Apocalipse na pólis

A cicuta persiste sendo a bebida dos Dom Quixotes, estejam eles de lança em riste, de caneta ao alto ou com a alma regurgitando ideais em lousas, livros ou no Facebook.

Mas, eis a perguntinha que querem calar: Por que o poder odeia o intelecto livre e o intelecto livre inspira e aspira [ao] poder? A resposta, derramada diretamente da penúltima gota do “cálice de vinho tinto de sangue”: a política tradicional é fruto esmagado da ignorância daquele constante 1/3 das massas que se leiloam eleitoralmente, ao passo que a cultura que antagoniza a política tradicional é fruto dos raciocínios daquela aristocracia do espírito que não quer ver ignorantes as tais massas. Fórmula contraditória, mas tão realista quanto a fome doída das crianças que ainda agora nascem para morrer sob o sol ardente do ex-império de Bokassa.

Se o intelecto só floresce na Civilização quando os homens já não precisam se preocupar com o “pão nosso de cada dia” com aquela ansiedade estomacal que dominava os neanderthais, que lugar terá na lista das prioridades governamentais as questões da alma, tão mais abstratas que uma cesta básica? Afinal, se estava certo André Malraux, ao dizer que “La culture, c’est ce qui répond à l’homme quand il se demande ce qu’il fait sur la terre”, como haverá a libertação através da cultura se mal consegue o homem brasileiro deste novo milênio despregar do próprio corpo, com um banho à hora do sono, o pó da terra que o cobriu durante todo o dia?

Os coronéis sabem disso. Os senhores feudais, idem. Por isso, os apadrinhados e os servos devem ser mantidos no “lugar”: nos cochos, alimentadores do corpo e alienadores da mente. Sequer o corpo, aliás, na contramão do adágio romano, pode ou deve estar inteiramente são: qualquer cidadão que se utiliza dos “serviços” públicos é capaz de diagnosticá-los como portadores de anemia administrativa crônica e aguda. Nem se fale das bolsas perpétuas, verdadeiros instrumentos de empobrecimento a longo prazo dos desempobrecidos a curto prazo…

Os homens de espírito também sabem disso. E os barões sem brasão e os coronéis sem espadim da Guarda Nacional sabem que os homens de espírito sabem. Fica aí armado o palco para o ódio empedernido que os governantes pouco ilustrados nutrem pelos seus não eleitores que lhe jogam tomates e ovos pobres das alturas niveladas das “ruas de marfim”; afinal, torre é bastião de suseranos, certo?

Se mataram Sócrates e Thomas More, que não quererão os nossos tiranetes caipirescos fazer com os gentis Quaresmas da pátria tupiniquim?

Esta é a hora até mesmo dos Sancho Panças irem brandir armas contra os excelentíssimos frestões, nem que o vinho chapinha seja maculado de cicuta, pingada do mesmo conta-gotas que deu cabo de Napoleão. Afinal, não foi o interesseiro mas amigável gorducho sem rocim que Cervantes fez nomear prefeito?

 

Artigo publicado originalmente em: https://catanduvanaoesquece.com/2016/11/07/apocalipse-na-polis/

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium, sou agora acadêmico no 3o ano de Direito das Faculdades Integradas Padre Albino. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

1 pensamento em “Apocalipse na pólis”

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