Versos livres — I: Sansão e Dalila

O teu sorriso era [já não é] uma espiral de docidão,
Como se de uma linha à outra nos lábios repousassem
As curvas das galáxias, feitas da cera e do mel da primeira colmeia.
Então meu paladar se aguçava,
Então o cálice da ceia dos amantes
Se contentava com a água fresca da mina da roça.
O teu sorriso que me abalava o âmago e os ossos,
Que me alterava a temperatura como se febril no Saara eu sonhasse,
Que me acometia de risos e gargalhadas de expectação divina e infantil…
O teu sorriso deixou de ser, como as nuvens abandonam a pareidolia
Quando o vento vândalo e realista é mais forte que a brisa artista.
O teu sorriso era para mim um chamado ao silêncio devocional,
Uma convocação do arauto das alegrias amenas,
Um toque de clarim real ouvido apenas pelo espantalho do milharal.
Então, as formigas vieram e carregaram cada gota de mel
E as vespas desfizeram os favos hexagonais de luz e carne.
Então, cá eu contemplo a linha reta de tua expressão:
Inerte e muda, inerte e muda como uma estátua de sal.

Soneto VII

Se a brisa descer em tempo de inverno
Ou maresia de repente vier do deserto,
Escuta a cantiga que o amor expressa,
Porquê fora de estação surge a paixão.

Se uma pétala de rosa fresca cair morta
E for primavera colorindo a vida à porta,
Silencia diante duma provável traição,
Porquê na estação mais fecunda a ilusão.

Se o Senhor, porém, dois quiser no altar,
Se unir Ele desejar para sempre um casal,
A Calenda se desfará na chama eternal.

Se o Senhor deitar sobre estes dois dedos
O leve fardo e o suave jugo duma aliança,
Um a um o tempo desfará os idos medos.

Cartas a uma moça relutante em amar — III

Minha cara,

É já o terceiro domingo e é já a terceira carta, a última carta. Nada mais te direi além do que hoje, nas linhas adiante, te direi. A palavra será tua, então. Tu é que me dirás qualquer coisa, se quiseres dizer. Não consiste em persuasão e retórica meus parágrafos contigo argumentando. São conselhos bem testemunhados pela sinceridade. Agora, findemos pelo começo. Foi-se o fim invernal da velhice e a meia idade de veraneio outonal. Falo-te já na primavera: dos inícios do amor na juventude. Falo-te destes dias que ainda correm: quando te dizem que estás na “flor da idade”, é isto que, em parte, significa.

Tua beleza está ainda nova no tempo. Ela rebrilha a potência do teu corpo e o dínamo da tua alma, como se um pequeno sol aí no teu peito — e não um coração — bombeasse sangue pelo teu organismo. Tu estás forte como o caule do lírio em primeira florada. Ousará qualquer profanador arrancar-te do canteiro para, em leito estranho, coroar a morte do teu espírito? Eles te fazem isto, e tu pouco ou nada percebes: ceifam-te, pétala à pétala, para misturar-te com as flores de plástico que artificialmente fingem adornar os ambientes insalubres do planeta. Te digo simplesmente que tua beleza não foi criada pelo jardineiro para contaminar-se, sequer esteticamente, com o mundo. Tu eticamente foste feita para que apenas um conhecedor de fragrâncias raras se contentasse com um só (o teu) perfume; para que apenas um conhecedor de sutilezas acetinadas da pele se contentasse com uma só e específica (a tua) delicadeza ao tato; para que apenas um olhar conhecedor das belezas e harmonias das formas para sempre se contentasse com uma só (a tua) mirada. Percebes teu valor, menina? Um poeta, já não me lembro qual, ensinou que “As flores não deixam o mal ir adiante.”

Tu serias feliz, em verdade, se permitisses que os mistérios serenos, as idas e vindas mais bruscas, os olhares furtivos e os silêncios entrecortados do amor juvenil te contentassem os dias. Quanto mais apaziguado teu espírito estaria sem o frenesi biológico destas conquistas que não são conquista — que são saques físicos e nada mais senão qualquer atividade próxima de pilhagem sentimental. Tu ainda não sabes o que é um balcão, o que é estares neste balcão e o que é uma serenata para ti debaixo do balcão. Tu ainda não sabes o que são bilhetinhos espalhados pela semana. O WhatsApp é incapaz de prover-te das incertezas da caligrafia dos poemas meditados, da letra vacilante de quem depõe no papel a própria alma. Tu serias feliz se alguém detivesse tua companhia nos teus dias trigueiros de mocidade. A primavera é para o cantar dos pássaros acasalados, não para orgias de urubus e abutres, por mais jovens e fogosos que eles sejam… A primavera, a tua juventude, é para o colorido dos dias e não para o acinzentar das madrugadas sem sereno.

Te lembras quando teu estômago parecia guardar não uma borboleta acrobata, mas um panapaná inteiro de borboletas saltimbancas? Te lembras quando as mãos suavam frio como se tivessem tocado o glacial zero absoluto? Te lembras quando passavas horas esperando na porta da escola para que teus olhos de repente, num milésimo de segundo calculadíssimo, olhassem e logo se desviassem para o lado? Não queres mais isto? Como é bom este jogo-luta da conquista, quando duas solidões se encontram na órbita do tempo e vão fazer dos seus particulares vácuos unidos um altar de significado compartilhado. Como é bom amar e abandonar como resto e porcaria tudo aquilo que até o instante anterior parecia ser a máxima fonte de sentido para a existência! Te lembras quando coravas e tuas bochechas, quentes, ficavam mais vermelhas que os teus lábios escarlates? Te lembras quando dormias e acordavas com pensamentos fixos mas reconfortantes? A lembrar, depois recorda-te e mais luz te iluminará.

Quem fruirá do melhor da tua juventude e de quem tu fruirás, igualmente, o melhor do viço dos anos? Quem terá o teu perfume impregnado na alma, quando os passos te fizerem mais distante, recordando-se até donde em ti a fresta física encontra a fenda do transcendente? Quem te será leal quando no varejo e no atacado mundano a oferta de corpos e sexo é tão livre e barata quanto variável? Quem compartilhará contigo teus melhores anos de pujança corporal e sentimental, quando em cada ação e pensamento parecem residir toda a energia do cosmos? Tu renuncias à tanta alegria quando permites que seja puramente material o encontro de dois corpos: um êxtase químico e biológico, que nada desprende para o teu ser senão os pruridos comuns à classe mamífera. Apalpar não é acariciar, farejar não é cheirar, roçar não é tocar, labiar não é beijar, ver não é olhar, falar não é dizer. Quem? Uma vez perdidos e gastos estes dias, não haverá mais volta completa: a semente que perde a umidade do orvalho durante sucessivas manhãs será, se crescer, para sempre uma árvore mais anêmica e certamente menos frondosa do que poderia ser. O ápice da fertilidade corporal é também o ápice da fertilidade para o amor verdadeiro. És, por enquanto, terra por ti mesma adubada. Guarda-te.

Recordo-te que amar é primeiro deter o espírito do outro. Quem te ama, antes te amará pelas filigranas da tua personalidade, pelas nuances da tua individualidade, pelas pequeninas essências incrustadas na tua totalidade de ser. Quem te ama, sobretudo, te amará a ponto de querer-te por perto como se lhe estivesse amputado todo o ser, feito tronco desligado do contato nutridor com a terra. Isto que te escrevo não toca suficientemente teu coração a ponto de perceberes que amor é detenção da totalidade (o vôo) nas partes, enfim, que não existe amor naquilo que não amalgama-te à alguém como a pena à asa? Quem, hoje, por qualquer valor teu te admira? Dize-me quem em consideração leva teus talentos encubados, teus dons potenciais e tuas possibilidades elevadas para a vida quando te puxa pela cintura? Quem, quando se deita sob teus cabelos, encontra conforto para as agruras dum dia-a-dia implacável com os honestos? Quem discerne as expressões da tua face como apenas o próprio artista poderia desvendar o carinhoso mistério nas linhas do rosto da musa retratada?

Qual besta masculina tu podes dizer que um dia te amou? Sê contigo mesmo sincera e passa em revista por cada um daqueles que já te beijaram. Nenhum? Algum? Eu bem o sei; e assim sei porquê em ti percebo as ânsias aceleradas da carência, os frêmitos desesperados da alma com sede. Ouça-me. Se mais perguntas eu te fizer, se mais questões eu te propor, se mais dúvidas eu te levantar, nada além do que até agora angariei de ti acrescentaria às tuas idéias. Não te falarei sequer de namoro, de noivado ou mesmo de casamento. Não é necessário, pois. Todo o já escrito é caminho para estas fases que antecedem à feitura duma família. Todo o já escrito é via única para minha proposta inicial, a proposta que comissionei a mim zelosamente revelar-te: tu não queres amar porquê ainda não amaste efetivamente. Segue em silêncio por algum tempo. Cala-te durante as voltas do relógio necessárias para teu amadurecimento. Depois, vem a mim e dize-me se nalguma coisa te fraudei. A verdade, saberás, foi bem dita. E a verdade, disse-nos o Senhor, liberta.

Deste, que te quer bem porquê te ama.

Notas do Silêncio — I

O silêncio convém apenas a espíritos que mergulharam no profundo da Linguagem. Todos os demais, superficiais na Palavra, precisam do barulho para sobreviver ao próprio vácuo de Significado.

À inteligência convém o silêncio, porque a alma é serena e fluidamente pacífica nos homens conscientes. Ouvi-la, a inteligência, requer atenção sob-espiritual. Sob-espiritual: o fluxo comunicativo entre o homem e a Imagem-e-Semelhança. Uma atenção que dispensa a ação sonora exterior.

Poucos homens prestam atenção aos seus sons corporais. Não distinguem os batimentos cardíacos e são incapazes de entendê-los como correspondentes às batidas das percussões musicais que às vezes lhes movimentam a psiquê. No máximo, ouvem a própria flatulência quando se preocupam com a possibilidade de que alguém lhes tome por broncos incivilizados. Preocupação superficial, cosmética — a-ética. O som dos movimentos dos braços, das mãos, das pernas, dos pés, dos dedos, das articulações e juntas. O som do átomo.

A burrice está para o pensamento como a feiura está para os ângulos. No pensamento, o silêncio é a vírgula da dízima periódica do infinito posto na imaginação.

Estoure todo a energia num boom de nada!

Há níveis sub-animalescos e eles correspondem à anti-espiritualidade demoníaca. Níveis sonoros. O sub-animalesco é o demoníaco, porquê na hierarquia das criaturas ela corresponde à degeneração do mais elevado. Não há animal que não seja, pois, bom. Não há perversão animal. Há, isto sim, graus de perversão humana que a nivela aos animais pelo instinto. O sub-animal, contudo, ultrapassa o instinto (que, em certo sentido, mantém estrutura boa) e desce à degeneração consciente, nivelando o homem a específicos animais — daí, a simbólica dos vícios valendo-se da fauna planetária.

