Tudo sofre

Quem nunca amou de verdade, quando começa a amar às vezes pode pensar que está doente… Porque o impacto de sentimentos novos e libertadores que o corpo recebe (através do coração) com a chegada do amor a tal ponto o tenciona, que as emoções velhas e escravizantes das paixões se esvaem levando sua “a-energeia” consigo, o que causa, necessariamente, um desprendimento dos desejos-no-ser (artificiais, alienantes) na própria biologia do organismo — causa fraqueza, em suma.

Porém, se a pessoa quer [e tem vontade de] amar, logo tem início um processo de “re-energeia” com o afloramento dos desejos-do-ser (naturais, conscientes) recém-despertos. Há choques, necessariamente: então, de imediato, as contradições — entre o que se pensava sobre o suporto amor e o que finalmente se revelou como sendo o verdadeiro amor — se abatem sobre a psiquê da pessoa, gerando confusão espiritual. O estado de fraqueza corporal se une ao estado de confusão intelectual e a pessoa fica algo inerte, primeiramente. Esta inércia verifica-se através de perda de apetite, falta de vontade de fazer outra coisa senão pensar no “problema” e na pessoa que o gera, bem como verifica-se pela total inabilidade para concentrar-se no restante dos agentes promotores de sua existência (trabalho, estudos, obrigações, etc).

Secundariamente, a inércia é inércia para tudo exceto para com o “problema”, uma vez que, concomitantemente a todo este processo, há uma poderosa fixação inquietadora (não obsessão, dado que não patológica) no amor e na pessoa amada. Há apenas duas possibilidades finais, diante disto: (1) a pessoa é covarde e “sem vergonha” e dá cabo do processo dando meia volta para trás, operando uma dolorosa “des-energeia” em direção à sua velha existência demente; ou (2) a pessoa é corajosa e percebe que o que vem pela frente é a melhor coisa que lhe poderia ter acontecido, o que, então (caso ela acolha este novo estado), logo restabelece plenamente suas potências corporais e mentais (sua “energeia”) encaminhando-a à uma vida capaz de, ao amar o ser amado, tudo fazer neste amor sem nada perder neste amor, ou seja, conjugar trabalho, estudos, obrigações, etc ao amor, amorizando a existência sem fixações e sem fraquezas e sem confusões, porque tudo passa a ser força e todas as coisas no amor se fortificam. Mas, o processo começa com sofrimento. Vale à pena, contudo.

Leia o célebre soneto de Camões (“Amor é fogo que arde…”) e, depois, leia “Romeu e Julieta” de William Shakespeare. Leia e você vai entender. Está quase tudo por lá. Depois, leia a Bíblia Sagrada. Leia e releia que você vai compreender. Está tudo lá.

Três trechos do conto “O Domingo Eterno”

(I) Deixa estar tudo o que não deve ser, como o barquinho de papel no mar. Sopra com teu fôlego puro e consciente esta nau de velas douradas — teu último poema.  Sopra dobrinhas na água para que se vá em silêncio e o papel se desmanche longe dos teus olhos. Deixa estar tudo o que não pode ser, como estas rimas tão preciosas, estas palavras tão bem arranjadas no papel que se umedece, que se rompe, que se desfaz.

(II) Helena me dizia que as maçãs-do-amor do parque eram as melhores, que elas tinham uma doçura equilibrada, um paladar harmonioso. Helena me dizia estas coisas, estas coisas de sabor e talvez de amor, enquanto se deliciava com a fruta macia guardada na casca de açúcar. Minha alegria nestes dias (que eram noites) era vê-la comendo-as. Helena me dizia que quando comia sozinha sentia-se sem apetite e mal, que todo o sabor dependia não da mão abençoada da cozinheira, mas da minha companhia e da alegria dos meus olhos em vê-la comendo.

(III) Tomei minhas duas filhas pelas mãos e girei-as no meio do jardim, onde ficava a fonte. Ester e Rebeca riam e sorriam e gargalhavam como se os céus tivessem concentrado toda a alegria do cosmos naqueles giros, como se o próprio Deus tivesse arrancado um poucochinho do girar dos astros e concedido às minhas mãos o ímpeto dos planetas, agora desacelerados. Girei-as leve e rapidamente, girei-as como se a gravidade estivesse suspensa e apenas as almas das minhas duas pequenas flutuassem sobre o canteiro de rosas de minha mãe, sua avó.  Agora, que lembro disto… Agora, olho fixamente para os olhos destas minhas duas já também avós e da outra que veio mais tarde e para os olhos de meus dois filhos que vieram ainda mais tarde, como que mirando as estrelas que ninguém mais viu depois que a espada passou a guardar não só a terra, mas também o céu delimitado pelos muros do Éden. Já posso ir em paz.

