por que é e não reage pelo que não é. Conselho oportuno: menos orquestração abstrata de carências (entre baixa e alta auto-estima soberbas) e mais realidade afetiva e efetivamente palpáveis, pessoal.
  3. Em tempos de correção, o Brasil deveria bombardear Míraflores e todas as bases-fortes principais venezuelanas. Sic semper tyrannis! [5.8.2017]
  4. Refazendo Mateus 21:13: “A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de arquitetos.”
  5. A beleza de uma mulher boa aguça e potencializa, com amor, a inteligência do homem. Eis a “mousa” (a musa). A beleza de uma mulher má faz imbecil, com paixão, até o mais elevado gênio. Eis a “femme fatale” (a mulher fatal). Estão aí toda a Literatura e História dos milênios humanos para prová-lo abundante e fartamente. A beleza, então, que é, em matéria de atração, senão uma consubstanciadora do espírito? Da “bela viola” haverá de sair boa música e o “pão bolorento” será dado em ração aos porcos. A boa irá, contigo, viver até que a morte os separe; a má, contigo e talvez com outros, mastigará teus anos até que a existência os separe. Salvação e perdição pela beleza.
  6. Um pouco triste sempre serás se teu coração a verdade quiser deter. Mas, olha, que a alegria viverás mais que todas as gerações ao nascer. Um pouco triste sempre serás se teu espírito afiado e decidido viver a guerrear contra o vil Satanás. Maior gozo e júbilo é em paz morrer.
  7. O barco viking é uma iluminura de madeira.
  8. O Estado não compõe o Estado. A Sociedade, esta sim, é chamada a compor o Estado. Por isto, também contra o financiamento público de campanha.
  9. Para o gênio, aprender o errado é dificílimo. Ele se parecerá com um asno dos mais chucros quando tentarem lhe ensinar besteiras e tolices escolares e universitárias — por mais alegadamente “científicas” e “acadêmicas” que elas sejam.
  10. Nimrod, de Elgar: partícula de Eternidade que calhou desabar no Tempo, música-tema para um sermão sobre o Kairós na vida de santos e heróis.
  11. Não restará uma única basílica, uma única catedral, um único santuário, uma única igreja, uma única capela quando vier o “Dies Irae”. Os afrescos da Sistina se despregarão do teto ardente, o Muro dos Reformadores cairá para não se levantar, a Hagia Sophia se auto-implodirá como Jericó, enfim, todo velho altar nosso se desfará para que venha “Siló”. Nosso coração arde de zelo pela “Casa de Deus” — pelo templo –, mas tudo isto é aqui figura passageira. Tudo se fará novo um dia. Antíoco sacrificou um porco no templo. O Inimigo sacrificará o próprio templo. Recorda, recorda.
  12. O mundo é uma espécie de bolha de pedra, que infla petreamente, e que vai estourar petreamente.
  13. A vida não se compromete com quem corre de compromisso. Se tu queres viver, então, corre de quem corre de compromisso. Corre quando te forem ofertados apenas uma noite, apenas um fim de semana, apenas algumas semanas, apenas uns meses, apenas um ano ou mesmo apenas um bom punhado de anos: corre quando te forem ofertadas algumas miseráveis e esvaentes calendas da existência. Corre de quem não quer “viver a vida” toda amorosamente comprometida, porque não quer entregá-la definitivamente à outra vida — e, então, fazer de duas vidas uma só vida para sempre. Corre, porque nada que valha a Eternidade tem o começo tão próximo do fim, com prazo de validade materialmente prescrito feito rótulo de comida congelada. Sem compromisso (com juras de boca e de coração) que almeje passar do mármore quente do altar ao frio granito do sepulcro? Corre! Sem compromisso (com juras em ações e reações) que deseje desgastar vagarosamente o ouro da aliança na pele do dedo anelar envelhecendo? Corre! Sem compromisso (com juras para si e para ti) que entronize o amor a Deus como avalista permanente do amor conjugal? Corre! Quem não se compromete para o amanhã, anota, apenas promete o hoje. Compromisso é lealdade, sabes? Corre como Forrest Gump, corre como Fidípides, corre como deve correr o atleta cristão. Dura é esta palavra: a vida se compromete com quem corre para o compromisso.
  14. O mundo, senhoras, deveria estar assim organizado para o valor vos louvar, mas as trevas e a ignorância e também a ânsia da maldade, do pecado e da amorosa injúria, arranca da maioria imensa a merecida loa. Pois aqui este homem vil e à toa eleva rimas e versos à vossa formosura.
  15. O porco e a jóia de ouro, o porco e as pérolas: a comparação entre o baixo e o elevado, entre a miséria e a riqueza, entre o pecado e a virtude. Mas, será metal dourado o tal ouro e branco-prateada a pequena bolinha preciosa? Não. É seu inverso: é a terra úmida e fértil, a terra que não é o barro lamacento… do porco! É a humanidade original resgatada: o rio passa sobre o leito, mas, onde o chão de pocilga?
  16. Eu ouvia já tantas belas palavras, mas qual haveria de comover-me se tanto virtuosismo e preciosismo atiçavam-me com retórica e desejo intelectual sem o mínimo traço de sinceridade, sem o mínimo rastro de espiritual verdade no coração? Do púlpito, Senhor, tanta grandeza arqueológica, tanta apologia científica, tanta prova e indício e sinal de que o Escrito era sim realidade. Mas, Senhor, onde Tu? Onde, naquele jogo bonito de fraseados com seus efeitos tão potentes à emoção, Tu? Onde? Em vão eu Te procurava nos testemunhos da lógica racional. Crente, não duvidava. Mas, duvidava: porquê incrédulo no âmago do que dizia-se de Ti e do Teu passeio por aqui. Sabia-Te existente, o Ser. Mas, onde Tu? No grego da semântica, no latim da acepção, no aramaico do vernáculo — não estavas. Eu Te encontrei, Senhor, naquele dia em que oito mãos ergueram o caixão de meu avô e sob o velho sepulcro depositaram um antecessor de meu pai, um antecessor meu, um antecessor que será de meu filho que um dia vem. Reconheci-me no pó de carne fria, de sangue frio — pó frio. O Teu plano de salvação para os dois anos de meu avô, o Teu plano de salvação para as muitas décadas de meu pai e o Teu plano de salvação para toda minha vida. O silêncio da beleza fúnebre converteu-me. Ali a ressurreição fulgurante; e ali pude tocar tuas chagas, oh Senhor de mim e Deus de mim. Então, naquele tempo de quatro velas e coroas de flores e lágrimas mal colhidas em lenços amarrotados, a Tua voz que eu não podia escutar no púlpito dos doutores, na sala-de-aula dos mestres, no valado igrejal dos pastores, a Tua voz eu escutei: Vem para fora!
  17. Apenas a luz reconhece (e pode conviver com) outra luz, enquanto as trevas entre si mesmas se desconhecem em cegueira dual e antagônica (porque nenhuma treva é igual à outra e uma escuridão não pode se ajustar à outra). A luz que encontra a treva ou a ilumina, compartilhando de si a incólume partícula flamejante capaz de acender fogo no breu vacuoso, ou se desnuda, fulgor a fulgor (penumbrando-se, ao mesmo tempo), até que acabe também treva. O “jugo desigual” referido por São Paulo em II Coríntios 6:14 é isto e só isto.
  18. Conforme tu avanças na vida espiritual, tu avanças em discernimento acerca das coisas visíveis (a humanidade, porquê horizontal, entre elas está) e invisíveis (aquilo que tem poder, vertical apenas, sobre a humanidade). Compreenderás a profundo — o interno — as coisas que afetam o homem pelo que ele mesmo é e compreenderás a fundo — o externo — as coisas que afetam o homem para ser o que ele ainda não é (divinas e boas ou demoníacas e más). Então, decifrando-as sob a tutela do Espírito Santo, tu te tornarás um enigma para todos. O chaveiro exímio tem chave para todas as portas, mas ninguém tem a chave que abre sua porta, a porta da chavearia. A tal lugar se chega quando, primeiro, tu sabes quem és. Como Quixote, tu deves antes verdadeiramente dizer “Yo sé quién soy” para que, então, depois, efetivamente digas: “Eu sei quem sois!”. Recorda, a propósito: “Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.” (I Coríntios 2:15)
  19. A medida que se perde o alto sentido de Deus, o homem perde seu próprio sentido interior e, então, se entrega à busca dos baixos sentidos no mero nominalismo que o mundo exterior chama “sentido”: o nada, o nada excruciante.
  20. Moço, moça — jovens do Senhor: é preciso que tenhais a coragem salvadora de mirar nos olhos de quem vos enamorais e, então, em breve ultimato espiritual, dizer: se tu não amas a Deus, não poderei amar-te!
  21. Cristo crucificado, Cristo morto, Cristo ressuscitado: espírito, alma e corpo.