Esponjas de sol — XXXIII

  1. Em 2009, depois de uma decepção das grandes, tomei uma resolução na vida. Ela só me trouxe coisas boas e melhores até hoje. É esta, que subdividi em três preceitos: (I) Aquilo que não puder ser apenas teu, exclusivamente teu e apenas por ti tocado para sempre, não queiras para ti, ainda que te amargures e sofras; (II) Não desejes fazer aquilo que qualquer outra pessoa possa fazer, porquê a tua vocação é só tua e só tu a poderás desempenhar com fidelidade adequada à Providência; (III) Quando existirem muitas e inúmeras possibilidades de escolha, não te decidas por nenhuma delas, afinal, tu queres o melhor, que é uma e única e só coisa — e que sozinha deverá se apresentar ao teu arbítrio. Agora, em 2017, atualizo e adiciono mais esta regra, a quarta: (IV) Estes três preceitos têm prazo de validade ilimitado e aplicam-se a tudo aquilo que na vida te tomar pelo menos meia dúzia de minutos na oração.
  2. O povo reage à realidade, não às explicações acerca da natureza da realidade. Via de regra.
  3. Passei o machado nos treze nós. / O tronco ficou liso para o corte, / Como um broto recém-nascido. / O lar surgiria assim desta morte. / Serrei as tábuas e fiz o quadrado, / Perfeito alicerce para nossos pós.
  4. Se tentares sepultar um jardim, que fim levará cada planta e flor? Ora, renascerão e florescerão mais fortes ainda: porquê de si mesmas volverão. Quando és para ti mesmo um adubo, mais te pareces com Deus.
  5. Troco as buzinas disparadas e os alarmes estridentes pelos sinos que anunciam e badalam o transcendente. Troco o v8 do carro possante pelo cavalo caminhante, trotando elegante como quando marchava às gentes. Troco as ficadas de balada com tantas moças carentes pelo altar silente que me dará a mulher pura ofegante. Troco a taça de cristal do mais caro dos restaurantes pelo fogão à lenha que construiu meu bisavô viridante. Troco as notícias dos sites, nestas internets alienantes, pelo livro de página amarela no sítio quieto dormente. Troco os quatro cãezinhos sofrendo alergias doentes pelas dúzias de cachorros correndo no mato contentes. Troco o filho único solitário aprendendo física ausente pelas três meninas e pelos dois meninos lendo cientes. Troco tudo, toda a glória da civilização dos continentes pela natureza assente duma família livre e consciente. Troco cada parafernália, invencionice e pus atraente pela terra, pela água, pelo ar, pelo fogo dos inocentes. Troco, mil vezes troco, cada falso prazer delinquente pelo gozo permanente de ser gente almal no imanente. Troco o concreto armado de cinza em linhas incipientes pelo traçado original dos tijolinhos vermelhos fulgentes. Troco a idéia oca de igualdade materialista e demente pela sã hierarquia de cada coisa em seu lugar potente. Troco o estrondo do relógio que acorda maquinalmente pelo canto dos sabiás piando seus hinos normalmente. Troco a pressa das paixões que avassalam etereamente pelo amor que se constrói assim lenta e serodiamente. Troco os diplomas das novas disciplinas putrefacientes pelo pergaminho que a Sócrates condenou repelente. Troco a teologia dos clérigos sem a fé de antigamente pela oração daquela velhinha de véu e olhar vidente. Troco, troco já, só não troco o meu eu intransigente por qualquer outra anomalia à maioria conveniente.
  6. Amor é renúncia. Renúncia de barulhos cacofônicos para a conquista de silêncios alternando-se àquela “música só nossa”. Renúncia de diversões sazonais que se repetem igual e indefinidamente, semana após semana, em ganho de alegrias permanentemente renovadas, que se diferem no fruir do tempo fluindo. Renúncia de todas as alternativas abstracionalmente medíocres repousando nas cores estagnadas na paleta em favor da concreta e inspirada criação duma obra prima irretocável pelo pincel humano. Renúncia de todas estas falsas possibilidades estatísticas que são os “contatinhos” em troca de um só e certeiro e decorado número. Renúncia de paixões emocionalescas (que nada são senão modinhas afetivas) por um amor “clássico” — enraizado nos fatos sentimentais que se mantêm desde a Eternidade. Renunciar a todas, em função de uma, é ganhar tudo numa só pessoa. O amor é a renúncia da escravidão a inúmeros senhores tiranos em proveito da servidão voluntária a um só seu e único servo. Homem e mulher que, por e para si, mutuamente, não renunciam ao mundo, renunciam à única possibilidade de terem o mundo depositado em suas juntas, justas e entrelaçadas mãos.
  7. Uma alma forte é aquela que se sente a mais fraca, entre todas, quando vai ter com Deus…
  8. Que é a luz, quando o reflexo é mais sombra que clarão? / Que é a treva, quando a fresta ilumina toda a escuridão? / Escuta-me, porquê o silêncio do universo diz-me dúvida / Enquanto a voz do cosmos brada seu cântico de certeza!
  9. Talvez, nos santos, os cabelos brancos sejam a alma tomando conta do corpo. O princípio, o gérmen da ressurreição! E quanto aos demais homens? Talvez seja o corpo entropicamente tornando-se etéreo, incolor no nada…
  10. Que é sinceridade? É empregar toda a realidade da alma em cada ação.
  11. A alegria do dia. Ouvi uma velhinha cantarolando, com voz suave mas firme, enquanto punha a roupa no varal, o refrão de um hino que, quando menino, eu ouvia e também cantava na igreja: “Fica, Senhor, já se faz tarde. Tens meu coração para pousar. Faz em mim morada permanente. Fica, Senhor, fica Senhor, meu Salvador.” Ouvi e parei, me encostando no poste, atrás do muro da casa dela. Assim que ela terminou, eu disse um amém baixinho pra ela não ouvir e se assustar e, então, fui-me cá para casa. Coisa boa. Coisa bonita. Coisa rara… Minha senhora, dona de nome que desconheço: muito obrigado!
  12. Um gole d’água na boca do trabalhador: quanto mais prazer que nas garrafas todas de álcool engolidas pelo vagabundo!
  13. Uma lamúria ouvia o rei da boca do camponês: contava-lhe como a alma telúrica dos campos estava se esgotando na bolsa cheia do burguês. “Vede, majestade, que a terra que põe a mesa, a tua e a minha, será mais fraca que os bancos?” Assim nasceu o Absolutismo. Generalizações trovadorescas de idealistas, por um lado, legitimadas por idéias maquiavélicas de dominação, por outro.
  14. O país que se furtou a ter Dona Isabel como Imperatriz teve que engolir Sinhá Dilma como “Presidenta”.
  15. Honrar pai e mãe (digo por mim mesmo) é condição indispensável para crescer e se dar bem na vida. Se tu não ouves os conselhos dos teus pais, tu serás cego para a realidade. Apenas quem nos ama é capaz de perceber que sob nosso caminho há alçapões, buracos, arapucas e armadilhas. Se teu pai e tua mãe dizem “filho, não faça isto!”, “filha, não seja assim!”, ouça e obedeça mesmo que, de momento, tu não entendas o porquê. Gente cega — e, pela idade, geralmente, filhos são cegos em relação à experiência existencial dos pais — não tem condições de avaliar se vai ou não cair no abismo. Quem simplesmente avisa, amigo é. Mas quem avisa e instrui aos berros, pai ou mãe é. A gravidade do perigo eminente exige de quem ama não que envie mensagenzinha educada e serena do tipo “se você fizer isto, perecerá, mas a escolha é sua”; exige que se puxe abruptamente o desavisado, com força e alarde, da beira do precipício. Se tu queres ser feliz, honra teus pais. Eles não são “chatos”, “quadrados”, “calhordas”, “coroas” e “ignorantes”: eles são as únicas pessoas capazes de, sabendo quem tu és, impedir que o mundo te transforme numa pessoa fracassada.
  16. Nós nos arrependemos de certos amores, mas nunca dos poemas que eles nos fizeram criar.
  17. Não tenha tempo para as coisas que não têm alma.
  18. Entre o porvir e o futuro, / Escolho o primeiro, seguro / De que o tempo é crente / Na eternidade que recolho.
  19. Há na terra uma tapera, um palácio de madeira, onde os anos eu passaria, lendo e vivendo, amando e vivendo, comendo e vivendo, fazendo a vida e vivendo. Ali, deitado sob o zimbro. Ali, deitado à margem do rio. Ali, deitado com ela sob o luar.
  20. Ou tu te encontras com Deus ou nunca te encontrarás contigo mesmo…
  21. O céu começa no coração; ali, onde o inferno termina.
  22. Quem te vê como Deus te vê? Quem te vê como tu, no íntimo, a ti mesmo te vês? Quem assim te vê, te ama. Porquê vê o quê tu és: vê quem tu és. E quem te vê como o Diabo te vê? A multidão, certamente, tem para ti os mesmos olhos do Maligno. Quem te vê como tu, no íntimo, a ti não te vês? Quem assim te vê, não te ama. Quem assim te vê, sequer te vê: porquê vê a carcaça pseudo-personalitária que está caricaturizada no mundo. Toma nota!
  23. Gênios não têm qualidades próprias de máquinas, estas sim criadas por gênios. Gente que desempenha tarefas fenomenais/extraordinárias à moda “memória de computador”, p.ex., não é genial. É cérebro-maquinal. Não é capacidade (para conhecimento) mental. É armazenamento de dados num hd orgânico; patológico. Gênios têm algumas poucas limitações proporcionais às suas muitas profundidades. Superdotados tem muitas limitações desproporcionais às suas poucas alturas.
  24. Sabedoria é uma tradição experimentada.
  25. O mundo está podre. Escolha não apodrecer com ele.
  26. Amo aquela que é dúvida? Não, já não a amo. Decresce o amor, vagarosamente, à nível anterior. Agora, estão saindo uma a uma as borboletas do panapaná estomacal. E os calafrios são meras cócegas que em si guardam lonjuras tanto do quente quanto do frio. A temperatura ambiente chega com nano-estalos.
  27. Implicância, modalidade de carinho.
  28. A inteligência se desfaz a si mesma quando conscientemente o homem decide acolher a alienação que lhe tolhe o sofrimento.
  29. O mundo está organizado de modo a triturar a inteligência de quem decide desprezar a Deus.

Cartas a uma moça relutante em amar — II

Minha cara,

Espero que tenhas refletido e que, ao menos, estejas com os sentimentos mais acessíveis àquela questão. Continuo, agora, pelo meio do caminho. O meio do caminho são os anos firmes e maduros, os anos que vão dos trinta aos sessenta e poucos. Os anos nos quais em ti se deveriam integrar, meio a meio, idéias acerca dos sentimentos e sentimentos acerca das idéias. Os anos do verão e os do outono feitos uma só estação: abrasamento entrosado a cálido frescor, para os que amam; e decomposição ao sol e apodrecimento à sombra, para os que não amam. O inverno ficou para trás, na primeira carta de letras mais frias, a perguntar: lareira farta de lenha em casa confortável ou esfregação de mãos geladas na caverna úmida? Sei que entendes e compreendes minhas metáforas.

Vês a rotina dos teus pais? Vives a rotina dos teus pais? Viveste a rotina dos teus pais, entre eles e contigo? Queres coisa semelhante ou muito diversa ou um rígido meio termo ou mesmo queres talvez temperar tudo com novidades e tradições à tua maneira? Pois está aqui, neste período, a possibilidade de um relacionamento realista entre homem e mulher, de receita antiga: erotismo e companheirismo rotineiros, assentados no tempo ordinário. A rotina sobrevém a todos nós, menina. Ela é o tempero do inédito, do incomum, do extraordinário, do “de vez em quando” que surpreende. Ninguém pode sobreviver espiritual e fisicamente sem viver um dia após o outro compartilhando, de segunda à sexta-feira, uma rotina mais ou menos definida de pequenos e médios prazeres que desembocam nos sábados e domingos dos grandes prazeres. Ninguém pode sobreviver mastigando buffets de segunda à segunda-feira; por isto, arroz e feijão doméstico devem temperar a semana para propiciar a mesa “exótica” do fim de semana. Outro dia, eu já te dizia que a rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos. Por que te disse e te digo isto? Porquê o amor se prova pelo tempo passando: ele perpassa as idas e vindas dos dias, com suas ações medíocres e sublimes, como uma mesma água escorrendo sobre a areia (desde que com força suficiente para nela não se infiltrar) e sobre a rocha. Estes anos de vida adulta, de meia-idade, como dizem, são os anos do comum, os anos do sempre semelhante mas do sempre renovado. Estes anos sãos os anos em que se provam a consistência dos nossos sentimentos através da dissolvência do calendário. Se a rotina for restauradora e não corroedora, o amor sairá mais fortalecido e os beijos mais queridos que nos tempos da mocidade. Se não amares, anota: não terás estas coisas e passarás teus dias frustrada por dentro e encolhida por fora, tentando infertilmente reviver a juventude (duas vezes) perdida.

Considera o quê te pergunto. Quem te completará de significado nestes dias em que tua particular humanidade, adulta, estará no cume das forças do espírito mas também suscetível ao abismo das fraquezas da carne e, então, precisares de alento para não ceder às tolices da existência? Quem dançará contigo nas tantas festas de batizados, casamentos, aniversários e nas comemorações quaisquer que de ti exigirem um par especialmente conhecedor dos teus pés para os bailados? Mesmo sem música e platéia: quem dançará contigo na cozinha, quando a eletricidade faltar e tudo ficar iluminado por velas, até que tu possas voltar à sobremesa no forno e ele à churrasqueira no jardim? Quem te acordará com abraços seguros e sossegadores, quando um pesadelo noturno te fizer chorar como quando, ainda menina, acordastes perguntando por tua mãe? Quem rirá das tuas piadas sem graça, não fingindo que é boa a piada, mas rindo porquê é bom teu ânimo e é contagiante teu bom-humor? Quem te limpará o canto da boca quando, na mordida faminta, o molho te lambuzar os lábios? Quem soprará o ardido cisco do teu olho, depois da caminhada com pó e ventania na fazenda? Quem aguentará, com afagos e chocolates, teus acessos de cólera e cólica quando a TPM te transformar numa medusa mitológica? Tu realmente não almejas alguém “para sempre e sempre, aleluia”? Tu até podes não acreditar que existiram aquele homem e aquela mulher primordiais por Deus aninhados no Éden; mas, deverias viver (viverás?) como viveriam Adão e sua Eva…

Sexo após transa não é amor coisa nenhuma. É biologia afobada movida por coração desesperado e ansioso. É espirro de prazer que deseja e acredita ser ciclone de gozo. As imagens que uso para te ensinar estas coisas podem parecer-te algo “altissonantes”, mas são as melhores em didática que hoje sou capaz de arranjar. A balada te abala o espírito e o racha como a terra seca do sertão sem chuva. Não percebes que te aniquilas semanalmente e, ao cabo, persiste no teu coração o desejo ardente de andar pelo mundo de mãos dadas até o fim do horizonte de sol poente? Sei bem que bem sabes que apenas mal te faz esta existência entre os maus. Nenhum homem que contigo passa uma ou mesmo algumas noites poderá dar-te quaisquer destes regalos, porquê não pode dar-te amor. Nenhum. Eles às vezes te ofertam o quê não têm para, iludindo-te (como a um burro atrelado à cenoura que o obriga a trotar), te aproveitarem como a um pedacinho de toucinho salgado num infindo banquete de carnes suculentas. Tu queres, a valer, ser apenas este insignificante aperitivo no menu inacabável dos canalhas glutões, um ossinho de cálcio poeirento jogado ao ossuário das rezes passada e futuramente abatidas, cujo fim orgânico é também o vaso sanitário?