Provérbios à moda salomônica I

  1. A faca de ouro destroça a espada de prata, mas o gládio de bronze com ambas arrebenta.
  2. Como vento sobre o roseiral, assim é a respiração do justo quando tomado de cólera.
  3. A gargalhada do iníquo, a risada do gentil e o sorriso do justo: água da mesma fonte.
  4. Como um pequeno buraco no casco de um grande barco, assim é a nódoa no espírito do príncipe.
  5. Brasa vermelha na língua do falador é o boato que dele se espalha.
  6. Como águia cega no alto da montanha, tal é o homem de ciência sem sabedoria.
  7. Como fonte de água salobra que engana a semente, tal é a língua do astuto que do engenho das suas palavras persuade o símplice.
  8. Mais alto que a montanha mais alta é o pensamento do homem cujo pensamento é seu trabalho.
  9. No caminho escuro e vazio encontraram-se a tocha, a lâmpada e a fagulha. Qual delas é a maior?
  10. O rico e o pobre trabalharam juntos durante toda a ceifa. Assentaram-se, depois, numa mesma mesa. Um pão da flor da farinha para o rico e um pão de cevada velha para o pobre. Ambos se fartaram.

Esponjas de sol — XXIX

  1. Tu exercitas teus pulmões e mergulhas no profundo mar para — sob o risco de morte, na dor do ar que te petrifica a respiração sob a pressão das águas frias — recolher tantas centenas de conchas e entre estas colher uma ou outra dezena de pérolas para cuidadosamente obrares um refinado colar para a mulher que tu amas. E ela, que faz, galardoada? Joga o precioso presente a um canto, enquanto muito se exaspera desejando as ordinárias coleiras caninas que outros lhe vendem caro. Está aqui o significado da exortação evangélica que manda não deitar pérolas aos porcos. O Senhor quer que gastes tuas forças em tão bela e heróica empresa. Não quer Ele, porém, que tua dedicada obra seja rebaixada à condição de bijuteria suína.
  2. Não gastarás tua poesia com quem tem alma de lama. Não gastarás as belezas do teu espírito com quem compra molduras para a feiura do mundo. Não gastarás tua voz que ora aos céus com quem se deleita em ouvir a gritaria da terra. Não gastarás teu olhar que terno transpassa o cosmos com quem apenas vê globos oculares lascivos. Não gastarás teu amor com quem mastiga afetos como Baal canibalizava os fetos hebreus. Não, não te gastarás com quem quer passar pela vida como a frouxa flatulência duma hiena moribunda à meia-noite. Não gastarás tua vida que aspira a Deus com quem respira o enxofre do próprio eu. Não, não te gastarás com quem não quer escrever a história própria e do mundo e, antes, prefere apodrecer junto ao calendário que a existência a todo tempo troca. Não. Não gastarás. Não te gastarás.
  3. Muitas das coisas mais bonitas e gostosas desta vida são as coisas que menos parecem deter beleza, que menos parecem ser capazes de gerar gozo. Digo, então: só quem está atento aos pequenos detalhes e minúcias do dia-a-dia é capaz de fruir certas delícias existenciais. Uma pequena lista, minha: o café que minha mãe passa às 6h, o som da voz das pessoas que quero bem, a lambida da cachorrinha e o afago ronronante da gatinha, o caminho semeado de cheiros (a construção, a praça, a padaria, o rio) até o trabalho, o bom dia sincero e o bom dia insincero (este último, me ajuda a melhorar até extrair da pessoa gentileza verdadeira), etc, etc, etc. Só vive entediado quem é incapaz de obter poesia extraordinária da prosa ordinária.
  4. Senhor, minha igrejinha é uma catedral. Está lá, no velho púlpito de madeira, a cátedra donde o Espírito doutora. E o alfarrábio do teólogo acaso sabe que no coração daquela senhorinha gemem mistérios dourados e loucos? Eu vi, Senhor, quando o pardal voou por cima das cabeças nossas e pousou no tanque de batismo de fria ardósia. Eu vi, Senhor, porque os olhos da ave, mirando a ceia na mesa toda posta, correram pelas ovelhas e se fecharam. Quem já viu passarinho com os olhos cerrados? Quem já viu a meditação de um serzinho de asas? Senhor, minha igrejinha é uma catedral. É uma escadaria de poucos degraus que me arremessa, feito estilingue de luz, para a terra suspensa no ar.
  5. Se uma coisa aprendi até agora, é que, em amor, fugas físicas (de passos para trás a caretas) correspondem justamente ao oposto do que materialmente parecem demonstrar: são sinais de paixão contrariada.
  6. Todos nós temos fome. Mas, o principal sobre a fome é a comida. É, própria e especificamente, o valor nutricional e prazeroso da comida. Veja: tu estás com uma fome avassaladora que te prega o estômago nas costas, uma fome felínea de leão jejuando no deserto. Aí, vem o capeta e te oferece todos os cachorros-quentes que tu podes comer (com Coca-Cola) em cinco míseros minutos. Comê-los implica, anota, em pagar seu preço: tua bússola. E a vendedora é uma sensualíssima capetinha de rabo vermelho! Porém, a sete quilômetros de caminhada está o sítio confortável, está a aldeia onde está o poço em que Rebeca retira água, está a mesa dos parentes diariamente cheia de arroz, feijão, ovo frito, bife, bata frita, salada de alface com tomate e suco de limão. A sete quilômetros do hot-dog do tinhoso está Rebeca. E Rebeca está, bem-aventurada, à mesa. Esta é a minha metáfora sobre amor e fidelidade.