Provérbios à moda salomônica III

  1. Quando dança o sábio lhe tomam por louco, mas dançando o louco ninguém presta atenção.
  2. Quando desce o sol, desce também o trabalhador à sua cama. Mas o preguiçoso com a lua põe-se de pé.
  3. A morte do justo pranteia o justo, mas morrendo o iniquo pranteia todo o povo.
  4. Aborrece seu pai e entristece sua mãe o filho que não deseja para si gerar filhos e filhas.
  5. Um prato de dor é o adultério: um pão suave de formas, mas que ao paladar é sangue pisado.
  6. A voz do arauto não será ouvida quando invadirem os inimigos se sua boca a todo tempo profere mentira e diz “foi brincadeira”.
  7. Doce é a uva e amargo o fel, mas o profeta ao amargo prefere quando deve guardar-se das corrupções da mesa do rei.
  8. O canto da congregação alegra os justos, mas aos rebeldes enche de furor.
  9. A palavra do justo empenhada diante do profeta mais vale que todas as reses do rei no altar do sacerdote.
  10. Se dormita o vigia, perece todo o povo; mas, se dorme todo o povo, perece o vigia e também todo o povo.

Poesia-proseada V

Querer quieto o dia como é quieta a noite, ansiar por nuvens acinzentadas sob o sol. Esperar pela morte diária do globo de luz, porque a cor de prata para a lua foi feita e em meio às trevas sequer a vela desejo. Escuridão ampla, integrada à toda canção, organicamente presa à partitura escolhida. Tocar para Helena este Adágio de Albinoni e tocar em seguida a Fantasia de Vaughan. Querer quieto o lar ao crepitar da madeira, que o dourado consome em paz na lareira: o fogo, antiga fagulha da tocha do Olimpo, aquecerá apenas os pés que se irão à cama, porque estes dois corpos, de Adão e sua Eva, serão duas brasas salvas do antigo e frio altar, do antigo, frio e apagado altar da melancolia.

Provérbios à moda salomônica II

  1. O vinho alegra o coração do sábio, mas confunde o pensamento do insensato.
  2. Sepultura para sua família é o mal proceder dos seus moços.
  3. No caminho do jovem há deleite quando seus passos avançam pela vereda dos antigos.
  4. A jornada do iníquo logo acaba no deserto, mas a peregrinação do justo aí se inicia.
  5. Mais puro que a água das montanhas é o coração daquele que teme a Deus e guarda seus estatutos.
  6. Quinhão de formosura acrescenta à própria beleza a mulher que teme ao Senhor.
  7. Na reta senda da justiça caem as pedras dos maus juízes.
  8. O fruto doce que se colhe antes do tempo constrange a língua e enfraquece o corpo.
  9. Flor que não desabrocha é a reta intenção que a concupiscência desorienta.
  10. Como voz solitária entre trombetas altissonantes é o conselho do velho sábio exilado em corte estrangeira. Mas, a ela o rei escuta.

Diário em Midgard — XV

Não encontro mais papel. Nem que o encontrasse poderia escrever. O último carteiro, que acaba de se aposentar, entregou-me sua última carta. A última que ele entregou e a primeira que eu recebi, como resposta das tantas que enviei. Mais, ainda: foi esta a última carta que chegou, pelas mãos do capitão-general dos Tércios de Ir-Rakia, na estação dos correios da aldeia. “A estação dos correios cederá lugar a um jardim suspenso”, disse-me. A fabricação de papel (fiquei sabendo no último minuto da 11ª hora) foi encerrada por ordem da primeira deliberação universal tomada pelo Conselho, há pouco mais de dois milênios.

Deixei para abrir a correspondência depois do almoço. Pego a pequena lâmina de prata dourada e ponho minhas luvas de caçador; afinal, será esta a última vez que um envelope — e trata-se de um grande envelope — será aberto e que um selo será cerimonialmente quebrado. Corto o espesso papel do envelope. Quebro com os polegares, bem ao centro, o selo vermelho cujo desenho é uma cruz semeada de doze estrelas. Jogo a cera às brasas que cozem o permanente ensopado de favas vermelhas, primeiro prato em todo jantar meu. Puxo para fora a folha única que saiu do envelope. Ora, é uma folha limpa. Nada vem nela escrito. Mais branca que a sétima neve do inverno.

Que digo? Olho fixamente para o papel. Viro-o pelos quatro cantos e pelos dois lados. Levanto-o em direção à luz. Talvez ao alto, mais próximo de Lá, ele me diga o que agora não diz. Sim. E diz! Ele diz. Eu vejo, vejo e leio o escrito: “Alpha et Omega”. Letras desenhadas em traços austeros (algo entre runas e caracteres romanos, mas como que sulcadas à moda cuneiforme — mesmo que tenham sido pena e tinta que as tenham deslizado no papel), que se esvaem, que estão se esvaindo, que desaparecem, que se consumiram etereamente. Olho ainda fixamente para o papel, agora limpo de qualquer texto na sua textura física mais gradualmente oculta. Aproximo-o da lâmpada. Nada.

Tomo, nas mãos, a idéia que há muito intuo: o Senhor está separando esta terra de todas as porções vivas do Universo. Não uma separação física em que matéria se aliena de matéria, uma dissenção meramente concreta que empurra todo o resto ainda mais para fora. A aldeia, gigante galáxia no mapa estelar, não ganhou suas próprias muralhas espessas como tinham as outras terras. A separação ocorre, agora, porque todo o mais já não é. Tudo se fez novo. A idéia, esta idéia da aldeia, eu a depositei em versos na primeira página de minha primeira carta. Sei que aquela página é um dos lados desta folha. Afinal, para que precisamos de papéis, de folhas, de pergaminhos, de livros, de registros, de diários, de lugar onde por palavras quando aqui, tudo, está na Palavra?

Eternidade etária

Quando eu for velho, continuarei antigo como agora. Mas à minha antiguidade que me persegue desde o ventre, Deus somará a alegria de criança de barba branca, de menino de pele sulcada e sem melanina, de moleque de chapéu e bengala. Quando eu for velho, serei um velho que ainda juntará suas pedras, um velho que terá escalado as pirâmides dos egípcios e dos maias, um velho que porá no embornal os seixos colhidos no Jordão. Quando eu for velho, serei novo talvez pela primeira vez: sábio e falsamente desentendido das equações do calendário, farei de conta que os feriados são eternos e que a aposentadoria é uma seroada de fim de expediente que apenas começou e que durará pelo menos sete floradas da Youtan Poluo. Quando eu for velho, beijarei minha velhinha-mocinha até que ela perca o fôlego e careça de respiração boca-a-boca, até que ela rodopie e rodopie como na noite em que uma valsa mal executada fez com que ela dançasse feliz como se tocassem Strauss, até que a lâmpada se acenda pelas noites e as cortinas sejam fechadas pelos dias. Quando eu for velho, ah!, quando eu for velho, serei o mesmo homem de sempre.

Poesia-proseada IV

Tu não viste ainda lágrimas a tornam-se sal, tu não enxugaste ainda pequeninos cristais dos olhos sofredores de santos esquecidos. Ah, velha criança, ide aos bairros marginais, ide ver o caixote onde jaz o humano animal, onde cada suspiro é o mais lúbrico martírio. Eu vi, onde o horizonte não é de terra e sol, onde a refração das cores é o cinza visceral. Eu vi que os lenços são retalhos do sudário, mas também vi que uma luz brilha e brilha. Eu vi a luz, meu filho, a luz que me iluminou! A luz das sarjetas pútridas, dos cegos no frio, a luz das trevosas canções dos párias caídos, a chaga, a lepra, o tumor, o cancro, a latrina. Tudo, tudo na lágrima maior que tua matilha, tudo na gota-água doce e salgada dum olhar.

Três trechos do conto “O Domingo Eterno”

(I) Deixa estar tudo o que não deve ser, como o barquinho de papel no mar. Sopra com teu fôlego puro e consciente esta nau de velas douradas — teu último poema.  Sopra dobrinhas na água para que se vá em silêncio e o papel se desmanche longe dos teus olhos. Deixa estar tudo o que não pode ser, como estas rimas tão preciosas, estas palavras tão bem arranjadas no papel que se umedece, que se rompe, que se desfaz.

(II) Helena me dizia que as maçãs-do-amor do parque eram as melhores, que elas tinham uma doçura equilibrada, um paladar harmonioso. Helena me dizia estas coisas, estas coisas de sabor e talvez de amor, enquanto se deliciava com a fruta macia guardada na casca de açúcar. Minha alegria nestes dias (que eram noites) era vê-la comendo-as. Helena me dizia que quando comia sozinha sentia-se sem apetite e mal, que todo o sabor dependia não da mão abençoada da cozinheira, mas da minha companhia e da alegria dos meus olhos em vê-la comendo.

(III) Tomei minhas duas filhas pelas mãos e girei-as no meio do jardim, onde ficava a fonte. Ester e Rebeca riam e sorriam e gargalhavam como se os céus tivessem concentrado toda a alegria do cosmos naqueles giros, como se o próprio Deus tivesse arrancado um poucochinho do girar dos astros e concedido às minhas mãos o ímpeto dos planetas, agora desacelerados. Girei-as leve e rapidamente, girei-as como se a gravidade estivesse suspensa e apenas as almas das minhas duas pequenas flutuassem sobre o canteiro de rosas de minha mãe, sua avó.  Agora, que lembro disto… Agora, olho fixamente para os olhos destas minhas duas já também avós e da outra que veio mais tarde e para os olhos de meus dois filhos que vieram ainda mais tarde, como que mirando as estrelas que ninguém mais viu depois que a espada passou a guardar não só a terra, mas também o céu delimitado pelos muros do Éden. Já posso ir em paz.