Escolhe ser uma só carne com alguém ou serás apenas uma peça à exposição no homicida açougue social, até que deste teu corte o mundo enjoe e acabes, feito Jezabel, comida de cães pelas ruas marginais da cidade. Para isto, deves amar antes a Deus. Se tu amares mais a Deus que a qualquer homem, tu terás apenas um para ti e, então, tu jamais o abandonarás. E se ele amar mais a Deus que a ti, ele jamais te deixará, porquê não poderá exilar-se da mulher que o santifica, que o faz homem eterno. O último imperador da Áustria, aquele país musical de valsas românticas e altares barrocos, sussurrou à sua esposa no leito de núpcias: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu.” Que alguém também isto te diga.

Quem te dará a mão quando a multidão apontar teus pecados esquecidos? Quem acalentará teus medos incrédulos quando a razão natural descrer do óbvio sobrenatural? Quem te encomendará à grandeza de uma vida dedicada a ladrilhar com pedras bem talhadas o lamaçal da existência venial? Quem não te esconderá do mundo e, feito Justiniano, far-te-á sua Teodora? Quem te dará filhos e filhas para crescer e multiplicar o Céu na Terra? Quem te limpará dos olhos toda lágrima — aquelas provindas da cebola mal cortada e aquelas vindas do âmago ferido? Quem não se irritará com tuas manias quando a convivência revelar as bobas e sérias idiossincrasias? Quem não procurará nas esquinas o corpo mais sarado quando tua pele se estriar e quando o cansaço numa cansativa quarta-feira não permitir sexo-de-subir-nas-paredes? Quem será homem-varão na tua vida, e não macho de fácil cio, quando a indecência alheia vier ferir tua dignidade com assovios e leviandade, quando ameaças físicas e metafísicas te fizerem frágil e impotente?

Medita. Espera mais uma semana e a correspondência terminará; e terminará também, queira Deus, com tuas sandices, com teus medos e… com tua relutância.

Deste, que te quer bem e que te diz: “If you intend thus to disdain, / It does the more enrapture me, / And even so, I still remain / A lover in captivity.”

Inquietud

El sonido de mis sueños
Por la noche se calla.
Sin mi coche, camino a pie
Sólo com Dios, sin baño.
Voy encontrando el tiempo
Como quien, por primera vez,
Encuentra su propia cara
En el espejo.
El sonido ahora es himno,
Alabanza al Significado.
Soy yo mismo,
Ante el tiempo desesperado.
El silencio compone la esperanza
Y la melodía aparece en la partitura
Como las letras en la pared figuran.

Cartas a uma moça relutante em amar — I

Minha cara,

Ser-te-ei como sempre fui contigo: verdadeiro. E, por isto, vou já à coronária questão: a questão do teu coração. Começo pelo fim…

Quem te fará companhia quando a doença final, a última dor, tomar teu corpo? Quem assistirá teu fim com afagos, canja e conselhos imortais? Quem por ti derramará lágrimas quando o sacerdote oficiar o sermão fúnebre, na possibilidade de que ainda te rendas à Fé na eminência do momento supremo? Algum lenço noturno tomará para si como relíquia a fina camada do óleo santo sobre tua fronte deitado? Quem caminhará pesaroso ao lado do teu caixão, quando tua carne friamente estirada estiver a caminho do sepulcro? Quem poderá te escrever um digno epitáfio, derradeira carta de amor? Quem? Sabes e te recordas que morrerás? Sabes que as forças da tua mocidade um dia se dissolverão? Quem te amará quando tua pele já não for firme, cheia da queratina juvenil, e os teus olhos se parecerem com aquelas estrelas que explodem num último fôlego de luz? Só te beijará na velhice por amor quem hoje te beija por amor: porquê o sexo a partir de certa idade só se mantem, constante e verdadeiramente, quando as almas se gostam em seus corpos.

Tu agora plantas solidão. Ainda há tempo favorável para evitar que ela germine; porém, se te demorares muito, suas sementes logo haverão de brotar e se espraiarão nutrindo-se da tua fenecente aura; e quando crescerem — e elas crescerão ao teu redor — te encontrarás no centro de uma selva escura, a selva da qual fostes a culpada jardineira. A selva da oquidão: sem esposo, sem filhos, sem netos, sem bisnetos, sem o teu eu original pensado por Deus. Quem te dará o banho quente e confortável, quando ao menos da tua primeira cirurgia? (todos os velhos passam por cirurgias). Quem organizará a festa dos teus 83 anos? Quem te comprará flores em dias normais ou mesmo as recolherá do jardinzinho encostado na parede da garagem? Quem te fará chá fraquinho e açucarado aos sábados e café forte aos domingos? Não se trata, escuta-me, de ter apenas alguém que te sirva de babá para a senilidade corporal. Não, até porque tu também deverias (deverás, digo) sê-la. Trata-se da companhia querida e livre de quem tu amas e por quem tu és amada.

Quando hoje recusas um amor seguro e tranquilo, porquê preferes as paixões inconsequentes e tempestuosas, sabe, porém, que já recusas alegria em todos os teus anos a partir de amanhã. Preferirás que um estranho a quem pagues preço elevado te limpe as vergonhas? Que um desconhecido abra, por recomendação médica (e não para que tu vejas o brilho quente e amarelo do sol e respires o ar fresco da manhãzinha que traz os aromas da rua) a janela do teu asséptico quarto de hospital? Como te sentirás quando descobrires que todos os auxílios tidos serão feitos com indiferença rotineira por quem eventualmente te servir? Mais, ainda, pergunto-te: e quando teu coração te contar que todos não te devotam afeição alguma, mas que apenas cumprem (mesmo nos sorrisos cumprimentadores com seus sempre iguais bom dia, boa tarde e boa noite) com suas obrigações profissionais estabelecidas pelo Conselho de Medicina, pelas portarias regulatórias desta ou daquela categoria alinhadas com este ou com aquele estudo científico?

Repito, rumino: vê que de modo algum deves querer amar por conta destas coisas (o futuro solitário ou o futuro assistido); e sequer, e jamais, se ama por elas. Não se ama por estas coisas. Elas não geram amor — apenas produzem algum apego auto-centrado, egoísta. Na verdade, penso que o peso deste teu (por enquanto?) futuro necessário te sirva como “trauma” suficiente para fazer-te refletir sobre o amor. Não deves amar para ter qualquer dessas beatas benesses que relatei. Se amardes, tua as terás naturalmente. São consequências do amor tais gentis tratamentos, nunca causas. Do contrário, te apegarás ao bem-estar, e não a alguém que o trará porque necessariamente te ama. E nesta relação não serás sujeito de direitos, serás na mesma proporção — a inauferível mas conhecida proporção da eternidade — sujeito de deveres.

Medita. Receberás, no domingo próximo, a segunda carta.

Deste, que te quer bem.