  7. A genialidade dispensa bibliografia. Ela apela ao Real, não à estagnada manuscripturação da realidade como argumento para provar a si mesma.
  8. O Anticristo é a sombra de sua própria sombra.
  9. O caminho antigo que contei a ti / Quando íamos juntos pelo Minho, / Ele antevê o futuro final que vem / Quando o começo ainda é vazio.
  10. Os poucos pássaros que vi revoarem o céu / Corriam para o Leste em fuga do novo breu. / O colorido das penas em relance desapareceu / Diante do sombrio cinza que cindiu todo eu.
  11. O espelho mostra o que tu de ti demonstras.
  12. Tu, que não tens a Deus do nascente ao poente; tu que não tens a Deus desde quando soubeste que algo em ti te magnetiza em direção às coisas que acontecem nos céus, porque decidistes volver para baixo, para a terra, os olhos; tu que não apanhas da Eternidade um pouca da paz iluminante nestas borboletas depositadas, antes, caças os escaravelhos mofados nas tumbas antigas. Tu… és um louco!
  13. Para cada passo, um caminho de quilômetros se abre. Não decidirás por impulso, portanto. Mede teu pulso, mede o latejar das tuas sinapses, mede o espaço entre uma pegada e outra. Para cada passo, um caminho de quilômetros (talvez perigoso atalho) se abre. Não decidirás, portanto, impulsionado por corridinhas que serão maratonas ao cabo, infusionado por carreirinhas que serão peregrinações ao final. Para cada passo, um novo destino se fixa.
  14. Quando a Basílica de Santa Sofia / Voltar para o Altar de Cristo Jesus, / E quando na Terra de Santa Cruz / A Constelação roer no pendão o lema, / O Deus dos Exércitos nos dará a Guerra.
  15. O Credo de algumas igrejas há muito que superou em loucura o Credo dos Apóstolos do “Not the Nine O’Clock News”…
  16. O Manuscrito Voynich me parece ser uma peça de erudição criativa que amalgama ocultismo cientificista, alquimia, cabala e ficcionismo imagético-literário. De modo que apenas quem o escreveu saberia dizer-nos o que ele significa ou o que não significa ou mesmo se ele significa, propriamente, alguma coisa além dum engenhoso organismo semiótico.
  17. Tu, que sonhas sonhos tão altos, não percebes tua tolice? Tu não vês que o olhar humano não poderá romper os céus? As estrelas e a lua ao centro do teu coração, apaga da alma! Apaga enquanto a ilusão não te encarcera no calabouço das nuvens, apaga enquanto a sublimação não te arrasta para o lírico sótão abissal. / Eu, que sonho sonhos tão altos, percebo a tolice da tua razão. E vejo que meus olhos cortam os siderais do infinito ao além. As estrelas e a lua ao centro do meu coração iluminam-me a alma. Ilumino para que não haja “enquanto”, para que ele dure como o castelo do conto; ilumino para que o momento seja eterno como os corais da Natividade, que ainda cantam.
  18. É próprio do amor fazer tolice, mas não é próprio da tolice ser amorosa.
  19. Há muito de errado com um mundo onde a poesia já não toca o coração das mulheres e onde o heroísmo já não move o coração dos homens. Há muito de errado com um mundo onde o encanto, o charme e os olhares versificados já não entram no jogo da conquista. Onde as damas? Há muito de errado com um mundo onde a valentia, a honra e a dignidade não fazem do homem um sujeito pronto para os combates épicos. Onde os cavaleiros? Infelizmente, as mulheres estão dispensando a corte dos generosos de espírito em benefício destes farrapos humanos que mal conseguem galináceamente piar nos terreiros azonados da existência. Infelizmente, os homens estão dispensando a virilidade espiritual em detrimento destas hedonistas pseudo-conquistas boiadeiras, passat-rebaixadeanas e funknejas da existência. Há muito de errado com este mundo — que não quer viver.
  20. Quereria ensolar-se nos prados frios, / Sabendo que o gelo é pai dos calafrios / E que o gene do calor não é da estrela / E que o ancestral do fogo não é o sol.
  21. Dela amei a sombra grandiosa, / O potencial dourado e fulgente, / Aquilo que nela era pura luz. / Outra trigueirinha escuridão…
  22. O vai-e-vem da vida são badaladas de améns ao Pai. Tu és um sino.
  23. Pensamento existencialista dum profeta: O conhecimento das coisas que ainda não são, não terei jamais enquanto respirar aqui, aqui. É preciso que meu espírito se exercite quieto entre o relógio e os quereres dos que vivem. É preciso que meu espírito caminhe silencioso até que descubra em si mesmo a final canção.
  24. Não argumentarás com energúmenos.