Provérbios à moda salomônica I

  1. A faca de ouro destroça a espada de prata, mas o gládio de bronze com ambas arrebenta.
  2. Como vento sobre o roseiral, assim é a respiração do justo quando tomado de cólera.
  3. A gargalhada do iníquo, a risada do gentil e o sorriso do justo: água da mesma fonte.
  4. Como um pequeno buraco no casco de um grande barco, assim é a nódoa no espírito do príncipe.
  5. Brasa vermelha na língua do falador é o boato que dele se espalha.
  6. Como águia cega no alto da montanha, tal é o homem de ciência sem sabedoria.
  7. Como fonte de água salobra que engana a semente, tal é a língua do astuto que do engenho das suas palavras persuade o símplice.
  8. Mais alto que a montanha mais alta é o pensamento do homem cujo pensamento é seu trabalho.
  9. No caminho escuro e vazio encontraram-se a tocha, a lâmpada e a fagulha. Qual delas é a maior?
  10. O rico e o pobre trabalharam juntos durante toda a ceifa. Assentaram-se, depois, numa mesma mesa. Um pão da flor da farinha para o rico e um pão de cevada velha para o pobre. Ambos se fartaram.

Esponjas de sol — XXIX

  1. Tu exercitas teus pulmões e mergulhas no profundo mar para — sob o risco de morte, na dor do ar que te petrifica a respiração sob a pressão das águas frias — recolher tantas centenas de conchas e entre estas colher uma ou outra dezena de pérolas para cuidadosamente obrares um refinado colar para a mulher que tu amas. E ela, que faz, galardoada? Joga o precioso presente a um canto, enquanto muito se exaspera desejando as ordinárias coleiras caninas que outros lhe vendem caro. Está aqui o significado da exortação evangélica que manda não deitar pérolas aos porcos. O Senhor quer que gastes tuas forças em tão bela e heróica empresa. Não quer Ele, porém, que tua dedicada obra seja rebaixada à condição de bijuteria suína.
  2. Não gastarás tua poesia com quem tem alma de lama. Não gastarás as belezas do teu espírito com quem compra molduras para a feiura do mundo. Não gastarás tua voz que ora aos céus com quem se deleita em ouvir a gritaria da terra. Não gastarás teu olhar que terno transpassa o cosmos com quem apenas vê globos oculares lascivos. Não gastarás teu amor com quem mastiga afetos como Baal canibalizava os fetos hebreus. Não, não te gastarás com quem quer passar pela vida como a frouxa flatulência duma hiena moribunda à meia-noite. Não gastarás tua vida que aspira a Deus com quem respira o enxofre do próprio eu. Não, não te gastarás com quem não quer escrever a história própria e do mundo e, antes, prefere apodrecer junto ao calendário que a existência a todo tempo troca. Não. Não gastarás. Não te gastarás.
  3. Muitas das coisas mais bonitas e gostosas desta vida são as coisas que menos parecem deter beleza, que menos parecem ser capazes de gerar gozo. Digo, então: só quem está atento aos pequenos detalhes e minúcias do dia-a-dia é capaz de fruir certas delícias existenciais. Uma pequena lista, minha: o café que minha mãe passa às 6h, o som da voz das pessoas que quero bem, a lambida da cachorrinha e o afago ronronante da gatinha, o caminho semeado de cheiros (a construção, a praça, a padaria, o rio) até o trabalho, o bom dia sincero e o bom dia insincero (este último, me ajuda a melhorar até extrair da pessoa gentileza verdadeira), etc, etc, etc. Só vive entediado quem é incapaz de obter poesia extraordinária da prosa ordinária.
  4. Senhor, minha igrejinha é uma catedral. Está lá, no velho púlpito de madeira, a cátedra donde o Espírito doutora. E o alfarrábio do teólogo acaso sabe que no coração daquela senhorinha gemem mistérios dourados e loucos? Eu vi, Senhor, quando o pardal voou por cima das cabeças nossas e pousou no tanque de batismo de fria ardósia. Eu vi, Senhor, porque os olhos da ave, mirando a ceia na mesa toda posta, correram pelas ovelhas e se fecharam. Quem já viu passarinho com os olhos cerrados? Quem já viu a meditação de um serzinho de asas? Senhor, minha igrejinha é uma catedral. É uma escadaria de poucos degraus que me arremessa, feito estilingue de luz, para a terra suspensa no ar.
  5. Se uma coisa aprendi até agora, é que, em amor, fugas físicas (de passos para trás a caretas) correspondem justamente ao oposto do que materialmente parecem demonstrar: são sinais de paixão contrariada.
  6. Todos nós temos fome. Mas, o principal sobre a fome é a comida. É, própria e especificamente, o valor nutricional e prazeroso da comida. Veja: tu estás com uma fome avassaladora que te prega o estômago nas costas, uma fome felínea de leão jejuando no deserto. Aí, vem o capeta e te oferece todos os cachorros-quentes que tu podes comer (com Coca-Cola) em cinco míseros minutos. Comê-los implica, anota, em pagar seu preço: tua bússola. E a vendedora é uma sensualíssima capetinha de rabo vermelho! Porém, a sete quilômetros de caminhada está o sítio confortável, está a aldeia onde está o poço em que Rebeca retira água, está a mesa dos parentes diariamente cheia de arroz, feijão, ovo frito, bife, bata frita, salada de alface com tomate e suco de limão. A sete quilômetros do hot-dog do tinhoso está Rebeca. E Rebeca está, bem-aventurada, à mesa. Esta é a minha metáfora sobre amor e fidelidade.
  7. A genialidade dispensa bibliografia. Ela apela ao Real, não à estagnada manuscripturação da realidade como argumento para provar a si mesma.
  8. O Anticristo é a sombra de sua própria sombra.
  9. O caminho antigo que contei a ti / Quando íamos juntos pelo Minho, / Ele antevê o futuro final que vem / Quando o começo ainda é vazio.
  10. Os poucos pássaros que vi revoarem o céu / Corriam para o Leste em fuga do novo breu. / O colorido das penas em relance desapareceu / Diante do sombrio cinza que cindiu todo eu.
  11. O espelho mostra o que tu de ti demonstras.
  12. Tu, que não tens a Deus do nascente ao poente; tu que não tens a Deus desde quando soubeste que algo em ti te magnetiza em direção às coisas que acontecem nos céus, porque decidistes volver para baixo, para a terra, os olhos; tu que não apanhas da Eternidade um pouca da paz iluminante nestas borboletas depositadas, antes, caças os escaravelhos mofados nas tumbas antigas. Tu… és um louco!
  13. Para cada passo, um caminho de quilômetros se abre. Não decidirás por impulso, portanto. Mede teu pulso, mede o latejar das tuas sinapses, mede o espaço entre uma pegada e outra. Para cada passo, um caminho de quilômetros (talvez perigoso atalho) se abre. Não decidirás, portanto, impulsionado por corridinhas que serão maratonas ao cabo, infusionado por carreirinhas que serão peregrinações ao final. Para cada passo, um novo destino se fixa.
  14. Quando a Basílica de Santa Sofia / Voltar para o Altar de Cristo Jesus, / E quando na Terra de Santa Cruz / A Constelação roer no pendão o lema, / O Deus dos Exércitos nos dará a Guerra.
  15. O Credo de algumas igrejas há muito que superou em loucura o Credo dos Apóstolos do “Not the Nine O’Clock News”…
  16. O Manuscrito Voynich me parece ser uma peça de erudição criativa que amalgama ocultismo cientificista, alquimia, cabala e ficcionismo imagético-literário. De modo que apenas quem o escreveu saberia dizer-nos o que ele significa ou o que não significa ou mesmo se ele significa, propriamente, alguma coisa além dum engenhoso organismo semiótico.
  17. Tu, que sonhas sonhos tão altos, não percebes tua tolice? Tu não vês que o olhar humano não poderá romper os céus? As estrelas e a lua ao centro do teu coração, apaga da alma! Apaga enquanto a ilusão não te encarcera no calabouço das nuvens, apaga enquanto a sublimação não te arrasta para o lírico sótão abissal. / Eu, que sonho sonhos tão altos, percebo a tolice da tua razão. E vejo que meus olhos cortam os siderais do infinito ao além. As estrelas e a lua ao centro do meu coração iluminam-me a alma. Ilumino para que não haja “enquanto”, para que ele dure como o castelo do conto; ilumino para que o momento seja eterno como os corais da Natividade, que ainda cantam.
  18. É próprio do amor fazer tolice, mas não é próprio da tolice ser amorosa.
  19. Há muito de errado com um mundo onde a poesia já não toca o coração das mulheres e onde o heroísmo já não move o coração dos homens. Há muito de errado com um mundo onde o encanto, o charme e os olhares versificados já não entram no jogo da conquista. Onde as damas? Há muito de errado com um mundo onde a valentia, a honra e a dignidade não fazem do homem um sujeito pronto para os combates épicos. Onde os cavaleiros? Infelizmente, as mulheres estão dispensando a corte dos generosos de espírito em benefício destes farrapos humanos que mal conseguem galináceamente piar nos terreiros azonados da existência. Infelizmente, os homens estão dispensando a virilidade espiritual em detrimento destas hedonistas pseudo-conquistas boiadeiras, passat-rebaixadeanas e funknejas da existência. Há muito de errado com este mundo — que não quer viver.
  20. Quereria ensolar-se nos prados frios, / Sabendo que o gelo é pai dos calafrios / E que o gene do calor não é da estrela / E que o ancestral do fogo não é o sol.
  21. Dela amei a sombra grandiosa, / O potencial dourado e fulgente, / Aquilo que nela era pura luz. / Outra trigueirinha escuridão…
  22. O vai-e-vem da vida são badaladas de améns ao Pai. Tu és um sino.
  23. Pensamento existencialista dum profeta: O conhecimento das coisas que ainda não são, não terei jamais enquanto respirar aqui, aqui. É preciso que meu espírito se exercite quieto entre o relógio e os quereres dos que vivem. É preciso que meu espírito caminhe silencioso até que descubra em si mesmo a final canção.
  24. Não argumentarás com energúmenos.