Esponjas de sol — XXXII

  1. O Decálogo é uma espécie de “Kama Sutra” existencial que funciona.
  2. O cristão é aquele sujeito que põe a rotina prazenteira no mundo acima de todas as glórias mundanas. Dou-lhes um exemplo. Se a ele é dado escolher entre (I) erigir qualquer grande obra de genialidade artística tendo sua vida pessoal destituída do prazer ordinário dos comuns e (II) passar seus dias pacificamente amando, casando, criando filhos e morrendo quietinho na cama quentinha depois de uma vida consagrada a labor honesto e anônimo, certamente sua escolha consciente recairá sobre a segunda opção. Não lhes digo que exista oposição entre um estado de vida culturalmente elevado e a pura vida natural do homem natural. De modo algum! Digo-lhes que, se a ele imperiosamente for mandado escolher entre uma e outra vida, é a possibilidade da felicidade originária que o cristão abraçará de pronto. Por que? Porquê no espírito do cristão está o “pó do Éden”, que o dirige — feito bússola magnetizada pelo Céu — em direção ao [Re]Começo Perfeito.
  3. O mundo desabará para ser levantado. Como uma lua de quatro fases apagada, a Humanidade se iluminará de repente, depois, quando já não acreditarem mais em lua.
  4. Dá tudo, nada espera. Sê bom, mesmo que isto te faça algum “mal”. Aceita na tua mente e assimila no teu coração tudo aquilo que acontecer contigo nesta tua vida sob o sol. Nada espera, então, e sê tudo para todos — ajuda-os sempre! Ainda que te sintas desconfortável, faze o bem mesmo consciente de que provavelmente este teu agir irá incomodar teu ego. Meios e fins. Meios e fins: Deus não é maquiavélico. Ele harmonizará todas as coisas em ti, para que sejas verdadeiramente um homem bom.
  5. O mundo está muito raso. E no raso apenas o raso se afoga. Sê, ao menos, um pouco profundo e não te afogarás; e então submergirás o raso e ele aumentará ainda mais a tua profundidade, e assim tu farás mais profundo o mundo e o mundo em ti mergulhará até que um dia, pela sua proporção potencial germinada e com tua ajuda atingida, o mundo retornará a ti abissalmente profundo e tu — ainda que ao princípio tenhas sido maior que ele quando do início desta mútua fluência — finalmente serás como deves ser: infinitamente menor que o mundo e, enfim, tu poderás entranhar-te nas águas da realidade e nadar à braçadas sobre e sob sua imensa superfície.
  6. Quando tu amas e assim amante enxergas na amada um virtuoso potencial que ela própria não consegue enxergar (ou que talvez opaca e vagamente enxergue), muito certamente ela nenhum pouco sofrerá por isto. Mas tu sofrerás por ela — e sofrerás quase sempre com as “mãos atadas”. Isto é uma espécie de amor não correspondido.
  7. Quando eu era menino, pontificava imperiosidades o tempo todo. Dava ordens aos soldadinhos de plástico (não de chumbo — estes eram caros e, por isto, moleque nunca os tive), fazia dos coelhinhos da índia que meu pai criava monstros contra os quais movimentava os tanques de guerra de brinquedo, era diretíssimo e mandava cartinhas de amor às meninas da igreja e da escola, cavoucava os jardins alheios em busca de pedras para a coleção e berrava contra quem tentasse me dissuadir desta empreitada pseudo-mineralógica, brigava na rua e cometia contra meus oponentes manobras dignas dum Clausewitz. Era rei e sacerdote. Fiquei velho (cabelos amplamente brancos aos 28 anos) e, prestando atenção ao meu dia-a-dia, às vezes penso que embestei nestas virtudes: mais quieto, menos dinâmico, mais tímido, menos briguento. Estou camponês e paroquiano. Sabedoria da idade adulta ou entropia da idade infantil?
  8. Uma nação que não tem funerais de estado dignos nunca terá ascensões de estado dignas.
  9. Fugir da aparência do mal é olhar [e neste instante rapidíssimo que nos demonstra a poderosa natureza duma tentação presente-e-quase-futura] e correr.
  10. O caipira diz: “Quem vê cara, não vê coração.” E eu digo: quem vê coração, faz da cara um coração. Se você é um ser desperto para as coisas da consciência e do espírito, logo perceberá, depois do primeiro olhar, que a impressão estética que uma mulher lhe causar logo cederá lugar a uma intuição ética, cujo julgamento afetará a beleza ou a aparente feiura dela — positiva ou negativamente. A bela viola perderá a afinação e o pão bolorento parecerá apetitoso, a depender do âmago das suas cordas e da essência do seu trigo. Tudo isto, metaforicamente, quer dizer o seguinte: os valores de uma pessoa (já depois que a beleza ou a feiura fizerem seu trabalho de atração e de repulsão, respectivamente) refarão cada linha no rosto dela. Se houver virtude na alma, a aparente deselegância facial cederá lugar àquela beleza que vem de dentro, num crescendo encantador. Se houver vício na alma, a harmonia das formas se transformará e nos parecerá muito menos bela e, como tal, muito menos atraente, num diminuendo desencantador. Tanto na alta literatura antiga quanto na baixa expressividade interneteira moderna, esta realidade está bem sedimentada. Se por um lado o livro de Provérbios (11:22) nos diz que “Como jóia de ouro no focinho de uma porca, assim é a mulher formosa que não tem discrição”, os memes do Facebook afirmam o seu “É bonitinho, mas ordinário” no que tange a nós homens sob o julgamento feminino, p.ex. Minha opiniãozinha: o “método científico” do Senhor nos assevera que pelos frutos nós conhecemos a árvore. Aplique-se este método à beleza de alguém, esperando alguns dias, semanas e meses: na face, a disposição das linhas simétricas ou assimétricas será fisicamente a mesma, mas a metafísica da alma não nos engará a médio e a longo (e às vezes até a curto) prazo: as moças menos bonitas nos parecerão lindas e as lindas nos parecerão menos bonitas. A virtude aformoseia o rosto, o vício enfeia. Boileau-Despréaux bem o disse: “Rien n’est beau que le vrai: le vrai seul est aimable”Nada é belo senão o verdadeiro: só o verdadeiro é amável.
  11. Se Elizabeth II pensasse um poucochinho mais na sua dinastia, estabeleceria domiciliarmente netos seus pelo menos na Austrália, no Canadá e na Nova Zelândia e, até, incentivaria que eles fossem coroados reis e rainhas destes países. A Monarquia extra-Britannia está com os dias contados e semear as terras da Commonwealth com o “blaue blut” dos Windsor é sua única tábua de salvação. Mais: e do jeito que andam as coisas pela antiga Albion, se a monarquia não exercer seu papel de Fidei Defensor, os cardos brotarão outro Cromwell para ser seu Defender of the Faith.
  12. Chegará o dia em que o Brasil carecerá dos discursos de um Winston Churchill nascido sob o Cruzeiro do Sul, com português elevado e acessível, com língua forte e elegante, com oratória ardente e sincera. A luta política e bélica que um dia vem requisitará, para nossa vitória, uma verve poderosamente fluente e épica.
  13. O mundo simples, simples de tudo, é este que quero todo dia cedinho. Sol amarelo, céu azul, árvore verde, cada coisa no seu lugar e prontinho. O mundo em que a luz não se perde entre a meia-noite e o amanhecer, o mundo que repete sua novidade, o mundo simples que vai aparecer…
  14. Um ambiente que não melhore tua alma ou que pelo menos a conserve pacificada não deve ser frequentado, a não ser que ali tu sejas o profeta. Ambientes coletivos, sobretudo, onde se adensam as forças biológicas primitivas e seus impulsos mais baixos, não farão de ninguém um ser humano feliz na plena acepção da palavra. No máximo estarás ali neutramente, feito uma garça branca no lamaçal: fazendo inspeções sociológicas, antropológicas, teológicas, espirituais… Ambientes que servem à alienação para esquecimento de problemas, inclusive, apenas adiam a prestação de contas do homem consigo mesmo. Se o lugar e aquilo que acontece no lugar não servem ao gozo do teu espírito em união com teu corpo, dá o fora!
  15. Guarda o teu coração, puro e quieto, longe da mão-espinhal que o dilacera. Guarda o teu coração, limpo e santo, próximo do coração de quem o libera.
  16. Este sentimento de ter nascido em época errada esteve (e está) incrustado no coração de todo homem que foi (e é) chamado a transformar sua época.
  17. Se é indigno dos olhos de uma criança de cinco anos, é também indigno dos teus olhos.
  18. Os sonhadores cansam os acordados com seus discursos intermináveis sobre tais e tais planos, sobre tais e tais detalhes de cada um dos seus planos. Os sonhadores são enfadonhos, mas tais enfados são a glória do mundo, glória que sempre será numa e noutra geração parida porquê definitivamente “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
  19. Todo dia faço perguntas a quem encontro por aí. Hoje, de manhãzinha, perguntei à uma moça (muito bonita, por sinal): “Por que você pensa assim?” Resposta: “Não sei”. Perguntei: “Que pensa de Filosofia?”. Resposta: “Coisa de louco!” Perguntei: “Você gosta de ler?” Resposta: “Odeio!”. Perguntei: “O quê você quer fazer da vida?” Resposta: “Ganhar dinheiro e gastar tudo”. Perguntei (a última pergunta): “Você é feliz?”. Resposta (a última resposta): “Todo final de semana, bebo e transo até esquecer toda a semana. Esta é a minha felicidade.” Este é o retrato da minha doente, fraca e triste geração. Registro, apenas.
  20. O poder humano é a teia hierarquizada dos interesses (maiores e menores) dos homens (grandes e pequenos). Decida-te a não fazer de tua alma um fio vivo nesta teia de morte e ela desabará e, então, tu não serás aranha nem inseto. Tu serás homem livre!
  21. Elias sentiu-se só. E eu, Pai, mesmo sabendo que não estou só, sinto-me só. Fala comigo e traze-me o pão e a carne. Nutre-me com a refeição eterna. Que o terremoto trema a terra do meu coração, que o vendaval tire o fôlego dos meus pulmões, que a saraiva queime minha pele, mas… que ao fim tua voz mansa e suave console meu espírito! Senhor, sabes que tenho coração ingênuo: sou como a criança que a todo dia descobre a inexistência do mito que até a pouco lhe enchia de sonhos. A solitude, Pai, é grande quando nos outros não descubro o mesmo brilho e ideal, quando o que é fugaz e de irrisório valor toma o lugar do sol dourado que resplandece esperança no meu pensamento. Senhor, Tu deste ao profeta a capa e a virtude. Tira de mim a mantinha infantil e costura sobre meus ombros o manto da Tua proteção. E, então, ainda que desabrigado sob a tempestade, ainda que sozinho a peregrinar pelo caminho estreito, dar-me-ás a força do meu pó, o alento do meu sopro, o calor do meu sangue. Senhor, toma para Ti meu eu e faze-o livre da ilusão, livre da miragem, livre da quimera: entrega meu coração à comunhão real de duas solidões. Amém.
  22. Quanto mais distante de Deus, mais sofrerá a pessoa e menos ela saberá porquê. Que deve o cristão fazer diante disto, querendo ajudar? Corrigir com amor, quando possível e oportuno; e orar, sempre e em silêncio. Apenas o Espírito Santo argumentando (e com o sofrimento redarguindo a consciência) poderá despertar o morto. Não é um trabalho humano, para ti. É um trabalho divino que, talvez, possa servir-se de ti.
  23. Se te comove, te diz respeito.
  24. Apenas o pecado desumaniza.
  25. A grande felicidade, a suma felicidade, que é passar todos os dias com a alma pacificada, com o coração pronto e aberto ao bem, com a mente acesa e penetrante, com o espírito desperto para a verdade!
  26. Quem não ama pelas qualidades, se apaixona pelos defeitos.
  27. Quem não deseja as coisas para sempre, sequer as terá momentaneamente. Ou tu pões teu coração na eternidade ou o relógio consumirá tua existência num abrir e fechar de olhos. Quem não deseja amar alguém para sempre, escrever poesia para sempre, comer a macarronada da avozinha para sempre, cantar a música preferida para sempre, enfim, fazer aquilo que de fato toca o coração para sempre, não amará verdadeiramente mesmo que queira amar de vez em quando, não rabiscará nada além de frases desconexas no WhatsApp e compartilhará citações mambembes de terceiros no Facebook, comerá miojo sabor legumes como se fosse o único macarrão do mundo, balbuciará o hit do momento no chuveiro e gritará a música do instante no show. Escolhe ser humano para sempre e Deus se encarregará de te fazer imortal.
  28. Sentir-se tolo, besta, ingênuo, simples, piegas e bobo faz parte do processo de santificação. Tu vês as coisas como elas deveriam ser se a “maçã” não tivesse sido mordida, enquanto os outros veem as coisas como se elas sempre tivessem sido assim e árvore alguma tivesse sido violada.
  29. O preço que se paga por manter a consciência no lugar é alto. É alto porquê conduz ao Alto.
  30. “Para sempre!” — minha expressão preferida.
  31. Perguntaram-me por aí, jocosamente, se eu sou um “santo”. Negativo. Sou um cara cheio de defeitos e pecados. Tenho “la sangre caliente” e melancólica da velha raça castelhana, sou teimoso feito burro empacado, rigidamente prussiano com horários e mais detalhista que mosaísta bizantino, fortemente tentado pela gula da mesa farta e pela luxúria das belle donne, etc. Provavelmente, se o Espírito Santo não tivesse me tomado desde a mais tenra infância e então não tivesse me remido na Alegria, eu seria um bon vivant niilista, dissipador e provavelmente alcoólatra à moda “Tornei-me um ébrio” (lembram da música do Vicente Celestino?). Mas, de mim, nunca poderão acusar a insinceridade, a mentira e a desonra da fala dúbia e atravessada por interesses baixos. Sou da malta publicana do “mea culpa”, não da tribo dos fariseus. Esta (a sinceridade) deve ser minha melhor e mais bem equilibrada qualidade; e é ela que, por isto, me [re]salva de todo o resto — e me faz almejar e lutar, diariamente, pela santidade.

Trecho do conto “A Carta Que Se Perdeu” [13.9.2007]

Não te entenderão quando amares. Os tempos são maus para quem ama. Eles entendem a paixão, porquê ela é patológica, é passional como uma hiena ferida que não morre e que, sedenta, suplica incessantemente por vinho impuro pela morfina. Não entendem o amor, porquê ele é são, é sadio como um leão dormindo e sonhando às margens silenciosas de fonte fresca. E se tu amares a quem apenas por ti puder se apaixonar? Tu te adoentarás e compartilharás — sem dela provares diretamente — dos efeitos deste mal: melancolia densa e desesperada, silêncios seguidos de gritarias, apego que arranha friamente e carícias que queimam feito saraiva, lágrimas secas engolidas por um estômago jejuante. E se tu amares a quem não te ama e pelo mundo todo se apaixona? Tu te adoentarás e compartilharás, provando indiretamente deste mal, dos efeitos da solidão desértica de olhar para olhos que não veem os teus, para órbitas de vazio cintilando desejo pela terra, menos pelo pó da terrinha que vivifica aí o teu peito e nele a eternidade palpita. Tu te sentirás desprezado, mas sabe disto: aqueles olhos não te veem porquê estão cegos, e o teu colírio faz arder antes de curar. Quem quer, paciente, provar da dor libertadora que traz visão ao espírito e que tanto alumia a íris da alma? E se tu amares a quem te ama? Por acaso escolhe-se a quem amar? Não. Escolhe-se por quem se apaixonar, porquê a paixão é pródiga com os defeitos: a paixão ama pacientemente no outro todos os erros, que atraem e arrastam como os olhos da Medusa e o canto das sereias; olhos e canto que, encantando, fazem do apaixonado um cadáver livre para, a qualquer momento, trocar de sepulcro, de cemitério e de coveiro. O amor, zeloso das qualidades, é que se apaixona ardentemente pelas virtudes. O amor se apaixona pelas virtudes; até pelas mínimas, até pelas ínfimas, até pelas diminutas e escondidas no mais imperceptível reduto vermelho dum coração repleto de negror. Então, o amor faz-te amar a quem não te ama e que, por isto, não merece amor. Eis o fato que é contradição, eis a realidade que excrucia. Medita nestas coisas. A paixão aliena: chama ao bem mal e ao mal bem. O amor tudo discerne: chama ao bem, bem; e ao mal, mal. E se tu te apaixonares, assim loucamente? Não! Enquanto mantiveres bem guardado este teu coração, não te apaixonarás em perdição. Se te apaixonasses, menos sofrerias, é verdade. Se fosses hiena, ririas facilmente ante qualquer facilidade. Mas, tu és leão: teu sorriso também ruge, e rugindo o mundo sorri. Tu verdadeiramente amas. E quem ama sofre no presente a medida suficiente da alegria que lhe cabe no futuro. Não te entendem, porquê amas. Tu, porém, vais além da mera cognição natural: tu tudo compreendes, e por isto amas. Amarás um dia aquela que te amar e este amor se levantará sobre os escombros dos afetos mundanos para organizar a reconstrução do mundo; e o teu amor será para os filhos de Adão e Eva o símbolo da mútua redenção entre homem e mulher, um memorial da boa parte da natureza humana. Lembra-te do sonho, lembra-te do sonho!