Poesia-proseada II

Tua mente que não minta para ti quando indolente a bela menina insinuar amor onde habita paixão. Porque este fogo que logo s’esvai, esta chama que a labareda mata, não pode cozer tua antiga receita. O inflamado vermelho ela cultiva para queimar teu corpo e o tostar, para calcinar tua carne em torrão. O amor, esta brasa permanente, é o calor são que mantém a vida e alimenta quem põe anel na mão.

“[…] vita vestra abscondita est cum Christo in Deo.”

Estava assistindo a um vídeo no Youtube. Josemaría Escrivá fazendo uma bonita preleção. Calhou de ele citar Colossenses 3:3 em latim. Vamos lá. As nuances semânticas do texto latino são muito mais ricas que as traduções portuguesas e, graças à erudição de Jerônimo de Estridão, elas captam integralmente o grego koiné autorial. Em português, a totalidade de significados do texto quer dizer isto: “A vida real-e-verdadeira de vocês está seguramente escondida [e custodiada: guardada com zelo] com Cristo-em-Deus.” Vejam que precisamos nos valer de muito mais palavras para expressar o significado que o texto paulino latinizado revela com apenas oito. Adiante. Fala-se de vida como consciência agente e qualificada diante da Realidade. A conotação é de privacidade e segredo, como que falando da vida do cristão em similitude com um jardim fechado (logo, trata-se de uma vida interior), fazendo desta um “Éden” particularíssimo onde Deus vem passear às tardinhas e onde acontecem diálogos diretos circunscritos apenas a Ele e ao fiel. Diá-logos, em verdade, que nossa consciência pode receber como brados altissonantes ou sussurros, mas que recebe advindos deste cenáculo íntimo — por isto, trata-se efetivamente de vida intra-muros. Esta vida escondida (sem conotações de refúgio, note-se) revela uma suspensão de si-no-mundo através de uma elevação dual (de consciência, primeiramente, e ação, secundariamente) de si-em-si-mesmo. Esta vida escondida é o “eu essencial” em comunicação permanente conosco-no-dia-a-dia porque em comunicação constante com-Deus-o-tempo-todo, é a dinâmica do que se é sendo verdadeiramente um “eu” — o eu profundo com o qual Deus dialoga tête-à-tête e que, vedado o acesso do Mundo, só pode única e efetivamente comunicar-se com Ele. Nada que ver, portanto, com oração, que é um processo mais superficial e cuja autoria iniciadora é humana.  Este “jardim” (que é a “vita abscondita”; chamemo-la, pois, assim de jardim), pode ou não ser ocupado pelo homem e por Deus: (I) quando o homem solitariamente o ocupa, há o vazio (vacuum); (II) quando nem homem e nem Deus o ocupam, há o nada (nihil). O primeiro é, mais gravemente, um estado intelectual e sentimental no qual o homem se instala como seu próprio anthropo-theos, como seu deus humano que apenas consigo mesmo conversa, mas donde retira significação (falsa); o segundo, é estado mental e emocional derivado de completo distanciamento de significados, é a oquidão na qual o próprio ser humano deixa de ser para si um interlocutor ontológico, sequer capaz de fala cognoscível auto-denotativa. Para o cristão salvo, contudo, este jardim está sempre por si e pelo Senhor ocupado. E é nesta “pequena ágora de dois” (quero com isto dizer que há um processo dialético promovido em nosso espírito pelo Senhor) que nossa vida de bonanças e desassossegos espirituais flui sob as intervenções dEle, a fim de produzir a metanoia do novo homem, do homem nascido de novo. Colossenses 3:3 é, neste sentido, complementado pelo versículo 21 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas: “Eis que o Reino de Deus está dentro de vós”[…] ecce enim regnum Dei intra vos est.” Belo, não? Tudo isto para dizer o seguinte: devemos permitir a fluência desde diálogo com Deus desde o âmago de nosso ser, porque rios de águas vivas correm da fonte que refresca o centro deste jardim, donde o Senhor concede ouvir Seus mistérios. Bom domingo e abençoada semana a todos!