Poesia-proseada II

Tua mente que não minta para ti quando indolente a bela menina insinuar amor onde habita paixão. Porque este fogo que logo s’esvai, esta chama que a labareda mata, não pode cozer tua antiga receita. O inflamado vermelho ela cultiva para queimar teu corpo e o tostar, para calcinar tua carne em torrão. O amor, esta brasa permanente, é o calor são que mantém a vida e alimenta quem põe anel na mão.

“[…] vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.”

Estava assistindo a um vídeo no Youtube. Josemaría Escrivá fazendo uma bonita preleção. Calhou de ele citar Colossenses 3:3 em latim. Vamos lá. As nuances semânticas do texto latino são muito mais ricas que as traduções portuguesas e, graças à erudição de Jerônimo de Estridão, elas captam integralmente o grego koiné autorial. Em português, a totalidade de significados do texto quer dizer isto: “A vida real-e-verdadeira de vocês está seguramente escondida [e custodiada: guardada com zelo] com Cristo-em-Deus.” Vejam que precisamos nos valer de muito mais palavras para expressar o significado que o texto paulino latinizado revela com apenas oito. Adiante. Fala-se de vida como consciência agente e qualificada diante da Realidade. A conotação é de privacidade e segredo, como que falando da vida do cristão em similitude com um jardim fechado (logo, trata-se de uma vida interior), fazendo desta um “Éden” particularíssimo onde Deus vem passear às tardinhas e onde acontecem diálogos diretos circunscritos apenas a Ele e ao fiel. Diá-logos, em verdade, que nossa consciência pode receber como brados altissonantes ou sussurros, mas que recebe advindos deste cenáculo íntimo — por isto, trata-se efetivamente de vida intra-muros. Esta vida escondida (sem conotações de refúgio, note-se) revela uma suspensão de si-no-mundo através de uma elevação dual (de consciência, primeiramente, e ação, secundariamente) de si-em-si-mesmo. Esta vida escondida é o “eu essencial” em comunicação permanente conosco-no-dia-a-dia porque em comunicação constante com-Deus-o-tempo-todo, é a dinâmica do que se é sendo verdadeiramente um “eu” — o eu profundo com o qual Deus dialoga tête-à-tête e que, vedado o acesso do Mundo, só pode única e efetivamente comunicar-se com Ele. Nada que ver, portanto, com oração, que é um processo mais superficial e cuja autoria iniciadora é humana.  Este “jardim” (que é a “vita abscondita”; chamemo-la, pois, assim de jardim), pode ou não ser ocupado pelo homem e por Deus: (I) quando o homem solitariamente o ocupa, há o vazio (vacuum); (II) quando nem homem e nem Deus o ocupam, há o nada (nihil). O primeiro é, mais gravemente, um estado intelectual e sentimental no qual o homem se instala como seu próprio anthropo-theos, como seu deus humano que apenas consigo mesmo conversa, mas donde retira significação (falsa); o segundo, é estado mental e emocional derivado de completo distanciamento de significados, é a oquidão na qual o próprio ser humano deixa de ser para si um interlocutor ontológico, sequer capaz de fala cognoscível auto-denotativa. Para o cristão salvo, contudo, este jardim está sempre por si e pelo Senhor ocupado. E é nesta “pequena ágora de dois” (quero com isto dizer que há um processo dialético promovido em nosso espírito pelo Senhor) que nossa vida de bonanças e desassossegos espirituais flui sob as intervenções dEle, a fim de produzir a metanoia do novo homem, do homem nascido de novo. Colossenses 3:3 é, neste sentido, complementado pelo versículo 21 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas: “Eis que o Reino de Deus está dentro de vós”[…] ecce enim regnum Dei intra vos est.” Belo, não? Tudo isto para dizer o seguinte: devemos permitir a fluência desde diálogo com Deus desde o âmago de nosso ser, porque rios de águas vivas correm da fonte que refresca o centro deste jardim, donde o Senhor concede ouvir Seus mistérios. Bom domingo e abençoada semana a todos!

Esponjas de sol — XXVIII

  1. Três mandamentos que adoto e aconselho que adote quem quiser levar vida livre e piedosa: I. Perdoa tudo a todos sempre, com coração sincero e humilde. Isto não só te libertará da violência da tua própria alma quando ela for injustiçada, mas te fará um abrigo de graça divina para a redenção dos próprios injustos. Com isto, de Deus também alcançarás melhor perdão e terás um espírito pacificado; II. Livra-te de todo melindre acerca do julgamento do mundo. O que importa é tua consciência diante de Deus, o que importa é tua conduta terrena aspirando à Eternidade, o que importa é tua ação reta e varonil; III. Nada espera de ninguém, senão que esperem de ti o melhor. Tu realmente não deves esperar bondade ou maldade das gentes, em suma, não deves esperar quaisquer coisas (benéficas ou maléficas) de quem quer que seja, mas espera, isto sim!, que de ti esperem todas estas boas coisas. Sê um exemplo para os exemplares, um exemplo para os inexemplares e um exemplo para os sem exemplo.
  2. Uma vida bem vivida é uma vida bem escolhida. Nossas escolhas atuais serão nossas alegrias ou nossos fardos futuros. Cada cabeça, uma sentença, e, a cada sentença, um juízo existencial inalterável. Por isto, quando fores decidir isto ou aquilo para “agora”, não te esqueças que tal decisão redundará nisto ou naquilo para “depois”. A tua semeadura será a tua colheita e a tua colheita — deliciosa ou detestável — será o teu alimento para todos os demais dias que viveres sobre este planetinha ordinário. Escolher é a força-motriz da tua glória venturosa ou do teu infame fracasso. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser via para o Céu ou atalho para o Inferno. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser mesa de fartura no deserto ou fome seca em floresta tropical. Escolhe, pois!
  3. Chorar o leite derramado é, definitivamente, grande tolice, se não for para prevenir futuros “derramamentos”. Seja o leite uma gota solitária ou o fruto da ordenha de toda uma manada, o pranto será infértil se for mera manifestação emocional de sofrimento e não for tratado como deve ser tratado: uma oportunidade de padecer pedagogicamente para, no futuro, não derramar o leite (ou, se derramá-lo novamente, não chorar tanto).
  4. Chegará o dia em que me cantarão os anjos um réquiem. Eu saberei e direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor! Mas Tu, ao meu lado e ao lado do féretro meu, cantará também, cantará tão bem: “…et perducant te in civitatem sanctam Ierusalem.” E eu centenário já, no corpo prestes a volver ao pó; e eu, recém-nascido em leito de carne gloriosa, direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor!
  5. Não existe grande amor para toda a vida que não seja acompanhado de pequenas e de pequeninas gentilezas diárias. No tempo, o amor é um micro conta-gotas que adiciona e subtrai diariamente suas nano-gotículas de carinho.
  6. É na liberdade que se prova qualquer amor. E é na ausência dos olhos que se prova o valor e as ações de quem ama (ou, mais frequentemente, de quem deveria amar, de quem diz amar). Ser incapaz de lealdade é ser incapaz de amar. Amor, teu sobrenome é lealdade!
  7. Vinte e oito anos é a minha idade. E desde os seis anos (logo depois dos meus cinco) eu vou tentando continuar a ser aquele “niño frente a Dios” que então sonhava com anjos jogando futebol e que agora, bem acordado, ora um “sólo le pido a Dios” para que os homens joguem menos futebol e pensem mais no mundo dos anjos.
  8. O maior sinal de infelicidade é o frenesi de querer ocupar o tempo. Minha geração é também infeliz por isto: porque, não tendo consciência da boa vida que escorre quieta no dia-a-dia, se aferra no ativismo desesperado de “fazer alguma coisa” o tempo todo, para não ter que olhar-se, em silêncio, diante do espelho ou para não ter que conviver consigo mesmo um ciclo de 24 horas completas. São incapazes de passar um dia livre consigo mesmos, porque senão adoecem em tristeza e depressão. Por isto, ocupam-se com frenesis barulhentos (talvez eles abafem o megafone da realidade que pulsa desespero no peito, certo?). Vide a dinâmica perversa duma balada: um poço de carências altissonantes, de traumas dourados por pose e enrijecidos pelo álcool que lhes amolece as almas. Não percebem o vácuo de significados que lhes martela a cabeça quando vocês vão dormir as 5 ou 6 ou 7 da manhã? Ouçam este bobo: vocês não serão felizes enquanto não olharem para a existência com aquele olhar que vocês tinham quando passavam “domingos medíocres” comendo a macarronada na casa dos avôzinhos, brincando com os primos a tarde toda, dormindo sossegados das 10 da noite às 10 da manhã, pondo o pé na terra onde a bola rolava e a cabeça no céu onde a pipa voava, esquecendo das necessidades do ego que lhes obriga a mostrarem-se o que não são (felizes, vocês não são). Ouçam este bobo, pelo amor de Deus e por amor a vocês mesmos.
  9. Dizer coisas bonitas não importa muito para o amor: fazer coisas bonitas, sim, importa muito para o amor. Mas quando fizeres coisas bonitas dirás inevitavelmente beleza. Impossível que tua ação não crie seu reverso em palavra.
  10. Tudo bem, os calendários se acabarão / E os relógios um a um pararão silentes. / Tudo o que conta o tempo e o mastiga, / Tudo o que anuncia em número a vida, / Tudo bem, isto no mal acabará um dia. / Os marcadores se desfarão no inferno / E sobrará, total, na terra a eternidade.
  11. O horizonte caminha comigo de ponto a ponto. / Se lhe volto as costas, ele gira e caminha comigo. / Se os meus pés são meu particular promontório, / Se o meu caminhar é meu limiar para o tempo, / O horizonte nada pode, senão caminhar comigo.
  12. A pedra de toque de qualquer pessoa são seus olhos. Nestes dois órgãos repousam toda a complexidade e toda a simplicidade humana: vê-se tudo ali, no movimento do globo e no fulgor da íris. “Olhos d’alma”, disse algum poeta anônimo. Deus proveu aos percebedores e sensíveis que pudessem perceber e sentir o quanto, às vezes, a palavra falada contradiz a palavra guardada no fundo dos olhos, o quanto aquilo que passou pela língua e pelas cordas vocais contraria o dito no profundo dos olhos.
  13. Oração de um velho patriarca ortodoxo georgiano: “Oh, Deus Eterno, aqui dos meus altos anos, canto-te estas palavras em voz vacilante, mas ouve-as mesmo assim, porque se a língua fraqueja é inda pronto meu coração. Oh, Deus Benevolente, Tu que consagraste-me a este ofício, dá-me Tua piedade e estende sobre minha alma Tua mão. Oh, Deus Pastor, Tu que és verdadeiro e vê nua minha mente, dá-me para que bem use o Teu cajado. Sê pai para mim, meu Pai. Dá-me a Ti, dá-me para Ti. Sê calor para meus pés frios neste inverno. Oh, Deus Santo, fazei-me santo a cada copo d’água e a cada cálice de vinho que eu der de beber aos teus santinhos. Isto te pede este teu servo, pequenino e suplicante. Ouve-me. Amém!”