Dante a Beatriz, no século XXI

Um dia serás velhinha e o mundo te será, finalmente, real.
Mas da realidade do mundo, Beatriz, tu terás apenas o cinza.
Bela tola, tu serás tão feia quanto a santa Mãe de Whistler,
Mas não terás o calor da lareira familiar, do pincel familiar
Que te arranjaria em verde e amarelo a uma futura geração.
Preferiste a vergonha dos pixels anônimos e do mundo fácil,
Escolheste o fugaz que fraciona tua alma como a carne moída
Da ração dos cães que ficam no meio do caminho da reação.
Quando fores velhinha recordarás dos meus poemas gentis
E chorarás pela vida que poderia ter sido e não foi jamais.
Um dia, um dia o mundo te cobrará minha lágrima nas tuas.

Esponjas de sol — XXXI

  1. É do ar dar à luz seu altar de expansão, sem tudo perder, sem nada cobrar. Dá e ergue ao lúmen o sacrifício do vácuo: geme neste século e a eternidade é tua.
  2. Tua voz, Senhor, ouvi quando a tempestade mais forte caiu, quando trovões e raios de breu e prata luzidos desabaram, quando no jardim os lírios fizeram-se algas do grande Rio. Tua voz, Senhor, era a cantiga que fez ninar toda a Criação; era a melodia que o Bebê embalado recitava para embalar. Tua voz, Senhor, ouvi entre as flechas de energia poderosa, entre as montanhas que sobrevoavam os ares barulhentos.
  3. Luz que ascende ao espaldar de Cristo, o Rei. O inimigo foi da luz o carniceiro e o comedor, até que nos mostrou, então, o Ser seu corpo de terra…!
  4. Quem vence, ergue monumentos altissonantes para o futuro: livros, sobretudo; todas as suas gerações lerão e ouvirão seus discursos explícitos em letras bem discerníveis. As biografias de Grant no Norte. Quem perde, levanta monumentos silenciosos num presente indefinidamente estendido: estátuas, sobretudo; todas as suas gerações mirarão no centro dos jardins e praças a mudez estática do discurso implícito, o discurso do bronze que vai se tornando enigma e arte. As estátuas de Lee no Sul. No meio, entre ambos, outra categoria: o vencedor-perdedor — Lincoln.
  5. Haverá um Moisés moderno, liderando alguma nação de reis e sacerdotes na batalha contra o Globalismo do Anticristo. Parafraseio, ao avesso (e salomonicamente), Menéndez Pidal: Os feitos da História se repetem e o homem que realiza a História é sempre o mesmo.
  6. O Grande Compromisso relacional que Homem e Deus têm entre si é este: compartilhar a mesma Grande Angústia (que em ambos inverte-se no que diz respeito à “agência”). Deus tem a Sua, que é o Homem; e o Homem tem a sua, que é Deus.
  7. O cavaleiro, em régio e alvo corcel, cavalga ao som do clarim prateado. Herói, herói desta terra de mil sóis! Ainda que caia e levante arqueado, é dele a mão que aponta para o céu.
  8. Ao Brasil? Falta liturgia heróica — e cristã. Uns bons hinos marciais e processionais fariam mais pela alma e pelo intelecto do povo brasileiro que trezentos anos de qualquer pedagogia escolar universalizante atualmente praticada pelo Estado. Um “I Vow to Thee, My Country” e um “Jerusalem”, à moda nossa, na boca de meia nação, quase que por si só arribariam nosso moral diante de qualquer grande adversidade civilizacional.
  9. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim terás sempre o fogo que tu me deste: a chama que aniquila a palha e refina o ouro, dia após dia. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim não ouvirás queixumes diante da palavra reta que puseste em meu coração: hei de errar de tempo em tempo, mas querendo acertar o alvo que lá no horizonte aconselha-me “ajusta os óculos, ô rapaz!” Eu te prometo, oh minha alma, que meu proceder, ainda que comparável ao das crianças, será sempre valoroso: aos trancos e barrancos, verás que avanço pelo caminho ascendente e reto. Eu te prometo, oh minha alma, que os meus suspiros de paixão nunca haverão de expelir a pneuma divina dos meus alvéolos cerebrais: minha razão é meu sentimento e meu sentimento é minha razão. Eu te prometo, oh minha alma, que a consciência que palpita anúncios e mensagens de Deus aqui no peito, abrirá sobre os montes sua boca e sua língua dirá o necessário. Eu te prometo, oh minha alma, que teu sangue prateado não se poluirá com a covardia uréica da espécie vacilante: ser forte e corajoso é meu propósito contigo aliançado. Eu te prometo, oh minha alma, que não te trairei com vergonhas e iniquidades, que não adulterarei tua densidade eterna e imortal: os relógios do mundo não cronometrarão meus batimentos e passos. Eu te prometo, oh minha alma.
  10. Um dia, a rasidão vem cobrar seu preço. Uma pessoa oca pode ser vazia por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, dá-se de cara com a Realidade e ela, peça à peça, despe o indivíduo fútil das marcas e das grifes que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente nonsense, sem saber porquê, afinal, toda a vaidosa acumulação de roupas, de carros, de jóias e disto e daquilo, vale menos que qualquer sorriso besta daquele cristãozinho caipira e roceiro que deu um “Deus te abençoe!” junto com o pesado saco de batatas que se comprou na feira naquela semana em que a empregada precisou faltar. Uma pessoa supérflua pode ser inútil por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, o ritmo da existência corriqueira é interrompido por qualquer acontecimento (doença, acidente, falta de grana, etc) que a obriga a passar dias e dias sentada, parada, desligada do mundinho que lhe obrigava a comportar-se assim ou assado, adornada assim ou assado, teatralizando assim ou assado: a festança alienante se retira com seus fumos e sobra o ar puro da realidade que impregna a mente até esganar o coração com dúvidas — primeiro com furos nos furinhos, depois com buracos nos buraquinhos e por fim com abismos nas crateras de nada no peito, até que a pessoa berre e esbraveje contra si mesma um libertador “Putz, o que é que eu tô fazendo com a minha vida!” Um dia “cai-se em si” (queda quebradora e esparramadora de crânio) e os valores antigos começam a brotar do chão à partir daqueles pedaços de massa cinzenta da qual se foi abdicando conforme ia-se moldando à turma, à patotinha, à roda escarnecedora das amizades tão irrelevantes quanto os sapatos, quanto as bebedeiras, quanto às baladas, quanto aos camarotes, quanto às ostentações. Um dia, acorda-se (ainda jovem ou de meia-idade ou já velho) e dá-se de cara com Deus e Ele, pecado a pecado, despe o indivíduo superficial das idéias e ideologias triviais que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente blasé, sem saber porquê, afinal, tudo aquilo que dantes se prezava passou a não ter valor, a não fazer diferença, a não botar sentido no calendário. Uma pessoa nula pode ser infrutuosa por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre.
  11. O homem natural vive numa gangorra erótica: divide-se, sucessivamente, entre várias mulheres; porquê numas vê a “cavala” que lhe acende o sangue e a carne (o útil, biológicamente), e noutras enxerga a “amélia” que lhe sereniza o coração e a mente (o agradável, afetivamente). Ora deseja a paixão daquela que apenas é capaz de lhe estremecer sexualmente, ora anseia pelo amor daquela que apenas é capaz de lhe apaziguar o espírito sedento de carinho. Quando percebe isto, enfim, quando percebe que esporadicamente é vítima desta [repito] “gangorra erótica”, o homem pode libertar-se e, então, pode conscientemente escolher unir o útil ao agradável: uma só mulher, que lhe satisfaça o corpo, o espírito e a alma. Mas, leva tempo encontrá-la. Leva tempo, mas vale à pena. Leva tempo, porquê “o amor é uma longa paciência”, conforme bem poetou o velho portuga Vergílio Ferreira. O grande ideal da gangorra é equilibrarem-se seus lados — os dois lados da mesma tábua — que descem-e-sobem e, outra vez (lembra quando eras criança?), ficar com os pés suspensos e parados acima da terra, flutuando no ar, porquê ali dois pesos equivalentes transformaram a gangorra em balança…
  12. Tu finalmente saberás que definitivamente encontraste a Deus quando encontrares qualquer pessoa nesta vida e em cada uma delas sentires que reencontraste um irmão.
  13. Fui olhar pela janela porquê latiam os cães. Chovia, e os latidos se sobrepunham aos trovões. Por que cargas d’água tanto cachorro fora da casinha, e da casa, em pleno toró? Ghost riders in the sky… Eles viam o que eu não via.
  14. Sexo ilícito causa extrema irritabilidade.
  15. Entre os salvos, há uma categoria de pessoas que só consegue se afastar do pecado porquê Deus a aproxima constantemente do sofrimento. Quando se diz que “alguns vêm pelo amor e outros pela dor”, a realidade é esta mesma — e tudo vai muito além deste jargão da soteriologia gospel. Tem gente que só se acalma, que só se pacifica, que só consegue viver livre de irritações e violências, quando Deus as faz passar (esporadicamente) por determinadas dores físicas e metafísicas. Pedagogia espiritual.
  16. Ouvi hoje, por duas vezes, os dois sons mais belos que existem neste “mundão véio sem portera”: as gargalhadas de um bebê de colo e as gargalhadas de uma mulher apaixonada. Bach ou Mozart ou Handel nenhum seriam capazes de por em partitura melodias tão elevadas. Deus compõe. Deus compôs.
  17. A liberalidade de dar, de doar, é indício de desapego material. Porém, a liberalidade (que é libertação) de dar-se, de doar-se, é prova inequívoca de apego espiritual. As melhores pessoas que conheci, e que conheço, são aquelas que não apenas estendem suas mãos caridosas cheias de meios a quem precisa de ajuda; são aquelas pessoas que estendem-se com mãos, braços, pés, pernas, tronco, enfim, que com o corpo todo (então, com a alma e o espírito todos) estendem-se total e integralmente a quem necessita ser ajudado.
  18. O teu valor, oh homem, é medido pela gravidade das tuas renúncias.
  19. Tu chegas a ser o que és quando tua maior felicidade individual é… seres quem és! Quando já não quiseres parecer-te com este ou aquele, quando outros não forem para ti modelos, então, finalmente, serás o que és e sempre foste: tu serás tu mesmo, e a alegria de sê-lo te completará de gozo indizível e profundo. Grande gáudio é não querer ser outro, é não almejar ter outra vida, é em ti mesmo teres o prazer de ser — e assim é porquê tu és no Ser, porquê tu és do Ser.
  20. Dentre as três tradições cristãs, a liturgia ortodoxa é insuperavelmente a mais bela e também a mais espiritualmente solene e viva.
  21. A imagem, a alegoria. A arca que pousa sobre o Ararat é lenha para o altar de pedra, que é a própria montanha. Noé e sua mulher, seus filhos e noras, e os animais — são o sacrifício. O sol, no horizonte, é o fogo que não queima nem calcina. Ele aquece a vida que desce do altar e volta para a casa, e volta para o mundo. Sacrifício que respira a salvo o ar limpo e puro, úmido. É o sacrifício da morte, o sacrifício do sacrifício, o caminho inverso do sacrifício: o costume é subir para morrer; ali, desceu-se para viver.
  22. A paz que Deus nos dá, quando nada pedimos a Ele senão que possamos amá-Lo, supera todos os gozos deste mundo. Os presentes graciosos (Sola Gratia!) que Deus nos dá, quando renunciamos às baboseiras deste mundo, excedem nossos melhores e mais inspirados sonhos. A Ele eu sou grato por poder amá-Lo sem “contrapartidas”. A Deus eu sou grato por ganhar tudo merecendo nada. A alegria de agir com consciência livre neste mundo — sabendo como ele funciona — é a maior alegria a que pode aspirar um descendente (resgatado) de Adão.
  23. Quando tu te decidires escolher a Deus e deixares os deuses deste mundo, estes deuses passarão logo a propor-te parceria; se a rejeitares, eles te proporão coleguismo; se o rejeitares, a proposta será amizade; e se ainda esta rejeitares, os deuses propor-te-ão apaixonadíssima sociedade plena com direito a lucros e dividendos nas pilhagens físicas e metafísicas, querendo-te fazer também um deus. Então, se desta proposta também te furtares, tu serás dos deuses um inimigo capital — tu serás para eles um satanás, um satanâs para os diabolos; e, então, serás amigo de Deus; e então serás irmão e filho de Deus. Teu nome, oh Imagem-e-Semelhança, é Philotheos.
  24. Que bela esperança eu queria ter quando o vento levava a lágrima. Que bela chance de o luto conter quando toda obra era arte prima. A Civilização é um container sujo: arca de ouro custodiando merda…
  25. Luz na Babilônia ou trevas em Jerusalém. Escolhe, pois!
  26. Um rato não nasce com o coração de um leão. Se aí dentro de ti as luzes mais escondidas vez ou outra emergem e brevemente faíscam em meio à tua própria escuridão e por um instante o pulso firme da tua consciência esgana a loucura do teu pecado e tu por isto vislumbras o céu clarinho da verdade pacificando teu ser inquieto, sabe logo isto: tu tens uma vocação à grandeza verdadeira. Deixa ela ressurgir no teu peito. Deixa ela germinar no teu espírito. Deixa rugir o leão!
  27. Se tu não entendes porquê teu coração é bobo. Se tu não entendes porquê teu coração é ingênuo como o coração das crianças. E se tu não entendes porquê, ainda assim (sendo bobo e infantil), contra ele se batem toda a esperteza e toda a malícia do mundo, sabe pois isto: o teu coração é “bobo” porquê tens nele qualquer especial pureza, o teu coração é de “menino” cheirando a leite porquê tens nele algo da fé dos inocentes. Se contra o teu coração forças terríveis e poderosas raposeiramente se lançam em guerra, sabe que assim acontece porquê o Senhor te quis provar “para saber o que estava no teu coração” (Deuteronômio 8:2). Tua bobeira é tua grandeza e virtude; ela te dará a suma sabedoria! Tua criançolice é tua arquinha de salvação num mundo velhaco e adultesco à espera de outro dilúvio; ela te renderá a suma santidade!