Esponjas de sol — XXVIII

  1. Três mandamentos que adoto e aconselho que adote quem quiser levar vida livre e piedosa: I. Perdoa tudo a todos sempre, com coração sincero e humilde. Isto não só te libertará da violência da tua própria alma quando ela for injustiçada, mas te fará um abrigo de graça divina para a redenção dos próprios injustos. Com isto, de Deus também alcançarás melhor perdão e terás um espírito pacificado; II. Livra-te de todo melindre acerca do julgamento do mundo. O que importa é tua consciência diante de Deus, o que importa é tua conduta terrena aspirando à Eternidade, o que importa é tua ação reta e varonil; III. Nada espera de ninguém, senão que esperem de ti o melhor. Tu realmente não deves esperar bondade ou maldade das gentes, em suma, não deves esperar quaisquer coisas (benéficas ou maléficas) de quem quer que seja, mas espera, isto sim!, que de ti esperem todas estas boas coisas. Sê um exemplo para os exemplares, um exemplo para os inexemplares e um exemplo para os sem exemplo.
  2. Uma vida bem vivida é uma vida bem escolhida. Nossas escolhas atuais serão nossas alegrias ou nossos fardos futuros. Cada cabeça, uma sentença, e, a cada sentença, um juízo existencial inalterável. Por isto, quando fores decidir isto ou aquilo para “agora”, não te esqueças que tal decisão redundará nisto ou naquilo para “depois”. A tua semeadura será a tua colheita e a tua colheita — deliciosa ou detestável — será o teu alimento para todos os demais dias que viveres sobre este planetinha ordinário. Escolher é a força-motriz da tua glória venturosa ou do teu infame fracasso. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser via para o Céu ou atalho para o Inferno. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser mesa de fartura no deserto ou fome seca em floresta tropical. Escolhe, pois!
  3. Chorar o leite derramado é, definitivamente, grande tolice, se não for para prevenir futuros “derramamentos”. Seja o leite uma gota solitária ou o fruto da ordenha de toda uma manada, o pranto será infértil se for mera manifestação emocional de sofrimento e não for tratado como deve ser tratado: uma oportunidade de padecer pedagogicamente para, no futuro, não derramar o leite (ou, se derramá-lo novamente, não chorar tanto).
  4. Chegará o dia em que me cantarão os anjos um réquiem. Eu saberei e direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor! Mas Tu, ao meu lado e ao lado do féretro meu, cantará também, cantará tão bem: “…et perducant te in civitatem sanctam Ierusalem.” E eu centenário já, no corpo prestes a volver ao pó; e eu, recém-nascido em leito de carne gloriosa, direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor!
  5. Não existe grande amor para toda a vida que não seja acompanhado de pequenas e de pequeninas gentilezas diárias. No tempo, o amor é um micro conta-gotas que adiciona e subtrai diariamente suas nano-gotículas de carinho.
  6. É na liberdade que se prova qualquer amor. E é na ausência dos olhos que se prova o valor e as ações de quem ama (ou, mais frequentemente, de quem deveria amar, de quem diz amar). Ser incapaz de lealdade é ser incapaz de amar. Amor, teu sobrenome é lealdade!
  7. Vinte e oito anos é a minha idade. E desde os seis anos (logo depois dos meus cinco) eu vou tentando continuar a ser aquele “niño frente a Dios” que então sonhava com anjos jogando futebol e que agora, bem acordado, ora um “sólo le pido a Dios” para que os homens joguem menos futebol e pensem mais no mundo dos anjos.