[Assisti Ilia II cantando (https://www.youtube.com/watch?v=HuWAkADPV4Q). Não tenho a mínima idéia do significado das palavras cantadas, mas é isto que me caiu no espírito.]

  1. As piores angústias espirituais da existência, creio, passam os velhinhos que tiveram vida juvenil e adulta dissipada. Vi isto no olhar de alguns idosos num asilo. A pele enrugada (e fria) sente rolar a lágrima quente e o silêncio retoricamente discursa: “O que eu fiz da minha vida?”
  2. A palavra gera a ação, o abstrato gera o concreto, o metafísico gera o físico: “As más conversações corrompem os bons costumes.” (I Coríntios 15:33)
  3. Ou a vida será esta aventura que pregam os teólogos ou ela será esta lama animada que pregam os biólogos. Mas, vede, que se é uma coisa ou outra, porque a escolha? Se tu optas pelo caminho metafísico, serás nele feliz. E se escolhes perambular pelo físico, serás nele infeliz. Neste andar mesmo já se entende, já se compreende tudo.
  4. O indefinido é a rabiola “visível” do infinito.
  5. A angústia é um sentimento fenomenal. Ela é um choque distendido de consciência. Só se angustia quem tocou com o pensamento verdadeiro nalgum sentimento verdadeiro, fazendo com que ambos se chocassem, unidos, contra pensamentos e sentimentos falsos (mas tidos por verdadeiros) acerca da realidade — coletiva ou particular. A angústia te obriga à avaliação do mundo e à reavaliação de si. A angústia é uma graça do Espírito Santo; é uma agente da metanoia.
  6. Briga (não debate filosófico-teológico, importantíssimo, que é bem lá outra coisa) de católico com evangélico é uma das coisas mais contraproducentes não só em matéria espiritual pessoal, mas é, mesmo, questão de sobrevivência civilizacional coletiva do Cristianismo. Os fanáticos islâmicos quando matam cristãos não perguntam antes se eles são romanos ou protestantes, não diferenciam teologicamente tradicionalistas de calvinistas e carismáticos de pentecostais quando explodem bombas em igrejas. Basta chamar Cristo de “meu Deus e meu Senhor!” que te cortam a garganta, seja você copta, adventista, ortodoxo ou mesmo um “desigrejado”. E vocês, aí, infantilmente se “matando” com seus porretes e estilingues? O nome disto é fratricídio, meus irmãos!
  7. Questões teológicas e doutrinárias podem certamente levar o Papa, o Arcebispo de Canterbury, o Patriarca de Constantinopla e o Pastor de Wittenberg para o Inferno, mas, muito dificilmente, levarão os simplórios fieis (que ocupam bancos e que amam a Cristo e que apenas esperam viver quietos em Deus a “verdade” das suas igrejas) quando estes se põem a debater acerca de tais assuntos sem muito estudar e saber, infernizando seus irmãos.
  8. Vida boa é aquela que, espiritualmente, concentra em todas as suas fases, momentos e instantes todo o seu sentido, toda a sua completude e unidade de significados. Quando se tem um norte bem calibrado na alma, todos os acontecimentos existenciais (sobretudo as agruras) são “felicizadas” por este sentido que é Sentido, por estes significados que são Significado. É como se pululassem “paraísinhos de logos” a cada passo consciente; paraísinhos às vezes lacrimosos, inclusive, mas paraísinhos que apontam e fazem sentir o Paraíso do Verbo. Vida boa, porém, só se obtém quando se está determinado a preferi-la a tudo.
  9. O enorme contingente de maus católicos no Brasil deve-se ao enorme contingente de maus padres do Brasil. O grosso dos católicos nacionais não sabe o que é o Catolicismo porque seu clero brasileiro também não sabe o que é e, quando sabe, esconde o que é porque prefere uma visão mais “soft” de moral.
  10. A rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos.
  11. Qualquer religião subsiste sem inteligência (capacidade de apreender “as coisas visíveis e invisíveis”, certo?). Até a seita “atéia-teen” do Monstro do Espaguete Voador pode ser levada a sério. O Cristianismo, porém, existe-na-Inteligência porque emerge da própria Realidade: nele, o senso-comum (tão odiado, porque naturalmente cognoscível, pelos petulantes complexificadores) é capaz de fazer as vezes do Q.I. até mesmo na Mula de Balaão.
  12. Em termos de Pedagogia extra-escolar (doméstica, pois), sou da opinião de que não se deve bater de modo algum em crianças como meio de punição. Os pais devem, isto sim, amá-las tão fortemente que a simples demonstração de desaprovação por eles seja para seus filhos o maior e mais temível dos castigos. Castigos físicos apenas criam medo, não respeito verdadeiro. Impedem malcriações e erros morais (até certo ponto) pelo trauma inconsciente, não pela consciência livre. No entanto, para isto, a família deve ser singularmente sólida: pai e mãe devem ensinar pelo próprio exemplo de retidão, de caráter e de espírito elevado. E isto começa com um casamento igualmente bem instituído entre marido e mulher. Difícil? Mas é este o caminho, o caminho do amor que — por ser amor de fato — dispensa varas, chinelos, palmadas, socos, tabefes e toda sorte de barbárie em nome da correção legalista.
  13. O poema “Quadrilha” de Drummond é, no contexto do amor natural, a suprema realidade relacional.
  14. O único e grande medo que deve atribular nossa alma é o medo de passar pela vida como se ela fosse apenas existência: deixando pegadas de símio milenarmente envelhecido (do parto ao cemitério) e não o eternal legado de ser humano (da concepção à ressurreição).
  15. A renúncia cristã consciente (não a traumática da ascese dos fanáticos que em tudo veem pecado) é paradoxal: logo após, ela nos premia com o superlativo qualitativo das coisas quantitativamente renunciadas. Vem o mundo e te oferta uma coroa dalgum reino expansionista; vem Deus e te concede a soberania da tua alma. Vem o mundo e te oferta um harém de musas e ninfas deliciosamente inférteis; vem Deus e te concede a esposa, bela videira de seios frutíferos. Vem o mundo e te oferta uma mesa de finos manjareis palacianos; vem Deus e te concede o “pão nosso de cada dia” que mais saboroso fica conforme mais se trabalha por ele. A renúncia cristã que é, então, senão a renúncia de prazeres concentrada e temporalmente etéreos (cujo impacto imediato não passa dum polvilhar atômico de ilusões muito densas) em benefício de verdadeiro prazer permanente? A renúncia cristã é ganho de verdadeira, de verdadeira alegria!
  16. Nem tudo o que não brilha não é ouro.
  17. Tu trocas o certo pelo duvidoso quando, sucessiva e decrescentemente, duvidas da certeza. A certeza se esvai gradualmente quando olhas para trás — onde está o desejo abandonado.
  18. Pouca gente quer escalar a Grande Pirâmide de Gizé. Pouca gente quer pedalar sua bicicleta na Grande Muralha da China. Pouca gente quer voar de balão sobre o Saara. Pouca gente quer singrar mares e oceanos e caminhar pelas planícies e planaltos e pelas montanhas do planeta. Pouca gente quer comer na marmita dos berberes, na prataria dourada dos czares, na porcelana fina dos nipônicos; na verdade, pouca gente quer comer as comidas da terra. Pouca gente quer compor, quer escrever, quer erigir, quer pintar, quer esculpir, quer filmar. Pouca gente quer namorar, quer noivar, quer casar e quer gerar filhos. Pouca gente quer ser gente e perscrutar a Humanidade com suas obviedades patentes e seus mistérios insondáveis. Mas, ainda assim, há esta pouca gente que não é “pouca coisa”. Louvo a Deus por este pugilo de homens e mulheres que, ainda que poucos, diariamente salvam o mundo da pouquidão.
  19. Nunca obrigarás alguém à nada. Nem (e sobretudo) ao Bem. O que se faz coagido não tem valor espiritual e moral algum. Afinal, não é feito em função da consciência livre; mas é feito pela necessidade desalmada de cumprir um “requisito” externo ou de ceder à uma retórica molestante. Pergunta e aconselha: propõe, mas não impõe. Respeita as decisões alheias com severidade.
  20. Se diariamente tu te sentes mal porque és e pensas e acreditas em ideais mais elevados e tens em ti sentimentos e “aspirações altas e nobres e lúcidas” e o mundo não te compreende e as pessoas te olham de soslaio, dê-me a mão: tu és mais um dignitário desta invisível confraria de peixes fora d’água. Não te sintas mal por sentires aquilo que o coração de Deus também sente — esta angústia de querer ser bom. Sente, antes, o Bem que o Senhor depositou em ti: este bem de querer ser aquilo que Adão deveria ter sido, este bem de querer tocar o Ser por detrás do Ente, este bem de honrar a tua consciência podendo olhar reta e diretamente no fundo e no profundo dos olhos de qualquer ser humano. Não te entristeças. Te alegra, sobretudo, te alegra porque és e pensas e acreditas…
  21. Agora, que os pastos estão secos na terra acinzentada. / Agora, que o pastor está jogando às chamas seu cajado. / Agora, que tu és a ovelha perdida na noite mais escura, / Que farás senão ansiar por sacrifício a Deus no templo?
  22. Homem, as coisas para as quais tu diariamente vives honram a morte do teu Senhor?
  23. Nós homens somos naturalmente mais “abrutalhados” (o que não quer dizer menos preparados) para o amor. Mas, que coisa terrível e monstruosa é uma mulher insensível ao amor?
  24. Se prestares atenção mais meditada e pela intuição medida, perceberás que nas pedras há qualquer coisa de misterioso. Mistério místico e transcendente? De modo algum: mistério imanentíssimo, porquê mistério que revela a necessidade de constituir verdades aparentes. Erigir pirâmides, altares, totens e construções sólidas que nos ultrapassem no tempo… A rigidez da pedra talhada é uma concretização das nossas certezas abstratas, porque existem e existirão e superam e nos superarão?
  25. Sintoma número 1 de infelicidade disfarçada com entretimento: inquietude.
  26. O Trump tem lá o lema dele. O meu, para agora (já que o inglês engoliu o francês, que engoliu o latim), é este: make the West great again!
  27. Entre o dogmatismo ideológico do ferro enferrujado e a liquidez descompromissada da diarreia subjetiva, goteja eternamente para o alto o mercúrio cristão.
  28. Dizer que a idéia de “vida eterna” deriva necessariamente do desejo auto-conservativo de prolongar metafisicamente a existência material (contra a morte), equivale a dizer que o paladar deriva da mastigação deleitosa do nosso prato preferido.