Poesia-proseada VI

Não querer ter te conhecido, não querer ter em ti me reconhecido, não querer ter em ti um pouco de mim. É por isso que estou aborrecido, é por isso que o coração está arrefecido, é por isso que qualquer não é um sim. Nada que eu diga para a mente soará desde agora coerente. Nada que eu recite ao coração parecerá razão neste instante. O cansaço de caminhar na tua direção e a direção pela piscadela mudar. O cansaço de correr no caminho oposto e o rumo pela cara fechada se alterar. Não sei, juro pelos céus, se o teu enigma é querer de adulto ou desejo de criança. Não sei, juro novamente, se o teu dizer é o que é ou é o que dizem as contradições. Confusão de olhares, fusão de não sei o quê, ilusão de procederes, alienação de consciências. Tu me machucas e num segundo me curas, tu me espancas e num segundo me medicas, tu me aniquilas e num segundo me ressuscitas, tu me aguilhoas e num segundo és a própria liberdade. É loucura ou qualquer variante de folia? É razão ao extremo ou qualquer espécie de melancolia? Dize logo a tua realidade, dize logo o que é verdade, dize logo o que é saudade… Não sei se teu cumprimento é doce nos olhos ou amargo na boca, não sei se teu aceno toca a mim quando passo ou é batida de mãos para a mosca que fica, não sei como decifrar, não sei como decodificar. Menina, pára com isto. Pára enquanto eu vivo de amores por ti, enquanto os amores e os dissabores são uma mesma coisa. Até quando, eu te pergunto, até quando ficaremos os dois assim?

Dois trechos de dois contos [que não serão terminados]

O CAMINHO DA ALVORADA

Deixei que a lenha queimasse o fundo da grande panela, que o alumínio escovado perdesse de si qualquer vestígio de semelhança com a prata. Deixei mais: deixei que o cozido de carneiro fervesse até que o líquido vermelho se recolhesse ao teto da cozinha em forma de fumaça branca e até que aquilo que de massal restasse da carne e das batatas se reduzisse à cinzas da cor e do peso do borralho deitado aos pés da lenha. Deixei que os estampidos da madeira queimando se confundissem com o farfalhar do zimbreiro: o violino foi fazer companhia à lenha. O abeto, o bordo, o salgueiro e o ébano dum Stradivarius, quanto à potência para ser combustível, em nada diferem da madeira frouxa dos pequenos pinheiros. Deixei não porquê quis conscientemente deixar. Deixei porque a fúria tomou-me; a fúria com a qual me tomei de mim mesmo. Não tive fome de comida e sequer me lembrei dos seus apetrechos então já em uso na casa. Três dias nada coloquei na boca. Não tive fome de música e sequer percebi que três semanas antes, pouco depois de o sino do correio me ter interrompido a courante da Partita n.o 2 de Bach, lida a carta, eu tinha lançado o caro instrumento às chamas. Três meses se contaram até que voltei a cozinhar (ao quarto dia, passei a comer na taverna). Três calendários completos se passaram silentes até que voltei a tocar. Tu não sabes, Beatriz, o mal que me fizeste. Tua carta está, sobrevivente, comigo. No verso — bom e limpo papel usaste — compus um Agnus Dei para minhas bodas com Helena.

 

SALVAÇÃO

O pouco dinheiro que o capitão trazia no bolso era insuficiente para comprar a mais fina aliança de casamento que algum aprendiz de ourives pobretão ousasse fabricar com as sobras esfareladas de ouro que lhe caíssem da lima. Tinha apenas meia dúzia de cobres e níqueis leves, que mal davam para uma semana de sopa rala de repolho na estalagem d’Os Três Patos. Como voltar para casa sem a jóia fundamental de qualquer matrimônio? Sem a aliança, não casaria. Havia prometido à ela que voltaria herói de guerra, condecorado, e que consigo e para si traria recuperada alguma suficiente parte do ouro das igrejas do Leste que os turcos haviam pilhado quatro séculos antes. “Ah, besta quadrada de alma redonda! Eu! Por que não casaste logo com a filha loira da tua lavadeira? Foste te enamorar logo da filha trigueirinha do Senhor de Allerheiligen! Ah, besta redonda de espírito quadrado! Ela! Como darás à donzela anel competente se as tuas terras confiscaram os franceses e a grã-cruz empenhoraste para dar de comer ao cavalo?” Sentou-se à beirada do rio que os aldeões chamavam d’Os Cisnes, bem embaixo duma macieira carregada de frutos ainda verdes. Comeu três inteirinhas, em fatias, adoçando-as com o açúcar amarronzado que lhe dera em salário a idosa viúva do general seu padrinho. Dormiu a tarde toda. Sonhou que era noite e que a lua estava apenas a 91,5 metros de si (em jardas, medida antiga, quanto dá?); e que na lua, sua noiva plantava e colhia as flores preferidas num jardim cuja forma geométrica resolvia o antigo problema da quadratura do círculo. Acordou risonho. Era já noite e a lua estava bem incrustada no céu. Pensou, gritando seu eureka: “Prata, prata, prata!” Meteu a mão no alforje e dele arrancou a relíquia — uma gota do sangue do Senhor. Já à manhãzinha do domingo, derreteu o metal e, por horas a fio, porquê era prata densa e forte como o aço, deu-lhe a forma de uma aliança. Quanto à gota, guardou-a num pequeno frasco de perfume. Iria diluí-la no cálice da comunhão, sem que o ministro notasse, pouco antes da marcha nupcial.

Que pergunta, heim Luísa?

“Como julgar, de forma completa, a personalidade de uma mulher, com uma só pergunta?” Pergunta-me, justamente, uma mulher: a cara leitora Luísa Schultz. Respondo à partir do meu ponto de vista masculino. Mas… Com uma só pergunta? Impossível, heim! Bom, bem.. Difícil (e perigoso) resumir tudo numa única questão, Luísa. Arrisco, porém. Talvez esta — O que é mais bonito e preferível, num sábado noturno: um jantar sob o céu estrelado do sítio à meia-noite ou a atmosfera iluminada da cidade às três da madrugada no bar?

A pergunta tem uma perspectiva espiritual. De um lado, está o natural singelo, algo inocente e cândido; está a capacidade de aceitação das coisas conforme elas são no mundo original, está a capacidade do maravilhamento de poder viver sob o signo da realidade e também a preferência pelo mistério (algo infantil, certamente) de admirar a realidade. Este espírito bucólico de “volta à casa” numa mulher compreende em medida substancial, ao meu ver, aquilo que se poderia chamar de “aura pra casar” de uma mulher, um certo “espírito de Hera” primordial. Ela pode gostar da cidade, pode morar na cidade, mas sempre terá um apreço idealista pelo campestre. Afinal, a urbe não tem útero. É disto que falo. Se você leu “A Cidade e as Serras”, certamente me entenderá. Por outro lado, está a paixão por Mordor (lembra de Tolkien?), pela civilização maquinária de fumaças e frenesi. Se ela preferir a metrópole simplesmente porquê o cinza das multidões citadinas lhe causa o prazer do movimento e porquê a agitação anônima constantemente lhe insufla adrenalina nas artérias mentais, ela pode ser o docinho de coco mais doce da terra, mas até a beleza dela fica artificialmente afetada e certamente ela envelhecerá mais precocemente. Pode parecer firula e besteira pseudo-psicológica para quem nunca prestou atenção nisto, mas é uma verdade das mais densas. Jung talvez tenha passado perto destes dois simulacros de arquétipos que, sem querer, eu acabo propondo. Entretanto, é certo que a mulher que prefere estrelas puras tem uma personalidade diferente daquela que prefere neóns anuviados — sobretudo se por personalidade entende-se uma macro-atitude básica para com as únicas duas possibilidades de habitat [metafísico-e-físico] planetário. No meio deste caminho entre o sítio no mato e a cidade que mata, há um caminhar patologicamente degradado (no sentido de graduação mesmo: o graduar diminuído) de materialismo e misticismo, pessimismo e otimismo, niilismo e fideísmo, etc. Então, é isto: Personalidade Celeste-Telúrica e Personalidade Atmosférico-Terrena. Como alegorias, inclusive, as duas possibilidades também podem servir para uma diferenciação religiosa da personalidade. Por fim, cara Luísa, ressalto que estas duas categorias, in structura, aplicam-se também a nós homens, mas por meios e questões substancialmente diferentes, diversas e divergentes. Mas tome, cara leitora, tudo isto como besteirol e palpiteirismo de alguém que não tinha resposta melhor para dar assim tão em cima da hora.

Soneto VI

Tu te mirarás, um dia, velho ao espelho
E perguntarás se valeu à pena caminhar
Por cada terra atrás daquele livro velho,
Atrás das pegadas que indicavam o Lar.

Então, um anjo invisível te fará dormir
E de olhos cerrados verás a Jerusalém,
E, no dourado sonho, em pé acordado,
Verás tudo o que o profeta viu no véu.

Tu acordarás mais cedinho para vê-los:
Tua mulher, dormindo em paz amada,
Ao lado dos retratos dos filhos e netos.

Tu dormirás, na tardinha, para te veres:
Sonharás que estás diante dum espelho
E, refletido em prata, criança tu te verás.

Soneto V

Não te escreverei linha alguma nunca mais.
Este trabalho suadouro de rimas garimpar,
De fundir o metal dos versos e vogais limar,
Nunca mais, nunca mais sob estes meus ais.

Poesia que verte assim toda minha agrura
E que sob o manto do lirismo é tua tortura,
Nunca mais, nunca mais haverá de pagar
Com arte e louvação o desdém do teu ar.

Apenas as ricas frases para outras salvar,
Porque o elevado é anel para toda mulher
Cuja mão o coração do poeta sabe guardar.

Nunca mais, então, nunca mais o versejar.
Nunca mais o fino doce em dourada colher.
Nunca mais terás o quê às amigas mostrar.

Cinco nanocontos — II

Calçou sua meia de lã. O pé encontrou algo duro no fundo: era um ninho de mafagafos.

Um tiro para o alto. E a bala, voltou, três anos depois, com um ET muito irritado incrustrado nela.

A dançarina de flamenco não tinha castanholas. Correu ao museu e cortou os cascos do cavalo empalhado de Napoleão.

O cardeal, que ouvia a partida pelo iPhone, esqueceu-se do Pai-Nosso durante a Solenidade de Guadalupe e gritou: ¡Gol! ¡Hala Madrid y nada más!

Jurou que não trairia a esposa enquanto porcos não voassem. No dia seguinte, comprou uma vara e um manual de Engenharia Aeronáutica.