  8. O maior sinal de infelicidade é o frenesi de querer ocupar o tempo. Minha geração é também infeliz por isto: porque, não tendo consciência da boa vida que escorre quieta no dia-a-dia, se aferra no ativismo desesperado de “fazer alguma coisa” o tempo todo, para não ter que olhar-se, em silêncio, diante do espelho ou para não ter que conviver consigo mesmo um ciclo de 24 horas completas. São incapazes de passar um dia livre consigo mesmos, porque senão adoecem em tristeza e depressão. Por isto, ocupam-se com frenesis barulhentos (talvez eles abafem o megafone da realidade que pulsa desespero no peito, certo?). Vide a dinâmica perversa duma balada: um poço de carências altissonantes, de traumas dourados por pose e enrijecidos pelo álcool que lhes amolece as almas. Não percebem o vácuo de significados que lhes martela a cabeça quando vocês vão dormir as 5 ou 6 ou 7 da manhã? Ouçam este bobo: vocês não serão felizes enquanto não olharem para a existência com aquele olhar que vocês tinham quando passavam “domingos medíocres” comendo a macarronada na casa dos avôzinhos, brincando com os primos a tarde toda, dormindo sossegados das 10 da noite às 10 da manhã, pondo o pé na terra onde a bola rolava e a cabeça no céu onde a pipa voava, esquecendo das necessidades do ego que lhes obriga a mostrarem-se o que não são (felizes, vocês não são). Ouçam este bobo, pelo amor de Deus e por amor a vocês mesmos.
  9. Dizer coisas bonitas não importa muito para o amor: fazer coisas bonitas, sim, importa muito para o amor. Mas quando fizeres coisas bonitas dirás inevitavelmente beleza. Impossível que tua ação não crie seu reverso em palavra.
  10. Tudo bem, os calendários se acabarão / E os relógios um a um pararão silentes. / Tudo o que conta o tempo e o mastiga, / Tudo o que anuncia em número a vida, / Tudo bem, isto no mal acabará um dia. / Os marcadores se desfarão no inferno / E sobrará, total, na terra a eternidade.
  11. O horizonte caminha comigo de ponto a ponto. / Se lhe volto as costas, ele gira e caminha comigo. / Se os meus pés são meu particular promontório, / Se o meu caminhar é meu limiar para o tempo, / O horizonte nada pode, senão caminhar comigo.
  12. A pedra de toque de qualquer pessoa são seus olhos. Nestes dois órgãos repousam toda a complexidade e toda a simplicidade humana: vê-se tudo ali, no movimento do globo e no fulgor da íris. “Olhos d’alma”, disse algum poeta anônimo. Deus proveu aos percebedores e sensíveis que pudessem perceber e sentir o quanto, às vezes, a palavra falada contradiz a palavra guardada no fundo dos olhos, o quanto aquilo que passou pela língua e pelas cordas vocais contraria o dito no profundo dos olhos.
  13. Oração de um velho patriarca ortodoxo georgiano: “Oh, Deus Eterno, aqui dos meus altos anos, canto-te estas palavras em voz vacilante, mas ouve-as mesmo assim, porque se a língua fraqueja é inda pronto meu coração. Oh, Deus Benevolente, Tu que consagraste-me a este ofício, dá-me Tua piedade e estende sobre minha alma Tua mão. Oh, Deus Pastor, Tu que és verdadeiro e vê nua minha mente, dá-me para que bem use o Teu cajado. Sê pai para mim, meu Pai. Dá-me a Ti, dá-me para Ti. Sê calor para meus pés frios neste inverno. Oh, Deus Santo, fazei-me santo a cada copo d’água e a cada cálice de vinho que eu der de beber aos teus santinhos. Isto te pede este teu servo, pequenino e suplicante. Ouve-me. Amém!”