Qui ne fait châteaux en Espagne?

Construir aqueles castelos de areia com granito não queres?
Pois vê, estas idealizações de menino são agora realidade
E outra coisa não quero, não desejo, senão vibrá-las na terra.
Pois se cada sonho e ilusão têm que ficar lá atrás, no passado,
De que me serve perpassar (e passar) o tempo discutindo-os
Como paradigmas e símbolos e metáforas para a vida adulta?
Não, recuso-me a tomar parte nesta conspiração de niilistas,
Nesta rebelião de monocromáticos acinzentadores da vida,
Neste motim de ateus passivos contra o Deus da Atividade.
Construir aqueles castelos de granito que eu fazia com areia!
Construir com pedra talhada na Montanha do Rei; cada bloco
Para as muralhas e para as torres e para a vida e meu quarto.
Pois revê em ti, então, o motivo deste desdourar das fantasias.
Quando vier o Rei, achará fé em ti? Tu que também és… terra!

Evocação

Para a lua eu volto não os olhos, mas a mente quieta,
Quando a noite chega negra e de nuvens enraizada.
Nego à minha visão a imagem que a íris dela recorda.
Então no pensamento que imagina e que tudo recria,
Outra vez Helena vem cear comigo o queijo, as uvas,
O carneiro, os pêssegos, o desejo de estar ali e só ali.
Esta escuridão de ônix nestes finos veios de incenso,
Aqueles olhos de odalisca sarracena vibrando a vida.
A filosofia, pia fecalidade, que era diante de Helena?
A poesia, a música, qualquer arte grega e babilônica,
Que era quando com a mão ela suspendia o tempo?
E tu, lua bravia que me agulhas ferrenha o coração,
Por que te mostras, outra vez, como naquele Natal?
Inquieta, evocação tal me torna um cego ao relento,
No meu próprio relento de amar uma antiga bruma…

Poesia-proseada I

No árido cérebro, um oásis. No coração, um campo de fartura. Amo tanto aquela trigueirinha, mas tanto não sei se devo, que na mente me cai um pensamento tão cético e duro, enquanto no peito sinto a alegria e o otimismo do triunfo. Santo Deus, que faço deste caso indecifrável, desta dúvida cruel como o fio cego do machado do pregador carrasco? O oásis no cérebro, explico, é o pontículo das esperanças; é o terreno de nuvens onde mantenho alimentado o eu que leu a história de Josué e Raabe, relato de redenção.

Soneto IV

Para ti, minha senhora, apenas para ti, este poema.
Não perderia tempo em escrevinhar versos a outra.
Tenho mais que fazer, senhora, porque o tempo vai
E em estrofes gasta-se um pouco da nossa realidade.

Por isto, aqui vai todo meu lirismo a ti condensado:
Eu te amo, eu te amo e te amo, te amo e amo, amo.
Está bem assim? É suficiente ou queres preciosismo
Que agora, sinceramente, não serei capaz de versar?

Mais que arranjo de palavras com estética apurada,
Mais que musicalidade em métrica lavrada e elevada,
Mais que toda beleza edulcorando a nossa realidade,

Mais que a senhora toda airosa e suspirante no balcão
E que este tolo trovador com violão na mão lá embaixo;
Mais que tudo, para ti é este o poema: é teu o meu ai.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 4 (e última) – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

X. Quando tu tens certezas certeiras para tua vida, não podes te submeter às incertezas desacertadas: quando tu tens um futuro mais ou menos posto por Deus no horizonte, não podes jogar tudo a perder por paixão em si mesma. Por isto, haverás de aprender a diferenciar um “rabo de saia” altamente sedutor de uma mulher para a vida toda, a diferenciar Dalila de Raquel. Talvez quererás que a Raquel do ideal seja a cavala Dalila de carne-e-osso que atiça teu âmago todo santo dia, que a mulher adequada para tua vida elevada seja aquela que vive ali e lá uma existência rebaixada que “bate com a bunda no chão”. Talvez tu mesmo te auto-enganarás com artimanhas piedosas: mentirás para ti mesmo inventando desculpinhas evangélicas de conversão e liberalidade para com aquele docinho de coco requebrante. Provavelmente, não terás condições imediatas de discernir se Luísa (ou Helena ou Beatriz ou Ana Clara ou Fernanda ou outra de nome outro) é uma Raquel ou uma Dalila, porque Dalilas também podem parecer-se com mulheres com disposição mental para uma vida profunda a dois, podem frequentar a tua igreja com ar de graça divina, podem ser pudicas beatas de quatro costados ortodoxos e, inda assim, serem Dalilas nervosinhas, Dalilas com piriguetice histericamente recalcada por escrúpulos pseudo-religiosos; ao passo que a moça danada — cabrita levada — pode carregar dormente no peito desabotoado e na cabeça avoada tal profundidade de riquezas que a ti pertencerá o garimpo, a fundição e a ourivesaria — a ti pertencerá todo o processo de mudança, de melhoria, de transformação, da metanoia dela. Por isto, anota bem: discernirás a Dalila nem tanto através das estéticas caricaturais, das imagens prototípicas, dos estereótipos 8-80. Discernirás Dalila na revelação silenciosa do dia-a-dia, quando perceberes que ela retira tuas forças morais, que ela mina tuas forças espirituais, que ela extrai tuas forças de ser e sentido e te faz alguém pior diante do Senhor; o teu coração sofrerá exaustões, padecerá fraquezas e anemias a ponto de te distanciares do Bem Maior, o Bem Maior que te chamou à uma vocação de Eternidade. Se não construir vida em ti, crê: estas diante de Dalila e deves largar mão! Quando for Raquel, a tua Raquel verdadeira e única, ela provocará em ti o tesão que Dalila costumeiramente provoca (que apenas e só isto provoca, anota também): teu corpo se fartará, mas se fartará porque também se fartam teu espírito e tua alma. Recorda aquele verso de António Machado: “No mar da mulher, poucos naufragam de noite. Muitos, ao amanhecer.” O mar de Dalila e Raquel é o mesmo. O que muda, o que tanto muda, é que Dalila vender-te-á, para que nela tu tentes navegar, uma canoinha com o menor e mais imperceptível furinho no casco (pelo qual irás a pique, mais cedo ou mais tarde); ao passo que Raquel dar-te-á para cada dia a nau necessária para singrá-la. Ela confirmará certeiramente tuas certezas e será tua companheira no horizonte diurno e noturno. Tu também terás que escolher o teu eu: serás para ela Sansão ou Jacó?