Esponjas de sol — XXX

  1. Nunca contei minutos para nada. De que serviria isto? Fazer contas constantes com o tempo, com seus números e vácuo, de nada serve para quem decide correr o “terrível risco” de entregar-se à vida para fazer frente ao tempo fátuo. O tempo é uma palha no agulhal, uma reserva de nada, um rabisco de escuridão enraizada na nuvem, um nada. Vive em Deus, apenas. É preciso que te importes com tua vida, mas cronometrá-la, sendo tu um filho dEle, que É Eterno, é fardo à toda, é imbecilidade, é matemática insubstancial, é nada!
  2. Se tu amas a Deus e tens com Ele uma vida em “jardim”, uma vida interior em que apenas tu e o Senhor dialogam (e da qual, então, está excluído o falatório mundano), a tua alma viverá em paz perfeita e constante. O Mundo desabará em sua própria loucura e ranger de dentes, mas tua alma estará de pé diante da tempestade, toda cheia de consciência e serenidade ensolaradas. Se tu amas a Deus, teu silêncio externo testemunhará este teu diálogo interno e, consequentemente (como é consequente que a água faça brotar a semente), levará consciência aos que te rodeiam e aos que te odeiam, aos que te circundam e aos que te circulam, aos que te escutam e aos que de ti se ocultam.
  3. Pode parecer besta como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, mas é isto mesmo: o sentido da vida é existir e o sentido da existência é viver. O teu desempenho metafísico tem valor à partir do fato de que és fato físico e o fato físico de que és ente tem valor à partir do teu desempenho enquanto ser.
  4. As branquíssimas luvas de arminho de Sua Majestade Graciosíssima estão manchadas com o sangue do pequeno Charlie Gard. Sangue carmesim. God save Charlie!
  5. Não é difícil reconhecer uma pessoa insubstancial. Quero dizer: uma pessoa de alma flácida, malemolente, espiritualmente desnutrida, superficial como verniz fino em tronco podre. Basta prestar atenção em como ela gasta o próprio tempo. É batata! E a tempo gasto com qualidade de modo algum refiro-me a “desportos intelectuais” (como leitura e demais modalidades olímpicas da Alta Cultura). Tempo bem gasto é tempo em que a pessoa faz bem verdadeiro a si e aos outros — de dormir corretamente a obedecer conscienciosamente à Lei de Deus, de trocar de canal ou desligar o celular quando baixarias de qualquer tipo vêm tomar atenção a dar um copo de água bem cheio e fresco a um mendigo, de não comer porcaria antes do almoço a não passar os finais de semana mergulhado na lama baladístico-rivotrilizada do mundo. Uma pessoa substancial em si condensa, ao mesmo tempo, autodomínio e destemor, serenidade e galhardia, profundidade e bom humor. Uma pessoa substancial empenha sua vida em ser melhor segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia…
  6. O orgulho das próprias misérias é, de longe, o maior sinal de degeneração espiritual. A pessoa vive irritada e cheia de inquietude, com a alma cuspindo sangue e pneuma, não tem paz consigo e com os outros e, transbordando a própria concupiscência, ainda é iniquamente capaz de rir da retidão e da santidade, debochando [petulante e acidamente] contra a Lei de Deus e Seu Sumo Bem e ostentando soberbamente seus pecados como se estes fossem douradas medalhas de honra ao mérito. Pois é… O Senhor mesmo deu a dica: “pelos frutos os conhecereis.” Mais ainda, disse o Cristo: “Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” (Lucas 6:25)
  7. Quanto mais tu entregas tua vida a Deus, mais tua vida a ti mesmo pertence. Quanto mais tu te submetes aos desígnios do Senhor, mais teus próprios desígnios te fazem livre. Glorioso paradoxo!
  8. A Fé em Deus é a gotícula d’água que me inunda, e que por imersão me batiza o tempo todo.
  9. De decepção em decepção, bom Mestre, ensinaste-me a distinguir no firme a ilusão e na mais concreta rocha o núcleo de dispersão.
  10. Entre as visões dos olhares, entre os sorrisos das bocas, entre as coisas sãs e loucas, entre os deuses e os versos, entre qualquer coisa e nada, entre o espírito o os nervos, entre a alma e os intestinos, entre os lírios e as daninhas, entre a janela e o sétimo céu, entre o cérebro e o sanitário, entre tudo e todas as coisas, uma voz meiga vocifera: eu.
  11. O homem que, quando menino, nunca sonhou-se senhor dum castelo, talvez nunca será, adulto, senhor da própria alma. Na infância, enquanto cavava meu fosso e erguia minhas muralhas e torreões à partir da terra molhada retirada no fundo do quintal, eu marcava meu espírito com estas idéias de soberania e liberdade, de valentia e consciência, de luta e paz, de tempo e eternidade. O homem que, quando menino, nunca foi senhor dum castelo, nunca será, adulto, senhor da própria alma.
  12. Um flautim tocou solitário ao meio dia. / Se fosse à meia-noite, haveria contexto. / Mas, não: escolheu o pico do sol e soou. / Soou para anunciar o toque da trombeta.
  13. Sem Deus, nada que é humano pode por si mesmo se sustentar. Do ritmo pulsador do coração aos sentimentos do coração, tudo vira poeira ou cimento (quer dizer, esvai-se para além da própria natureza nas suas opostas possibilidades de ser) se não está lá o Senhor para harmonizar em unidade orgânica e fecunda o espírito à alma e ao corpo. Por isto, bem-aventurado é o homem que “constrói sua casa [sua unidade de consciência] sobre a rocha” (Mateus 7:24) e que é “árvore plantada junto às águas [que bebe da água da vida constante e permanentemente, quer dizer: que se nutre da Alma Divina], que estende as suas raízes para o ribeiro” (Jeremias 17:8). Não à toa, está escrito: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:15). Sem Deus, tudo que é humano não pode por si mesmo se sustentar.
  14. Escolhe Deus, e a boa dúvida carcomerá todas as tuas falsas crenças — exceto a Fé, real e racional como o teu eu. Escolhe a Esperança, e o pessimismo que mórbido espera o Fim e o teu fim se desfará ao mínimo sinal do sol particular do teu coração quando ele vier abrasar teu ser. Escolhe o Amor e, então, as afeições egoístas e os afetos desordenados e as proporções plúmbeas da tua alma se desfarão em justo sentimento espiritual. Escolhe o Céu, e a Terra perseguirá teus rastros, farejando a vida que escapará de cada existente pegada que caminhardes rumo à Sião. Ora, assim, ao Pai: teus olhos volvei nos meus, Senhor, porque eles despregam as escamas de Treva — estas armaduras de ceticismo! — que me impedem de ver, de olhar, de reconhecer o Invisível.
  15. Alguém disse: “Niilismo é coisa para crianças.” CARAMBA!!! Niilismo é coisa para adultos. Que miserável, desgraçada e infeliz criança já concatenou a densidade oca de um “Assim falou Zaratustra”? A negação do soninho primordial às 15h, o ódio racionalista ao vácuo da Ruffles no recreio, a dúvida pós-cartesiana do “amigo invisível”, a dubiedade entre as versões de mamãe e vovó acerca da natureza metafísica do bicho-papão à hora da cantiga de ninar, enfim, a incerteza de comer papinha sem saber da molecada somaliana, de dormir pra caramba sem saber o que é ansiolítico, de brincar com soldadinhos de chumbo sem saber de Auschwitz e Treblinka? Não. Niilismo é coisa de criança que nasceu adulta e que, por isso, precisa ser mais criança. O Niilismo, filosoficamente, é uma desgraça existencial (uma desgraça muito mentirosa, não obstante a atratividade que exerça sobre espíritos menos ontológicos e mais suspensos). Mas, é coisa de adultos.
  16. Os heróis são estátuas vivas. Apesar de todos os movimentos do corpo e da alma, neles predomina a pausada segurança da Eternidade: parecem estar postados e parados diante dos mares humanos e das tempestades divinas, mas apenas parecem estar postados e parados. Imagem de resolução e sabedoria estáticas, eles vibram tão rapidamente de um ponto a outro [ida-e-vinda do ser-no-ente] do próprio espírito que parecem estar centralizados altaneiramente sobre o globo, plantados e enraizados na terra. É “ilusão de ótica”: eles estão estatuados porque estão, a todo instante, se auto-esculpindo num velocíssimo ziguezague imperceptível. O herói não estagna, temeroso, diante do desafio. Este é o proceder do estúpido que faz-se inerte diante do colosso inimigo. O herói, valoroso, conscientemente escolhe fazer frente a quem e àquilo a que se lhe opõe. Os heróis são estátuas vivas que, mortas, tornam-se estátuas (em bronze, em granito) da vida e… por isto também se movem.
  17. A suavidade das lânguidas mãos da amada

Deixou do cálice dourado três gotas cair.

Titubeou té da borda reluzente se ir esvair.

Um’a terra absorveu. Outra da boda o altar

No alvo tecido sorveu — linho cor de marfim.

A terceira, lanceada, esta pousou em mim:

Na língua que o pão já havendo ceado ali,

Foi descansar do sangue a sua vera parte.

E aqui, nestes versos, celebro-a em arte.

Oh, doce gota do espinho em dor vertida,

De Adão a velha sede cessou no coração.

O eu que me destes é Tua maior adoração.