[Assisti Ilia II cantando (https://www.youtube.com/watch?v=HuWAkADPV4Q). Não tenho a mínima idéia do significado das palavras cantadas, mas é isto que me caiu no espírito.]

  1. As piores angústias espirituais da existência, creio, passam os velhinhos que tiveram vida juvenil e adulta dissipada. Vi isto no olhar de alguns idosos num asilo. A pele enrugada (e fria) sente rolar a lágrima quente e o silêncio retoricamente discursa: “O que eu fiz da minha vida?”
  2. A palavra gera a ação, o abstrato gera o concreto, o metafísico gera o físico: “As más conversações corrompem os bons costumes.” (I Coríntios 15:33)
  3. Ou a vida será esta aventura que pregam os teólogos ou ela será esta lama animada que pregam os biólogos. Mas, vede, que se é uma coisa ou outra, porque a escolha? Se tu optas pelo caminho metafísico, serás nele feliz. E se escolhes perambular pelo físico, serás nele infeliz. Neste andar mesmo já se entende, já se compreende tudo.
  4. O indefinido é a rabiola “visível” do infinito.
  5. A angústia é um sentimento fenomenal. Ela é um choque distendido de consciência. Só se angustia quem tocou com o pensamento verdadeiro nalgum sentimento verdadeiro, fazendo com que ambos se chocassem, unidos, contra pensamentos e sentimentos falsos (mas tidos por verdadeiros) acerca da realidade — coletiva ou particular. A angústia te obriga à avaliação do mundo e à reavaliação de si. A angústia é uma graça do Espírito Santo; é uma agente da metanoia.
  6. Briga (não debate filosófico-teológico, importantíssimo, que é bem lá outra coisa) de católico com evangélico é uma das coisas mais contraproducentes não só em matéria espiritual pessoal, mas é, mesmo, questão de sobrevivência civilizacional coletiva do Cristianismo. Os fanáticos islâmicos quando matam cristãos não perguntam antes se eles são romanos ou protestantes, não diferenciam teologicamente tradicionalistas de calvinistas e carismáticos de pentecostais quando explodem bombas em igrejas. Basta chamar Cristo de “meu Deus e meu Senhor!” que te cortam a garganta, seja você copta, adventista, ortodoxo ou mesmo um “desigrejado”. E vocês, aí, infantilmente se “matando” com seus porretes e estilingues? O nome disto é fratricídio, meus irmãos!
  7. Questões teológicas e doutrinárias podem certamente levar o Papa, o Arcebispo de Canterbury, o Patriarca de Constantinopla e o Pastor de Wittenberg para o Inferno, mas, muito dificilmente, levarão os simplórios fieis (que ocupam bancos e que amam a Cristo e que apenas esperam viver quietos em Deus a “verdade” das suas igrejas) quando estes se põem a debater acerca de tais assuntos sem muito estudar e saber, infernizando seus irmãos.
  8. Vida boa é aquela que, espiritualmente, concentra em todas as suas fases, momentos e instantes todo o seu sentido, toda a sua completude e unidade de significados. Quando se tem um norte bem calibrado na alma, todos os acontecimentos existenciais (sobretudo as agruras) são “felicizadas” por este sentido que é Sentido, por estes significados que são Significado. É como se pululassem “paraísinhos de logos” a cada passo consciente; paraísinhos às vezes lacrimosos, inclusive, mas paraísinhos que apontam e fazem sentir o Paraíso do Verbo. Vida boa, porém, só se obtém quando se está determinado a preferi-la a tudo.
  9. O enorme contingente de maus católicos no Brasil deve-se ao enorme contingente de maus padres do Brasil. O grosso dos católicos nacionais não sabe o que é o Catolicismo porque seu clero brasileiro também não sabe o que é e, quando sabe, esconde o que é porque prefere uma visão mais “soft” de moral.
  10. A rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos.
  11. Qualquer religião subsiste sem inteligência (capacidade de apreender “as coisas visíveis e invisíveis”, certo?). Até a seita “atéia-teen” do Monstro do Espaguete Voador pode ser levada a sério. O Cristianismo, porém, existe-na-Inteligência porque emerge da própria Realidade: nele, o senso-comum (tão odiado, porque naturalmente cognoscível, pelos petulantes complexificadores) é capaz de fazer as vezes do Q.I. até mesmo na Mula de Balaão.
  12. Em termos de Pedagogia extra-escolar (doméstica, pois), sou da opinião de que não se deve bater de modo algum em crianças como meio de punição. Os pais devem, isto sim, amá-las tão fortemente que a simples demonstração de desaprovação por eles seja para seus filhos o maior e mais temível dos castigos. Castigos físicos apenas criam medo, não respeito verdadeiro. Impedem malcriações e erros morais (até certo ponto) pelo trauma inconsciente, não pela consciência livre. No entanto, para isto, a família deve ser singularmente sólida: pai e mãe devem ensinar pelo próprio exemplo de retidão, de caráter e de espírito elevado. E isto começa com um casamento igualmente bem instituído entre marido e mulher. Difícil? Mas é este o caminho, o caminho do amor que — por ser amor de fato — dispensa varas, chinelos, palmadas, socos, tabefes e toda sorte de barbárie em nome da correção legalista.
  13. O poema “Quadrilha” de Drummond é, no contexto do amor natural, a suprema realidade relacional.
  14. O único e grande medo que deve atribular nossa alma é o medo de passar pela vida como se ela fosse apenas existência: deixando pegadas de símio milenarmente envelhecido (do parto ao cemitério) e não o eternal legado de ser humano (da concepção à ressurreição).