Esponjas de sol – XXVII

  1. Sexo sem amor é como sabor sem nutrição: você mastiga (você come), mas não se alimenta. A língua se extasia no paladar endorfínico, mas o corpo não recebe as proteínas, os nutrientes e as vitaminas. Não é outro o motivo causador dessas multidões de anêmicos (de carentes) ambulantes, que procuram diariamente nos buffets palacianos aquilo que apenas os pratos da rotina serena podem propiciar. No pensamento, o pessoal não quer amar e se casar no altar e então ter filhos (porque isto, afinal, inibe certos cardápios de prazer); mas no sentimento, deseja ainda a praxe encantada e pragmática do semanal amor romântico à moda arroz-com-feijão-e-ovo-frito-e-bife na mesa larga entre os tios e tias, primos e primas, irmãos e irmãos, pai e mãe, avôs e avós. As carências desta geração — dos homens e, principalmente, das mulheres — derivam disto: batata frita é coisa boa, mas dela você apenas tem os pluri-multi gostos das mil lanchonetes que frequenta, onde come todas as espécies de batatas fritas (das chips inglesas às bratkartoffel alemãs), mas onde também logo após as cospe anoréxicamente, fatia à fatia. Não crê que está hora de encontrar a “batata frita tradicional” de algum antigo fogão caseiro e, na mesma mesa por décadas a fio, mastigar, comer e se nutrir daquela que, entre todas, será definitivamente “a melhor batata frita do mundo”? Pense nisto.
  2. Dada a atual conjuntura das nações, a única forma de evitar uma guerra [definitiva?] entre Ocidente Cristão e Oriente Islâmico é a rendição incondicional do primeiro ao segundo. Caelum denique!
  3. A situação das nações ocidentais [cristãs] frente ao Globalismo ficará tão terrivelmente perigosa para suas soberanias que, para defenderem-se de um poder global centralizado, monarquias precisarão ser instauradas/restauradas e-ou “ditaduras” à moda romana (caveant consules!) deverão surgir para concentrar poder eficiente na luta contra o Anticristo.
  4. Os ingleses de outrora cantavam os versos de William Blake — Jerusalem — nas suas pelejas nacionais. Hoje em dia, sussurram Imagine e sopram bolhinhas de sabão.
  5. ONU? Anathema!
  6. Os sinceros são quase sempre ingênuos. Nós cremos que os outros depositam nas palavras que saem da boca a verdade que está lá dentro deles quando eles falam e dizem. Particularmente, talvez minha sorte consista em que, não obstante ser sentimentalmente ingênuo, não o seja intelectualmente. Aquilo que me abala o coração pouquíssimo comove meu cérebro — forte com a alma que o envolve. Afinal, quando se está de fato interessado no conhecimento “das coisas visíveis e invisíveis”, não se é pego de supetão no pensamento e aquilo que pega de surpresa no sentimento logo é simbioticamente aderido à razão e apenas vem servir como mera e posterior comprovação prática da realidade teórica anteriormente sabida. Deus julgará a História da Humanidade e as histórias e as estórias de cada um dos homens e, então, sinceros ou dissimulados, ingênuos ou velhacos, o tudo de todos virá à luz. Alegremo-nos quando o Senhor resolve aluminar um poucochinho das coisas encobertas no dia-a-dia, gotejando homeopaticamente a verdade com o conta-gotas do Espírito Santo.
  7. Nossa consciência diante de Deus vale mais que o mundo inteiro. Todo o resto é dispensável como o são aqueles pequenos pontinhos amarronzados que encontramos nas fechaduras dos banheiros públicos: é dispensável como são dispensáveis as fezes de um mosquito.
  8. A biografia de Henrique VIII é um denso líbelo contra o adultério e pecados conexos. Ana Bolena foi amante do rei enquanto este era casado com Catarina de Aragão (excelente esposa, acabou seus dias piamente depois do divórcio década depois) e, quando esposa, acabou decapitada a mando dele sob a acusação de adultério. Joana Seymour foi amante do rei enquanto este era casado com Bolena e, depois enquanto esposa, morreu sofrendo num parto difícil. Catarina Howard foi amante do rei enquanto este era casado com Ana de Cléves (que não foi amante de ninguém, por isso também sobreviveu década ao divórcio) e, já esposa, foi decapitada a mando dele sob acusação de adultério. Ele se casou ainda uma sexta vez com Catarina Parr, que sem frequentar as alcovas indecentes do rei antes de ir com ele ao altar, morreu velha e em muito sobreviveu ao marido. E o luxurioso rei Henrique, que a todas estas traiu regular e concomitantemente? Sifílico, enlouquecia ano a ano; carregado de dores lancinantes nas juntas, nos ossos, nos órgãos, no espírito. Basta dizer que seu corpo morto, cheio de putrefação gerada em vida, explodiu no caixão. Pouco, para aquele que ainda martirizou tantos e tantos e também martirizou a Thomas More. “O salário do pecado é a morte”, diz lá o Evangelho.
  9. Os príncipes Ricardo e Eduardo, os “Príncipes da Torre”, creio que foram mortos por Henrique VII (também assassino doutros tantos pretendentes à coroa). O quanto padeceu existencialmente a descendência do Rei Tudor interpreta “constelacionalmente” todo o caso.
  10. Não me agrada em absoluto a idéia de uma dinastia estrangeira governar um povo no qual não está imantando seu espírito e sua alma e seu corpo. Podem passar séculos, mas o assento do trono sempre está aquecido.
  11. A Sinfonia n.o 1 de Rachmaninoff: densamente bela, como o último (e consciente) gole de vinho de um bêbado antes da conversão — a conversão que lhe permitirá cear o “sangue”. Visceralmente escatológica, profundamente augúrica.
  12. O pessoal se esquece, recorrentemente, que o mesmo Deus que erigiu o Céu para os arrependidos também criou o Inferno para os impenitentes. E lá não é lugar “de pranto e ranger de dentes” apenas para demônios e teletubbies (que sequer têm dentes)…
  13. Quisera poder agarrar cada filho-da-puta e canalha libertino pelo pescoço e torce-los como se torcem na roça caipira os pescoços das galinhas para o caldo dos doentes. Quisera poder, diante de tanta malícia e leviandade, aos socos quebrar um a um os dentes dos velhacos labiosos. Quisera, com espada na mão, retalhar “pichações de ferimentos” nas costas e frontes dos cafetões que levam moças de bom coração para o mau caminho. Quisera açoitar cada destruidor de lar em praça pública, diante da assistência de outros tantos bons pais de família. Quisera capar cada depravado mal encaminhador de meninas ingênuas com a lâmina que deu cabo dos cães que mastigaram a carne de Jezabel. Quisera buscar pedras no topo do Ararat para lapidar o crânio de todo e qualquer malandro assaltante de inocências e fragilidades femininas. Quisera… Mas, olho para tua fronte, oh Cristo!, e já não quero… Quero, já agora, que tu enxugues toda lágrima e que céus e terra passem o mais rápido possível. Quero que sofram! Ah, isto ainda o quero. Mas já não o quero para vingar cóleras e iras. Mas já não o quero para fartar-me de justicismo visceral e impiedoso. Quero que sofram para que acordem desta profunda letargia, para que estas consciências cauterizadas te ouçam através do megafone do sofrimento e, então, parem de sofrer e de fazer os outros sofrerem. Quero — desejo e anseio — que cada um destes seja “entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.”
  14. Dignidade espiritual implica em estar livre o suficiente para, de si mesmo, contar as pequenas verdades inconvenientes com o mesmo ímpeto e glória com que se anuncia as grandes verdades lisonjeiras acerca de si mesmo. Nenhum verniz, nenhuma superficialidade de pseudo “bom tom” ou de “desculpinha para não pegar mal” é capaz de anular no homem que está se fundindo (sem se confundir com) em Deus a verdade de mostrar-se falho também nas coisinhas mais nânicas. Ora, tu xingas aqueles que te irritam com o barulho da mastigação? Tu tens medo de altura como aos cinco anos de idade tinhas medo de escuro? Tu és desastrado a ponto de quebrar copos e pratos toda santa semana? Pois é. Sou eu. Somos nós todos, com ou sem a indignidade de importar-se em deixar estar na reclusão das aparências da vida estas pequeninas falhinhas da nossa humanidadezinha.
  15. Quando crianças, nós temos todos os sonhos do mundo. Adultos, mas não menos sonhadores se conscientes da existência, a gente chega à conclusão de que o dourado celeste dos sonhos não vale tanto à pena quanto por as mãos no vermelho sujo da terra: a terra que é a perpétua memória presente e constante da [nossa] realidade. A realidade — nua, dura e crua — é um sonho que se escolhe sonhar se nós nos despimos daquilo que São Paulo chama “coisas de menino” e, então, resolvemos construir os abrinquedados castelos de areia com o barro conspurcado do mundo.
  16. Com meu pai, aprendi como se deve tratar uma mulher. Com minha mãe, aprendi com quais tipos de mulher não devo tratar. Com meu pai aprendi quais tipos de homem não devo ser: não ser, sobretudo, um abutre “secando” a presa desavisada no alto calor do deserto para comer-lhe as carnes e depois jogar a carcaça numa montanha de ossos. Com minha mãe aprendi quais tipos de “mulher” aceitam ser destratadas por aqueles tipos de “homem”: aceitam ser uma bisteca suculenta pendurada no gancho de aço do açougue a espera da gula sem paladar dalgum filho-da-puta ruminador de corações. Em suma, aprendi a não ser um bostinha obsessivamente materialista. Com meu pai aprendi a ser homem integral como ele o é — varão cristão, todo honrado, plenamente bom. Com minha mãe aprendi a valorizar e querer sumamente bem a uma mulher integral como ela o é — varoa cristã, toda elevação, plenamente bondosa. Com meu pai e com minha mãe aprendi (e eles aprenderam dos pais e mães deles) que certos valores fundamentais — eternos e permanentes num mundo fugaz e passageiro — não se transigem de jeito maneira. Aprendi que as coisas boas não são fáceis como o Facebook, não são baratas como o Instagram, não são veniais como o WhatsApp. Aprendi que a vida boa não é superficial e que um casal a sério só se forma a sério e só permanece formado a sério com valores sérios. Não há coisa mais séria que o Amor. Não há valor mais elevado que o Amor. O ordinário das baladinhas suadas e alcoólicas que acabam atrás do banheiro químico não me interessa. O ordinário com o qual os neanderthais raveanos pós-modernos estão acostumados não me interessa. Podem me chamar de reacionário, de conservador, de quadrado, de antiquado. Eu sou das antigas mesmo. E é isto. E Feliz [resto de] Dia dos Namorados pros cêis.
  17. O auge da maturidade é saber escolher conscientemente entre dois (ou entre vários) caminhos; é ter a capacidade de agir livremente ao apontar para as rotas de existência e dizer “quero isto!” e “não quero isto!”; é ter senso de proporção qualitativa para com suas possibilidades de vida no Mundo e, a partir dos critérios para si e por si em Deus estipulados, o indivíduo dizer acerca de sua atuação na Realidade justamente aquilo que nos diz, exortando, o célebre poema de Henley (Invictus): “Eu sou o mestre de meu destino: eu sou o capitão de minha alma.” Só é maduro o suficiente para ser feliz quem é capaz de deslizar por entre os poderes construídos na própria alma pela Queda. É maduro quem derruba estes poderes. E é maduro quem se levanta por sobre os escombros da “arquitetura do desejo” que o Contexto erigiu em seu próprio espírito e, desde o quase nada, recomeça as obras de “engenharia da vontade” que farão de si mesmo esta Obra: ser um Ser que é imagem e semelhança Daquele que É.
  18. Curioso. Os dias cinzas de frio tem qualquer coisa de proximidade afetiva e intelectual com o Eu e com Tempo. Preste atenção em como nossa rotina fica mais consciente, menos atrapalhada, mais retilínea, menos anárquica: como nossa rotina fica mais “entre-pautada” por nós mesmos — nos dá sensação de maior individualidade (talvez porque o calor mais próximo seja o nosso). A gente põe a cabeça pra fora das cobertas com uma sensação de que o mundo lá fora tem qualquer coisa que nos é estranha; coisa que, quando a temperatura é mais alta, nos faz mais do que nunca pertencentes ao mesmo mundo da grande massa material fundida e confundida. Os dias cinzas de frio nos afastam dos objetos e da matéria alheios aos nossos próprios objetos e matéria, meio que nos retro-catapultando para o calor telúrico primordial que habita nosso peito. Curioso em como, nestes dias cinzas de frio, o tempo se parece mais com algo que passa efetivamente (mas com destino fixo, com um fim mais conhecido). Curioso em como, nos dias quentes de calor, dias mais coloridos — ou mais amarelos, laranjas e vermelhos –, o tempo se parece mais com algo que não passa senão no calendário, um calendário que apenas marca a insignificância de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Em dias frios, o tempo é uma linha quilométrica e nós discernimos (porque nos ensimesmamos) seu começo e sentimos que caminhamos até seu fim. Em dias quentes, o tempo é um novelo quilométrico e nós mal sabemos (porque estamos diluídos nos coletivos existenciais) se há de fato começo, meio e fim e mesmo mal sabemos se há de fato um novelo. Curioso.
  19. Com o perdão da palavra, mas… em adultos (critério cronológico válido para homens e mulheres) rebeldia e porraloquismo é coisa de criança mal desmamada. Não há nada de transgressor em mostrar o dedo do meio para os pais em casa e para o mundo inteiro no Facebook e vomitar — entre cuspes vociferantes — suas opiniões birrentas “na cara da sociedade” como se elas constituíssem um novo decálogo para a salvação de nós outros. O tipo “rebelde sem causa” já era um saco em tempos mais ideológicos (aqueles que pariram hippies para Woodstock e pichadores para as paredes das catedrais parisienses em Maio de 68), mas, agora, em tempos de dissolvência digital, estes idealistas de dedo em riste são ainda mais chatos; mais chatos porque sequer têm, propriamente, qualquer coisa para chamar de “minha opinião”, por mais lesada que ela seja. Ô… fio, ô… fia: o dedo do meio significaria alguma coisa na mão de Winston Churchill (o qual, contudo, preferia o “V” armado pelos dedos indicador e médio) e na mão da Iron Lady Thatcher (que costumava apontar para seus amigos e inimigos com o indicador); mas, na sua mãozinha bem nutrida pelo trabalho dos pais que você despreza, isso é apenas um tosco sinal de falta de educação e de burrice caricaturalizada. Transgressão das boas, transgressão verdadeira, é postar-se diante de um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial, é dar sua vida nas florestas do Congo para pregar o nome de Cristo, é compor uma sinfonia à Shostakovich num meio musical que ainda aplaude minuetos afrescalhados, é… fazer, construir, erigir, levantar, criar… é ser densa e orgulhosamente humano quando já poucos têm coragem de abraçar a Realidade, mesmo que aos prantos. Mostrar o dedo do meio para as câmeras até um macaquinho mamando é capaz de mostrar, certo?
  20. Sobre a tal profecia contra Reuel Bernardino, apenas uma única palavra me interessou, dado o bradado “Homem, a tua capa vai cair!”: Quetzal. Em língua proto-nahua (asteca, vá lá), quetzal ou quetzalli significa “manto sagrado”. É o nome de um pássaro; nome que, em grego (pharo-machrus), significa “manto largo.” Curioso, não?
  21. Suposta carta que se encontrou no bolso direito da camisa de um soldado russo que, em luta, morreu agora a pouco no Iraque: “Glorioso Deus, para vós a escuridão nada significa. Para nós, é o breu que nos faz esquecer quem somos. Quando é tudo treva, mal sabemos de fato quem somos. O pânico nos desumaniza. Senhor, escutais o ricochetear dos tiros de fuzis do ISIS? Eles nos des-individualizam. Porque nossas armas são para a defesa de muitos eus; e as deles são para o extermínio dos nossos eus. Eles todos são um eu que não é um eu, são um conjunto de dados reto-raciocinantes que agem instintiva e matematicamente furiosos. Tu és um Eu; afinal, que medo terias? A escuridão é ser de carne e osso e existir como existem os olhos estalados do búfalo que se viu solitário diante do bando centeliar dos leões. O meu eu se amedronta diante dessa hoste. Todos os homens do meu batalhão pereceram. Todos. Fiquei eu. Fiquei eu só, aqui atrás da parede principal do trono dalgum príncipe mesopotâmico, adornado de leões que daqui a pouco aqueles frenéticos rugidores, que estão lá foram, implodirão com dinamite. Entendes este meu linguajar, certo? Não sou filósofo. Mal li Wittgenstein. É que meu vocabulário só consegue expressar estes pensamentos a Ti recorrendo a certos artifícios de linguagem… Glorioso Deus, para vós que significo? Porque vejo em meu peito o abismo negro do medo… Nós! Nós. Nós… Eu… Eu. Eu! Decidi-me: vou já para fora, porque sou luz do mundo. Urah!”