  1. Não há dúvidas de que, popular e culturalmente, o Nazismo cresceu sobretudo em solo protestante. Por que? Ainda não sei. Perda do místico diário? Talvez.
  2. Uma das coisas mais imbecis no “jogo do amor” atualmente dominante é o fato do interesse amoroso ser aguçado ou despotencializado com base, justamente, no grau positivo ou negativo de interesse do outro. Explico: se aparenta ter sido “fácil” a aderência à pessoa, esta desconfia do apego e o repudia empinando o narizinho com um ar do tipo “se gostou de mim, boa coisa não é”; porém, se se distrata e se desdenha com boas doses de desprezo (então, é-se “difícil”), ela imediatamente fica gamada e, com o rabo entre as pernas, se humilha e corre atrás porquê “se não gostou de mim, boa coisa é”. Esquisita necessidade de rejeitar quem aceita e de aceitar quem rejeita. Em suma, entre bestas quadradas, fazer-se de difícil ou parecer-se fácil afeta completamente o julgamento do outro — atraindo ou repelindo. É um julgamento irracional, que descarta por atacado sem crivos de realidade individual, como se o valor da possibilidade de relacionamento repousasse neste “cartão de ouro” cujo maior preço é o da mais bem teatralizada repulsa e cujo menor preço é o da abertura menos dificultosa ao amor (o da atração pura e simples). Balzac nos ensina: “Parler d’amour, c’est faire l’amour.” O que é, é: age por que é e não reage pelo que não é. Conselho oportuno: menos orquestração abstrata de carências (entre baixa e alta auto-estima soberbas) e mais realidade afetiva e efetivamente palpáveis, pessoal.
  3. Em tempos de correção, o Brasil deveria bombardear Míraflores e todas as bases-fortes principais venezuelanas. Sic semper tyrannis! [5.8.2017]
  4. Refazendo Mateus 21:13: “A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de arquitetos.”
  5. A beleza de uma mulher boa aguça e potencializa, com amor, a inteligência do homem. Eis a “mousa” (a musa). A beleza de uma mulher má faz imbecil, com paixão, até o mais elevado gênio. Eis a “femme fatale” (a mulher fatal). Estão aí toda a Literatura e História dos milênios humanos para prová-lo abundante e fartamente. A beleza, então, que é, em matéria de atração, senão uma consubstanciadora do espírito? Da “bela viola” haverá de sair boa música e o “pão bolorento” será dado em ração aos porcos. A boa irá, contigo, viver até que a morte os separe; a má, contigo e talvez com outros, mastigará teus anos até que a existência os separe. Salvação e perdição pela beleza.
  6. Um pouco triste sempre serás se teu coração a verdade quiser deter. Mas, olha, que a alegria viverás mais que todas as gerações ao nascer. Um pouco triste sempre serás se teu espírito afiado e decidido viver a guerrear contra o vil Satanás. Maior gozo e júbilo é em paz morrer.
  7. O barco viking é uma iluminura de madeira.
  8. O Estado não compõe o Estado. A Sociedade, esta sim, é chamada a compor o Estado. Por isto, também contra o financiamento público de campanha.
  9. Para o gênio, aprender o errado é dificílimo. Ele se parecerá com um asno dos mais chucros quando tentarem lhe ensinar besteiras e tolices escolares e universitárias — por mais alegadamente “científicas” e “acadêmicas” que elas sejam.
  10. Nimrod, de Elgar: partícula de Eternidade que calhou desabar no Tempo, música-tema para um sermão sobre o Kairós na vida de santos e heróis.
  11. Não restará uma única basílica, uma única catedral, um único santuário, uma única igreja, uma única capela quando vier o “Dies Irae”. Os afrescos da Sistina se despregarão do teto ardente, o Muro dos Reformadores cairá para não se levantar, a Hagia Sophia se auto-implodirá como Jericó, enfim, todo velho altar nosso se desfará para que venha “Siló”. Nosso coração arde de zelo pela “Casa de Deus” — pelo templo –, mas tudo isto é aqui figura passageira. Tudo se fará novo um dia. Antíoco sacrificou um porco no templo. O Inimigo sacrificará o próprio templo. Recorda, recorda.
  12. O mundo é uma espécie de bolha de pedra, que infla petreamente, e que vai estourar petreamente.
  13. A vida não se compromete com quem corre de compromisso. Se tu queres viver, então, corre de quem corre de compromisso. Corre quando te forem ofertados apenas uma noite, apenas um fim de semana, apenas algumas semanas, apenas uns meses, apenas um ano ou mesmo apenas um bom punhado de anos: corre quando te forem ofertadas algumas miseráveis e esvaentes calendas da existência. Corre de quem não quer “viver a vida” toda amorosamente comprometida, porque não quer entregá-la definitivamente à outra vida — e, então, fazer de duas vidas uma só vida para sempre. Corre, porque nada que valha a Eternidade tem o começo tão próximo do fim, com prazo de validade materialmente prescrito feito rótulo de comida congelada. Sem compromisso (com juras de boca e de coração) que almeje passar do mármore quente do altar ao frio granito do sepulcro? Corre! Sem compromisso (com juras em ações e reações) que deseje desgastar vagarosamente o ouro da aliança na pele do dedo anelar envelhecendo? Corre! Sem compromisso (com juras para si e para ti) que entronize o amor a Deus como avalista permanente do amor conjugal? Corre! Quem não se compromete para o amanhã, anota, apenas promete o hoje. Compromisso é lealdade, sabes? Corre como Forrest Gump, corre como Fidípides, corre como deve correr o atleta cristão. Dura é esta palavra: a vida se compromete com quem corre para o compromisso.
  14. O mundo, senhoras, deveria estar assim organizado para o valor vos louvar, mas as trevas e a ignorância e também a ânsia da maldade, do pecado e da amorosa injúria, arranca da maioria imensa a merecida loa. Pois aqui este homem vil e à toa eleva rimas e versos à vossa formosura.
  15. O porco e a jóia de ouro, o porco e as pérolas: a comparação entre o baixo e o elevado, entre a miséria e a riqueza, entre o pecado e a virtude. Mas, será metal dourado o tal ouro e branco-prateada a pequena bolinha preciosa? Não. É seu inverso: é a terra úmida e fértil, a terra que não é o barro lamacento… do porco! É a humanidade original resgatada: o rio passa sobre o leito, mas, onde o chão de pocilga?
  16. Eu ouvia já tantas belas palavras, mas qual haveria de comover-me se tanto virtuosismo e preciosismo atiçavam-me com retórica e desejo intelectual sem o mínimo traço de sinceridade, sem o mínimo rastro de espiritual verdade no coração? Do púlpito, Senhor, tanta grandeza arqueológica, tanta apologia científica, tanta prova e indício e sinal de que o Escrito era sim realidade. Mas, Senhor, onde Tu? Onde, naquele jogo bonito de fraseados com seus efeitos tão potentes à emoção, Tu? Onde? Em vão eu Te procurava nos testemunhos da lógica racional. Crente, não duvidava. Mas, duvidava: porquê incrédulo no âmago do que dizia-se de Ti e do Teu passeio por aqui. Sabia-Te existente, o Ser. Mas, onde Tu? No grego da semântica, no latim da acepção, no aramaico do vernáculo — não estavas. Eu Te encontrei, Senhor, naquele dia em que oito mãos ergueram o caixão de meu avô e sob o velho sepulcro depositaram um antecessor de meu pai, um antecessor meu, um antecessor que será de meu filho que um dia vem. Reconheci-me no pó de carne fria, de sangue frio — pó frio. O Teu plano de salvação para os dois anos de meu avô, o Teu plano de salvação para as muitas décadas de meu pai e o Teu plano de salvação para toda minha vida. O silêncio da beleza fúnebre converteu-me. Ali a ressurreição fulgurante; e ali pude tocar tuas chagas, oh Senhor de mim e Deus de mim. Então, naquele tempo de quatro velas e coroas de flores e lágrimas mal colhidas em lenços amarrotados, a Tua voz que eu não podia escutar no púlpito dos doutores, na sala-de-aula dos mestres, no valado igrejal dos pastores, a Tua voz eu escutei: Vem para fora!
  17. Apenas a luz reconhece (e pode conviver com) outra luz, enquanto as trevas entre si mesmas se desconhecem em cegueira dual e antagônica (porque nenhuma treva é igual à outra e uma escuridão não pode se ajustar à outra). A luz que encontra a treva ou a ilumina, compartilhando de si a incólume partícula flamejante capaz de acender fogo no breu vacuoso, ou se desnuda, fulgor a fulgor (penumbrando-se, ao mesmo tempo), até que acabe também treva. O “jugo desigual” referido por São Paulo em II Coríntios 6:14 é isto e só isto.
  18. Conforme tu avanças na vida espiritual, tu avanças em discernimento acerca das coisas visíveis (a humanidade, porquê horizontal, entre elas está) e invisíveis (aquilo que tem poder, vertical apenas, sobre a humanidade). Compreenderás a profundo — o interno — as coisas que afetam o homem pelo que ele mesmo é e compreenderás a fundo — o externo — as coisas que afetam o homem para ser o que ele ainda não é (divinas e boas ou demoníacas e más). Então, decifrando-as sob a tutela do Espírito Santo, tu te tornarás um enigma para todos. O chaveiro exímio tem chave para todas as portas, mas ninguém tem a chave que abre sua porta, a porta da chavearia. A tal lugar se chega quando, primeiro, tu sabes quem és. Como Quixote, tu deves antes verdadeiramente dizer “Yo sé quién soy” para que, então, depois, efetivamente digas: “Eu sei quem sois!”. Recorda, a propósito: “Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.” (I Coríntios 2:15)
  19. A medida que se perde o alto sentido de Deus, o homem perde seu próprio sentido interior e, então, se entrega à busca dos baixos sentidos no mero nominalismo que o mundo exterior chama “sentido”: o nada, o nada excruciante.
  20. Moço, moça — jovens do Senhor: é preciso que tenhais a coragem salvadora de mirar nos olhos de quem vos enamorais e, então, em breve ultimato espiritual, dizer: se tu não amas a Deus, não poderei amar-te!
  21. Cristo crucificado, Cristo morto, Cristo ressuscitado: espírito, alma e corpo.

Provérbios à moda salomônica III

  1. Quando dança o sábio lhe tomam por louco, mas dançando o louco ninguém presta atenção.
  2. Quando desce o sol, desce também o trabalhador à sua cama. Mas o preguiçoso com a lua põe-se de pé.
  3. A morte do justo pranteia o justo, mas morrendo o iniquo pranteia todo o povo.
  4. Aborrece seu pai e entristece sua mãe o filho que não deseja para si gerar filhos e filhas.
  5. Um prato de dor é o adultério: um pão suave de formas, mas que ao paladar é sangue pisado.
  6. A voz do arauto não será ouvida quando invadirem os inimigos se sua boca a todo tempo profere mentira e diz “foi brincadeira”.
  7. Doce é a uva e amargo o fel, mas o profeta ao amargo prefere quando deve guardar-se das corrupções da mesa do rei.
  8. O canto da congregação alegra os justos, mas aos rebeldes enche de furor.
  9. A palavra do justo empenhada diante do profeta mais vale que todas as reses do rei no altar do sacerdote.
  10. Se dormita o vigia, perece todo o povo; mas, se dorme todo o povo, perece o vigia e também todo o povo.

Poesia-proseada V

Querer quieto o dia como é quieta a noite, ansiar por nuvens acinzentadas sob o sol. Esperar pela morte diária do globo de luz, porque a cor de prata para a lua foi feita e em meio às trevas sequer a vela desejo. Escuridão ampla, integrada à toda canção, organicamente presa à partitura escolhida. Tocar para Helena este Adágio de Albinoni e tocar em seguida a Fantasia de Vaughan. Querer quieto o lar ao crepitar da madeira, que o dourado consome em paz na lareira: o fogo, antiga fagulha da tocha do Olimpo, aquecerá apenas os pés que se irão à cama, porque estes dois corpos, de Adão e sua Eva, serão duas brasas salvas do antigo e frio altar, do antigo, frio e apagado altar da melancolia.

Provérbios à moda salomônica II

  1. O vinho alegra o coração do sábio, mas confunde o pensamento do insensato.
  2. Sepultura para sua família é o mal proceder dos seus moços.
  3. No caminho do jovem há deleite quando seus passos avançam pela vereda dos antigos.
  4. A jornada do iníquo logo acaba no deserto, mas a peregrinação do justo aí se inicia.
  5. Mais puro que a água das montanhas é o coração daquele que teme a Deus e guarda seus estatutos.
  6. Quinhão de formosura acrescenta à própria beleza a mulher que teme ao Senhor.
  7. Na reta senda da justiça caem as pedras dos maus juízes.
  8. O fruto doce que se colhe antes do tempo constrange a língua e enfraquece o corpo.
  9. Flor que não desabrocha é a reta intenção que a concupiscência desorienta.
  10. Como voz solitária entre trombetas altissonantes é o conselho do velho sábio exilado em corte estrangeira. Mas, a ela o rei escuta.

Diário em Midgard — XV

Não encontro mais papel. Nem que o encontrasse poderia escrever. O último carteiro, que acaba de se aposentar, entregou-me sua última carta. A última que ele entregou e a primeira que eu recebi, como resposta das tantas que enviei. Mais, ainda: foi esta a última carta que chegou, pelas mãos do capitão-general dos Tércios de Ir-Rakia, na estação dos correios da aldeia. “A estação dos correios cederá lugar a um jardim suspenso”, disse-me. A fabricação de papel (fiquei sabendo no último minuto da 11ª hora) foi encerrada por ordem da primeira deliberação universal tomada pelo Conselho, há pouco mais de dois milênios.

Deixei para abrir a correspondência depois do almoço. Pego a pequena lâmina de prata dourada e ponho minhas luvas de caçador; afinal, será esta a última vez que um envelope — e trata-se de um grande envelope — será aberto e que um selo será cerimonialmente quebrado. Corto o espesso papel do envelope. Quebro com os polegares, bem ao centro, o selo vermelho cujo desenho é uma cruz semeada de doze estrelas. Jogo a cera às brasas que cozem o permanente ensopado de favas vermelhas, primeiro prato em todo jantar meu. Puxo para fora a folha única que saiu do envelope. Ora, é uma folha limpa. Nada vem nela escrito. Mais branca que a sétima neve do inverno.

Que digo? Olho fixamente para o papel. Viro-o pelos quatro cantos e pelos dois lados. Levanto-o em direção à luz. Talvez ao alto, mais próximo de Lá, ele me diga o que agora não diz. Sim. E diz! Ele diz. Eu vejo, vejo e leio o escrito: “Alpha et Omega”. Letras desenhadas em traços austeros (algo entre runas e caracteres romanos, mas como que sulcadas à moda cuneiforme — mesmo que tenham sido pena e tinta que as tenham deslizado no papel), que se esvaem, que estão se esvaindo, que desaparecem, que se consumiram etereamente. Olho ainda fixamente para o papel, agora limpo de qualquer texto na sua textura física mais gradualmente oculta. Aproximo-o da lâmpada. Nada.

Tomo, nas mãos, a idéia que há muito intuo: o Senhor está separando esta terra de todas as porções vivas do Universo. Não uma separação física em que matéria se aliena de matéria, uma dissenção meramente concreta que empurra todo o resto ainda mais para fora. A aldeia, gigante galáxia no mapa estelar, não ganhou suas próprias muralhas espessas como tinham as outras terras. A separação ocorre, agora, porque todo o mais já não é. Tudo se fez novo. A idéia, esta idéia da aldeia, eu a depositei em versos na primeira página de minha primeira carta. Sei que aquela página é um dos lados desta folha. Afinal, para que precisamos de papéis, de folhas, de pergaminhos, de livros, de registros, de diários, de lugar onde por palavras quando aqui, tudo, está na Palavra?

Eternidade etária

Quando eu for velho, continuarei antigo como agora. Mas à minha antiguidade que me persegue desde o ventre, Deus somará a alegria de criança de barba branca, de menino de pele sulcada e sem melanina, de moleque de chapéu e bengala. Quando eu for velho, serei um velho que ainda juntará suas pedras, um velho que terá escalado as pirâmides dos egípcios e dos maias, um velho que porá no embornal os seixos colhidos no Jordão. Quando eu for velho, serei novo talvez pela primeira vez: sábio e falsamente desentendido das equações do calendário, farei de conta que os feriados são eternos e que a aposentadoria é uma seroada de fim de expediente que apenas começou e que durará pelo menos sete floradas da Youtan Poluo. Quando eu for velho, beijarei minha velhinha-mocinha até que ela perca o fôlego e careça de respiração boca-a-boca, até que ela rodopie e rodopie como na noite em que uma valsa mal executada fez com que ela dançasse feliz como se tocassem Strauss, até que a lâmpada se acenda pelas noites e as cortinas sejam fechadas pelos dias. Quando eu for velho, ah!, quando eu for velho, serei o mesmo homem de sempre.