  15. A renúncia cristã consciente (não a traumática da ascese dos fanáticos que em tudo veem pecado) é paradoxal: logo após, ela nos premia com o superlativo qualitativo das coisas quantitativamente renunciadas. Vem o mundo e te oferta uma coroa dalgum reino expansionista; vem Deus e te concede a soberania da tua alma. Vem o mundo e te oferta um harém de musas e ninfas deliciosamente inférteis; vem Deus e te concede a esposa, bela videira de seios frutíferos. Vem o mundo e te oferta uma mesa de finos manjareis palacianos; vem Deus e te concede o “pão nosso de cada dia” que mais saboroso fica conforme mais se trabalha por ele. A renúncia cristã que é, então, senão a renúncia de prazeres concentrada e temporalmente etéreos (cujo impacto imediato não passa dum polvilhar atômico de ilusões muito densas) em benefício de verdadeiro prazer permanente? A renúncia cristã é ganho de verdadeira, de verdadeira alegria!
  16. Nem tudo o que não brilha não é ouro.
  17. Tu trocas o certo pelo duvidoso quando, sucessiva e decrescentemente, duvidas da certeza. A certeza se esvai gradualmente quando olhas para trás — onde está o desejo abandonado.
  18. Pouca gente quer escalar a Grande Pirâmide de Gizé. Pouca gente quer pedalar sua bicicleta na Grande Muralha da China. Pouca gente quer voar de balão sobre o Saara. Pouca gente quer singrar mares e oceanos e caminhar pelas planícies e planaltos e pelas montanhas do planeta. Pouca gente quer comer na marmita dos berberes, na prataria dourada dos czares, na porcelana fina dos nipônicos; na verdade, pouca gente quer comer as comidas da terra. Pouca gente quer compor, quer escrever, quer erigir, quer pintar, quer esculpir, quer filmar. Pouca gente quer namorar, quer noivar, quer casar e quer gerar filhos. Pouca gente quer ser gente e perscrutar a Humanidade com suas obviedades patentes e seus mistérios insondáveis. Mas, ainda assim, há esta pouca gente que não é “pouca coisa”. Louvo a Deus por este pugilo de homens e mulheres que, ainda que poucos, diariamente salvam o mundo da pouquidão.
  19. Nunca obrigarás alguém à nada. Nem (e sobretudo) ao Bem. O que se faz coagido não tem valor espiritual e moral algum. Afinal, não é feito em função da consciência livre; mas é feito pela necessidade desalmada de cumprir um “requisito” externo ou de ceder à uma retórica molestante. Pergunta e aconselha: propõe, mas não impõe. Respeita as decisões alheias com severidade.
  20. Se diariamente tu te sentes mal porque és e pensas e acreditas em ideais mais elevados e tens em ti sentimentos e “aspirações altas e nobres e lúcidas” e o mundo não te compreende e as pessoas te olham de soslaio, dê-me a mão: tu és mais um dignitário desta invisível confraria de peixes fora d’água. Não te sintas mal por sentires aquilo que o coração de Deus também sente — esta angústia de querer ser bom. Sente, antes, o Bem que o Senhor depositou em ti: este bem de querer ser aquilo que Adão deveria ter sido, este bem de querer tocar o Ser por detrás do Ente, este bem de honrar a tua consciência podendo olhar reta e diretamente no fundo e no profundo dos olhos de qualquer ser humano. Não te entristeças. Te alegra, sobretudo, te alegra porque és e pensas e acreditas…
  21. Agora, que os pastos estão secos na terra acinzentada. / Agora, que o pastor está jogando às chamas seu cajado. / Agora, que tu és a ovelha perdida na noite mais escura, / Que farás senão ansiar por sacrifício a Deus no templo?
  22. Homem, as coisas para as quais tu diariamente vives honram a morte do teu Senhor?
  23. Nós homens somos naturalmente mais “abrutalhados” (o que não quer dizer menos preparados) para o amor. Mas, que coisa terrível e monstruosa é uma mulher insensível ao amor?
  24. Se prestares atenção mais meditada e pela intuição medida, perceberás que nas pedras há qualquer coisa de misterioso. Mistério místico e transcendente? De modo algum: mistério imanentíssimo, porquê mistério que revela a necessidade de constituir verdades aparentes. Erigir pirâmides, altares, totens e construções sólidas que nos ultrapassem no tempo… A rigidez da pedra talhada é uma concretização das nossas certezas abstratas, porque existem e existirão e superam e nos superarão?
  25. Sintoma número 1 de infelicidade disfarçada com entretimento: inquietude.
  26. O Trump tem lá o lema dele. O meu, para agora (já que o inglês engoliu o francês, que engoliu o latim), é este: make the West great again!
  27. Entre o dogmatismo ideológico do ferro enferrujado e a liquidez descompromissada da diarreia subjetiva, goteja eternamente para o alto o mercúrio cristão.
  28. Dizer que a idéia de “vida eterna” deriva necessariamente do desejo auto-conservativo de prolongar metafisicamente a existência material (contra a morte), equivale a dizer que o paladar deriva da mastigação deleitosa do nosso prato preferido.

Qui ne fait châteaux en Espagne?

Construir aqueles castelos de areia com granito não queres?
Pois vê, estas idealizações de menino são agora realidade
E outra coisa não quero, não desejo, senão vibrá-las na terra.
Pois se cada sonho e ilusão têm que ficar lá atrás, no passado,
De que me serve perpassar (e passar) o tempo discutindo-os
Como paradigmas e símbolos e metáforas para a vida adulta?
Não, recuso-me a tomar parte nesta conspiração de niilistas,
Nesta rebelião de monocromáticos acinzentadores da vida,
Neste motim de ateus passivos contra o Deus da Atividade.
Construir aqueles castelos de granito que eu fazia com areia!
Construir com pedra talhada na Montanha do Rei; cada bloco
Para as muralhas e para as torres e para a vida e meu quarto.
Pois revê em ti, então, o motivo deste desdourar das fantasias.
Quando vier o Rei, achará fé em ti? Tu que também és… terra!