“E luziam as estrelas” [tradução]

“E luziam as estrelas,
E perfumava a terra,
Rangia o portão do horto
E um passo roçava a areia.
Ela entrava, perfumada,
E me caia nos braços.
Oh! Doces beijos, lânguidas caricias,
Enquanto eu, tremendo,
As belas formas despia dos véus.
Esvaneceu-se para sempre o sonho meu de amor.
A hora fugiu,
E morro desesperado,
E morro desesperado!
E nunca amei tanto a vida!”

Original, da ópera “Tosca”, de Puccini: https://www.youtube.com/watch?v=1BalPt1E-Yo

Soneto III

Cheguei ao mundo banguela e sem rimas,
Claudicando das pernas e do Teu símbolo.
Cheguei pensando porque é que eu penso,
Porque é que daqui de dentro sai palavra.

Esta cabeça, grande e cheia, é a Tua lavra?
Que gema assim põe o espírito suspenso?
Esta cabeça, arena de Ti, é o alto êmbolo
Em que comprimes verdade em lágrimas.

As casinhas velhas pelo caminho saúdam
Meu caminhar que de passos sossegados
Faz seu discurso em favor da Antiga Idéia.

Sou trovador para os dementes da aldeia,
Sou contador de estórias para os mudos,
E sou qualquer coisa para os que odeiam.